Lisado bacteriano (Broncho-Vaxom® e Paxoral®): para que serve, como tomar e se funciona

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Um remédio que estimula a imunidade e regula a inflamação

Imagine um remédio que melhora a imunidade contra vírus e bactérias e ainda regula o sistema imunológico, evitando inflamações exageradas, como as da rinite alérgica. Os lisados bacterianos, vendidos no Brasil como Broncho-Vaxom® e Paxoral®, têm essas características, e estudos novos mostram benefícios além do que já se conhecia sobre eles.

Por muito tempo, o lisado foi lembrado principalmente para quem não para de ter infecções bacterianas, como uma otite, depois uma sinusite, depois uma amigdalite, às vezes uma pneumonia, e um antibiótico atrás do outro. Reduzir o número de infecções e, com isso, a quantidade de antibióticos continua sendo um dos objetivos. Hoje se sabe que ele também estimula a defesa contra vírus e ajuda a regular inflamações, e o seu uso na prática clínica tem crescido.

O tratamento é de prescrição médica e faz sentido para quem tem infecções de repetição ou uma alergia respiratória difícil de controlar, e não para quem teve um episódio isolado.

Dra. Larissa Vilela, de blazer cinza, em um laboratório com microscópio e tubos de ensaio, ao lado de um quadro escrito lisado bacteriano e de uma caixa de Broncho-Vaxom® 3,5 mg granulado

O lisado é tomado por 3 meses, pode ser usado a partir dos 6 meses de idade, e os efeitos colaterais são raros e, em geral, leves.

O que é o lisado bacteriano e como ele age

O lisado bacteriano é feito de partículas muito pequenas das principais bactérias que causam otites, sinusites, amigdalites e pneumonias, com oito tipos de bactérias e 21 cepas. Não são bactérias vivas, e sim fragmentos delas. No Brasil, o Broncho-Vaxom® e o Paxoral® são idênticos, com a mesma molécula, chamada OM-85.

Antigamente, acreditava-se que ele protegia apenas contra infecções bacterianas. Os estudos mostravam uma boa redução dos casos de pneumonia, de otite e principalmente de amigdalite, e a indicação clássica era a amigdalite de repetição. Com os estudos mais recentes, a molécula passou a ser muito mais bem entendida.

Hoje ele é classificado como pós-biótico e age como imunomodulador, ou seja, regula as defesas do corpo. Os probióticos são bactérias boas, e os prebióticos são o alimento delas. Os pós-bióticos são partículas de bactérias que estimulam as defesas do intestino sem que a pessoa ingira a bactéria viva.

Em contato com esses fragmentos, o sistema imunológico é estimulado em várias frentes. Quando a pessoa depois é exposta a essas bactérias, as defesas já estão preparadas para combatê-las com eficiência, e a infecção tende a não se instalar. Funciona de modo parecido com uma vacina, só que tomada pela boca e com ação no intestino.

No intestino, essas partículas estimulam as células de defesa da parede intestinal, e por meio delas a imunidade do corpo todo. Os estudos mostram que, além das bactérias, o lisado estimula a imunidade inata, a primeira barreira contra todos os microrganismos, incluindo vírus e até fungos. Assim como já se fala do eixo intestino-cérebro, hoje se conhece uma ligação direta entre o intestino e as vias respiratórias, o eixo intestino-pulmão, e, segundo os estudos, por ela o lisado também ajuda a regular inflamações, como a rinite alérgica e a bronquite alérgica.

Durante muito tempo, alguns médicos questionaram como partículas de bactéria tomadas pela boca poderiam ajudar a imunidade, já que pareciam não ser absorvidas e acabariam eliminadas pelo intestino. Hoje esse mecanismo é mais bem entendido, com o intestino visto como um grande regulador do organismo, capaz de modular as inflamações do corpo como um todo.

Para prevenir gripes e resfriados nas crianças, também valem as medidas da orientação sobre prevenir gripes e resfriados em crianças que vão à escola. Para os dias de virose, há também o fitoterápico de uso curto explicado na orientação sobre Pelargonium sidoides, o Imunoflan® e o Kaloba®.

Como tomar: o ciclo de 3 meses

O tratamento costuma durar três meses, em ciclos:

  • 1º mês: 10 dias tomando o medicamento e 20 dias de pausa.
  • 2º mês: mais 10 dias de medicamento e 20 dias de pausa.
  • 3º mês: mais 10 dias de medicamento.

Pode ser usado em crianças a partir dos 6 meses de idade, adultos e idosos. A apresentação e a dose variam conforme a idade e seguem a prescrição.

Funciona? O que os estudos mostram

Um dos estudos mais citados foi publicado em 1991. Foi um ensaio randomizado, duplo-cego e com placebo, com 116 crianças e adolescentes de 6 meses a 19 anos que tinham infecções respiratórias e de ouvido, nariz e garganta de repetição. O tratamento durou 90 dias, e as crianças foram acompanhadas por mais 90.

