Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Sinusite de repetição: por que os episódios voltam e o que interrompe o ciclo
Sinusite de repetição não é uma sinusite que não sara: é uma sequência de episódios completos, cada um com começo, tratamento e recuperação total, que voltam a acontecer. Essa diferença parece detalhe e é o contrário disso. Ela separa dois diagnósticos que exigem investigações diferentes, tratamentos diferentes e decisões cirúrgicas diferentes — e é a primeira coisa que precisa ficar clara antes de qualquer outra.
Quem tem esse padrão costuma chegar com a mesma frase: mal termina uma caixa de antibiótico e a crise volta. O que a maioria dos textos sobre o assunto responde é uma lista de causas possíveis, todas com o mesmo peso, e a orientação de procurar um especialista. Esta página faz outra coisa: mostra o que a investigação procura, em que ordem, com que frequência cada achado aparece e o que muda de fato no ciclo.

Ela não substitui a avaliação médica, que é o que examina, investiga e decide. Serve para chegar nela sabendo quais perguntas fazer.
O que conta como sinusite de repetição — e o que não conta
O critério aceito pelas diretrizes é objetivo e tem três partes, todas obrigatórias:
- Quatro ou mais episódios de rinossinusite aguda em doze meses. Alguns serviços trabalham com três, e o ensaio clínico mais recente incluiu também quem teve três episódios em seis meses ou dois por ano durante três anos seguidos.
- Cada episódio precisa preencher os critérios de rinossinusite aguda, e não apenas ter sido chamado assim. O que caracteriza um episódio está detalhado na orientação sobre sinusite aguda viral ou bacteriana.
- Resolução completa entre os episódios. Nos intervalos, sem sintoma nasal persistente. Este é o item que mais separa quadros na prática.
Repare no terceiro item. Se os sintomas nunca desaparecem por inteiro, o quadro não é recorrente: é contínuo, e quadro contínuo por doze semanas ou mais é rinossinusite crônica, uma doença com outra lógica, descrita na orientação sobre sinusite crônica e polipose nasal. Chamar as duas de sinusite de repetição é o erro mais comum do assunto, e ele leva a investigação para o lado errado.
A pergunta que separa os dois quadros não é sobre a crise. É sobre o intervalo: entre um episódio e o seguinte, o nariz volta ao normal? Se a resposta é não, o problema a ser tratado é outro.
Quatro quadros diferentes que chegam com a mesma queixa
“Vivo com sinusite” é uma frase, não um diagnóstico. Ela cobre pelo menos quatro situações distintas, e a diferença entre elas está sempre no mesmo lugar.
| Quadro | Como se comporta | O que acontece no intervalo | Para onde a investigação vai |
|---|---|---|---|
| Rinossinusite aguda recorrente | Episódios definidos, quatro ou mais no ano | Recuperação completa, sem sintoma | Procurar o que predispõe: alergia, imunidade, dente, drenagem |
| Rinossinusite crônica | Sintomas contínuos por doze semanas ou mais | Não há intervalo limpo; há pioras sobre um fundo constante | Avaliar a inflamação de base e sua extensão |
| Resfriados de repetição | Vários quadros virais curtos, principalmente em quem convive com crianças | Recuperação completa e rápida | Rever se os episódios preenchiam critério de sinusite |
| Rinite mal controlada | Obstrução, espirros e coriza que oscilam o ano inteiro | Sintomas nasais persistem em grau menor | Tratar a rinite antes de concluir qualquer outra coisa |
Os dois últimos são frequentes e passam despercebidos. Um adulto que convive com crianças pequenas pode ter seis a oito viroses respiratórias por ano; se cada uma delas for tratada como sinusite bacteriana, o prontuário registra episódios que nunca preencheram o critério — e o paciente carrega um diagnóstico de repetição que não descreve o que ele tem.
Por que um episódio isolado vira um ciclo
O mecanismo é o mesmo em todos os casos, e ele tem três elos encadeados:
- Inflamação. A mucosa que reveste o nariz e os seios da face incha, por vírus, por alergia ou por irritante do ambiente.
