Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Sentir tontura não é normal: o caso de 20 anos que era VPPB
Não é normal sentir tontura, e conviver com esse sintoma por anos ou décadas nunca deve ser aceito como algo natural do envelhecimento ou um problema sem solução. Muitas pessoas passam longos períodos limitando suas atividades diárias, evitando movimentos da cabeça e acreditando que não há o que fazer, quando na verdade estão diante de uma alteração mecânica tratável e com grande chance de resolução, como a vertigem posicional paroxística benigna (VPPB).
No consultório, uma paciente de 70 anos procurou atendimento relatando crises diárias de tontura havia exatamente 20 anos. O sintoma surgia ao deitar na cama e virar para o lado esquerdo, ao levantar, ao olhar para cima e ao olhar para baixo. O exame clínico e o teste na maca confirmaram o diagnóstico de VPPB. Após três manobras de reposicionamento realizadas na mesma consulta, a tontura desapareceu por completo, sem necessidade de medicamentos ou cirurgia.

Tontura crônica ou recorrente exige diagnóstico preciso da causa, e não apenas o uso contínuo de sedativos labirínticos. Identificar a origem do sintoma permite aplicar o tratamento direcionado e restabelecer a segurança e o bem-estar do paciente.
O que é a VPPB e por que os cristais saem do lugar?
A vertigem posicional paroxística benigna é uma das causas mais comuns de tontura na população adulta e idosa. Ela ocorre quando minúsculos cristais de carbonato de cálcio, chamados otólitos ou estatocônias, se desprendem de sua localização original no utrículo e migram para dentro de um dos canais semicirculares do ouvido interno.
O ouvido interno funciona como nosso sensor de equilíbrio. Quando os cristais estão soltos dentro do canal, qualquer movimento que incline a cabeça faz com que essas partículas se desloquem com a gravidade. Esse movimento mecânico gera uma corrente anormal no líquido labiríntico e envia um sinal incorreto ao cérebro, provocando uma sensação intensa de rotação que dura alguns segundos.
Por que alguém pode conviver 20 anos com VPPB sem diagnóstico?
A convivência prolongada com a VPPB costuma decorrer de três fatores principais: a confusão diagnóstica com o rótulo genérico de labirintite, a prescrição isolada de medicamentos sem a realização de testes físicos e a adaptação do próprio paciente aos sintomas.
Ao longo dos anos, muitos pacientes aprendem a não virar a cabeça para o lado que desencadeia a crise, deixam de olhar para prateleiras altas, evitam se abaixar e dormem com vários travesseiros. Essas adaptações reduzem a frequência dos episódios mais agudos, mas impõem uma restrição severa à mobilidade, geram insegurança constante e aumentam o risco de quedas graves, especialmente em pessoas da terceira idade.
Remédio para tontura resolve a VPPB?
Não. Os medicamentos conhecidos popularmente como remédios para labirintite são depressores do sistema nervoso central e do labirinto. Eles podem atenuar náuseas ou enjoos passageiros, mas não têm capacidade física de recolocar os cristais de cálcio de volta ao seu compartimento de origem.
O uso prolongado desses fármacos pode inclusive atrasar a compensação natural do organismo e produzir efeitos colaterais como sonolência, lentidão motora e depressão em idosos. Conheça detalhadamente por que o remédio para tontura pode piorar os sintomas quando utilizado de forma contínua sem tratamento da causa real.
Como é feito o diagnóstico: o teste de Dix-Hallpike e o nistagmo
O diagnóstico da VPPB é clínico e não depende de tomografia, ressonância magnética ou exames de sangue. Ele é realizado no próprio consultório por meio de testes posicionais na maca, sendo o teste de Dix-Hallpike o mais consagrado para a avaliação do canal posterior.
Durante a manobra diagnóstica, o médico posiciona a cabeça do paciente em um ângulo específico e deita o tronco com rapidez controlada. Se houver partículas soltas naquele canal, o movimento do líquido provoca um reflexo involuntário e rápido dos olhos chamado nistagmo, acompanhado da sensação de vertigem. As características do nistagmo, como direção, tempo de início e duração, confirmam com precisão qual canal e qual lado estão acometidos.
Manobras de reposicionamento: o tratamento definitivo na maca
Uma vez confirmado o canal comprometido, o tratamento de escolha consiste na execução de manobras de reposicionamento de partículas, como a manobra de Epley ou a manobra de Semont. Trata-se de uma sequência de rotações precisas da cabeça e do corpo que aproveita a força da gravidade para conduzir os cristais de volta ao utrículo.
