Exame de BERA diagnostica autismo? Para que serve no TEA

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O exame de BERA não dá o diagnóstico de autismo, mas avalia a audição da criança

Não. O exame de BERA não dá o diagnóstico de autismo. O Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico (PEATE ou BERA) é um exame neurofisiológico objetivo que avalia a integridade das vias auditivas, desde o nervo auditivo até o tronco encefálico. Ele mede as respostas elétricas geradas pelo sistema auditivo diante de estímulos sonoros, mas não avalia funções cognitivas, habilidades socioemocionais ou padrões comportamentais que definem o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

O diagnóstico do autismo é eminentemente clínico e multiprofissional, baseado na observação direta do desenvolvimento, da comunicação social e dos comportamentos da criança por neuropediatras, pediatras, psiquiatras infantis, psicólogos e fonoaudiólogos. O BERA entra nessa investigação com uma finalidade bem delimitada: descartar perdas auditivas que possam causar ou agravar o atraso de fala e as dificuldades de interação.

Fonoaudióloga e médica realizando exame de BERA infantil em ambiente acolhedor na Clínica OtoCare

O BERA não fecha nem exclui o diagnóstico de autismo. Seu papel é garantir que a audição da criança seja avaliada com precisão objetiva. Quando houver atraso na fala ou suspeita no neurodesenvolvimento, entre em contato com a Clínica OtoCare para avaliação especializada com otorrino e fonoaudiologia em Brasília.

Por que o BERA é solicitado na investigação do autismo?

A principal razão pela qual pediatras, neuropediatras e psiquiatras infantis solicitam o BERA durante a investigação de TEA é o atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem. Quando uma criança pequena não atende ao ser chamada pelo nome, não responde a comandos verbais simples ou demora para falar as primeiras palavras, a primeira pergunta médica a ser respondida é se ela não atende porque não ouve bem ou se a dificuldade decorre de uma alteração do neurodesenvolvimento.

A perda auditiva é tanto o principal diagnóstico diferencial do autismo quanto uma comorbidade possível. Uma criança com perda auditiva moderada ou severa não identificada pode apresentar comportamentos semelhantes aos observados no TEA, como isolamento social, desatenção aos chamados do ambiente e irritabilidade diante de ruídos incompreendidos. Por outro lado, crianças no espectro autista também podem apresentar perda auditiva congênita ou adquirida concomitante, o que exige intervenção combinada precoce.

Confirmar a integridade da via auditiva pelo BERA permite que a equipe multidisciplinar planeje as intervenções terapêuticas e comportamentais sabendo com segurança que os estímulos sonoros chegam adequadamente ao cérebro. Para entender a estrutura do procedimento na clínica, consulte a página sobre o exame de BERA em Brasília.

BERA clique versus BERA frequência-específico: qual é a diferença?

Um ponto técnico fundamental é que nem toda modalidade de BERA avalia a audição da mesma maneira. O BERA convencional, realizado com estímulo do tipo clique, avalia a sincronicidade e a velocidade de condução do nervo auditivo e dos núcleos do tronco encefálico. Ele é altamente sensível para detectar lesões neurológicas ou neuropatias auditivas, mas seu estímulo sonoro abrange predominantemente a faixa de frequências agudas, entre 2.000 e 4.000 Hertz.

Isso significa que um BERA clique isolado e normal informa que o nervo auditivo está íntegro e funcionante, mas não prova que a criança escuta perfeitamente todos os sons da fala nas frequências graves e médias, como 500, 1.000 e 2.000 Hertz. Se houver uma perda auditiva restrita às frequências baixas ou médias, o clique convencional pode passar sem detectar o rebaixamento de limiar.

Para obter os limiares auditivos eletrofisiológicos por frequência sem depender da colaboração da criança, utiliza-se o BERA frequência-específico (com estímulos Tone Burst ou Chirp). Esse método funciona de maneira comparável a uma audiometria tonal, determinando o menor nível sonoro percebido em cada frequência, mas de forma 100% objetiva, enquanto a criança dorme. Quando a criança não atinge a idade ou a maturidade necessária para responder voluntariamente em cabina acústica, o BERA frequência-específico complementa a avaliação com precisão.

Estudos científicos e latências no BERA: existe biomarcador de TEA?

Ao longo dos últimos anos, pesquisas científicas internacionais investigaram se crianças no espectro autista apresentariam alterações sutis nos potenciais auditivos evocados de tronco encefálico. Alguns estudos identificaram prolongamentos milissegundos nas latências das ondas, em especial na onda V e nos intervalos interpicos das vias cerebrais, sugerindo diferenças no processamento sensorial precoce e na velocidade de condução neural.

No entanto, metanálises de grande escala demonstraram que essas pequenas variações de latência não são específicas do autismo. Elas ocorrem em apenas uma fração dos indivíduos no espectro, variam consideravelmente entre indivíduos e também podem estar presentes em outras condições neuropsiquiátricas e do desenvolvimento infantil. Portanto, não existe base médica ou científica para utilizar o BERA como biomarcador ou teste confirmatório de TEA.

O BERA permanece como um exame de avaliação estritamente audiológica e otoneurorradiológica. Nenhum traçado de BERA autoriza afirmar ou descartar o diagnóstico de TEA; o exame confirma a integridade ou o grau de perda na via auditiva e encerra sua função diagnóstica nesse território funcional.

Como o exame é realizado em crianças com suspeita de TEA?

Pais de crianças com suspeita de autismo frequentemente se preocupam com a realização do exame, em virtude de hipersensibilidade sensorial ao toque, aversão a texturas ou dificuldade de permanecer parado. O procedimento, no entanto, é totalmente indolor, seguro e não invasivo, sem qualquer emissão de corrente agressiva ou radiação.

