Qual é a melhor forma de fazer lavagem nasal?

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Qual método de lavagem nasal escolher?

Hoje existem vários dispositivos para lavar o nariz em casa, como a garrafinha de alto volume, a seringa, o jato contínuo, o spray e até a lota. Com tantas opções, a dúvida mais comum é qual usar e qual é o melhor. As três formas mais usadas são a garrafinha, a seringa e o jato contínuo, e cada uma pode ser testada na prática até aparecer a que combina com o seu nariz.

A melhor forma de fazer lavagem nasal é a que a pessoa tolera bem e consegue repetir todos os dias. Para limpar bem, a lavagem precisa de volume, porque ela age de modo mecânico, e quanto mais soro passa pelo nariz, melhor a limpeza. Por isso a lavagem de alto volume com pouca pressão seria o ideal. Há quem não se adapte à garrafinha, porque o nariz está tão obstruído que o volume alto chega a doer ou simplesmente porque não tolera a sensação. Para essas pessoas, outros dispositivos também ajudam.

Garrafinha de alto volume, seringa e frasco de jato contínuo usados na lavagem nasal

A melhor forma de lavagem nasal é a que você consegue fazer todos os dias, com pouca pressão e a cabeça reta. Garrafinha, seringa e jato contínuo funcionam bem quando a técnica está certa.

As sociedades médicas seguem a mesma linha. O manual de lavagem nasal publicado pela ABORL-CCF, que representa a otorrinolaringologia no Brasil, afirma que, na rinite e nas infecções do nariz, o mais importante é usar a solução salina com regularidade, seja qual for o tipo ou o volume, e que o método pode ser escolhido pela adaptação de cada paciente. A Sociedade Brasileira de Pediatria registra que ainda não há consenso sobre qual é o melhor método.

Quais são os tipos de lavagem nasal?

Os tipos de lavagem nasal podem ser colocados numa escala, do mais suave e com menos soro até o de maior volume. Quanto mais soro o dispositivo leva ao nariz, maior a limpeza. Ao mesmo tempo, os dispositivos de alto volume, sobretudo quando usados com mais pressão, causam desconforto com mais frequência, segundo o manual da ABORL-CCF.

Spray nasal, que hidrata, mas não lava

O spray de soro solta uma névoa fina, com muito pouco volume, e por isso não chega a lavar o nariz. O que ele faz é hidratar. Essa hidratação já ajuda no clima seco, em quem está com o nariz ressecado e não tolera a lavagem e na criança pequena que começa a se acostumar com o soro no nariz. A vantagem é ser muito bem tolerado e caber no bolso, para ser usado ao longo do dia.

Jato contínuo

O jato contínuo veio como uma evolução do spray. O frasco já vem pronto, com o soro dentro, e solta um jato enquanto o botão fica apertado. Ele leva mais volume que o spray, passa por toda a cavidade do nariz e limpa melhor. É rápido, prático, vai na bolsa e é muito bem tolerado, inclusive pelas crianças que ainda não aceitam volumes maiores. Do lado negativo, custa bem mais que o soro fisiológico comum e não permite amornar a solução. Nas fórmulas que têm só soro fisiológico, não há remédio nem nada que vicie. O uso passo a passo está na orientação sobre como usar o jato contínuo para a lavagem nasal.

Seringa

A seringa com soro fisiológico esteve, por muitos anos, entre as primeiras escolhas dos otorrinos para lavar o nariz. Ela é barata, simples e leva mais soro ao nariz do que o jato contínuo e o spray. Para o adulto, uma seringa de 20 mL, sempre sem agulha, já é adequada. Existem também seringas próprias para lavagem nasal, maiores e com uma ponta feita para vedar a narina, e quanto maior a seringa, mais soro entra a cada aplicação. Outra vantagem é poder amornar o soro, já que a solução é preparada na hora. A seringa pede um pouco mais de tempo e é menos prática fora de casa. Serve para bebês, crianças e adultos, com seringas menores nos pequenos, e os detalhes estão em como fazer lavagem nasal com seringa.

Garrafinha de alto volume

A garrafinha é o dispositivo que mais leva soro ao nariz, bem mais do que a maior das seringas, e os otorrinos conhecem bem o benefício da lavagem de alto volume. Ela permite amornar a solução, aceita medicamentos misturados ao soro quando o médico indica e costuma ser bem tolerada. Uma parte das pessoas não se adapta a ela, e para essas existem as outras formas. A técnica completa está em como fazer a lavagem nasal de alto volume com garrafinha.

A garrafinha é preparada com água filtrada e o sachê que acompanha o kit. Também é possível preencher o frasco apenas com soro fisiológico, dispensando o sachê. Outra opção é a solução caseira para lavagem nasal, desde que feita com as medidas certas.

Lota

A lota é um pequeno recipiente com bico, parecido com um bule, em que o soro passa pelo nariz só pela gravidade, sem que ninguém aperte nada. É uma alternativa para quem sente desconforto com a pressão dos outros dispositivos. A posição da cabeça e o preparo próprios dela estão na orientação sobre a lavagem nasal com a lota.

