Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Por que as canetinhas emagrecedoras podem provocar tontura?
Sim, a tontura é um sintoma frequentemente relatado por pessoas que iniciam ou aumentam a dose de medicações para emagrecimento e controle glicêmico, popularmente conhecidas como canetinhas emagrecedoras. Medicamentos como o Mounjaro (tirzepatida), o Ozempic e o Wegovy (semaglutida) ganharam enorme destaque nos últimos anos pela eficácia na perda de peso e no controle metabólico, mas as mudanças rápidas que promovem no organismo podem repercutir diretamente no equilíbrio.
Do ponto de vista médico, esses fármacos não possuem ação vestibulotóxica direta comprovada, ou seja, eles não agridem nem destroem as estruturas nobres da orelha interna. A sensação de tontura, instabilidade, cabeça oca ou mesmo crises rotatórias decorrem, na imensa maioria das vezes, de alterações secundárias: oscilações bruscas da glicose no sangue, desidratação por redução do reflexo de sede, quedas posturais de pressão arterial e déficits nutricionais causados pela restrição calórica acentuada.

O labirinto funciona como um sensor biológico altamente sensível da saúde metabólica e vascular. Qualquer alteração súbita na oferta de glicose, no volume de líquidos circulantes ou nos nutrientes essenciais pode desestabilizar o equilíbrio e desencadear crises de tontura.
Como funcionam a semaglutida e a tirzepatida?
Para compreender por que o labirinto é afetado, é essencial entender o mecanismo de ação desses medicamentos. Eles pertencem a classes inovadoras de peptídeos que simulam hormônios naturais produzidos pelo intestino humano durante a digestão:
- Agonistas do receptor de GLP-1 (semaglutida): presentes no Ozempic e no Wegovy, atuam estimulando a liberação de insulina de forma dependente da glicose, inibindo o glucagon, retardando o esvaziamento do estômago e agindo nos centros cerebrais da saciedade no hipotálamo. O paciente passa a sentir uma saciedade precoce e duradoura, perdendo consideravelmente o apetite.
- Agonistas duplos GIP e GLP-1 (tirzepatida): presente no Mounjaro, representam uma evolução farmacológica ao associar o estímulo do GLP-1 com o receptor de GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose). Além de promover potente saciedade e reduzir efeitos colaterais gastrointestinais em muitos indivíduos, a tirzepatida melhora a sensibilidade à insulina e favorece a queima de gordura nos adipócitos.
Embora esses efeitos sejam extremamente positivos para o controle do diabetes tipo 2 e da obesidade, a perda quase total da vontade de comer leva muitos pacientes a realizarem jejuns prolongados, pularem refeições inteiras ou consumirem quantidades insuficientes de calorias e água ao longo do dia.
As quatro causas principais da tontura durante o tratamento
A experiência clínica com pacientes em acompanhamento otoneurológico e metabólico evidencia quatro mecanismos centrais que explicam a tontura associada às canetinhas:
1. Hipoglicemia e quedas bruscas da glicose
O labirinto e o cérebro não possuem reservas próprias de energia e dependem do suprimento contínuo de oxigênio e glicose transportados pelo sangue. Quando o paciente passa muitas horas sem se alimentar ou quando a medicação reduz a glicemia com rapidez, ocorrem episódios de hipoglicemia relativa ou absoluta. O labirinto responde de imediato a essa privação energética, gerando sensação de flutuação, fraqueza nas pernas, visão turva, tremores e instabilidade. Essa oscilação metabólica assemelha-se ao que ocorre na tontura depois de comer doce decorrente do rebote insulínico.
2. Desidratação e redução involuntária da ingestão de água
Além de diminuir o apetite, os análogos de GLP-1 podem atenuar a percepção da sede. Paralelamente, o retardo no esvaziamento gástrico e eventuais episódios de náusea ou plenitude gástrica fazem com que a pessoa beba muito menos água do que o necessário. A desidratação reduz o volume de plasma sanguíneo e modifica a concentração eletrolítica dos fluidos do ouvido interno (endolinfa e perilinfa), prejudicando a transmissão correta dos sinais do equilíbrio.
