Catarro saindo pelos olhos da criança: é conjuntivite, sinusite ou obstrução do canal lacrimal?

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Catarro saindo pelos olhos da criança: é conjuntivite, sinusite ou obstrução do canal lacrimal?

Secreção saindo pelo olho da criança tem quatro origens possíveis, não duas — e a mais comum no bebê não é conjuntivite nem sinusite, é uma obstrução do canal lacrimal que se resolve sozinha antes do primeiro aniversário na quase totalidade dos casos. Distinguir entre elas quase nunca depende de exame: depende da idade em que começou, do que acompanha e de como o olho está por fora.

Quem procura por essa pergunta em geral acordou o filho com o olho grudado e precisa decidir uma coisa só: isso espera ou isso não espera. Esta página responde com o caminho anatômico que liga o nariz ao olho, as quatro causas separadas por idade e sinal, o peso medido de cada sinal de diferenciação, e a única situação dessa lista que exige atendimento no mesmo dia.

Dra. Larissa Vilela mostrando em modelo anatômico onde o canal lacrimal desemboca dentro do nariz da criança

Circula com frequência, inclusive em material assinado por profissionais de saúde, a afirmação de que não existe comunicação entre a cavidade nasal e os olhos, e que portanto secreção no olho é sempre conjuntivite. A comunicação existe, tem nome e é descrita em qualquer tratado de anatomia: o ducto nasolacrimal, que desce do canto interno do olho e desemboca dentro do nariz. É a mesma via que faz o nariz escorrer quando alguém chora.

O caminho que a lágrima faz entre o olho e o nariz

A lágrima não é produzida só quando alguém chora. Ela é produzida o tempo todo, em volume pequeno e contínuo, para lubrificar e proteger a superfície do olho. O que muda quando alguém chora é a quantidade, não a existência.

Produzida continuamente, a lágrima precisa ser continuamente escoada, e o sistema que faz isso tem um trajeto definido, com uma estrutura em cada etapa.

Etapa do trajetoO que acontece ali
Glândula lacrimalProduz a lágrima, acima e por fora do olho
Superfície do olhoO piscar espalha a lágrima e a empurra em direção ao canto interno
Pontos lacrimaisDois orifícios minúsculos, um na pálpebra de cima e outro na de baixo, por onde a lágrima entra no sistema de drenagem
Canalículos e saco lacrimalConduzem e acumulam a lágrima no canto interno do olho; o músculo da pálpebra funciona como uma bomba a cada piscada
Ducto nasolacrimalDesce por dentro do osso, do saco lacrimal em direção ao nariz
Válvula de Hasner, no meato inferiorPonto onde o ducto se abre dentro da cavidade nasal, embaixo do corneto inferior — o destino final da lágrima

É por isso que chorar faz o nariz escorrer, e é por isso que um colírio pingado no olho às vezes deixa gosto na garganta. O sistema foi feito para levar líquido do olho para o nariz, e faz isso o tempo todo, silenciosamente.

O ponto que interessa a esta página é o último. A abertura fica no assoalho da cavidade nasal, exatamente onde a secreção se acumula quando o nariz está cheio. Quando essa abertura está mais larga do que o ideal e o assoalho do nariz está inundado de secreção espessa, o caminho pode ser percorrido no sentido contrário.

Por que isso acontece mais na criança

Três características do sistema lacrimal infantil explicam por que o refluxo é um evento de criança pequena e uma raridade no adulto.

  • O trajeto é mais curto. O ducto acompanha o crescimento da face. Num rosto pequeno, a distância entre o olho e o nariz é pequena, e o percurso que a secreção precisaria vencer para chegar ao olho é proporcionalmente menor.
  • A válvula pode ainda não estar madura. A membrana que fecha a extremidade inferior do ducto se abre nos primeiros meses de vida. Enquanto essa maturação não termina, a abertura pode ficar tanto fechada demais — e aí a lágrima não desce — quanto frouxa demais, e aí a barreira que impediria o refluxo funciona pela metade.
  • O nariz entope com mais facilidade e por mais tempo. A criança pequena tem cavidades nasais estreitas e frequência alta de infecções respiratórias, sobretudo quando entra na creche ou na escola. Nariz cheio por muitos dias é o pano de fundo do qual o resto depende.

