Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
O teste de convergência pode indicar migrânia vestibular?
Tontura que piora com estímulos visuais, ao andar num shopping cheio, ao passar pelos corredores do supermercado ou ao olhar uma tela com muita luz e muita imagem, aponta para uma causa provável, a tontura por enxaqueca. No meio médico, ela se chama migrânia vestibular. Para esse tipo de tontura existe um teste caseiro de cerca de 30 segundos, que se mostrou muito sensível e muito específico.
O teste mede o ponto próximo de convergência, a menor distância em que os olhos ainda conseguem manter a ponta de uma caneta nítida e única enquanto ela se aproxima do rosto. Na migrânia vestibular, esse ponto costuma ficar muito mais longe do que o normal. Quando a medida passa de 20 cm e a pessoa tem uma tontura antiga, desencadeada por estímulos visuais, é muito provável que seja migrânia vestibular.
O teste é um dos parâmetros do diagnóstico, ao lado da história clínica, que continua sendo a base. Mesmo assim, é um parâmetro forte. Quem tem migrânia vestibular quase sempre tem o teste alterado, e um teste alterado deixa muito alta a chance de a doença estar presente. Por isso vale fazer o teste e levar o número para a consulta.

Acima de 20 cm e com tontura visual antiga, a chance é muito alta. Tontura nova e súbita, com fraqueza, fala enrolada ou alteração da visão que não passa, é outra situação. Ela precisa de avaliação médica sem demora, e não de um teste em casa.
Migrânia vestibular é comum e muitas vezes passa despercebida
A migrânia vestibular afeta cerca de 3% de toda a população, o que a torna muito frequente. Algumas referências citam números um pouco menores, entre 1% e 2,7%, conforme a pesquisa considerada. Mesmo assim, ela muitas vezes passa despercebida. Há quem conviva com tontura a vida inteira achando que é normal, deixe de ir a lugares, restrinja as atividades e acredite que não há o que fazer.
Parte do problema é que o diagnóstico é difícil. Até hoje ele é clínico, ou seja, depende totalmente da história que o paciente conta na consulta, dos sintomas, de há quanto tempo eles existem e de como as crises acontecem. Reconhecer a migrânia vestibular exige formação e experiência em tontura, e muitas vezes fechar esse diagnóstico é um desafio.
Migrânia, ou migrânea, é o termo médico para a enxaqueca, e as palavras são sinônimos. Por isso a mesma doença aparece com vários nomes, como enxaqueca vestibular, migrânea vestibular e tontura por enxaqueca. Em 2025, o otoneurologista brasileiro Francisco Zuma e Maia e colegas publicaram um estudo com um teste extremamente simples, que pode ajudar nesse diagnóstico e pode ser feito em casa.
Quando esse teste faz sentido?
O teste faz mais sentido para quem tem a chamada vertigem visual, um sinal muito clássico da migrânia vestibular. Nela, a tontura é desencadeada só pelo que os olhos veem. A pessoa está parada, sem mexer a cabeça, o labirinto não recebe estímulo nenhum, e ainda assim a tontura aparece. A Sociedade Bárány, que organiza a classificação internacional dos sintomas de tontura, reconhece a tontura induzida pela visão como um tipo próprio de sintoma.
Os gatilhos são estímulos visuais complexos e intensos. Um shopping lotado, com muita gente passando. Um corredor de supermercado, com prateleiras cheias de embalagens diferentes. Uma televisão ou uma tela maior, com muita luz e muita imagem em movimento. Nesses lugares a pessoa fica enjoada, se sente mal e, algumas vezes, tem a própria sensação de tontura.
Esse padrão torna o teste pertinente, mas não quer dizer que toda tontura no supermercado seja enxaqueca. A tontura postural perceptual persistente (TPPP) também piora em ambientes cheios de estímulo visual e tem outro tratamento. A duração da tontura, a repetição das crises e os outros sintomas continuam decisivos para separar uma causa da outra.
Por que a convergência fica mais distante na migrânia vestibular?
A grande descoberta do estudo brasileiro foi ligar a vertigem visual a uma dificuldade de convergência, que os pacientes com migrânia vestibular costumam ter. Convergência é o movimento que leva os dois olhos para dentro, em direção ao nariz, para manter o foco num objeto que se aproxima.
Essa dificuldade provavelmente vem de uma alteração do sistema nervoso autônomo, a parte do sistema nervoso que regula as funções automáticas do corpo. Simplificando, existe um desajuste no cérebro, no nível do córtex, e ele não consegue fazer um bom ajuste da visão aos estímulos que chegam no dia a dia.
Os autores lembram que a enxaqueca já tem alterações conhecidas da pupila, dentro e fora das crises, e propõem que a dificuldade de convergência contribua para a tontura provocada pelo que se vê. Esse raciocínio ajuda a entender por que a tontura aparece justamente onde a visão mais trabalha, com muita informação ao mesmo tempo e muitos objetos em distâncias diferentes.
