TPAC (transtorno do processamento auditivo central): sintomas em crianças e adultos, exame e tratamento

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Ouve bem, mas não entende: o que é o TPAC

No transtorno do processamento auditivo central, o TPAC, a pessoa consegue ouvir o som, mas não tem uma boa compreensão dele. O ouvido funciona. A alteração está na parte neurológica da audição, que interpreta o que chega, e é ela que dificulta o entendimento. Tecnicamente, o TPAC é uma falha do processamento neural do estímulo auditivo. O nome antigo era distúrbio do processamento auditivo central, e por isso a sigla DPAC ainda aparece.

Essa parte central da audição trabalha com o que o ouvido capta. Ela localiza de onde vem o som, organiza os sons no tempo, diferencia um som do outro e faz todo o refinamento do que se escuta, para que seja possível entender os sons do ambiente. É um sistema muito complexo. Quando ele falha, a compreensão sofre, mesmo com a audição normal.

O TPAC afeta crianças, adultos e idosos. O diagnóstico é feito pelo exame de PAC, depois de confirmar que a audição está boa, e o tratamento é o treinamento auditivo na fonoterapia, com resultados muito bons.

Médica pensativa com o dedo na têmpora ao lado de duas meninas, uma cochichando no ouvido da outra

Quais são os sintomas do TPAC?

O principal sinal é não compreender bem a fala. No dia a dia, isso aparece de várias formas:

  • Pede para repetir com frequência. É a pessoa do “o quê?” e do “hã?”, porque não entendeu bem o que ouviu.
  • Demora para responder. Leva mais tempo para processar o que escutou.
  • Se perde em mensagens longas. Quando recebe um pedido com muitos detalhes, não consegue acompanhar a mensagem completa.
  • Não entende a piada. Tem dificuldade para perceber ironia.
  • Tem dificuldade na escola. Principalmente as crianças, que não acompanham a turma como poderiam.
  • Tem dificuldade com outra língua. Aprender um idioma estrangeiro fica mais difícil.
  • Tem dificuldade com música. Rima, canto e ritmo, inclusive na dança.
  • Entende pior em lugar barulhento. Compreender a fala no ruído é uma das habilidades do processamento auditivo central.

A manifestação varia muito de uma pessoa para outra. Há quem tenha alterações tão sutis que não chega a ter dificuldade escolar, só precisa se esforçar um pouco mais para acompanhar a turma. E há crianças com uma dificuldade escolar séria, que não conseguem acompanhar e acabam repetindo o ano.

TPAC em crianças, adultos e idosos

Estima-se que 2% a 3% das crianças tenham algum grau de TPAC, e o transtorno é duas vezes mais comum no sexo masculino do que no feminino. O guia do Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa) cita estimativas de 2% a 5% entre as crianças em idade escolar com queixas de aprendizado e reconhece que a frequência real é difícil de medir. Hoje o diagnóstico está em alta nas escolas. Quando a criança não consegue entender bem e não se desenvolve bem na parte escolar, é comum o professor sugerir aos pais uma avaliação com otorrino.

O TPAC não é exclusivo de crianças. Muitos adultos têm o transtorno e não foram diagnosticados na infância. Sem tratamento, os sintomas e as dificuldades persistem na vida adulta. A pessoa escuta os sons, mas tem muita dificuldade para compreender, e isso atrapalha o aprendizado, inclusive de outra língua, e até uma conversa simples.

Os idosos também podem ter TPAC. Segundo o CFFa, nos adultos a frequência aumenta com a idade. No idoso, como em qualquer idade, a audição é avaliada primeiro, porque a perda auditiva causa sintomas parecidos. Quando a dificuldade para entender é muito evidente, vale fazer a avaliação.

Na criança, o diagnóstico formal é dado a partir dos 7 anos. Antes disso, alguns testes e a fonoterapia com estimulação auditiva já podem ajudar, como explica a orientação sobre TPAC em criança menor de 7 anos.

O que causa o TPAC?

Alguns fatores aumentam a chance de o transtorno aparecer, como história de TPAC na família, meningite ou traumatismo na cabeça, problemas na gestação ou no nascimento, prematuridade e otites de repetição com secreção no ouvido. O TPAC também pode surgir no contexto de doenças neurológicas e transtornos do desenvolvimento. Quando existe um desses fatores, a criança merece um olhar mais atento, e o exame pode ser feito um pouco antes dos 7 anos. A lista completa e o motivo de cada fator estão na orientação sobre o TPAC antes dos 7 anos.

TPAC, TDAH e autismo

O TPAC pode vir isolado ou junto com outras condições, como o TDAH, algum transtorno do comportamento ou algum transtorno psiquiátrico. Não é um diagnóstico exclusivo, e uma condição não afasta a outra. O CFFa também aponta a ocorrência frequente junto com os transtornos de linguagem, como o transtorno do desenvolvimento da linguagem (TDL), e de aprendizagem. O TPAC, a perda auditiva e a apneia do sono podem imitar o TDAH, como explica a orientação sobre como saber se tem TDAH.

Como os sinais podem se parecer, o CFFa orienta que o diagnóstico diferencial seja feito por uma equipe multidisciplinar, que avalia também a linguagem e a cognição. No autismo, a avaliação da audição tem particularidades, explicadas na orientação sobre o BERA no autismo.

Como é feito o diagnóstico do TPAC?

O diagnóstico é feito pelo exame de processamento auditivo central, o exame de PAC, que avalia as funções centrais da audição. A Clínica OtoCare realiza o exame em 1 ou 2 sessões de 45 a 60 minutos.