No adulto o mesmo mecanismo é possível, mas incomum: o ducto é mais longo, a válvula está madura e o gradiente que empurraria secreção para cima raramente se estabelece.

As quatro origens possíveis da secreção no olho

A pergunta costuma ser feita como um binário, conjuntivite ou sinusite. São pelo menos quatro situações diferentes, e elas se separam bem por dois critérios simples: a idade em que o quadro começou e o estado do olho por fora.

OrigemQuando costuma aparecerO que acompanhaComo costuma terminar
Obstrução congênita do ducto nasolacrimalNas primeiras semanas de vida, e persiste ou vai e volta por mesesLágrima escorrendo fora de hora, secreção que reaparece, olho branco e calmoResolve sozinha, na quase totalidade, antes de um ano
ConjuntiviteEm qualquer idade, com começo em um ou dois diasVermelhidão nítida em toda a parte branca, olho colado ao acordar, incômodo com a luzResolve em dias, com ou sem tratamento conforme a causa
Refluxo de secreção nasal pelo ductoDurante um resfriado ou uma rinossinusite, depois de dias de nariz muito cheioNariz obstruído e secretivo antes do olho; olho pouco vermelho, sem dorMelhora junto com o nariz, e depende de resolver o nariz
Celulite periorbitária ou orbitáriaNo curso de uma rinossinusite, muitas vezes cedoPálpebra inchada e endurecida, febre, dor; nos quadros graves, olho saltado e dor ao movê-loNão resolve sozinha; é a única desta lista que é emergência

Repare que as duas primeiras não dependem do nariz e as duas últimas dependem inteiramente dele. É essa a razão pela qual essa pergunta chega tanto ao oftalmologista quanto ao otorrinolaringologista, e por que a resposta às vezes exige os dois.

A causa mais comum no bebê é a que essa pergunta não costuma alcançar

Quando o assunto é olho remelento em bebê, a resposta mais provável não é infecciosa. A obstrução congênita do ducto nasolacrimal é uma falha de abertura da membrana na extremidade inferior do ducto, e é comum a ponto de ser esperada.

O estudo que define o comportamento natural dessa condição acompanhou 4.792 lactentes ao longo do primeiro ano de vida, procurando ativamente sinais de drenagem lacrimal defeituosa em vez de esperar que a família reclamasse.

O que a coorte de primeiro ano encontrouResultado
Lactentes acompanhados4.792
Com evidência de drenagem lacrimal defeituosa em algum momento do ano964, ou 20%
Quando os sintomas apareceramNa quase totalidade, ainda dentro do primeiro mês de vida
Resolvidos espontaneamente antes de completar um ano96%
Conclusão dos autores sobre sondagem antes de um anoO estudo não encontrou evidência que a apoiasse

Três consequências práticas saem dessa tabela. A primeira é que um em cada cinco bebês passa por isso, o que torna a obstrução congênita, e não a conjuntivite, a explicação mais provável para um olho que lacrimeja e remela nos primeiros meses. A segunda é que o momento de início é o melhor separador disponível: um quadro que começou nas primeiras semanas e vai e volta há meses tem outra natureza que um quadro que começou anteontem. A terceira é que a espera não é omissão — é o que a história natural recomenda, porque a remissão espontânea acontece ao longo de todo o primeiro ano.

Um ensaio multicêntrico posterior, conduzido no segundo ano de vida, examinou o que fazer com a minoria que não resolveu sozinha, e as revisões sistemáticas mais recentes sobre sondagem continuam discutindo qual é o melhor momento para intervir. O ponto de convergência é que a intervenção pertence a quem não resolveu, não a todos.

Olho branco e calmo, com lágrima escorrendo e secreção que reaparece, desde as primeiras semanas de vida, é o retrato da obstrução congênita. Olho vermelho de verdade, com pálpebra inchada, dor ou febre, não é — e sai desta explicação, independentemente da idade.

Quando é conjuntivite, e quanto cada sinal realmente pesa

Conjuntivite é inflamação da membrana transparente que reveste a parte branca do olho e a face interna das pálpebras. Ela existe, é frequente e é uma resposta correta para muitos desses casos. O que não é correto é tratá-la como a única resposta.

