Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
A criança fica gripada todo mês depois que entrou na escola. É normal?
Muitas mães e muitos pais chegam ao consultório com a mesma pergunta. O filho entrou na escola e, desde então, fica gripado todo mês. Infelizmente, essa frequência é esperada. Estima-se que uma criança em idade escolar tenha, em média, de sete a dez gripes e resfriados por ano, o que dá mais ou menos um episódio por mês.

Chegou da escola, direto para o banho. Tirar o uniforme, dar um bom banho e lavar o nariz com soro fisiológico ajuda a diminuir as gripes e os resfriados da criança.
Gripe e resfriado são viroses. Na escola, a criança passa o dia perto de muitas outras crianças e fica exposta a uma grande quantidade de vírus e também de bactérias. A frequência alta vem dessa exposição, e não de uma defesa que falhou. O contato com o ambiente faz parte do amadurecimento do sistema imunológico, como explica a orientação sobre a vitamina S.
O que se consegue fazer é diminuir esses episódios e evitar que uma virose simples se complique. Boa parte desse cuidado cabe numa rotina simples na volta da escola.
Com quantos anos a criança para de ficar doente?
Não existe uma idade exata. Um estudo feito nos Estados Unidos acompanhou cerca de mil crianças do nascimento até os 13 anos. As que frequentaram creches com muitas crianças nos primeiros anos tiveram mais resfriados aos 2 anos e menos resfriados dos 6 aos 11 anos, já na escola. Aos 13 anos, os dois grupos ficaram parecidos.
Os autores relacionam essa proteção à imunidade que a criança vai ganhando com os contatos. Nesse estudo, as crianças que ficaram em casa nos primeiros anos tiveram mais resfriados depois, no começo da vida escolar. Os resfriados não deixam de existir, e a tendência é que fiquem menos frequentes com o passar dos anos.
Por que a criança na escola pega tantas gripes e resfriados?
Os vírus de gripes e resfriados entram no organismo por dois caminhos. No primeiro, a transmissão direta, gotículas contaminadas pelo vírus saem de quem está gripado e chegam à via respiratória de quem passa perto ou conversa com essa pessoa.
No segundo, a transmissão indireta, o vírus fica nas superfícies. Uma pessoa gripada, com a mão cheia de vírus, encosta na mesa. Outra pessoa toca o mesmo lugar e, com a própria mão, leva o vírus para os olhos, para o nariz ou para a boca. Copos, talheres e outros objetos divididos fazem o mesmo caminho.
Na escola, os dois caminhos funcionam ao mesmo tempo, durante horas. Na sala quase sempre há um ou outro colega gripado, e as crianças dividem mesas, brinquedos e lanches. O Ministério da Saúde lembra que a aglomeração de crianças nas creches facilita a transmissão da gripe.
A rotina de chegada em casa
A dica que mais ajuda a reduzir essas viroses é fácil de seguir. Chegou da escola, a criança vai direto para o banho. Antes, tira o uniforme, que já vai para lavar. Depois do banho, lava o nariz com soro fisiológico.
- tirar o uniforme e colocar para lavar;
- dar um bom banho na criança;
- lavar o nariz com soro fisiológico.
Cada passo tem um motivo. O uniforme que volta da escola está cheio de vírus e bactérias, pelo contato que a criança teve com os colegas durante o dia. As mãos dela também devem estar com vírus. Por isso, trocar a roupa da escola e dar um bom banho tiram esse material do corpo da criança logo na chegada.
A lavagem do nariz tira os vírus e as bactérias que a criança respirou durante o dia na escola. Feita todos os dias, a rotina tende a diminuir os quadros de gripe e resfriado, mesmo sem fazer com que eles desapareçam.
Como lavar o nariz da criança sem forçar
A forma de lavar o nariz muda conforme a idade da criança e conforme o jeito com que ela se adapta melhor. As opções para cada idade estão na orientação sobre lavagem nasal em crianças. O soro pode ser comprado pronto ou preparado em casa, e a solução deve estar morna, como mostra a orientação sobre a temperatura da água para a lavagem nasal. Entre um uso e outro, a garrafinha precisa ser bem higienizada, e o passo a passo está em como limpar a garrafinha de lavagem nasal.
