Otite e sinusite precisam de antibiótico? O que ele entrega, o que ele cobra e quando é indispensável

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Otite e sinusite precisam de antibiótico? O que ele entrega, o que ele cobra e quando é indispensável

Na maioria das vezes, não. Otite média aguda e rinossinusite aguda começam por inflamação e obstrução da drenagem, quase sempre depois de um quadro viral, e a maior parte se resolve sem antibiótico. O que quase nunca aparece escrito é o tamanho exato do que o antibiótico entrega e o tamanho exato do que ele cobra — e é isso que decide a conversa.

Esta página traz os dois números lado a lado na otite, os subgrupos de criança em que a resposta muda, o que a analgesia entrega enquanto se observa, e o preço medido do antibiótico dentro do próprio paciente: no que ele carrega de bactéria resistente e no que acontece com o intestino depois. E traz a lista curta das situações em que ele deixa de ser opcional.

Dra. Larissa Vilela explicando quando o antibiótico é realmente necessário na sinusite e na otite

Esta página não prescreve antibiótico nem diz para suspender nenhum tratamento em andamento. Nenhum medicamento é nomeado aqui, e a decisão de tratar ou observar é sempre de quem examina o paciente — no caso da criança, do pediatra ou do otorrinolaringologista que viu o tímpano.

Por que a mesma pergunta serve para o nariz e para o ouvido

São duas doenças com nomes diferentes e a mesma mecânica. Nos dois casos existe uma cavidade revestida de mucosa que precisa ventilar e drenar por um canal estreito: os seios da face drenam pelos seus óstios, e o ouvido médio ventila pela tuba auditiva. Nos dois casos um vírus chega, a mucosa incha, o canal fecha e a secreção fica presa. A partir daí a secreção engrossa, muda de cor, aumenta de volume e dói — e nada disso, sozinho, é sinal de bactéria.

A cor da secreção é o mal-entendido mais persistente do assunto. O amarelo e o verde vêm de uma enzima liberada pelos glóbulos brancos que chegaram para combater a infecção, e eles chegam do mesmo jeito quando o agente é um vírus. A secreção esverdeada é sinal de que o corpo está reagindo, não de qual é o agente.

Como a mecânica é a mesma, o alvo do tratamento inicial é o mesmo nas duas: desinflamar e devolver a drenagem. O antibiótico não faz nem uma coisa nem outra — ele mata bactéria, e só ajuda quando há bactéria em quantidade suficiente para importar. Por isso a pergunta certa nunca é «sinusite pede antibiótico?», e sim «este quadro, nesta pessoa, neste dia, pede antibiótico?».

O que o antibiótico entrega na otite média aguda

Esta é a parte da resposta que falta em português. A revisão sistemática que reúne os ensaios clínicos de antibiótico contra placebo na otite média aguda em crianças chegou, em sua versão mais recente, a 13 ensaios com 3.401 crianças, avaliados como de baixo risco de viés. Os resultados são específicos por prazo, e o prazo muda tudo.

Nas primeiras 24 horas, o antibiótico não reduz a dor. Nenhuma diferença em relação ao placebo, com evidência de alta certeza. Isso é decisivo na prática, porque as primeiras 24 horas são exatamente as horas em que a criança está pior e em que a família decide correr atrás de uma receita. O remédio que se busca com pressa é justamente o que não age no período de pressa.

Entre o segundo e o terceiro dia, aparece o benefício: cerca de um terço a menos de crianças ainda com dor. Traduzido para a única forma que permite comparar benefício com dano, isso significa vinte crianças tratadas para que uma a menos esteja com dor. As outras dezenove ou já teriam melhorado sozinhas, ou não melhoraram por causa dele.

Do lado do dano, a mesma revisão mede o que acontece com quem tomou: vômito, diarreia ou reação de pele em uma criança a mais a cada catorze tratadas. Também com evidência de alta certeza.

Desfecho na otite média agudaQuantas crianças é preciso tratar
Uma a menos com dor em 24 horasNenhum benefício medido
Uma a menos com dor entre o segundo e o terceiro dia20
Uma a menos com perfuração do tímpano33
Uma a menos com otite no ouvido oposto11
Uma a mais com vômito, diarreia ou reação de pele14
Benefício e dano na mesma escala, a partir da revisão sistemática com 3.401 crianças.