Uma revisão sistemática publicada no JAMA, dentro da série que avalia o valor diagnóstico do exame clínico, reuniu trinta e dois estudos sobre conjuntivite infecciosa aguda e mediu quanto cada sinal desloca a probabilidade. Vale conhecer os dois achados principais.

O primeiro é sobre quem tem o quê. Nos estudos com crianças, que somaram 881 pacientes com idade média de 4,7 anos, a conjuntivite bacteriana foi mais frequente que a viral: 71% contra 16%. No único estudo com adultos, o padrão se inverteu por completo — viral em 78% e bacteriana em 16%. Ou seja, o que vale para o adulto da casa não vale para a criança.

O segundo achado é sobre o peso dos sinais. A análise principal, com 1.725 pacientes, calculou a razão de verossimilhança positiva de cada achado, que é o quanto a presença daquele sinal multiplica a chance do diagnóstico.

Achado clínicoAponta paraRazão de verossimilhança positiva
Dor de garganta associadaOrigem viral5,4 a 9,9
Gânglio aumentado à frente da orelhaOrigem viral2,5 a 5,6
Contato com outra pessoa de olho vermelhoOrigem viral2,5
Otite média juntoOrigem bacteriana2,5
Secreção espessa e purulentaOrigem bacteriana2,1

O número mais instrutivo dessa tabela é o último, e ele merece leitura devagar. A secreção purulenta — exatamente o sinal que faz a família concluir que é bacteriano e procurar um colírio com antibiótico — é o achado de menor peso da lista. Ela está presente em cerca de três de cada quatro casos bacterianos, mas também aparece em boa parte dos virais, e por isso separa mal.

A conclusão explícita da revisão é que nenhum sintoma ou sinal isolado diferencia as causas com alta certeza. Isso não invalida os sinais clássicos — vermelhidão intensa, incômodo com a luz e dor continuam apontando para o olho como origem do problema. Significa que eles funcionam como conjunto e como probabilidade, não como chave que abre uma porta só.

Quando a origem é o nariz: o quadro que o vídeo descreve

Há um cenário em que o olho está com secreção e o problema não está no olho. O nariz está obstruído há dias, com secreção espessa, num resfriado arrastado ou numa rinossinusite aguda. O assoalho da cavidade nasal está cheio. A abertura do ducto lacrimal fica exatamente ali.

Duas coisas podem acontecer nesse ponto, e não são excludentes. O inchaço da mucosa pode obstruir a saída do ducto, e a lágrima que deveria descer volta e transborda. E, quando a válvula é frouxa — o que é comum no primeiro ano e não raro depois —, a própria secreção nasal pode ser empurrada para dentro do ducto e chegar ao olho.

O retrato clínico desse quadro é característico, e é o que o distingue de uma conjuntivite verdadeira:

  • o nariz esteve obstruído e secretivo antes de o olho começar;
  • a secreção sai pelo canto interno do olho, não parece brotar da superfície toda;
  • o olho fica levemente irritado, um pouco avermelhado, mas não intensamente vermelho;
  • não há dor no olho e não há incômodo com a luz;
  • o olho melhora quando o nariz melhora, e não antes.

A ordem dos acontecimentos é o dado mais útil de todos. Olho depois do nariz, com o olho relativamente calmo, aponta para o nariz. Olho antes do nariz, ou olho sozinho e muito vermelho, aponta para o olho.

A tabela de diferenciação, sinal por sinal

Reunindo o que foi descrito até aqui em uma comparação direta entre as três causas não urgentes. A quarta, a complicação, tem seção própria porque não se diferencia — se reconhece.

SinalObstrução do canal lacrimalConjuntiviteSecreção vinda do nariz
Idade típicaBebê, desde as primeiras semanasQualquer idadeCriança pequena, durante infecção respiratória
Como começouAos poucos, e vai e volta há mesesDe um dia para o outroDepois de dias de nariz cheio
Vermelhidão do olhoAusente ou mínimaIntensa, em toda a parte brancaLeve
Dor no olhoNãoFrequente, com ardênciaNão
Incômodo com a luzNãoFrequenteNão
Lágrima escorrendo fora de horaMarcante, é o sinal principalPode haverPode haver
Estado do narizNormalNormal, salvo se houver resfriado juntoObstruído e secretivo, e começou antes
Um olho ou doisEm geral um sóCostuma passar de um para o outroUm ou os dois, conforme o nariz

Nenhuma linha isolada dessa tabela decide. O conjunto, sim, costuma decidir — e é por isso que a consulta pergunta tanto sobre quando começou e o que veio antes.