Antes do PAC, é preciso ter uma audiometria com impedanciometria, para ter certeza de que a audição está boa. Quem tem perda auditiva também pede para repetir e não localiza bem o som, mas por outro motivo, porque o estímulo não chega bem ao cérebro. Primeiro se avalia a audição. Com a audição normal e esses sintomas, o TPAC entra na investigação.

Quem tem perda auditiva também pode ter TPAC. Em geral, é o paciente cujos sintomas são muito piores do que a perda sozinha explica, como uma perda leve com dificuldades muito maiores do que o esperado. Nesse caso, o exame de PAC pode ser feito, sabendo que já existe uma alteração no ouvido, e a análise é muito mais detalhada.

Como é o tratamento do TPAC?

Com o diagnóstico, o tratamento é o treinamento auditivo com fonoterapia. A fonoaudióloga avalia quais habilidades auditivas estão alteradas e, com exercícios bem específicos, estimula as áreas do cérebro que estão falhando. Assim, o desempenho auditivo melhora, e os resultados são muito bons. Segundo o CFFa, esse tratamento se apoia na capacidade do cérebro de se reorganizar com a prática, a neuroplasticidade.

A fonoterapia para o TPAC pode ser feita em crianças, adultos e idosos, e há pacientes que começaram o tratamento já adultos, pela dificuldade no dia a dia. Na criança, o diagnóstico e o tratamento a tempo muitas vezes levam a um desenvolvimento escolar, de linguagem e de comunicação muito melhor. Na OtoCare, a consulta com otorrino indica os exames e a fonoterapia e acompanha o tratamento.

Como ajudar em casa, na escola e no trabalho

Além do tratamento, o CFFa recomenda cuidar do ambiente em que a pessoa escuta. Isso vale para a casa, a escola e o trabalho:

  • reduzir o ruído de fundo, como TV ligada e conversas paralelas, que também atrapalha o desenvolvimento da fala das crianças pequenas;
  • reduzir o eco da sala e a distância entre quem fala e quem escuta;
  • falar de forma clara;
  • usar, quando indicado, sistemas de apoio à escuta, como o microfone remoto, em que o som da voz de quem fala chega direto a quem escuta.

Essas medidas não substituem o treinamento auditivo, mas reduzem o impacto das dificuldades enquanto o tratamento avança. Como aplicá-las numa conversa, na sala de aula e no trabalho está na orientação sobre como se comunicar com pessoas com perda auditiva ou TPAC. Se a criança ou o adulto escuta, mas não entende bem, agende uma consulta com otorrino na OtoCare para começar a investigação.

Vídeo: o que é o TPAC, sintomas e tratamento

O vídeo explica o que é o TPAC, os sinais em crianças, adultos e idosos, por que a audiometria vem antes do exame de PAC e como funciona o treinamento auditivo.

Perguntas frequentes

TPAC tem cura?

O tratamento melhora o desempenho auditivo, com resultados muito bons. Em alguns casos, segundo o CFFa, restam dificuldades depois dele, e as medidas no ambiente continuam ajudando no dia a dia.

Qual é a diferença entre TPAC e DPAC?

Não há diferença. DPAC, distúrbio do processamento auditivo central, é o nome antigo. Hoje o termo usado é transtorno, TPAC.

TPAC é o mesmo que TDAH?

Não. São condições diferentes, que podem aparecer juntas na mesma pessoa. Uma não exclui a outra.

TPAC é considerado deficiência (PCD)?

A Lei 14.768/2023 usa como referência da deficiência auditiva uma perda média de 41 dB ou mais na audiometria, nas frequências de 500 a 3.000 Hz. No TPAC isolado a audição é normal, por isso ele não atinge esse valor. Quando há perda auditiva junto com o TPAC, o que conta para esse critério é a medida da perda. A mesma lei prevê outros instrumentos de avaliação da deficiência, e as regras mudam com o tempo. Os critérios atuais estão na orientação sobre os direitos da pessoa com deficiência auditiva, e o seu caso pode ser avaliado na consulta.

Referências

  1. VILELA, Larissa. TPAC (transtorno do processamento auditivo central): o que é, sintomas, tratamento e mais. YouTube, 17 jul. 2024. 1 vídeo (11 min 17 s). Disponível em: https://youtu.be/vwA0860Mu74. Acesso em: 30 set. 2026.
  2. CONSELHO FEDERAL DE FONOAUDIOLOGIA. Guia de orientação: avaliação e intervenção no processamento auditivo central. Brasília: CFFa, 2020. Disponível em: https://www.fonoaudiologia.org.br/wp-content/uploads/2020/10/CFFa_Guia_Orientacao_Avaliacao_Intervencao_PAC.pdf. Acesso em: 30 set. 2026.
  3. BAMIOU, D. E.; MUSIEK, F. E.; LUXON, L. M. Aetiology and clinical presentations of auditory processing disorders: a review. Archives of Disease in Childhood, v. 85, n. 5, p. 361-365, 2001. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11668093/. Acesso em: 30 set. 2026.
  4. BRASIL. Lei nº 14.768, de 22 de dezembro de 2023. Define deficiência auditiva e estabelece valor referencial da limitação auditiva. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14768.htm. Acesso em: 30 set. 2026.

Avaliação da audição em Brasília

Quando a criança ou o adulto escuta, mas não entende bem, a investigação começa na consulta com otorrino em Brasília, com audiometria e impedanciometria, e segue com o exame de PAC; quando indicado, o tratamento é o treinamento auditivo na fonoterapia. A Clínica OtoCare atende adultos e crianças no Setor Noroeste.

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