- Bloqueio da drenagem. As passagens estreitas por onde cada seio se comunica com o nariz fecham. A secreção produzida ali dentro deixa de sair.
- Estagnação. O nariz não é estéril: tem uma população bacteriana própria e permanente. Secreção parada em cavidade fechada é o ambiente em que essas bactérias, que até então não causavam nada, se multiplicam.
Até aqui isso descreve qualquer sinusite bacteriana, inclusive a que acontece uma vez na vida. O que transforma o episódio em ciclo é o que sobra depois dele. Se a inflamação resolve por completo, o nariz volta a drenar e a limpar sozinho, e a próxima virose passa como virose. Se alguma coisa impede esse retorno — um fator que estava lá antes ou um dano deixado pelo próprio episódio —, a estrutura fica preparada para repetir. A investigação da sinusite de repetição é, portanto, a busca por essa coisa que sobra.
A explicação anatômica: o que os estudos realmente mostram
A causa mais citada em todo texto sobre o assunto é anatômica: septo desviado, cornetos volumosos, variações na formação dos seios, passagens de drenagem estreitas. A analogia do ralo estreito é intuitiva e útil para explicar o mecanismo. Como explicação para a recorrência, porém, a evidência é bem menos firme do que a repetição sugere.
Dois estudos de caso-controle mediram exatamente isso, com resultados opostos:
| Estudo | O que comparou | Resultado |
|---|---|---|
| Caso-controle de 2010, 36 casos e 42 controles | Células de Haller, concha bolhosa, esporão septal, largura do infundíbulo | Células de Haller mais frequentes nos casos (39,9% contra 11,9%) e infundíbulo mais estreito (0,591 mm contra 0,823 mm); concha bolhosa e esporão sem diferença |
| Caso-controle de 2024, 60 casos e 120 controles | Desvio de septo, concha bolhosa, células infraorbitárias, esporão no meato médio, células frontais | Nenhuma associação com o quadro recorrente, nem para o desvio de septo nem para qualquer outra variação estudada |
A leitura honesta dos dois é esta: a largura da via de drenagem pode contar em alguns pacientes, mas achar um desvio de septo em um laudo não explica por que alguém tem quatro sinusites por ano. Desvio de septo é achado comum em gente que nunca teve sinusite nenhuma. Ele importa quando obstrui de fato, quando o exame do nariz mostra que obstrui, e quando o quadro clínico bate com o lado obstruído — o que é uma conversa sobre correção do septo conduzida caso a caso, e não uma conclusão tirada de imagem.
Um laudo que descreve desvio de septo não é, sozinho, a resposta para a repetição. Se fosse, a maior parte da população adulta teria sinusite de repetição.
A tomografia entre as crises pode ser quase normal
Aqui está a fonte de uma frustração muito comum. Quem tem episódios recorrentes costuma fazer tomografia dos seios paranasais — que é o exame correto para essa investigação, ao contrário do raio X de face — e ouvir que o exame está praticamente normal.
Isso é o esperado, e existe medida disso. No estudo de 2010, o estadiamento tomográfico médio dos pacientes com quadro recorrente foi de 2,25, contra 1,27 nos controles: a diferença é estatisticamente real, mas ambos os valores estão perto do zero de uma escala que vai a 24. Fora da crise, o seio de quem tem sinusite de repetição é um seio essencialmente normal.
Duas consequências práticas saem daí:
- Exame normal fora da crise não invalida a queixa. Ele confirma o padrão recorrente, que é justamente o de recuperação completa entre os episódios.
- O momento do exame muda o que ele mostra. Uma tomografia feita durante a crise mostra a crise; feita no intervalo, mostra a base. As duas informações são úteis, mas respondem perguntas diferentes, e quem pede precisa saber qual está perguntando.