O triângulo entre o olho, o nariz e o ouvido

Existe uma associação que reforça por que essa pergunta pertence também à otorrinolaringologia. Um estudo prospectivo com 428 crianças de dois a trinta e seis meses colheu material de conjuntiva em quadros de conjuntivite aguda. Mais da metade das culturas cresceu um dos patógenos respiratórios estudados, com o Haemophilus influenzae não tipável em primeiro lugar, seguido do pneumococo.

O achado que importa aqui é outro: cerca de um terço dessas crianças tinha, ao mesmo tempo, otite média aguda — a combinação descrita há décadas como síndrome conjuntivite-otite. E, entre essas, 82% das culturas cresceram Haemophilus influenzae. Um trabalho posterior estendeu a mesma associação à rinossinusite bacteriana, mostrando o papel predominante do mesmo agente nos três territórios.

A leitura prática é direta: olho, ouvido e seios da face compartilham mucosa, drenagem e agente. Uma criança com conjuntivite e dor de ouvido ao mesmo tempo não tem duas doenças coincidentes; tem uma infecção que ocupou três espaços vizinhos. É o mesmo raciocínio que explica por que um resfriado prolongado pode terminar em tosse persistente ou em episódios que se repetem.

A complicação que não pode passar

De tudo que foi descrito até aqui, uma única situação muda a urgência da resposta. A infecção dos seios da face pode atravessar a parede óssea fina que os separa da órbita e alcançar os tecidos ao redor do olho. É a complicação orbitária da rinossinusite aguda, e a rinossinusite é a causa mais comum de edema periorbitário na criança.

Ela tem dois estágios, separados por uma membrana chamada septo orbitário, e a distinção entre eles é o que define a gravidade.

  • Celulite pré-septal, ou periorbitária. A infecção está na pálpebra, à frente do septo. A pálpebra fica inchada, vermelha e quente. O olho, por dentro, funciona: enxerga bem e se move normalmente.
  • Celulite orbitária, ou pós-septal. A infecção ultrapassou o septo e ocupa o conteúdo da órbita. Aparecem os sinais que não existem no estágio anterior: olho saltado, dor ao mover o olho, movimento ocular limitado e alteração da visão. Pode formar abscesso.

Uma revisão de dez anos de internações pediátricas por essas duas condições reuniu 83 crianças, com idade média de 3,7 anos. A forma pré-septal respondeu por 83% dos casos e a orbitária por 17%. As crianças com a forma pré-septal eram mais novas — 85% tinham menos de cinco anos — enquanto 62% das que tiveram a forma orbitária tinham mais de cinco. E o fator predisponente separou bem os dois grupos: infecção de vias aéreas superiores em 68% dos casos pré-septais, contra sinusite em 79% dos casos orbitários.

Traduzindo: quanto mais o quadro depende dos seios da face, mais grave ele tende a ser.

Quando ela aparece no curso da sinusite, e o que a casuística mostrou

Existe uma intuição razoável e errada de que a complicação orbitária é o desfecho de quem demorou a tratar. Um estudo que acompanhou crianças internadas por celulite periorbitária e orbitária mediu esse intervalo diretamente: a celulite orbitária ocorreu numa mediana de três dias desde o início da rinossinusite aguda, com variação de um a doze dias.

Três dias. A complicação não é tardia — ela é precoce, e faz parte da apresentação da doença em algumas crianças, em vez de ser o castigo por ter esperado. Nesse mesmo estudo, as crianças com celulite orbitária eram mais velhas, tinham sinusite associada de forma estatisticamente significativa, precisaram de cirurgia com mais frequência e ficaram internadas por muito mais tempo.

Uma casuística portuguesa de catorze anos detalhou o que acontece quando a infecção já passou do septo. Foram 55 crianças, com idade média de 6,91 anos, todas com complicação pós-septal confirmada por avaliação otorrinolaringológica e tomografia.