A leitura honesta dessa tabela não é «antibiótico não serve». É que, no quadro médio, o dano é mais provável que o benefício — e que existem desfechos raros e sérios, como a perfuração, em que ele ajuda. A revisão também mostra o que o antibiótico não faz: não reduz alteração de tímpano em seis a oito semanas, não reduz alteração em três meses e não reduz recorrência tardia. Complicações graves foram raras e não diferiram entre os grupos.

Quem realmente ganha: os subgrupos que mudam a resposta

A média esconde crianças muito diferentes. A meta-análise que reuniu dados individuais de 1.643 crianças de seis ensaios, entre seis meses e doze anos, foi feita exatamente para encontrar quem se beneficia mais — e encontrou.

Em crianças menores de dois anos com otite dos dois lados, 55% das que não receberam antibiótico ainda tinham dor, febre ou ambos entre o terceiro e o sétimo dia, contra 30% das tratadas. A diferença é grande, e o número de crianças a tratar para uma se beneficiar cai para quatro. Em crianças com secreção saindo pelo ouvido, a otorreia, o número cai para três. Já nas crianças sem otorreia, sobe para oito.

Perfil da criançaCrianças a tratar para uma se beneficiarLeitura
Menor de dois anos, otite nos dois ouvidos4Benefício claro; o antibiótico costuma ser indicado
Com secreção saindo pelo ouvido3O maior benefício da lista
Sem secreção saindo pelo ouvido8Benefício modesto; observar é defensável
Quadro leve, fora desses perfis20Observação com reavaliação marcada
Da meta-análise com dados individuais de 1.643 crianças e da revisão sistemática geral.

É por isso que a diretriz pediátrica americana, que organizou esse assunto em 2013 e continua sendo a referência do tema, não trata a otite como uma coisa só: recomenda antibiótico para os quadros graves e para os menores de dois anos com otite bilateral, e oferece a observação como opção legítima, com reavaliação combinada, para a criança maior com quadro leve e unilateral. Não é permissividade; é o mesmo raciocínio da tabela acima, escrito como recomendação.

E na sinusite? A conta já está feita, e está em outra página

Do lado do nariz, a evidência em adultos é ainda mais desfavorável ao uso amplo, e vem da revisão sistemática que reuniu os ensaios de antibiótico contra placebo na rinossinusite aguda. Ela mede as duas coisas na mesma escala, benefício e dano, e a conclusão dos autores é explícita sobre o quadro não complicado.

Essa conta, com os números e com os critérios que separam o quadro viral prolongado do bacteriano, já está detalhada na orientação sobre sinusite aguda viral ou bacteriana. Reproduzi-la aqui seria repetição. Quando a decisão já foi tomada e a dúvida passa a ser qual antibiótico, por quantos dias e o que fazer se o prazo terminar sem melhora, o assunto está na orientação sobre antibiótico para sinusite. E quando a mesma cena se repete várias vezes por ano, o problema mudou de natureza e está descrito na página sobre sinusite de repetição.

Vale só registrar uma coisa que o exame de imagem não resolve: pedir um raio-x não separa viral de bacteriano, e o motivo está na orientação sobre raio-x de face para sinusite.

Observar não é deixar a criança com dor

A palavra «observação» costuma ser ouvida como «não fazer nada», e é aí que a conversa desanda. Observação, em otite, quer dizer tratar a dor de verdade e reavaliar em prazo combinado. A dor é o sintoma central do quadro, e é sobre ela que existe tratamento eficaz desde a primeira hora — ao contrário do antibiótico.

A revisão sistemática dedicada à analgesia na otite média aguda reuniu quatro ensaios com 411 crianças. Contra placebo, em 48 horas, a proporção de crianças ainda com dor foi de 10% com paracetamol contra 25%, e de 7% com ibuprofeno contra os mesmos 25%. São seis a sete crianças tratadas para uma a menos com dor — melhor do que o antibiótico entrega no mesmo intervalo, e sem o custo dele. A comparação entre os dois analgésicos, e o efeito de combiná-los, permanece incerta.