O que o exame do consultório acrescenta, nesse cenário, é o olhar direto: a endoscopia nasal mostra em tempo real a região de drenagem, a presença de secreção purulenta saindo dela e alterações que a imagem não classifica.
A disfunção do epitélio e o transporte mucociliar
A superfície interna do nariz e dos seios é forrada por células com prolongamentos microscópicos e móveis, os cílios, que batem de forma coordenada e empurram a camada de muco sempre no mesmo sentido, para fora. Esse tapete rolante é o que impede a estagnação — é ele que faz o seio se limpar sozinho todos os dias, sem que ninguém perceba.
Duas coisas podem atrapalhá-lo:
- Inflamação persistente. Mucosa inchada por alergia, por poluição ou por irritação química bate menos e drena pior, mesmo sem infecção nenhuma em curso.
- Dano deixado por uma infecção agressiva. Um episódio bacteriano intenso pode alterar o próprio epitélio, e essa alteração de função persiste depois que a infecção acabou — é a chamada discinesia ciliar secundária, adquirida, diferente das doenças ciliares congênitas.
Esse é o mecanismo que explica o caso mais desconcertante da clínica: a pessoa que nunca teve sinusite na vida, teve uma muito forte, e a partir dali passou a ter várias. Não é azar nem coincidência: o primeiro episódio deixou o nariz funcionando pior do que antes, e um nariz que limpa pior repete com mais facilidade. A boa notícia é que a disfunção adquirida tende a se recuperar quando a inflamação é controlada de forma sustentada, o que é diferente de ser tratada só nas crises.
A causa que quase ninguém procura: o dente
As raízes dos dentes superiores de trás terminam a milímetros do assoalho do seio maxilar, e em parte das pessoas atravessam esse osso. Uma lesão na ponta da raiz, uma doença da gengiva avançada, um tratamento de canal antigo ou um implante podem, por isso, manter uma inflamação dentro do seio que nenhum tratamento nasal alcança.
A dimensão do problema é maior do que o assunto sugere. Uma revisão sistemática com metanálise de 38 estudos, todos com diagnóstico por tomografia, encontrou origem dentária em 51% das sinusites maxilares por seio avaliado e 50% por paciente. As condições associadas foram medidas:
| Condição dentária | Razão de chances para sinusite maxilar de origem dentária |
|---|---|
| Lesão apical (na ponta da raiz) | 4,03 |
| Doença periodontal | 5,49 |
| Perda óssea moderada | 2,57 |
| Perda óssea grave | 13,80 |
Há um sinal clínico que levanta essa suspeita imediatamente: quadro que insiste sempre do mesmo lado, em um seio maxilar só, especialmente com mau cheiro ou gosto ruim persistente. Sinusite viral e alérgica costuma pegar os dois lados; a de origem dentária é tipicamente unilateral. Quando é esse o caso, tratar apenas o nariz resolve por algumas semanas e o quadro volta, porque a origem continua lá.
Episódio que sempre volta do mesmo lado merece avaliação odontológica com imagem dos dentes superiores. Enquanto a origem dentária não for descartada, qualquer tratamento nasal está tratando a consequência.
Quando a investigação precisa incluir a imunidade
Infecções bacterianas repetidas nas vias aéreas superiores são uma das formas de apresentação de deficiências de anticorpos no adulto — e a frequência com que isso aparece em quem tem sinusite de repetição refratária é maior do que se costuma supor.
Em uma série de 135 pacientes com rinossinusite recorrente avaliados em serviço de rinologia, com contagem de células, dosagem de imunoglobulinas e resposta de anticorpos à vacina pneumocócica:
| Grupo | Achado imunológico alterado | Alteração mais comum |
|---|---|---|
| Adultos (49 pacientes) | 32,7% | Deficiência de anticorpo específico |
| Crianças (86 pacientes) | 17,4% | Hipogamaglobulinemia |
Ou seja: cerca de um em cada três adultos com quadro recorrente que não respondeu ao tratamento tinha alteração imunológica detectável, e a mais frequente é justamente a que não aparece em exame de rotina — a deficiência de anticorpo específico só se revela comparando a resposta antes e depois de uma vacina. Um perfil imunológico normal na dosagem simples não afasta a hipótese.