  • Sem nenhuma infecção nos 180 dias: 39,5% das crianças que tomaram o lisado, contra 16,5% das que tomaram placebo.
  • Sem precisar de antibiótico: 44% com o lisado, contra 23,5% com placebo.
  • Até 6 anos de idade: 34% ficaram sem infecção com o lisado, contra 3,5% com placebo, e 37% não precisaram de antibiótico, contra 10%.

Uma revisão de 2022, que reuniu 72 estudos com placebo sobre imunoestimulantes em crianças, entre eles o lisado bacteriano, encontrou redução média de cerca de 40% nas infecções respiratórias em crianças suscetíveis. Os próprios autores classificam a qualidade do conjunto de estudos como baixa, pela diferença entre eles. O resultado é favorável, mas a indicação é individual.

Efeitos colaterais

Os efeitos colaterais são raros: estima-se que 3% a 4% dos pacientes tenham algum, geralmente leve. Os descritos são:

  • Febre persistente: é possível e, quando acontece, o tratamento é interrompido. A febre cessa depois da suspensão.
  • Sintomas gástricos: dor abdominal, diarreia e náusea. Também são motivo para parar o tratamento.

Não há efeitos colaterais graves descritos com frequência. Mesmo sendo fácil de encontrar nas farmácias, o lisado bacteriano precisa de avaliação e prescrição, para confirmar se é uma boa opção para o caso.

Pode repetir o tratamento?

Em geral, é feito um único ciclo de 3 meses, e a maioria dos pacientes melhora. Se, depois de um tempo, as infecções voltarem a se repetir, o tratamento pode ser refeito.

Ainda não existe regra padronizada sobre de quanto em quanto tempo repetir. Há estudos que descrevem um novo ciclo de 3 meses depois de 6 meses, mas não há consenso. Por isso, o mais comum é fazer um ciclo e acompanhar a evolução para decidir se é preciso refazê-lo.

Quando as infecções se repetem muito, também vale investigar a causa. A sinusite que volta tem um roteiro próprio, descrito na orientação sobre sinusite de repetição, e alguns sinais pedem investigação da imunidade, como explica a orientação sobre imunodeficiência primária. O papel do antibiótico em cada infecção está na orientação sobre se otite e sinusite precisam de antibiótico.

Broncho-Vaxom® na rinite alérgica e na asma

Pela ação reguladora sobre a inflamação, o lisado bacteriano também passou a ser usado, junto com o tratamento da alergia, em pessoas alérgicas que, mesmo tratadas, não conseguem controlar bem a doença. Na prática clínica, ele vem sendo testado nesses casos, e os estudos são favoráveis. Uma metanálise de 2020 em crianças mostrou menos episódios de chiado e menos crises de asma com o lisado, além de menor uso de antibiótico. A relação entre o nariz e o pulmão está na orientação sobre asma e rinite alérgica.

Uma análise crítica de 2024, que reuniu as revisões publicadas, considerou os estudos muito diferentes entre si e não chegou a uma recomendação forte. O uso do lisado na alergia respiratória é avaliado caso a caso, na consulta com otorrino na OtoCare.

Há também estudos com o lisado bacteriano em spray nasal, para estimular a imunidade local do nariz. Essa forma ainda está em pesquisa e aponta novidades para o tratamento da rinite, das sinusites e das infecções respiratórias.

Vídeo: imunidade com pós-bióticos, o Broncho-Vaxom® e o Paxoral®

O vídeo explica por que o lisado bacteriano passou a ser classificado como pós-biótico, como ele estimula a imunidade a partir do intestino contra bactérias, vírus e até fungos, o eixo intestino-pulmão e o uso na rinite alérgica.

Perguntas frequentes

Criança pode tomar lisado bacteriano?

Pode, a partir dos 6 meses de idade. No estudo de 1991, o benefício foi ainda maior nas crianças de até 6 anos.

Lisado bacteriano previne gripe e resfriado?

Pode ajudar. Pesquisas recentes indicam que o lisado também estimula a imunidade inata contra vírus, e ele passou a ser indicado também para quem tem viroses de repetição. O efeito é preventivo, ao longo dos meses.

Qual é a diferença entre Broncho-Vaxom® e Paxoral®?

Nenhuma. Os dois são idênticos, com a mesma molécula, o OM-85. A apresentação e a dose seguem a prescrição.

Em quanto tempo o lisado bacteriano faz efeito?

O tratamento é preventivo e dura 3 meses, com 10 dias de remédio em cada mês. O resultado aparece na redução das infecções ao longo dos meses seguintes, e não como alívio imediato de uma infecção em curso.

Broncho-Vaxom® é antibiótico?

Não. Ele não mata bactérias. São fragmentos de bactérias que preparam a imunidade, e por isso o objetivo é justamente reduzir a necessidade de antibióticos ao longo do tempo.

Lisado bacteriano é uma vacina?