Por que o volume e a pressão fazem diferença?

A lavagem limpa o nariz de dois jeitos. Primeiro, o soro afina a secreção, que passa a sair com mais facilidade. Depois vem o efeito mecânico, parecido com o de jogar água num chão sujo, em que o próprio soro arrasta o excesso de catarro. Esse arraste depende da quantidade de soro, e por isso o volume pesa tanto na escolha.

A pressão segue a regra contrária e precisa ser baixa. O nariz se liga ao ouvido pela tuba auditiva, um canal fino que ventila o ouvido por dentro. Soro empurrado com força pode subir por esse canal, e aí vêm a pressão no ouvido, a dor e, às vezes, a otite. Por isso a regra de qualquer lavagem é muito volume com pouca pressão.

Há estudos que apoiam esse raciocínio. Um ensaio clínico com 127 adultos com sintomas crônicos no nariz e nos seios da face, as cavidades de ar ao redor do nariz, comparou por 8 semanas a lavagem de alto volume com baixa pressão e o spray de soro. O grupo da lavagem teve menos sintomas em todas as avaliações. O posicionamento da Academia Brasileira de Rinologia cita exames de imagem em que o soro aplicado com pressão positiva, como na seringa, chegou mais longe nos seios da face do que o spray.

Seringa ou garrafinha: qual é melhor?

As duas lavam bem e permitem amornar o soro. A garrafinha leva muito mais volume de uma vez, o que faz diferença quando há muita secreção grossa. A seringa leva menos, mas é mais barata e fácil de encontrar, e quem está com muito catarro pode repetir a seringa mais de uma vez em cada narina. Na garrafinha, a força fica na mão de quem aperta, por isso a atenção à pressão precisa ser maior.

Entre as duas, quem decide é o problema do nariz. Na sinusite, a garrafinha costuma vir primeiro. Na rinite, a seringa já basta. Depois de uma cirurgia no nariz, as duas servem, e o cirurgião define qual usar. Quem não se adaptou à garrafinha não precisa desistir da lavagem, porque a seringa já é uma ótima opção.

Quando o jato contínuo é a melhor escolha?

O jato contínuo é a escolha de quem quer praticidade. Ele dispensa preparo e cabe na bolsa, o que facilita manter a lavagem diária no trabalho ou em viagem. Também é a forma mais bem aceita pelas crianças pequenas e pelos adultos que não toleram volumes maiores. Com ele, é muito pouco provável sentir desconforto no ouvido, porque o volume e a pressão são baixos.

O limite dele é a quantidade de soro. O jato contínuo hidrata e deixa a secreção mais fluida, mas não tem o mesmo arraste da garrafinha quando o catarro é grosso. Muitas vezes ele entra como complemento, com a garrafinha em casa pela manhã e o jato contínuo ao longo do dia, quando for preciso lavar mais vezes.

A melhor lavagem nasal muda conforme o problema?

Muda, porque o tipo de secreção e o lugar que precisa ser lavado mudam a escolha. Na rinite, a secreção é fina e clara, e a inflamação fica na parede lateral do nariz, uma região fácil de alcançar. Não é preciso tanto volume, e dispositivos mais simples, seringa ou jato contínuo, resolvem bem. A ordem completa para esse caso está na orientação sobre a melhor lavagem nasal para rinite.

Na sinusite, o catarro é grosso, abundante e difícil de tirar. Aí o volume faz diferença, e a garrafinha costuma ser a primeira escolha, com a seringa logo depois. O raciocínio está na orientação sobre a melhor lavagem nasal para sinusite. Quando o nariz está muito inchado, o otorrino pode indicar, por um período curto, a solução hipertônica, que tem mais sal que o soro comum.

Depois de uma cirurgia no nariz, o volume volta a ser importante, por causa das crostas e dos restos de sangue. A seringa e a garrafinha são as formas usadas nessa fase, e o jato contínuo e o spray servem só para hidratar. O cirurgião define o dispositivo, a solução e quantas vezes lavar, e os cuidados dessa fase estão na orientação sobre a lavagem nasal no pós-operatório de nariz.

Na criança, a escolha começa pelo volume menor e avança conforme ela aceita. Criança que chora, se debate e só aceita à força não deve ser lavada desse jeito, e o caminho é voltar para uma forma mais suave. Antes de reproduzir a técnica do adulto, veja a orientação sobre lavagem nasal em crianças.

Como fazer a lavagem nasal corretamente?

Escolhido o dispositivo, alguns cuidados valem para todos. A lista abaixo reúne o que é comum à garrafinha, à seringa e ao jato contínuo.