Casuística de catorze anos em complicação pós-septalResultado
Celulite pós-septal, sem abscesso43,63%
Abscesso subperiosteal38,18%
Abscesso orbitário18,18%
Seios envolvidos: etmoidal e maxilar90,91%
Resolvidos apenas com tratamento clínico60%
Que precisaram de drenagem cirúrgica40%
Que desenvolveram outra complicação além da inicial12,73%
Recorrência da infecção orbitária10,91%
Tempo médio de internação8,0 dias

Duas linhas dessa tabela merecem destaque. A primeira é que quatro em cada dez precisaram de cirurgia — não é um quadro que se resolve com colírio e paciência. A segunda é o predomínio do seio etmoidal, que é justamente o que faz fronteira com a órbita por uma lâmina óssea de espessura de papel, e é o mais desenvolvido nos primeiros anos de vida, quando os outros seios ainda estão se formando. A anatomia explica por que essa é uma complicação tipicamente pediátrica.

Os autores registram ainda que edema palpebral e olho saltado são sinais precoces, e que a tomografia tem papel decisivo na definição da conduta. É uma das poucas situações em rinossinusite em que a imagem não é dispensável — diferente do que acontece no quadro agudo comum.

O antibiótico oral começado antes não impediu a complicação

Nessa mesma casuística há um achado que raramente é reproduzido em texto para o público, e que vale exatamente porque contraria a expectativa. Entre as 55 crianças internadas com complicação orbitária, 32,73% já vinham tomando antibiótico oral antes da internação. E esse grupo não se saiu melhor: apresentou risco significativamente maior de recorrência da infecção orbitária, com p igual a 0,020.

Isso não é um argumento contra antibiótico, e não deve ser lido assim. É um argumento contra a suposição de que estar tomando um garante que nada vai acontecer. Uma parte dessas crianças provavelmente recebeu o antibiótico justamente porque já estava mais doente, o que ajuda a explicar o resultado — um estudo retrospectivo não consegue separar completamente as duas coisas.

A consequência prática é uma só, e é importante: a vigilância dos sinais do olho não termina porque o tratamento começou. Se a pálpebra inchar, se o olho saltar ou se a criança passar a reclamar ao mover o olho, isso precisa ser avaliado no mesmo dia, esteja ela tomando antibiótico ou não. Quando e por que o antibiótico entra num quadro de sinusite é assunto de uma página dedicada à decisão sobre antibiótico.

O que mudou depois da vacina pneumocócica

Uma coorte hospitalar de dezoito anos, desenhada para medir o efeito das vacinas pneumocócicas conjugadas sobre as complicações orbitárias da rinossinusite aguda em crianças, encontrou uma queda expressiva na frequência da doença.

Incidência anual de complicação orbitária por 100.000Início do períodoFim do período
Todas as idades pediátricas12,642,99
Crianças de zero a quatro anos294,27

A queda foi maior justamente na faixa mais nova, que é a mais protegida pelo esquema vacinal. Os agentes encontrados nas culturas não mudaram de distribuição ao longo do período: pneumococo em 32,5%, Haemophilus influenzae não tipável em 27,5%, Staphylococcus aureus em 20% e outros estreptococos em 12,5%. Cerca de uma em cada dez crianças precisou de cirurgia.

Há, porém, um contraponto no mesmo estudo que a página não omite: a incidência caiu, mas a gravidade dos casos que restaram aumentou, com deslocamento para categorias mais avançadas na classificação de Chandler. Menos casos, e proporcionalmente mais graves entre os que ocorrem — o que reforça o valor de reconhecer os sinais em vez de contar apenas com a raridade. Reduzir a frequência de infecções respiratórias, especialmente em crianças que frequentam creche e escola, atua no começo dessa cadeia.

O que fazer enquanto a avaliação não acontece

Duas medidas são seguras, não dependem de diagnóstico fechado e ajudam em três das quatro origens descritas aqui.

A primeira é a limpeza do olho: gaze ou algodão limpo, umedecido em soro fisiológico, passado do canto interno para o externo, uma superfície nova a cada passagem e nunca a mesma gaze nos dois olhos. Isso remove a secreção acumulada sem irritar a superfície do olho.

A segunda é cuidar do nariz, que é o que resolve o problema quando a origem está nele. Desobstruir e fluidificar a secreção nasal reduz a pressão sobre a abertura do ducto e interrompe o mecanismo do refluxo. A técnica muda bastante conforme a idade, e está descrita na página sobre lavagem nasal em crianças; quando o quadro é de rinossinusite, há particularidades reunidas na página sobre lavagem nasal na sinusite.