Observar sem reavaliação marcada não é observação, é abandono. A conduta expectante só é segura quando existe data combinada para reavaliar, orientação escrita do que vigiar e caminho claro para voltar antes se algo mudar. Sem isso, a decisão de não tratar deixa de ser conduta e vira sorte.

A receita adiada: o que se mediu quando ela foi testada

Existe uma terceira via entre prescrever e não prescrever: entregar a receita com a orientação de só usá-la se não houver melhora em um prazo. Ela foi testada, e os resultados são úteis para quem tem medo de sair do consultório sem nada na mão.

No ensaio clínico que comparou as duas estratégias em 315 crianças com otite média aguda, os sintomas se resolveram em média em três dias nos dois grupos. Quem recebeu antibiótico imediatamente teve a doença cerca de um dia mais curta e menos noites mal dormidas, mas o benefício apareceu depois das primeiras 24 horas, quando o desconforto já estava cedendo. No grupo da receita adiada, apenas 36 das 150 famílias chegaram a usar o antibiótico — pouco menos de uma em cada quatro — e 77% se disseram muito satisfeitas. Diarreia foi menos frequente nesse grupo, 9% contra 19%.

A revisão sistemática que reuniu doze estudos e 3.968 participantes com infecções respiratórias confirma o padrão em escala maior. Comparadas as três estratégias, o uso de antibiótico foi de 93% com prescrição imediata, 30% com receita adiada e 13% sem prescrição, sem diferença nas taxas de complicação. A satisfação praticamente não mudou: 91% com prescrição imediata contra 86% com receita adiada.

EstratégiaAntibiótico efetivamente usadoSatisfação
Prescrição imediata93%91%
Receita adiada30%86%
Sem prescrição, com orientação de retorno13%82%
Da revisão sistemática com 3.968 participantes com infecção respiratória.

A conclusão dos revisores é direta e vale ser lida como é: quando o médico se sente seguro para não prescrever, não prescrever com orientação de retorno é o que menos gasta antibiótico mantendo os mesmos desfechos; quando não se sente seguro, a receita adiada é um meio-termo aceitável, e ainda assim corta dois terços do consumo.

O primeiro preço: a resistência acontece dentro de quem tomou

Resistência bacteriana costuma ser apresentada como um problema de humanidade, coisa de manchete e de projeção para 2050. Isso é verdade e é insuficiente, porque deixa de fora o que interessa a quem está decidindo: a resistência começa no próprio paciente, e dura mais do que se imagina.

A revisão sistemática com meta-análise que mediu isso reuniu 24 estudos de pacientes que receberam antibiótico na atenção primária. Nos estudos de bactérias do trato respiratório, com 2.605 participantes, a chance de a bactéria daquele paciente estar resistente ao antibiótico que ele tomou foi 2,4 vezes maior — e continuava 2,4 vezes maior doze meses depois. Nos estudos de trato urinário, com 14.348 participantes, o efeito foi de 2,5 vezes nos primeiros dois meses, ainda 1,33 vez em doze meses.

O único estudo prospectivo que acompanhou a curva ao longo do tempo mostra o formato do efeito, e ele é o de uma maré que baixa devagar: a chance de resistência era 12,2 vezes maior uma semana depois, 6,1 vezes em um mês, 3,6 vezes em dois meses e ainda 2,2 vezes em seis meses.

Traduzindo: quem tomou antibiótico neste mês carrega, no próprio corpo, bactérias mais difíceis de tratar pelos próximos meses. Se precisar de antibiótico de novo nesse intervalo — e é justamente quem trata cada episódio que costuma precisar de novo — a chance de o primeiro esquema falhar é maior. E é essa falha que empurra para o antibiótico seguinte, mais amplo, que cobra mais caro.

Há um corolário incômodo aqui: a resistência também é coletiva. Quem nunca usou antibiótico convive com as bactérias selecionadas pelo uso de quem está por perto, e por isso pode adoecer com uma bactéria resistente sem nunca ter contribuído para selecioná-la. A decisão individual de tratar sem indicação é, nesse sentido, uma decisão que não fica só com quem a toma.