Não é uma vacina, mas age de forma parecida. Em vez de uma injeção, as partículas de bactéria são tomadas pela boca e estimulam a imunidade a partir do intestino. Ele não faz parte do calendário de vacinação e não substitui as vacinas indicadas para a idade, como a da gripe.

Qual a diferença entre o Broncho-Vaxom® de 7 mg e o de 3,5 mg?

A diferença é a quantidade de lisado. Segundo a bula, a cápsula de 7 mg é a apresentação para adultos, e a de 3,5 mg, em cápsula ou em sachê, é a infantil, com metade da quantidade. Qual apresentação usar, como tomar e por quanto tempo é definido na prescrição, conforme a idade e o motivo do tratamento.

Qual a diferença entre lisado bacteriano, Kaloba® e montelucaste?

São remédios com papéis diferentes. O lisado bacteriano é tomado em ciclos ao longo de meses e prepara a imunidade para diminuir as infecções que se repetem. O Kaloba®, assim como o Imunoflan®, é um fitoterápico de uso curto, nos dias da virose, para aliviar os sintomas, ou quando alguém da casa está gripado, como explica a orientação sobre Imunoflan® e Kaloba®. O montelucaste é um remédio para alergia, que bloqueia a ação dos leucotrienos, substâncias da inflamação, e é usado no controle da asma e da rinite alérgica. Em quem tem alergia difícil de controlar, o lisado pode entrar junto com o tratamento da alergia, sempre com prescrição.

Lisado bacteriano tem que ser tomado em jejum?

Sim. A bula orienta tomar com o estômago vazio, em jejum. Se uma dose for esquecida, a bula orienta tomar assim que lembrar, a não ser que já esteja perto da próxima, e nunca tomar duas doses juntas para compensar.

Lisado bacteriano ajuda na sinusite e na amigdalite de repetição?

Ajuda a prevenir as crises quando elas se repetem, e esse é um dos usos principais do lisado. Antes dos estudos mais recentes, ele era indicado sobretudo para quem tinha amigdalite de repetição. Em um estudo com crianças que tinham sinusite crônica, as que tomaram o lisado quando a sinusite estava controlada tiveram menos crises ao longo de um ano. Em outro, que revisou o histórico de crianças com amigdalite de repetição, a maioria teve menos episódios depois do tratamento. Ele não é remédio para aliviar a dor de garganta, e o papel dele é diminuir as próximas crises.

Pode tomar lisado bacteriano gripado ou com febre?

O lisado não é remédio para gripe nem para febre, e o uso mais comum é preventivo, fora das crises. A bula também descreve o uso como auxiliar durante uma infecção respiratória, inclusive junto com o antibiótico, e começar o tratamento nesse momento é uma decisão da prescrição. Já a febre persistente que surge durante o tratamento pode ser efeito do próprio lisado e é motivo para interrompê-lo.

Como dar o lisado bacteriano para criança? Pode abrir a cápsula ou misturar no leite?

Pode. Segundo a bula, quando a criança não consegue engolir a cápsula, ela pode ser aberta e o pó misturado em um pouco de água, suco de frutas ou leite. Existe também a apresentação infantil em sachê, mais adaptada às crianças, que é dissolvida em pouca água e, se a criança tiver dificuldade, em um pouco de suco, leite, iogurte ou outro alimento.

Lisado bacteriano é corticoide? É natural ou homeopático?

Não é corticoide e não contém corticoide. Também não é fitoterápico nem homeopático. É um medicamento feito só de fragmentos de bactérias, que não estão vivas, e hoje é classificado como pós-biótico. Ele estimula as defesas a partir do intestino, o que também ajuda a regular inflamações, mas não tem a ação nem os efeitos de um corticoide.

Lisado bacteriano precisa de receita? É remédio controlado?

Não é remédio controlado. A bula traz venda sob prescrição médica, sem retenção da receita, e o lisado é fácil de encontrar nas farmácias, que em geral não exigem a receita na compra. Mesmo assim, o recomendado é usar só com prescrição, depois da avaliação que confirma se o tratamento faz sentido para o caso.

Grávida ou quem está amamentando pode tomar lisado bacteriano?

A bula recomenda evitar, por precaução. Na gravidez, há poucos dados sobre o uso, e os estudos em animais não mostraram efeitos prejudiciais. Na amamentação, não há estudos. Por isso, a bula orienta não usar o remédio na gravidez ou na amamentação sem orientação médica, e a decisão é tomada caso a caso na consulta.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Lisado bacteriano (Broncho-vaxom® e Paxoral): para que serve, como usar, colaterais, funciona? YouTube, 11 set. 2024. 1 vídeo (8 min 7 s). Disponível em: https://youtu.be/bkeUXxdgGFU. Acesso em: 1 out. 2026.
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Infecções de repetição em Brasília

Se as otites, sinusites ou amigdalites se repetem e os antibióticos viraram rotina, a causa e a prevenção podem ser avaliadas na consulta com otorrino em Brasília, incluindo a indicação do lisado bacteriano. A Clínica OtoCare atende adultos e crianças no Setor Noroeste.

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