Sobre o que não fazer, três pontos:

  • Colírio da farmácia por conta própria não é medida neutra. Colírios com antibiótico não tratam obstrução de canal lacrimal nem refluxo de secreção nasal, e colírios com corticoide podem agravar seriamente algumas infecções da superfície do olho.
  • Massagem do saco lacrimal é procedimento com técnica. Ela é usada na obstrução congênita, mas depende de posição e pressão corretas para fazer sentido, e precisa ser demonstrada por quem examinou a criança.
  • Nenhuma medida caseira substitui a avaliação quando há inchaço de pálpebra. Esse sinal muda a categoria do problema.

Sinais de alarme: avaliação no mesmo dia

Procure atendimento no mesmo dia, sem esperar prazo nenhum, se aparecer qualquer um destes: pálpebra inchada, endurecida ou vermelha; impressão de olho saltado para fora; dor ao mover o olho ou dificuldade para movê-lo; visão embaçada, dupla ou reduzida; febre alta junto com inchaço ao redor do olho; dor de cabeça intensa, vômitos ou rigidez de nuca; criança prostrada ou que não abre o olho pelo inchaço. Em criança menor de três meses com olho vermelho e secreção, a avaliação também não deve esperar.

Esses sinais não pedem interpretação em casa e não pedem observação por alguns dias. Eles separam a inflamação que ficou na pálpebra daquela que já entrou na órbita, e essa diferença é medida em horas.

Como a decisão se organiza na prática

O que está acontecendoOrigem mais provávelComo costuma se conduzir
Bebê de poucas semanas, olho branco, lágrima escorrendo e secreção que reapareceObstrução congênita do ductoReconhecimento, limpeza, acompanhamento; a resolução espontânea é a regra no primeiro ano
Olho muito vermelho, ardendo, incomodado com a luz, começou de repenteConjuntiviteAvaliação para definir a causa; o tratamento depende dela e não é o mesmo para todas
Nariz cheio há dias e depois secreção pelo canto do olho, com olho calmoSecreção nasal refluindo pelo ductoTratar o nariz; o olho acompanha a melhora
Conjuntivite junto com dor de ouvidoInfecção compartilhada entre olho e ouvidoAvaliação otorrinolaringológica, porque o ouvido muda a conduta
Pálpebra inchada, febre, dor ao mover o olhoComplicação orbitáriaEmergência, com avaliação e imagem no mesmo dia

Esta página não prescreve colírio, antibiótico nem qualquer tratamento, e não substitui o exame da criança. Ela reúne o que os estudos e as fontes de referência publicaram sobre as causas de secreção ocular na infância, para que a conversa com quem examina seja mais objetiva.

Vídeo: catarro saindo pelos olhos é conjuntivite ou sinusite?

O vídeo abaixo mostra, em modelo anatômico, onde o canal lacrimal se abre dentro do nariz e por que a secreção nasal pode percorrer esse caminho ao contrário na criança.

Perguntas frequentes

Catarro saindo pelos olhos é sempre conjuntivite?

Não. Existem pelo menos quatro origens para secreção no olho da criança: obstrução congênita do canal lacrimal, conjuntivite propriamente dita, secreção nasal que reflui pelo canal lacrimal durante um quadro de nariz muito congestionado, e complicação orbitária de uma rinossinusite. As duas primeiras não dependem do nariz e as duas últimas dependem inteiramente dele.

Existe mesmo ligação entre o nariz e os olhos?

Existe, e é anatômica. O ducto nasolacrimal parte do canto interno do olho, desce por dentro do osso e se abre dentro da cavidade nasal, no meato inferior, embaixo do corneto inferior. É o caminho normal de escoamento da lágrima, e é a razão pela qual o nariz escorre quando alguém chora. A afirmação de que não há comunicação entre o nariz e os olhos é incorreta.

Bebê com olho remelando desde as primeiras semanas: o que costuma ser?

Esse padrão é o retrato da obstrução congênita do ducto nasolacrimal. Numa coorte de 4.792 lactentes acompanhados no primeiro ano de vida, um em cada cinco apresentou sinais de drenagem lacrimal defeituosa, quase sempre com início ainda no primeiro mês. O olho costuma estar branco e calmo, com lágrima escorrendo fora de hora e secreção que reaparece.