O segundo preço: o intestino

O antibiótico não distingue a bactéria que está causando a doença das que estão vivendo em paz no intestino. Essa comunidade — a microbiota intestinal — participa da digestão, da produção de algumas vitaminas, da barreira contra micro-organismos indesejados e da regulação do sistema imune. Bagunçá-la tem consequências, e a pergunta útil é: quanto, e por quanto tempo?

Três estudos respondem partes diferentes disso, e é importante não confundi-los.

EstudoO que foi feitoO que se mediu
Adultos saudáveis, sequenciamento12 homens saudáveis receberam quatro dias de um esquema com três antibióticos de último recurso, acompanhados por seis mesesA composição voltou perto da original em cerca de um mês e meio; nove espécies comuns, presentes em todos antes, seguiam indetectáveis na maioria após 180 dias
Exposição única, dois anos de seguimentoSete dias de um antibiótico, com amostras em nove momentos ao longo de dois anosQueda acentuada e persistente da diversidade de um grupo bacteriano e aumento duradouro de genes de resistência nas fezes, ainda presentes ao fim dos dois anos
Coorte populacional com prontuário eletrônico2.509 pessoas com metagenoma intestinal e histórico completo de medicamentos; 328 delas com uma segunda coletaO efeito de antibióticos usados anos antes ainda é detectável, e é aditivo: quanto mais cursos ao longo da vida, mais forte a marca
Três desenhos diferentes que respondem a três perguntas diferentes sobre a mesma coisa.

A síntese honesta desses três resultados é mais interessante que qualquer um deles sozinho. A microbiota de um adulto saudável é resiliente: ela volta. O que não volta por completo é uma parte dela — algumas espécies somem e não são recolonizadas, e o repertório de genes de resistência que ficou para trás dura muito mais que o tratamento. E, sobretudo, o efeito é cumulativo: um curso deixa marca pequena; muitos cursos ao longo dos anos deixam uma marca que ainda aparece anos depois.

Isso muda o peso da decisão para um perfil específico de paciente — justamente aquele que aparece no consultório de otorrino. Quem tem episódios repetidos de sinusite ou de otite e trata cada um deles com antibiótico não está tomando uma decisão por vez: está somando exposições. É esse paciente, e não o do episódio isolado, que tem mais a ganhar em rever quando o antibiótico é mesmo necessário.

Os dois números mais assustadores merecem contexto

Duas cifras circulam sempre que esse assunto aparece: dez milhões de mortes por ano por resistência bacteriana em 2050, e oito anos para o intestino se recuperar de um antibiótico. As duas apontam para uma direção correta. As duas, quando se vai à fonte, dizem algo um pouco diferente do que se repete.

O que se repeteO que a fonte diz
Dez milhões de mortes por ano em 2050É a projeção de um relatório encomendado em 2016, feita com dados esparsos. O estudo que depois mediu o problema em 204 países estimou, para 2021, 4,71 milhões de mortes associadas à resistência e 1,14 milhão diretamente atribuíveis. A previsão para 2050 é de 1,91 milhão atribuíveis e 8,22 milhões associadas
Oito anos para a microbiota se recuperarNenhum estudo mediu «recuperação» em oito anos. O que existe é uma coorte populacional em que a assinatura de antibióticos usados anos antes ainda é detectável no intestino, de forma proporcional ao número de cursos. Isso é resíduo detectável, não intestino destruído por oito anos
A ordem de grandeza muda; a direção do argumento, não.

Nada disso enfraquece a conclusão. Um milhão e cem mil mortes por ano diretamente atribuíveis a bactérias resistentes é uma catástrofe silenciosa que já está acontecendo, não uma previsão. O mesmo estudo estima que 92 milhões de mortes poderiam ser evitadas entre 2025 e 2050 com melhor cuidado das infecções graves e acesso adequado a antimicrobianos, e a Organização Mundial da Saúde classifica a resistência entre as maiores ameaças à saúde pública global.