Quando a criança já colabora, ela fica com a cabeça reta, olhando para baixo, com a boca aberta e respirando pela boca durante toda a aplicação. O soro entra por um lado do nariz e sai pelo outro.
A lavagem nunca deve ser feita à força. Se a criança chora, se debate e precisa ser segurada, ela pode puxar o ar no meio do choro, e o soro pode entrar no ouvido pela tuba auditiva, um pequeno canal entre o fundo do nariz e o ouvido. Isso dói e aumenta o risco de otite, como explica a orientação sobre dor de ouvido depois da lavagem nasal. Nesses casos, a saída é passar para uma forma com menos volume e menos pressão, como a seringa ou o jato contínuo, e ir aos poucos, até a criança aceitar. Forçar também deixa a criança com medo, e depois ela pode recusar qualquer forma de lavagem.
Lavar o nariz ajuda a prevenir gripes e resfriados?
Ajuda. Um ensaio clínico feito na República Tcheca acompanhou, durante 12 semanas no inverno, 401 crianças de 6 a 10 anos que estavam gripadas ou resfriadas. As crianças foram sorteadas em dois grupos. Um recebeu só o tratamento habitual, e o outro fez também a lavagem nasal com solução salina. Nas semanas seguintes, as crianças que lavavam o nariz tiveram menos dias de doença, faltaram menos à escola, tiveram menos complicações e usaram menos remédios para febre, descongestionantes e remédios contra infecção.
Algumas revisões consideram que as provas de benefício da lavagem nas viroses ainda são limitadas. Uma revisão Cochrane de 2015, sobre a lavagem nas viroses agudas das vias respiratórias de cima, encontrou poucos estudos, quase todos pequenos, e um possível alívio dos sintomas. O único efeito colateral relatado foi um leve desconforto no nariz, numa minoria dos participantes. A frequência certa da lavagem para cada criança pode ser vista caso a caso, na consulta.
Quem mais se beneficia da lavagem e com que frequência estão em quem precisa fazer lavagem nasal.
Mãos lavadas e copos e talheres que não são divididos
As mãos levam o vírus da mesa e dos brinquedos para os olhos, o nariz e a boca. Lavá-las corta o caminho da transmissão indireta. Numa revisão Cochrane de 2023, que reuniu estudos feitos também em escolas, creches e casas, a higiene das mãos diminuiu em cerca de 14% a quantidade de pessoas que tiveram infecção respiratória. O efeito é modesto, e a medida custa pouco.
Em casa, a criança aprende a lavar as mãos nestes momentos.
- ao chegar da escola;
- antes das refeições e do lanche;
- depois de usar o banheiro;
- depois de tossir, espirrar ou assoar o nariz.
Água e sabão vêm em primeiro lugar, e o álcool em gel serve quando não há pia por perto. O Ministério da Saúde também orienta tapar a boca e o nariz na hora da tosse e do espirro, usar lenço descartável para limpar o nariz e não dividir talheres, pratos, copos ou garrafas. Uma garrafinha de água própria na mochila evita a troca de copos com os colegas.
Como aumentar a imunidade da criança para não pegar gripe?
Não existe xarope, vitamina ou alimento que impeça a criança de pegar os vírus da escola. Contra doenças específicas, nada protege tanto quanto a vacina, e por isso o cartão de vacinas em dia vem em primeiro lugar quando o assunto é imunidade.
Brincar ao ar livre, no parquinho e na terra faz bem para o sistema imunológico da criança, e o banho e as mãos lavadas na volta para casa completam esse cuidado. O Ministério da Saúde também recomenda comer de forma equilibrada e beber líquidos.
O que dar para a criança não gripar?
Nenhum remédio substitui essas medidas, e o uso de qualquer remédio para prevenir viroses na criança depende de indicação médica. A vitamina C tomada todos os dias não evita os resfriados em quem já tem a quantidade adequada da vitamina no organismo. O que ela faz e o que não faz está na orientação sobre a vitamina C.
O Pelargonium sidoides é um fitoterápico com duas ações contra os vírus. Ele atrapalha a entrada do vírus nas células e a multiplicação do vírus dentro delas, e por isso pode ser usado na prevenção, com orientação médica, quando alguém da casa está com virose. Na criança que pega uma virose atrás da outra, o fitoterápico pode continuar por mais uma semana depois que ela melhora, para reduzir o risco de outra virose logo em seguida, no ambiente da escola. O remédio é vendido sem receita, e mesmo assim o uso é combinado com o médico, como mostra a orientação sobre Imunoflan® e Kaloba® (Pelargonium sidoides).