3. Hipotensão ortostática (queda de pressão ao levantar)
A diminuição rápida de peso, a menor quantidade de sódio e líquidos no corpo e a redução do tônus vascular periférico favorecem a hipotensão postural. Ao passar da posição sentada ou deitada para a posição em pé, a gravidade puxa o sangue para os membros inferiores e o organismo não consegue compensar a pressão arterial a tempo. O resultado é a clássica vista escura, sensação de desmaio iminente ou tontura momentânea ao se erguer. Saiba mais sobre como reconhecer a tontura ao levantar e a hipotensão ortostática.
4. Déficit nutricional e calórico drástico
Perdas ponderais muito volumosas em curtos intervalos de tempo (como perder 10, 15 ou mais de 20 quilos em poucos meses) sem acompanhamento nutricional próximo podem gerar carências de micronutrientes essenciais. A falta de vitaminas do complexo B, ferro, magnésio e antioxidantes compromete a função mitocondrial das células vestibulares e dos nervos periféricos.
Canetinhas emagrecedoras podem desencadear cristais soltos (VPPB)?
Sim. Um dos cenários mais desafiadores observados na prática otorrinolaringológica é o surgimento de vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) — popularmente chamada de labirintite dos cristais soltos — em pacientes em uso dessas medicações.
Na VPPB, pequenas partículas de carbonato de cálcio (otólitos ou estatocônias) se desprendem da mácula do utrículo e migram para o interior dos canais semicirculares do labirinto. Sempre que o paciente deita na cama, vira de lado ou olha para cima, essas partículas se movimentam pela ação da gravidade, provocando episódios intensos de vertigem rotatória com duração de alguns segundos.
A integridade e fixação desses cristais dependem diretamente do metabolismo de cálcio, fósforo e da vitamina D. Mudanças metabólicas súbitas, desnutrição proteica e variações hormonais provocadas por emagrecimento ultra-rápido fragilizam a matriz gelatinosa onde os cristais estão ancorados. Isso predispõe ao descolamento repetido dos otólitos. Casos de VPPB recorrente exigem avaliação diagnóstica com manobras específicas na maca, como a manobra de reposicionamento para VPPB em Brasília, além da correção nutricional.
Pacientes que já apresentavam episódios prévios de vertigem posicional ou que conviveram por muito tempo com sintomas mal diagnosticados merecem atenção redobrada. Entenda como a tontura de anos pode ser VPPB e como o diagnóstico preciso restabelece a qualidade de vida.
O que dizem os estudos científicos sobre a prevalência?
Nos ensaios clínicos regulatórios que aprovaram a semaglutida e a tirzepatida, a queixa de tontura foi registrada entre os eventos adversos com frequência geralmente inferior a 1% a 2% dos participantes. Entretanto, em pesquisas de mundo real com populações amplas e na rotina dos consultórios, a queixa é observada com frequência superior, sobretudo nas primeiras semanas de adaptação ou após aumentos de dosagem.
Um estudo de coorte de grande escala publicado em 2025 no periódico científico Biomedicines avaliou mais de 496 mil pacientes em uso de semaglutida e tirzepatida e identificou uma associação com o aumento do risco relativo de novos distúrbios vestibulares em comparação com grupos controle pareados. A pesquisa indicou que, embora a taxa absoluta seja controlada, a semaglutida apresentou incidência ligeiramente maior de queixas vestibulares em comparação com a tirzepatida, reforçando a necessidade de monitoramento clínico rigoroso em quem já apresenta suscetibilidade labiríntica.
O que fazer se você começou a sentir tontura usando a medicação?
Ao perceber tontura após iniciar ou ajustar a dose da canetinha emagrecedora, medidas práticas ajudam a proteger o labirinto e restabelecer o equilíbrio:
- Não interrompa a medicação por conta própria: a suspensão abrupta sem acompanhamento médico pode descompensar o controle da glicose e do peso. Comunique o sintoma imediatamente ao médico prescritor (endocrinologista ou clínico) para avaliar ajustes na velocidade de progressão da dose.
- Hidratação programada e consciente: não espere ter sede para beber líquidos. Estabeleça uma meta diária de 35 a 40 ml de água por quilo de peso corporal, mantendo uma garrafa sempre visível e fracionando a ingestão ao longo de todo o dia.
- Fracione a alimentação em pequenos volumes: mesmo sem fome aparente, evite ficar mais de quatro a cinco horas em jejum absoluto. Faça pequenos lanches equilibrados contendo proteínas magras, castanhas e carboidratos de baixo índice glicêmico para estabilizar a glicemia.