Mas o número exagerado tem um custo próprio. Quando a cifra que sustenta um argumento não resiste à primeira conferência, o argumento inteiro fica frágil diante de quem confere — e este é um argumento que não precisa de exagero para se sustentar.

O Brasil dentro dessa conta

Falta quase sempre o dado local. Ele existe. O estudo populacional que analisou sete anos de dispensação em farmácias privadas brasileiras reuniu 259 milhões de registros e mediu o consumo de antibióticos sistêmicos em dose diária definida por mil habitantes por dia: o indicador variou entre 9,8 e 12,9 no período, sem tendência de queda, com penicilinas e macrolídeos respondendo por cerca de 28% do total cada. O Brasil é descrito ali como o maior consumidor de antibióticos entre os países latino-americanos.

Isso aconteceu depois das resoluções que passaram a exigir retenção de receita para a venda de antibiótico no país, em 2010 e 2011. O estudo que avaliou o efeito dessas medidas em uma região metropolitana encontrou exatamente o que se esperaria de uma regra que muda o balcão mas não muda a prescrição: as vendas caíram no ano seguinte à regra — cerca de 19% para um grupo de antibióticos, 13% e 11% para outros dois — e, no mesmo período, a resistência da bactéria mais comum das infecções urinárias comunitárias continuou subindo para quase todas as classes.

A leitura é desconfortável e importante: restringir a venda não resolve sozinho. O que decide o consumo é a prescrição, e o que decide a prescrição é uma conversa de consultório entre alguém que quer melhorar rápido e alguém que precisa explicar por que o remédio pedido não vai fazer isso.

Quando o antibiótico não é opcional

Uma página que gasta oito seções mostrando o preço do antibiótico tem obrigação de ser igualmente clara sobre quando ele é necessário. Recusar antibiótico indicado é tão perigoso quanto tomar antibiótico sem indicação, e existe uma lista curta em que a discussão simplesmente não se aplica.

  • Faringoamigdalite bacteriana confirmada. É a indicação mais consensual em otorrinolaringologia, e a única que não admite conduta expectante depois de confirmada.
  • Bebê pequeno com otite média aguda. Quanto menor a criança, menor a margem para observar; abaixo de seis meses a conduta expectante não é oferecida.
  • Otite dos dois lados em menor de dois anos, ou com secreção saindo pelo ouvido. São os subgrupos com benefício medido e claro.
  • Quadro grave. Dor intensa, prostração, febre alta persistente ou aparência de doente sério tiram o caso da rotina, em qualquer idade.
  • Piora depois de melhora, ou ausência de melhora no prazo combinado. É a linha que separa a evolução esperada da que não é.
  • Suspeita de complicação, imunidade comprometida ou doença de base relevante. Aqui o raciocínio de risco e benefício é inteiramente outro.

Uma vez indicado, o antibiótico deve ser usado exatamente como foi prescrito. Vale reparar que as duas coisas medidas nas seções acima — a resistência que fica no próprio paciente e a marca que fica no intestino — dependem de quanto antibiótico o corpo viu, e não de quem decidiu parar antes. Quem interrompe ao se sentir melhor não economiza nada desse preço: paga o mesmo e ainda arrisca não resolver o que motivou o tratamento.

Sinais de alarme: avaliação no mesmo dia

Procure atendimento imediato, sem esperar prazo de observação, diante de: inchaço, vermelhidão ou dor ao redor do olho; olho que parece saltado ou dificuldade de movimentá-lo; alteração da visão; dor, vermelhidão ou inchaço atrás da orelha, com a orelha empurrada para fora; paralisia de um lado do rosto; dor de cabeça intensa e diferente do habitual; rigidez de nuca; confusão, sonolência excessiva ou vômitos repetidos; ou febre alta com aparência de doente grave. Em bebê pequeno, qualquer febre pede avaliação.

Os sinais em torno do olho merecem uma nota, porque são os mais frequentes dessa lista e os mais confundidos com um quadro banal. A distinção entre secreção ocular comum e o começo de uma complicação da rinossinusite está detalhada na orientação sobre catarro saindo pelos olhos da criança.