O exame é realizado com a criança em sono natural durante o atendimento ambulatorial. A preparação segue etapas cuidadosas:

  1. preparo suave da pele: realiza-se uma limpeza cuidadosa na fronte e atrás das orelhas (mastoides ou lóbulos) com pasta abrasiva leve para reduzir a impedância elétrica cutânea;
  2. fixação dos eletrodos: pequenos sensores de superfície com gel condutor são fixados na pele para captar os potenciais elétricos gerados pela passagem do som;
  3. fones de inserção: olivas macias de espuma descartável são suavemente acomodadas na entrada do canal auditivo para emitir os estímulos sonoros;
  4. registro durante o sono: com a criança adormecida em ambiente acolhedor, silencioso e com luz suave, o equipamento emite os sons e registra a atividade elétrica no computador.

Para facilitar o adormecimento natural na clínica, orienta-se a família a acordar a criança um pouco mais cedo no dia do exame, mantê-la acordada durante o deslocamento e programar o início do teste para o horário habitual da soneca. A equipe da clínica conduz o exame com paciência e respeito ao tempo individual de cada criança.

O BERA ambulatorial de rotina não necessita de sedação. Com orientação prévia adequada e acolhimento em ambiente acolhedor, a grande maioria das crianças consegue completar o exame em sono natural. Casos em que o sono natural não seja alcançado após tentativas orientadas são avaliados individualmente pelo médico otorrino.

O que significa o resultado do BERA no neurodesenvolvimento?

A interpretação do resultado deve ser sempre integrada ao quadro clínico global da criança e aos demais exames audiológicos, como as emissões otoacústicas e a imitanciometria:

Quando o BERA é normal: demonstra que a cóclea, o nervo auditivo e as vias até o tronco encefálico estão transmitindo os estímulos sonoros de forma adequada. Isso afasta surdez periférica relevante e indica que a ausência de resposta ao chamado ou a demora na fala decorre de outros fatores do neurodesenvolvimento, como o próprio TEA ou transtornos específicos de linguagem, permitindo direcionar as terapias comportamentais com segurança.

Quando o BERA está alterado: indica a presença de perda auditiva condutiva (como na otite média secretora com acúmulo de líquido atrás do tímpano), perda auditiva neurossensorial (lesão coclear ou do nervo) ou desordem do espectro da neuropatia auditiva. Nesses cenários, o tratamento otológico e a reabilitação audiológica precisam ser iniciados sem demora, pois a melhora da audição é requisito essencial para o desenvolvimento da comunicação da criança.

Vídeo: o exame de BERA pode dar o diagnóstico de autismo?

No vídeo abaixo, a médica otorrinolaringologista esclarece se o BERA diagnostica o TEA, explica a diferença entre o BERA convencional e o BERA frequência-específico e detalha por que a investigação da audição é indispensável diante do atraso no desenvolvimento da fala infantil.

Perguntas frequentes

Se o BERA deu normal, por que a criança ainda não atende quando chamada?

Ouvir sons é diferente de compreender a linguagem e responder socialmente. O BERA atesta que o som é captado e viaja pelo nervo auditivo até o tronco cerebral. A atenção compartilhada, o contato visual e a intenção comunicativa dependem de áreas corticais cerebrais superiores, que compõem os núcleos de investigação do TEA.

O BERA substitui a audiometria comportamental infantil?

Não. Os dois exames se complementam. A audiometria comportamental avalia como a criança ouve e responde conscientemente aos sons em cabina acústica, sendo o padrão de referência quando a criança consegue colaborar. Quando a colaboração voluntária não é viável, o BERA frequência-específico atua como ferramenta objetiva essencial para estimar os limiares auditivos.

É necessário sedar a criança para fazer o BERA na clínica?

Na grande maioria dos casos ambulatoriais, não. O exame é conduzido com a criança em sono natural, mediante orientações prévias de privação parcial de sono e preparo tranquilo no consultório. A necessidade de sedação fica restrita a situações excepcionais avaliadas pelo médico otorrino.

Referências

  1. VILELA, Larissa. O exame de BERA pode dar o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA)? YouTube, 5 jun. 2024. 1 vídeo (4 min 40 s). Disponível em: https://youtu.be/QKXj-v1wpnA. Acesso em: 20 set. 2026.
  2. TALGE, Nicole M.; ADKINS, M.; KILENY, Paul R. Click-evoked auditory brainstem responses and autism spectrum disorder: a meta-analytic investigation of disorder specificity. Pediatric Research, v. 92, n. 1, p. 55-63, 2022. DOI: 10.1038/s41390-021-01726-2. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34497358/. Acesso em: 20 set. 2026.
  3. MIRON, Oren; BEAM, Andrew L.; KOHANE, Isaac S. Auditory brainstem response in infants and children with autism spectrum disorder: A meta-analysis of wave V. Autism Research, v. 11, n. 2, p. 355-363, 2018. DOI: 10.1002/aur.1895. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29087045/. Acesso em: 20 set. 2026.
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento. Manual de Orientação: Transtorno do Espectro do Autismo. Rio de Janeiro: SBP, n. 5, 2019. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/21775c-MO_-_Transtorno_do_Espectro_do_Autismo.pdf. Acesso em: 20 set. 2026.

Exame de BERA infantil em Brasília

Se a criança apresenta atraso no desenvolvimento da fala, não atende quando chamada ou está em investigação de autismo e precisa realizar a avaliação auditiva, uma consulta com otorrino em Brasília e a realização dos exames na Clínica OtoCare oferecem um acolhimento atencioso e especializado. Conheça também a lista completa de exames auditivos na OtoCare.

Telefone e WhatsApp: (61) 99957-8479

Veja todas as orientações aos pacientes da OtoCare.