Outras condições associadas ao quadro recorrente, descritas na mesma linha de pesquisa, são rinite alérgica, asma e doenças autoimunes. São todas investigáveis, e nenhuma delas aparece na tomografia.
O que a alergia tem a ver com isso
A rinite alérgica é o fator predisponente mais comum e o mais tratável de todos. O raciocínio é direto: alergia mantém a mucosa inflamada e inchada o ano inteiro em grau variável; mucosa inchada drena pior; e quando chega uma virose, ela chega num nariz que já estava com pouca margem.
Há um detalhe importante de sequência. Rinite mal controlada e sinusite de repetição compartilham sintomas, e a rinite é muito mais comum. Antes de concluir que alguém tem quatro sinusites por ano, é preciso ter certeza de que não são quatro pioras de rinite — e a única forma de ter essa certeza é controlar a rinite e observar o que sobra. Se o tratamento de manutenção da rinite reduz os episódios, o diagnóstico se esclareceu sozinho. O que ajuda no dia a dia está nas orientações sobre lavagem nasal na rinite e sobre como usar o spray nasal, cuja técnica muda bastante o resultado.
O ciclo do antibiótico
O padrão mais frequente entre quem procura por este assunto é o mesmo: cada episódio recebe um antibiótico, o episódio melhora, e alguns meses depois tudo recomeça. Com o tempo, a pessoa acumula vários cursos por ano e a sensação de que o remédio “não está mais funcionando”.
Duas coisas precisam ser ditas com clareza sobre isso:
- Tratar cada crise não é errado. Quando o episódio realmente preenche critério de infecção bacteriana, tratá-lo é a conduta.
- Tratar apenas as crises é o que é incompleto. O antibiótico age sobre a bactéria daquele episódio. Ele não age sobre a alergia, sobre a raiz do dente, sobre a imunidade, nem sobre a drenagem. Nenhuma dessas coisas melhora com a repetição do medicamento — e as três primeiras nem sequer estão sendo procuradas enquanto a única resposta ao quadro for a receita.
Dito de outro modo: a recorrência não é indicação de mais antibiótico. É indicação de investigação. O quarto episódio do ano é o que deveria disparar a busca pela causa, não o que deveria disparar a quarta receita.
Há um segundo motivo, e ele é medido. O preço do antibiótico não se paga por episódio: ele se acumula. Numa coorte com mais de duas mil pessoas, a marca deixada no intestino por antibióticos usados anos antes ainda era detectável e proporcional ao número de cursos ao longo da vida, e a chance de carregar bactéria resistente ao que se tomou permanece elevada por meses. Quem trata quatro episódios por ano não toma quatro decisões independentes — o que isso significa está na orientação sobre otite e sinusite precisam de antibiótico.
Isso resolve o que fazer com a série de episódios e deixa em aberto o que fazer com cada um. Quando um deles é de fato bacteriano, o tratamento tem de ser conduzido até o fim — e é comum que a crise seguinte venha rápido justamente porque a anterior foi interrompida assim que os sintomas cederam, que é coisa diferente de um esquema curto decidido no início. O tempo, a escolha e o momento de reavaliar estão na orientação sobre antibiótico para sinusite.
O que o tratamento clínico entrega — e o que não entrega
Controlada a causa de base, o tratamento de manutenção existe e é o primeiro passo em todos os casos. Ele se apoia em controle da inflamação da mucosa, cuidado ambiental e higiene nasal, e sua lógica é ser contínuo, não episódico — o oposto de agir só quando dói. Para o quadro agudo, a lavagem nasal na sinusite tem papel definido, e a tosse que acompanha o quadro tem explicação própria.