Ao retornarem ao compartimento correto, as partículas deixam de perturbar os canais semicirculares e são reabsorvidas pelo organismo. A maioria dos pacientes obtém alívio completo dos sintomas logo após uma a três repetições da manobra, como ocorreu no caso da paciente que sofria havia duas décadas. Saiba como funciona a manobra para VPPB em Brasília no Noroeste.
Tontura prolongada: quando a causa pode ser outra condição?
Quando a tontura não apresenta a clássica piora em posições específicas da cabeça ou não melhora com as manobras, outras condições precisam ser investigadas detalhadamente pela equipe médica:
- Tontura postural perceptual persistente (TPPP): sensação contínua de desequilíbrio, flutuação ou cabeça oca que pode se instalar após um evento agudo de vertigem ou crise de ansiedade. Conheça a tontura por ansiedade e fatores emocionais.
- Hipotensão ortostática: sensação de vista escurecida ou instabilidade ao passar da posição deitada para em pé. Veja as causas da tontura ao levantar.
- Causas metabólicas e hormonais: alterações glicêmicas, resistência insulínica e distúrbios da tireoide que afetam o suprimento do labirinto. Entenda a tontura depois de comer doce e a tontura metabólica ou hormonal.
- Migrânia vestibular e perdas labirínticas bilaterais: quadros avaliados por testes funcionais especializados como o vHIT em Brasília.
O que fazer se os tratamentos anteriores não funcionaram?
Se o tratamento prescrito anteriormente não trouxe alívio, a orientação prioritária é buscar uma nova avaliação médica especializada em otoneurologia e otorrinolaringologia. A tontura quase sempre possui alternativas de estabilização, compensação ou cura completa.
Quadros como a VPPB são curáveis mecanicamente no próprio consultório. Já perdas labirínticas ou alterações vestibulares crônicas podem ser compensadas por meio de reabilitação vestibular personalizada, ajustes alimentares e manejo dos gatilhos clínicos. Ninguém precisa se conformar em viver limitado pela tontura.
Vídeo: caso de tontura por 20 anos que era VPPB
No vídeo a seguir, conheça os detalhes do caso da paciente que conviveu duas décadas com vertigem posicional, entenda por que o diagnóstico correto transforma a vida do paciente e veja a importância de buscar atendimento especializado.
Perguntas frequentes
A VPPB pode durar anos se não for tratada?
Sim. Embora muitas crises possam ter remissão espontânea após semanas, em diversos casos as partículas permanecem presas nos canais ou o quadro se repete por anos. Sem as manobras adequadas de reposicionamento, o paciente continua experimentando tonturas sempre que movimenta a cabeça de determinada forma.
Remédio para labirintite resolve a VPPB?
Não. Os remédios comumente indicados para labirintite apenas diminuem a intensidade da náusea e atenuam reflexos no sistema nervoso, mas não removem os cristais do canal semicircular. O tratamento curativo da VPPB é físico e realizado por manobras no consultório.
Como saber se a tontura de anos é VPPB ou outro problema?
A VPPB caracteriza-se tipicamente por episódios breves de sensação giratória com segundos de duração, desencadeados por movimentos específicos da cabeça, como deitar, virar na cama ou olhar para cima. A confirmação definitiva exige a observação do nistagmo típico durante a manobra de Dix-Hallpike realizada pelo especialista.
Referências
- VILELA, Larissa. Caso de TONTURA por 20 anos: era VPPB!. YouTube, 15 abr. 2026. 1 vídeo (6 min 39 s). Disponível em: https://youtu.be/AkYTq9DkD6o. Acesso em: 10 set. 2026.
- VON BREVERN, Michael et al. Benign paroxysmal positional vertigo: Diagnostic criteria. Journal of Vestibular Research, v. 25, n. 3-4, p. 105-117, 2015. DOI: 10.3233/VES-150553. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26756126/. Acesso em: 10 set. 2026.
- BHATTACHARYYA, Neil et al. Clinical Practice Guideline: Benign Paroxysmal Positional Vertigo (Update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 156, n. 3_suppl, p. S1-S47, 2017. DOI: 10.1177/0194599816689667. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28248609/. Acesso em: 10 set. 2026.
Avaliação de tontura e VPPB em Brasília
Se você convive com tontura há meses ou anos, sente vertigem ao deitar ou levantar da cama e não encontrou melhora com medicações comuns, uma consulta com otorrino em Brasília permite realizar o exame clínico do equilíbrio, investigar a posição dos cristais e indicar o tratamento resolutivo.
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