Como a decisão se organiza na prática

SituaçãoConduta habitual
Criança maior, otite de um lado, quadro leveAnalgesia e observação com reavaliação marcada em 48 a 72 horas
Menor de dois anos com otite dos dois ladosAntibiótico, pelo benefício medido no subgrupo
Secreção saindo pelo ouvidoAntibiótico, o maior benefício da lista
Bebê pequeno, ou qualquer idade com quadro graveAvaliação e tratamento, sem conduta expectante
Sintomas de nariz há poucos dias, melhorandoTratar a inflamação e a obstrução; antibiótico não muda o curso
Sintomas de nariz que pioraram depois de melhorarReavaliação médica; é aqui que os critérios de bacteriano se aplicam
Episódios repetidos ao longo do anoInvestigar a causa da repetição em vez de tratar cada episódio
Qualquer sinal de alarmeServiço de urgência, no mesmo dia
Resumo prático; a avaliação de quem examina o paciente prevalece sobre qualquer tabela.

Enquanto a inflamação cede, o que ajuda de verdade é o que devolve a drenagem e alivia o sintoma: analgesia adequada, hidratação e limpeza nasal. Na criança, a técnica está descrita na orientação sobre lavagem nasal em crianças, e o receio de que ela cause otite — comum e infundado quando a técnica está correta — está tratado na página sobre lavagem nasal e otite. Quando a queixa que sobra é tosse que não passa depois do quadro, a explicação está na orientação sobre tosse de sinusite.

Do lado da prevenção, o que reduz consumo de antibiótico é reduzir episódio. Menos quadros virais significa menos otites e menos sinusites, e as duas medidas com efeito medido estão descritas nas orientações sobre vacina da gripe e sobre prevenir gripes e resfriados em crianças na escola.

Vídeo: antibiótico para sinusite e otite, o que considerar antes

No vídeo abaixo, a Dra. Larissa Vilela explica por que sinusite e otite começam por inflamação e obstrução, e por que o antibiótico é a última opção na maioria dos quadros — o argumento que esta página confere número por número.

Perguntas frequentes

Otite sempre precisa de antibiótico?

Não. Na revisão sistemática com 13 ensaios clínicos e 3.401 crianças, o antibiótico não reduziu a dor nas primeiras 24 horas, e entre o segundo e o terceiro dia foi preciso tratar vinte crianças para que uma a menos estivesse com dor. Existem subgrupos com benefício claro, e para eles o antibiótico é indicado; fora deles, observar com reavaliação marcada é conduta reconhecida.

Quais crianças com otite realmente se beneficiam do antibiótico?

Na meta-análise com dados individuais de 1.643 crianças, o benefício se concentrou em duas situações: menores de dois anos com otite nos dois ouvidos, em que basta tratar quatro para uma se beneficiar, e crianças com secreção saindo pelo ouvido, em que basta tratar três. Sem otorreia, o número sobe para oito.

Secreção verde ou amarela significa que precisa de antibiótico?

Não. A cor vem de uma enzima liberada pelos glóbulos brancos que chegaram ao local, e eles chegam do mesmo jeito em quadros virais. Secreção espessa e colorida indica que o corpo está reagindo, não qual é o agente.

Não tomar antibiótico aumenta o risco de complicação?

Complicações graves são raras e, nos ensaios clínicos, não diferiram entre as crianças que receberam antibiótico e as que receberam placebo. O que reduz risco não é tomar antibiótico por precaução, e sim reconhecer os sinais de alarme e voltar ao médico se eles aparecerem ou se não houver melhora no prazo combinado.

O que fazer com a dor enquanto se observa?

Tratar a dor, que é o sintoma central. Na revisão sistemática com quatro ensaios e 411 crianças, a proporção que ainda tinha dor em 48 horas caiu de 25% com placebo para 10% com paracetamol e 7% com ibuprofeno. A escolha e a dose são do médico que acompanha a criança.

Levar a receita para casa e só usar se não melhorar funciona?