O que é o ponto próximo de convergência?
O ponto próximo de convergência, em inglês near point of convergence, é a menor distância em que a pessoa ainda consegue ver um alvo único e nítido enquanto ele se aproxima do rosto. Quando a imagem começa a borrar, a desfocar ou a ficar dupla, os olhos chegaram ao limite. A medida vai do alvo até os olhos, em centímetros. Quanto maior a distância, maior a dificuldade de convergir de perto.
É um teste usado normalmente pelos oftalmologistas, e o limite que a oftalmologia usa é de 10 cm. Acima disso, existe uma dificuldade de convergência. O que o estudo de 2025 mostrou é que, na migrânia vestibular e na tontura por enxaqueca, esse valor costuma ser muito maior.
No estudo, 50 pessoas com migrânia vestibular foram comparadas com 50 pessoas sem a doença. No grupo sem migrânia, o ponto ficou em torno de 8 cm, e ninguém passou de 10 cm. No grupo com migrânia vestibular, a média foi de 18,5 cm, mais do que o dobro, com medidas que chegaram a 39 cm. Só uma pessoa desse grupo ficou abaixo de 10 cm, com 8 cm.
Na prática, os números mostram as duas qualidades do teste. Ele é sensível porque quem tem migrânia vestibular quase sempre tem o teste alterado, 94 em cada 100 pessoas no estudo. E é específico porque, quando o teste vem alterado, a chance de a pessoa ter de fato a migrânia vestibular é muito alta, e nenhuma pessoa sem a doença teve resultado alterado. A diferença se manteve em homens e mulheres, em diferentes idades e em quem fez o teste com ou sem óculos.
Pode ser o primeiro teste a funcionar como um marcador da migrânia vestibular, e foi descrito por um grupo brasileiro. Os autores o chamam de biomarcador clínico promissor e pedem novos estudos para confirmar o achado, como acontece com toda descoberta recente na medicina.
Como fazer o teste de convergência em casa?
O teste da caneta é simples e é o mesmo feito no consultório. Peça para alguém ajudar e deixe uma régua ou uma fita métrica por perto. Quem usa óculos ou lentes de contato pode fazer o teste com eles, como fez boa parte das pessoas do estudo.
- Sente-se num lugar bem iluminado: a luz boa ajuda quem está ajudando a ver os olhos durante o teste.
- Escolha um alvo pequeno: a ponta de uma caneta tampada funciona bem.
- Posicione o alvo na altura dos olhos: a caneta fica à frente do rosto, no meio, a cerca de um braço de distância, e o olhar fica fixo na ponta dela.
- Aproxime bem devagar: a caneta vem lentamente em direção ao rosto, e o olhar continua fixo na ponta.
- Avise quando a imagem mudar: pare no momento em que a ponta começar a ficar borrada, desfocada ou duplicada, ou quando ficar desconfortável manter o foco.
- Meça a distância: com a régua, meça da ponta da caneta até os olhos e anote o número em centímetros.
Não force os olhos para conseguir um número menor. O que conta é o primeiro ponto em que a ponta da caneta deixa de ficar nítida e única durante uma aproximação lenta. Nesse momento, quem ajuda costuma notar que um dos olhos deixa de acompanhar a caneta, sinal de que a convergência chegou ao limite.
Como interpretar o resultado?
Se a imagem começou a borrar a mais de 20 cm dos olhos e a pessoa tem uma tontura de longa data, desencadeada por estímulos visuais, é muito provável que a causa seja a migrânia vestibular. O próprio autor do estudo considera que um resultado acima de 20 cm, somado a esse tipo de tontura, praticamente fecha o diagnóstico.
Entre 10 e 20 cm, o ponto já passou do limite usado na oftalmologia e mostra uma dificuldade de convergência. No estudo, a medida que melhor separou os dois grupos foi justamente acima de 10 cm. É um resultado que merece ir para a consulta, junto com a descrição das crises.
Até 10 cm, a convergência está dentro do esperado. Como o teste é muito sensível, um resultado normal deixa a migrânia vestibular menos provável. A história das crises continua sendo a base do diagnóstico, e no estudo uma pessoa com a doença teve o ponto em 8 cm.
Um ponto de convergência distante também pode aparecer em quem não tem tontura. A insuficiência de convergência é uma alteração dos olhos que costuma começar na infância e pode surgir depois de uma pancada na cabeça, com cansaço visual, visão borrada ou dupla e dor de cabeça na leitura, segundo o National Eye Institute, instituto de saúde dos Estados Unidos. Por isso o número é lido junto com o tipo de tontura, e não sozinho.
Para a consulta, anote a medida, o que desencadeia a tontura, quanto tempo ela dura e se aparece junto com dor de cabeça, incômodo com a luz ou com o som ou pontos brilhantes na vista. Essas informações deixam a história clínica mais completa e ajudam a fechar o diagnóstico mais cedo.