Para a criança com viroses de repetição, também existe o lisado bacteriano, um remédio feito de partículas de bactérias que estimula a imunidade contra bactérias e contra vírus. Ele passou a ser mais usado na prática clínica nesses casos e é sempre de prescrição médica, como explica a orientação sobre o lisado bacteriano para imunidade.
Antibiótico não previne gripe nem resfriado. As viroses respiratórias são combatidas pelo próprio organismo e costumam passar sozinhas, e o antibiótico só entra quando há uma complicação por bactéria.
Fumaça de cigarro em casa
Uma revisão de estudos publicada em 2012 mostrou que morar com alguém que fuma aumenta em cerca de 37% a chance de doença do ouvido médio na criança. Quando quem fuma é a mãe, esse aumento é ainda maior. O Ministério da Saúde também orienta evitar a exposição dos bebês à fumaça de cigarro para protegê-los das infecções respiratórias.
Vacinas que ajudam a proteger a criança que vai à escola
A vacina da gripe age contra o vírus influenza, que causa a gripe, e não contra os resfriados, causados por muitos outros vírus. Por isso a criança vacinada continua tendo resfriados. O que a vacina diminui é o risco de gripe grave e das complicações dela. A diferença entre gripe e resfriado está na orientação sobre o tratamento de gripes e resfriados.
O Ministério da Saúde indica a vacina contra a gripe para a criança a partir dos seis meses de idade, e ela precisa ser tomada todos os anos, porque o vírus muda e a vacina é refeita a cada temporada. O SUS faz todo ano a campanha nacional de vacinação contra a gripe. Quem recebe a vacina de graça, quantas doses tomar e as outras dúvidas estão na orientação sobre a vacina da gripe. Essas informações do Ministério da Saúde são de outubro de 2026 e podem mudar com o tempo.
O vírus sincicial respiratório, o VSR, dá sintomas parecidos com os de um resfriado e é uma das principais causas de bronquiolite em crianças pequenas. Pelo Ministério da Saúde, o SUS oferece a vacina contra o VSR para gestantes, para que o bebê já nasça com proteção nos primeiros meses, e anticorpos prontos para bebês prematuros ou com algumas doenças. A vacina contra o VSR para adultos aparece na orientação sobre a vacina Arexvy® contra o VSR. Essas informações são de outubro de 2026 e podem mudar com o tempo.
A coqueluche, que começa como um resfriado e pode deixar uma tosse por muito tempo, também tem vacina no calendário da criança, e a doença está explicada na orientação sobre coqueluche. A Sociedade Brasileira de Pediatria publicou o calendário de vacinação 2026/2027, que reúne as vacinas recomendadas em cada idade, entre elas a proteção contra o VSR na gestação e no bebê. Essas informações são de outubro de 2026 e podem mudar com o tempo.
Criança gripada pode ir para a escola?
Nos dias de febre, a criança fica em casa. O Ministério da Saúde orienta o afastamento da escola até 24 horas depois que a febre passa, sem uso de remédio para febre, e lembra que a gripe pode ser transmitida por até sete dias depois do início dos sintomas. Ficar em casa ajuda na recuperação e protege os colegas. Essas orientações do Ministério da Saúde são de outubro de 2026 e podem mudar com o tempo.
A tosse costuma ser o último sintoma a melhorar e pode continuar por um tempo mesmo com a criança já disposta. A duração de cada sintoma está explicada em quanto tempo dura uma gripe ou resfriado.
Nem toda febre da estação é gripe. Quando a febre é alta e vem com dor atrás dos olhos, dores nas juntas e muito cansaço, mas sem nariz entupido e sem dor de garganta, o quadro lembra outra doença, e a diferença está na orientação sobre como diferenciar dengue, gripe e covid.
Quando a gripe da criança precisa de avaliação
Quase toda gripe ou resfriado passa sem tratamento específico, porque o organismo tem como combater o vírus. Algumas vezes, porém, aparece uma complicação por bactéria, como sinusite, otite ou pneumonia, e adiar o tratamento nesses casos não é bom. Como perceber que a virose complicou está explicado na orientação sobre quando procurar avaliação na gripe.