Obstrução do canal lacrimal precisa de cirurgia?

Na maioria dos casos, não. No mesmo estudo, 96% dos casos resolveram espontaneamente antes de a criança completar um ano, e os autores não encontraram evidência que apoiasse sondagem antes dessa idade. A intervenção é discutida para a minoria que persiste, e essa avaliação é do oftalmologista.

Como diferenciar secreção vinda do nariz de uma conjuntivite?

A ordem dos acontecimentos ajuda mais que qualquer outro dado. Quando a origem é o nariz, ele esteve obstruído e cheio de secreção antes de o olho começar, a secreção sai pelo canto interno, o olho fica apenas levemente irritado, sem dor e sem incômodo com a luz, e melhora junto com o nariz. Na conjuntivite, o olho começa sozinho, fica intensamente vermelho e costuma doer ou incomodar com a luz.

Conjuntivite em criança é mais viral ou bacteriana?

Nas crianças, ao contrário do que acontece nos adultos, a bacteriana é mais frequente. Numa revisão sistemática que reuniu 881 crianças com idade média de 4,7 anos, a conjuntivite bacteriana respondeu por 71% dos casos e a viral por 16%. No estudo com adultos da mesma revisão, a proporção se inverteu, com 78% de casos virais.

Secreção amarela e grossa significa que é bacteriana?

Não com a segurança que se costuma atribuir. Na revisão sistemática do JAMA, a secreção purulenta teve razão de verossimilhança positiva de 2,1, o menor peso entre os achados avaliados. Ela é frequente na conjuntivite bacteriana, mas também aparece na viral. A conclusão dos autores é que nenhum sinal isolado diferencia as duas causas com alta certeza.

Quando a secreção no olho vira uma emergência?

Quando a pálpebra incha e endurece, quando o olho parece saltado, quando dói ou fica difícil movê-lo, quando a visão altera, ou quando há febre alta junto com inchaço ao redor do olho. Esses sinais sugerem que a inflamação passou do olho para a órbita, e a avaliação precisa acontecer no mesmo dia.

Em quanto tempo a complicação nos olhos aparece numa sinusite?

Mais cedo do que se imagina. Num estudo com crianças internadas, a celulite orbitária ocorreu numa mediana de três dias desde o início da rinossinusite aguda, variando de um a doze dias. A complicação não é o desfecho tardio de quem demorou a tratar; em algumas crianças ela faz parte da própria apresentação da doença.

Criança que já toma antibiótico está protegida da complicação no olho?

Não completamente. Numa casuística de catorze anos com 55 crianças internadas por complicação orbitária, 32,73% já vinham em uso de antibiótico oral antes da internação, e esse grupo teve risco significativamente maior de recorrência. Parte disso se explica por essas crianças já estarem mais doentes quando o antibiótico foi iniciado. De todo modo, a vigilância dos sinais do olho não termina porque o tratamento começou.

Devo procurar oftalmologista ou otorrino?

Depende de onde estão os sinais. Olho vermelho isolado, sem queixa nasal, ou lacrimejamento persistente desde o nascimento são situações do oftalmologista. Secreção ocular que apareceu depois de dias de nariz obstruído, conjuntivite acompanhada de dor de ouvido, quadros que se repetem ou qualquer sinal de inchaço palpebral com febre pedem avaliação otorrinolaringológica, porque a origem está nas vias aéreas superiores. Diante de sinal de alarme, o caminho é o serviço de urgência, sem escolher especialidade.

Referências

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Avaliação com otorrino em Brasília

Secreção no olho que apareceu depois de dias de nariz obstruído, conjuntivite que vem acompanhada de dor de ouvido, quadros que se repetem em criança que vive resfriada, ou dúvida sobre de onde a secreção está vindo merecem exame das vias aéreas superiores. É essa avaliação que separa o problema que está no olho daquele que está no nariz e que localiza a origem quando os episódios voltam — inclusive com exame endoscópico do nariz quando necessário. Ela é feita em consulta com otorrino em Brasília. A Clínica OtoCare atende adultos e crianças no Setor Noroeste.

Telefone e WhatsApp: (61) 99957-8479

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