Como é feito o diagnóstico de migrânia vestibular?
O diagnóstico continua sendo clínico. Ele segue os critérios da Sociedade Bárány, que levam em conta a quantidade e a duração das crises de tontura, a história de enxaqueca e, em parte das crises, a dor de cabeça típica, o incômodo com a luz ou com o som ou a aura visual. A dor de cabeça não precisa vir junto com a tontura. Os critérios e as opções de tratamento estão na orientação sobre enxaqueca vestibular: sintomas, critérios de diagnóstico e tratamento.
O teste de convergência entra como mais um parâmetro, ao lado da história. O último critério é que nenhuma outra doença explique melhor os sintomas, e por isso também se avaliam outras causas de tontura, do labirinto e do sistema nervoso. A VPPB, por exemplo, é investigada com testes de posição próprios. Exames como o vHIT em Brasília respondem a outras perguntas sobre o labirinto, e exames da audição, de imagem ou de sangue são pedidos conforme o caso.
Com o diagnóstico fechado, o tratamento tira o paciente da crise, cuida do sono, da alimentação e da atividade física e, em parte dos casos, usa remédio preventivo para a enxaqueca, escolhido na consulta conforme o perfil de cada paciente.
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Aura da enxaqueca ou AVC: como diferenciar?
A enxaqueca pode vir com aura visual, como pontos brilhantes, linhas em zigue-zague ou uma falha que cresce no campo de visão. Segundo a classificação internacional das cefaleias, a aura costuma se espalhar aos poucos, ao longo de alguns minutos, cada sintoma dura de 5 a 60 minutos e tudo volta ao normal depois.
No AVC, os sintomas começam de repente e em geral tiram uma função, como a força, a fala ou parte da visão, em vez de acrescentar luzes ou formas. O Ministério da Saúde descreve como sinais de alerta a confusão mental, a alteração da fala ou da compreensão, a alteração da visão, a dor de cabeça súbita e intensa sem causa aparente, a alteração do equilíbrio, da coordenação ou do andar e a fraqueza ou o formigamento em um lado do corpo, no rosto, no braço ou na perna.
Tontura nova e súbita junto com qualquer um desses sinais, ou uma aura muito diferente das habituais, precisa de avaliação médica sem demora. Nessa situação, o teste de convergência não tem papel e não deve atrasar nada.
Vídeo: teste caseiro para tontura por enxaqueca
O vídeo abaixo mostra o teste completo, com a caneta na altura dos olhos, a aproximação lenta, o momento em que a imagem deixa de ficar nítida e a medida da distância até os olhos.
Perguntas frequentes
Migrânia vestibular pode acontecer sem dor de cabeça?
Sim. A tontura pode vir fora das crises de dor de cabeça, ou numa fase em que a pessoa nem está tendo dor, desde que exista uma história de enxaqueca. Por isso a falta de dor no momento da tontura não afasta o diagnóstico. A história de enxaqueca e os outros sinais, como incômodo com a luz ou com o som, entram na avaliação.
Qual é a diferença entre migrânia vestibular e VPPB?
A VPPB provoca crises curtas, de segundos, que aparecem ao deitar, virar na cama ou olhar para cima, porque os cristais do labirinto saíram do lugar. A crise de migrânia vestibular pode durar de segundos a horas, às vezes dias, e costuma piorar com estímulos visuais, mesmo com a cabeça parada. A orientação sobre cristais do labirinto fora do lugar explica a VPPB em detalhe.
Enxaqueca vestibular é o mesmo que enxaqueca com aura?
Não. A enxaqueca com aura é a dor de cabeça precedida ou acompanhada por sintomas visuais passageiros, como pontos brilhantes, escurecimento ou falha em parte da visão. Na enxaqueca vestibular, o sintoma principal das crises é a tontura. As duas podem andar juntas, e a aura visual durante a tontura é um dos sinais de enxaqueca que contam para o diagnóstico, mas a enxaqueca vestibular também acontece em quem nunca teve aura.
Existe exame que confirma a enxaqueca vestibular?
Nenhum exame de sangue ou de imagem confirma a doença. O diagnóstico é clínico, feito pela história das crises, e os exames servem para afastar outras causas de tontura. O teste de convergência é um parâmetro a mais, que pode ser feito em casa e levado para a consulta.
Referências
- VILELA, Larissa. Teste caseiro de migrânia vestibular (tontura por enxaqueca). YouTube, 4 abr. 2026. 1 vídeo (9 min 25 s). Disponível em: https://youtu.be/z_K7aObcw_o. Acesso em: 3 out. 2026.
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- NATIONAL EYE INSTITUTE. Convergence insufficiency. Bethesda: NEI, NIH. Disponível em: https://www.nei.nih.gov/eye-health-information/eye-conditions-and-diseases/convergence-insufficiency. Acesso em: 3 out. 2026.
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- BRASIL. Ministério da Saúde. AVC. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/avc. Acesso em: 3 out. 2026.
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