Respiração rápida ou com esforço, lábios ou unhas arroxeados, dificuldade para mamar ou comer, com a criança bebendo bem menos líquido, e sonolência ou irritação fora do comum são sinais de casos mais graves que o Ministério da Saúde descreve nas infecções pelo VSR, vírus muito comum nas crianças pequenas. Diante deles, a criança precisa de avaliação médica sem demora.
Otite e sinusite aparecem na lista de complicações mais comuns da gripe do Ministério da Saúde. Por isso, dor de ouvido, a criança pequena que leva a mão à orelha e chora, e secreção saindo pelo ouvido pedem consulta. Na OtoCare, a consulta examina os ouvidos, o nariz e a garganta e, quando há suspeita, inclui o teste rápido que procura, numa só coleta, a covid-19 e os vírus influenza A e B, ou o teste rápido de estreptococo.
O que causa gripe de repetição na criança?
Na maior parte das vezes, a causa é a própria exposição na escola, dentro da média esperada para a idade. As viroses de 2026 também chegaram mais cedo e mais fortes, como mostra a orientação os vírus estão ficando mais fortes?
Alguns sinais, no entanto, pedem avaliação com otorrino mesmo fora da crise. Otites de repetição, ronco, respiração pela boca durante o sono, sono agitado e voz anasalada sugerem que pode haver uma obstrução no fundo do nariz, como o aumento da adenoide, que a consulta examina. Nesses casos, as infecções frequentes não vêm só da escola.
Com menos frequência, infecções graves ou que se repetem além do esperado apontam para uma falha da imunidade. Os sinais que levam a investigar essa possibilidade estão na orientação sobre sinais de alerta de imunodeficiência primária.
Como a escola e a creche ajudam na prevenção
A escola também participa da prevenção. Para as creches, o Ministério da Saúde recomenda medidas simples.
- lavar com frequência os brinquedos com água e sabão;
- usar lenço descartável para limpar o nariz e a boca das crianças;
- evitar o contato da criança doente com as outras;
- manter a criança com febre em casa até 24 horas depois que a febre passa, sem remédio para febre.
As orientações para escolas do Rio Grande do Sul acrescentam a ventilação das salas, com portas e janelas abertas, a limpeza das mesas e dos objetos de uso comum e pia com sabonete líquido e papel-toalha. A mesma publicação lembra que suspender as aulas não está indicado como forma de prevenção. A parte da família é avisar a escola quando a criança adoece e não mandá-la com febre.
Vídeo: o que fazer para prevenir gripes e resfriados na criança que vai à escola
O vídeo mostra as duas formas de transmissão dos vírus, por que a criança em idade escolar pega tantas gripes e resfriados e a rotina de chegada em casa, com a troca do uniforme, o banho e a lavagem do nariz.
Perguntas frequentes
Se um colega da sala está gripado, a criança precisa faltar à escola?
Não. Pelas orientações para escolas do Centro Estadual de Vigilância em Saúde do Rio Grande do Sul, quem teve contato com um colega gripado e não tem sintomas continua indo às aulas. O afastamento vale só para quem apresenta sintomas, e a família fica atenta a febre, tosse e coriza nos dias seguintes. Essas orientações são de outubro de 2026 e podem mudar com o tempo.
Como evitar que o bebê fique doente na creche?
Para os bebês, o Ministério da Saúde orienta manter as vacinas e as consultas de rotina em dia, manter o aleitamento materno sempre que possível, evitar aglomerações e o contato próximo com pessoas gripadas e não expor o bebê à fumaça de cigarro. A forma de lavar o nariz do bebê é diferente da usada na criança maior e está na orientação sobre lavagem nasal em crianças.
Frio e vento causam gripe na criança?
Não. Gripe e resfriado vêm de vírus. Nos meses frios e chuvosos, as salas e as casas ficam mais fechadas e menos ventiladas, e isso facilita a passagem dos vírus de uma pessoa para outra, segundo as orientações para escolas do Rio Grande do Sul. Por isso as gripes aumentam no outono e no inverno, e não porque a criança tomou vento.
Referências
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