É importante, porém, dimensionar o efeito com honestidade. A metanálise de seis estudos e 2.495 pacientes sobre corticoide tópico nasal no quadro agudo encontrou uma diferença de risco de 0,08 na resolução ou melhora dos sintomas entre 14 e 21 dias — um benefício real, consistente para dor facial e obstrução, maior com doses altas e cursos mais longos, e ainda assim modesto. Não é um interruptor que desliga o ciclo.
Essa é exatamente a situação que o ensaio clínico da seção seguinte foi desenhado para responder: o que fazer com quem já fez tudo isso e continua tendo episódios.
Cirurgia: o que o ensaio randomizado de 2026 mostrou
Durante décadas, a indicação de cirurgia endoscópica dos seios paranasais para quadro recorrente se apoiou em séries de casos: pacientes operados relatavam melhora da qualidade de vida e usavam menos medicação depois, com resultados comparáveis aos da rinossinusite crônica sem pólipos. É informação útil, mas sem grupo de comparação.
Em 2026, um ensaio clínico randomizado publicado no JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery comparou, pela primeira vez, cirurgia mais tratamento clínico contra tratamento clínico isolado nesse cenário. Foram 59 adultos com episódios recorrentes documentados e tratamento conservador insuficiente, acompanhados por seis meses, com a qualidade de vida nasossinusal como desfecho principal.
| Item | Resultado |
|---|---|
| Participantes | 59 adultos, 30 operados e 29 em tratamento clínico |
| Desfecho principal | Diferença de 22,41 pontos na melhora do escore de qualidade de vida, a favor da cirurgia |
| Intervalo de confiança de 95% | 13,67 a 31,10 pontos |
| Tratamento clínico isolado | Sem efeito clinicamente relevante nesse grupo já refratário |
| Complicações que exigiram intervenção | 4 pacientes: 3 infecções e 1 sinéquia com perfuração septal |
A conclusão dos autores é que a cirurgia melhorou os desfechos relatados pelos pacientes em seis meses, sem problemas maiores. Para quem já esgotou o tratamento clínico, isso deixa de ser uma aposta e passa a ser uma opção com evidência de ensaio randomizado por trás — que é mais do que a maioria das condutas em rinologia tem.
O que o ensaio não respondeu
Um resultado favorável não vira indicação universal, e reportar os limites faz parte de reportar o achado:
- Todos os participantes já haviam falhado ao tratamento clínico. O ensaio responde sobre quem chegou até ali, e não sobre quem está no primeiro ano de investigação.
- São 59 pacientes, em um único hospital universitário. É um ensaio pequeno para um desfecho subjetivo.
- O estudo foi aberto, sem cegamento: paciente e equipe sabiam quem tinha sido operado, o que infla efeitos medidos por questionário.
- O seguimento foi de seis meses. Não há, por esse ensaio, resposta sobre dois ou cinco anos.
- 88% dos participantes eram mulheres, o que reflete quem procura esse tipo de serviço, mas limita a generalização.
Nada disso derruba o achado. Significa apenas que a cirurgia continua sendo uma decisão tomada com base no caso — na causa identificada, no que já foi tentado e no quanto os episódios pesam na vida da pessoa —, e não uma consequência automática de ter contado quatro crises no ano.
Como a decisão se organiza na prática
Reunindo tudo, a sequência que faz sentido é esta:
| Etapa | O que se pergunta | O que se faz |
|---|---|---|
| Confirmar o padrão | Os episódios preenchiam critério? Houve recuperação completa entre eles? | Revisar a história e o intervalo antes de investigar qualquer coisa |
| Examinar | O que se vê por dentro do nariz, fora da crise? | Exame clínico e endoscopia nasal |
| Procurar o que predispõe | Alergia controlada? Origem dentária? Imunidade? | Investigação alérgica, avaliação odontológica se unilateral, perfil imunológico com resposta vacinal |
| Tratar de forma contínua | O controle de base reduziu os episódios? | Manutenção da inflamação e do ambiente, não apenas tratamento das crises |
| Reavaliar a anatomia | Há obstrução que o exame confirma e que bate com o quadro? | Tomografia dos seios paranasais, lida junto com o exame do nariz |
| Considerar cirurgia | O tratamento clínico bem feito falhou? | Discutir cirurgia endoscópica, com benefício e riscos apresentados |
A ordem importa: pular direto da contagem de episódios para a cirurgia deixa para trás as causas que teriam sido resolvidas sem operação — e a origem dentária e a deficiência de anticorpo, sozinhas, respondem por uma fração relevante dos casos.