- Levante-se de forma gradual: ao acordar ou sair de cadeiras baixas, permaneça sentado por alguns instantes antes de se colocar completamente em pé. Esse intervalo permite que os reflexos barorreceptores compensem a pressão arterial.
- Cuidado com a automedicação: tomar depressores labirínticos por conta própria pode mascarar a verdadeira causa e piorar a sonolência. Saiba por que o remédio para tontura pode piorar os sintomas se usado sem indicação precisa.
- Conheça as medidas de emergência: em caso de vertigem aguda súbita com enjoo, veja as instruções sobre o que fazer em uma crise de tontura.
Caso os episódios sejam contínuos, acompanhados de ansiedade ou sensação de instabilidade ao caminhar em locais movimentados, investigações complementares ajudam a diferenciar causas vestibulares puras de distúrbios funcionais, como a tontura por ansiedade, e de desordens sistêmicas mais amplas, como a tontura metabólica ou hormonal.
Vídeo: canetinhas emagrecedoras podem causar tontura?
No vídeo a seguir, a médica otorrinolaringologista esclarece a relação entre o uso de Mounjaro, Ozempic e Wegovy e os sintomas de tontura, relata o caso clínico de uma paciente com VPPB recorrente após perda ponderal e explica como proteger o labirinto durante o emagrecimento.
Perguntas frequentes
A tontura causada por Ozempic ou Mounjaro significa que o remédio afetou o labirinto diretamente?
Não. Não há evidência científica de ação tóxica direta das substâncias sobre as células sensoriais do labirinto. A tontura é quase sempre consequência secundária de alterações metabólicas e hemodinâmicas provocadas pelo emagrecimento, como quedas de glicose, menor ingestão de água, hipotensão ortostática e deficiências nutricionais pontuais.
Posso suspender a canetinha por conta própria se tiver tontura?
Não é recomendado interromper o tratamento sem consultar o médico que prescreveu o medicamento. O profissional responsável poderá verificar a pressão arterial, solicitar exames de sangue para checar a glicemia e ajustar o ritmo de aumento da dose. Se a tontura tiver características giratórias ou não melhorar com a alimentação, um otorrinolaringologista deve ser consultado.
Por que o emagrecimento rápido com canetinha pode desencadear VPPB (cristais soltos)?
Perdas de peso acentuadas em curto intervalo podem vir acompanhadas de carências de nutrientes importantes para a fixação dos otólitos de carbonato de cálcio, como o cálcio e a vitamina D. Com a matriz gelatinosa fragilizada, os cristais desprendem-se com facilidade para os canais semicirculares, provocando vertigem rotatória ao virar a cabeça na cama.
Referências
- VILELA, Larissa. Canetinhas emagrecedoras (Mounjaro®, Ozempic® e Wegovy®) podem causar tontura?. YouTube, 4 fev. 2026. 1 vídeo (8 min 27 s). Disponível em: https://youtu.be/nIR7Htj3MRA. Acesso em: 10 set. 2026.
- THE RISK of Vestibular Disorders with Semaglutide and Tirzepatide: Findings from a Large Real-World Cohort. Biomedicines, v. 13, n. 5, p. 1049, 2025. DOI: 10.3390/biomedicines13051049. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40426877/. Acesso em: 10 set. 2026.
- VON BREVERN, Michael et al. Benign paroxysmal positional vertigo: Diagnostic criteria. Journal of Vestibular Research, v. 25, n. 3-4, p. 105-117, 2015. DOI: 10.3233/VES-150553. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26756126/. Acesso em: 10 set. 2026.
- KIM, Hyung Lee et al. Orthostatic dizziness and intolerance: Diagnostic criteria. Journal of Vestibular Research, v. 29, n. 2-3, p. 89-98, 2019. DOI: 10.3233/VES-190656. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30883381/. Acesso em: 10 set. 2026.
Avaliação de tontura e distúrbios do labirinto em Brasília
Se você está utilizando medicações emagrecedoras e começou a sentir tontura contínua, vertigem ao deitar na cama ou instabilidade para caminhar, uma consulta com otorrino em Brasília com avaliação direcionada em otoneurologia permite examinar minuciosamente o labirinto, realizar testes como o vHIT e diferenciar causas metabólicas de alterações dos cristais.
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