Funciona e foi medido. No ensaio com 315 crianças com otite, apenas 36 das 150 famílias do grupo da receita adiada chegaram a usar o antibiótico, e 77% se disseram muito satisfeitas. Na revisão com 3.968 participantes, o uso caiu de 93% com prescrição imediata para 30% com receita adiada, sem diferença nas complicações.

Tomar antibiótico deixa a pessoa mais resistente?

Sim, e isso é medido no indivíduo, não só na população. Na meta-análise com 24 estudos, quem recebeu antibiótico na atenção primária teve chance 2,4 vezes maior de carregar bactéria respiratória resistente àquele antibiótico, e o efeito ainda era detectável doze meses depois. Uma semana após o tratamento a chance chegava a ser 12,2 vezes maior.

Antibiótico estraga a flora intestinal para sempre?

Não para sempre, mas deixa marca. Em adultos saudáveis acompanhados por seis meses, a composição voltou perto da original em cerca de um mês e meio, embora nove espécies comuns seguissem indetectáveis na maioria após 180 dias. O que mais importa é o efeito cumulativo: numa coorte com 2.509 pessoas, a assinatura de antibióticos usados anos antes ainda era detectável, e proporcional ao número de cursos ao longo da vida.

É verdade que dez milhões de pessoas vão morrer por ano por resistência bacteriana em 2050?

Esse número vem de uma projeção de 2016 feita com dados esparsos. O estudo que mediu o problema em 204 países estimou 4,71 milhões de mortes associadas e 1,14 milhão atribuíveis à resistência em 2021, e projeta 1,91 milhão atribuíveis em 2050. A ordem de grandeza é menor, o problema continua enorme, e o mesmo estudo estima que 92 milhões de mortes poderiam ser evitadas entre 2025 e 2050.

Já comecei o antibiótico e estou melhor. Posso parar?

Essa decisão é de quem prescreveu, e não deve ser tomada por conta própria em nenhuma direção. Interromper por melhora, guardar o resto da caixa e recomeçar depois é uma das formas mais comuns de gerar resistência. Se surgiu dúvida sobre a indicação, a conversa é com o médico que acompanha o caso, com o tratamento em curso.

Tenho sinusite ou otite várias vezes por ano. O que muda?

Muda a pergunta. Quem repete episódios não está tomando uma decisão por vez, está somando exposições — e é justamente nesse perfil que o efeito cumulativo sobre a microbiota e sobre a resistência pesa mais. Nesse caso, o objetivo passa a ser encontrar a causa da repetição em vez de tratar cada episódio isoladamente.

Referências

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  10. AASMETS, Oliver; TABA, Nele; KRIGUL, Kertu Liis; ANDRESON, Reidar; ORG, Elin. A hidden confounder for microbiome studies: medications used years before sample collection. mSystems, Washington, v. 10, n. 10, art. e0054125, 2025. DOI: 10.1128/msystems.00541-25. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40910778/. Acesso em: 7 set. 2026.
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  12. FERREIRA, Tatiana de Jesus Nascimento; CAETANO, Rosângela; BENKŐ, Ria; MORAIS, João Henrique de Araújo. Community use of systemic antibiotics among individuals aged 15 and over in Brazil: a seven-year population-based cross-sectional study. PLOS ONE, São Francisco, v. 20, n. 6, art. e0325231, 2025. DOI: 10.1371/journal.pone.0325231. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40472054/. Acesso em: 7 set. 2026.
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  14. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Antimicrobial resistance. Genebra: OMS, 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/antimicrobial-resistance. Acesso em: 7 set. 2026.

Avaliação com otorrino em Brasília

A decisão entre tratar e observar depende de exame: do tímpano, no caso do ouvido, e do nariz, no caso dos seios da face. É esse exame que separa o quadro que vai se resolver sozinho daquele que precisa de antibiótico, e é ele que falta quando a decisão é tomada por telefone ou por conta própria.

A Dra. Larissa Vilela atende adultos e crianças em Brasília e faz essa avaliação em consulta, com otoscopia e, quando indicado, exame endoscópico do nariz. As demais orientações estão reunidas na página de orientações, e as informações de atendimento estão na página de consulta com otorrino em Brasília.

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