O que fazer entre as crises
O intervalo entre os episódios não é tempo morto. É onde o ciclo se interrompe ou se prepara para repetir. O que cabe nele:
- Manter o tratamento de base mesmo sem sintoma, quando ele foi prescrito. Interromper na melhora é a razão mais comum de o quadro voltar.
- Registrar os episódios: quando começou, quanto durou, o que foi usado, se houve recuperação completa. Essa contagem é o que confirma ou desfaz o diagnóstico, e ninguém lembra dela de memória na consulta.
- Reduzir exposições conhecidas: fumaça de cigarro, inclusive passiva, ar muito seco e contato prolongado com irritantes químicos.
- Cuidar dos dentes, com revisão odontológica, sobretudo em quadro sempre do mesmo lado.
- Não antecipar antibiótico ao primeiro espirro. A maior parte dos episódios que começam começa como virose, e tratá-los cedo demais não impede a evolução.
Quando o episódio não é apenas mais um
Quem tem crises repetidas se acostuma com elas, e esse hábito atrasa a percepção do que é diferente. Estes sinais pedem avaliação imediata, e não a espera pelo padrão de sempre:
- Inchaço, vermelhidão ou dor ao redor de um dos olhos.
- Alteração da visão ou dificuldade para movimentar o olho.
- Dor de cabeça de intensidade fora do habitual para essa pessoa.
- Confusão mental, sonolência excessiva ou rigidez de nuca.
- Inchaço na testa.
- Sangramento nasal repetido de um lado só, ou obstrução unilateral que não cede entre os episódios.
Os dois últimos merecem atenção especial em quem tem quadro recorrente: sintoma unilateral que persiste no intervalo não pertence ao padrão da doença recorrente e precisa ser examinado à parte.
Vídeo: por que a sinusite volta tantas vezes
O vídeo explica por que alguns pacientes entram em um ciclo de sinusite atrás de sinusite, como a secreção que não drena cria o ambiente para a infecção bacteriana, o que são as vias de drenagem estreitas por questão anatômica, o que é a disfunção do epitélio nasal e a alteração do transporte mucociliar depois de uma infecção agressiva, e quais são as duas linhas de tratamento correspondentes.
Perguntas frequentes
Quantas sinusites por ano são consideradas de repetição?
O critério mais usado é de quatro ou mais episódios de rinossinusite aguda em doze meses, cada um preenchendo os critérios da doença e com recuperação completa entre eles. Alguns serviços trabalham com três episódios por ano, e o ensaio clínico mais recente incluiu também quem teve três em seis meses ou dois por ano durante três anos seguidos. O número isolado importa menos do que a exigência de que os episódios sejam definidos e separados por intervalos sem sintoma.
Qual a diferença entre sinusite de repetição e sinusite crônica?
A diferença está no intervalo. Na forma recorrente, os sintomas desaparecem por completo entre um episódio e o outro. Na forma crônica, eles persistem por doze semanas ou mais, com pioras que se somam a um fundo constante de sintomas. São doenças com investigação e tratamento diferentes, e confundi-las é o erro mais frequente do assunto.
Desvio de septo causa sinusite de repetição?
Não de forma automática. Um estudo de caso-controle de 2024 com 60 pacientes e 120 controles não encontrou associação entre desvio de septo, ou qualquer outra variação anatômica estudada, e o quadro recorrente. Um estudo anterior encontrou infundíbulo mais estreito e mais células de Haller nos pacientes. Na prática, a anatomia entra na conversa quando o exame do nariz mostra obstrução relevante e o quadro clínico bate com ela, e não quando aparece descrita em um laudo.
Minha tomografia deu quase normal. Então não é sinusite?
Não. Fora da crise, a tomografia de quem tem quadro recorrente costuma ser quase normal — o estadiamento médio medido foi de 2,25 em pacientes contra 1,27 em controles, em uma escala que vai a 24. Isso é coerente com a definição da doença, que exige recuperação completa entre os episódios. O exame normal no intervalo confirma o padrão em vez de negá-lo.
Pode ser problema de imunidade?
Pode, e com frequência maior do que se supõe. Em uma série de pacientes com quadro recorrente refratário ao tratamento, 32,7% dos adultos tinham alteração imunológica, contra 17,4% das crianças. A mais comum no adulto foi a deficiência de anticorpo específico, que não aparece na dosagem simples de imunoglobulinas: ela só se revela comparando a resposta de anticorpos antes e depois de uma vacina.
Sinusite sempre do mesmo lado pode ser dente?
É uma das primeiras hipóteses nesse cenário. Uma metanálise de 38 estudos com diagnóstico por tomografia encontrou origem dentária em cerca de metade das sinusites maxilares avaliadas, com lesão apical e doença periodontal entre as condições mais associadas. Quadro unilateral persistente, sobretudo com mau cheiro ou gosto ruim, pede avaliação odontológica com imagem dos dentes superiores.
Tomar antibiótico toda vez piora a situação a longo prazo?
Tratar um episódio que realmente é bacteriano é a conduta correta. O problema não é a prescrição em si, e sim tratar apenas as crises: o antibiótico age sobre a bactéria daquele episódio e não sobre a alergia, o dente, a imunidade ou a drenagem. Enquanto a única resposta ao quadro for a receita, as causas que sustentam a repetição continuam sem ser procuradas.
A cirurgia resolve a sinusite de repetição?
Um ensaio clínico randomizado publicado em 2026 comparou cirurgia endoscópica mais tratamento clínico contra tratamento clínico isolado em 59 adultos com quadro recorrente refratário, e encontrou uma diferença de 22,41 pontos na melhora da qualidade de vida em seis meses, a favor da cirurgia. É a melhor evidência disponível hoje. Ela se aplica a quem já esgotou o tratamento clínico, e não substitui a investigação das causas, que pode resolver o quadro sem operação.
Depois da cirurgia posso voltar a ter sinusite?
Sim. A cirurgia amplia e desobstrui as vias de drenagem, o que reduz o acúmulo de secreção, mas não elimina a exposição a vírus nem trata alergia, dente ou imunidade. Por isso o tratamento de base costuma continuar depois do procedimento, e por isso a investigação das causas não é dispensada por ter havido cirurgia.
Meu filho tem várias sinusites por ano. É o mesmo quadro?
Os critérios são os mesmos, mas a interpretação muda. Crianças em creche e escola têm muitas viroses respiratórias por ano, e boa parte dos episódios rotulados de sinusite não preenchia o critério. Além disso, a alteração imunológica encontrada na infância tem perfil diferente do adulto: 17,4% na série citada, com predomínio de hipogamaglobulinemia. A avaliação é conduzida em conjunto com o pediatra.
Referências
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Avaliação com otorrino em Brasília
Episódios de sinusite que voltam várias vezes no ano, ciclos de antibiótico que se repetem sem que a causa apareça, quadro que insiste sempre do mesmo lado, sintomas nasais que não desaparecem por completo entre as crises ou dúvida sobre qual investigação faz falta merecem exame das vias aéreas superiores. É essa avaliação que confirma o padrão, examina o nariz por dentro, define quais exames são necessários e monta o plano — clínico, odontológico, imunológico ou cirúrgico. Ela é feita em consulta com otorrino em Brasília. A Clínica OtoCare atende adultos e crianças no Setor Noroeste.
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