  1. Prepare a solução. Use soro fisiológico ou a solução feita com o sachê e água filtrada. Na seringa e na garrafinha, deixe a solução morna.
  2. Fique de frente para a pia. Mantenha a cabeça reta, sem virar para nenhum dos lados.
  3. Ajuste a inclinação ao dispositivo. Na garrafinha e na seringa, a cabeça vai para a frente, olhando para baixo. Com o jato contínuo, o queixo sobe um pouco e a cabeça fica levemente para trás.
  4. Abra a boca. Respire por ela do início ao fim da aplicação, sem inspirar pelo nariz com o soro entrando.
  5. Encoste a ponta na entrada da narina. Na seringa e na garrafinha, a ponta pode ficar reta, vedando a entrada da narina, sem apontar para o septo, a divisória do meio do nariz. No jato contínuo, ela aponta para a parede lateral do nariz.
  6. Aplique devagar, sem força. Na garrafinha, aperte só com dois dedos e o polegar. Na seringa, empurre o êmbolo devagar. No jato contínuo, segure o botão até sentir o soro chegar à garganta.
  7. Deixe o soro escorrer. O soro sai pela outra narina, pela boca ou volta pelo mesmo lado, e o que chega à garganta pode ser engolido ou cuspido.
  8. Repita na outra narina. Lave sempre os dois lados. Na garrafinha, use metade da solução em cada narina.
  9. Retire o excesso de soro com delicadeza. Expire pelo nariz de leve, mantendo as duas narinas abertas, sem tapar nenhum lado.
  10. Limpe o dispositivo. Lave, deixe secar bem e guarde a garrafinha ou a seringa para o uso de uma só pessoa.

A solução vai morna, nunca gelada, e o jeito de amornar em cada dispositivo está na orientação sobre a temperatura da água para a lavagem nasal. A limpeza da garrafinha, com os cuidados de cada semana, fica na orientação sobre como limpar a garrafinha de lavagem nasal. Quantas vezes por dia lavar depende do caso, e a frequência da lavagem nasal tem explicação própria.

Na demonstração do vídeo, a seringa também aparece com a cabeça inclinada para trás. Nessa posição, o soro atravessa o nariz e para na garganta, onde pode ser engolido ou cuspido na pia. As duas posições estão certas, e vale testar qual é mais confortável.

Qual é a melhor posição da cabeça para a lavagem nasal?

Na garrafinha, na seringa e no jato contínuo, a cabeça fica reta, sem tombar para o lado. Muitos guias ensinam a virar a cabeça de lado durante a lavagem, mas essa posição deixa a tuba auditiva mais inclinada e facilita a passagem de soro para o ouvido, com dor e desconforto. A lota é diferente, porque o soro desce só pela gravidade, e a inclinação que ela pede está na orientação sobre a lavagem nasal com a lota.

A inclinação para a frente ou para trás depende do dispositivo. Na garrafinha e na seringa, a cabeça baixa ajuda o soro a sair do outro lado e cair na pia. No jato contínuo, a cabeça levemente para trás leva o soro até o fundo do nariz, de onde ele desce para a garganta. De cabeça baixa, o jato, que tem pouca força, costuma voltar no meio do caminho.

Por que abrir a boca durante a lavagem nasal?

Abrir a boca faz o céu da boca subir e vedar, lá atrás, a ligação do nariz com a garganta. Assim o soro atravessa de uma narina para a outra em vez de descer direto, e fica mais difícil ele chegar ao ouvido. O manual da ABORL-CCF descreve o mesmo efeito.

A respiração pela boca continua durante a aplicação inteira, e na garrafinha, que tem muito volume, ela faz ainda mais diferença. O que nunca se faz é inspirar pelo nariz no momento em que o soro entra, porque ele pode ser aspirado. Alguns ensinam a falar um aaa comprido ou a fazer um som de k para manter o céu da boca fechado. Só respirar pela boca já funciona muito bem.

O soro precisa sair pela outra narina?

Não. Sair do outro lado é o esperado quando o nariz está livre, mas não é o que define se a lavagem funcionou. Quando o nariz está muito congestionado, é comum o soro entrar e voltar pela mesma narina, e só de entrar e sair a lavagem já tem efeito. Também é comum parte da solução sair pela boca.

O que não se faz é aumentar a força para obrigar o soro a passar. Quando ele não aparece do outro lado, acaba saindo mais tarde pelo mesmo lado ou escorre para a garganta e é engolido.

Como não errar na lavagem nasal?

A maior parte dos erros na lavagem nasal tem a ver com força. Os mais comuns são estes.

  • Apertar a garrafinha com a mão inteira. Usar só dois dedos e o polegar, com os outros dedos levantados, reduz bastante a chance de colocar força demais.
  • Virar a cabeça de lado na garrafinha, na seringa ou no jato contínuo, o que facilita a entrada de soro no ouvido.
  • Usar a garrafinha na crise, com o nariz muito entupido. Mesmo devagar, pouco soro basta para criar pressão e levar líquido ao ouvido, e nessa fase uma forma com menos volume é mais segura.
  • Insistir na lavagem com a criança chorando e segurada à força.
  • Usar água pura ou água da torneira. A solução precisa ter sal na medida do soro, e só se usa água filtrada ou fervida, como explica a orientação sobre lavagem nasal com água.
  • Assoar com força ou tapando uma narina. Para tirar o que sobrou de soro, basta soltar o ar devagar, com as duas narinas abertas.
  • Seguir com a lavagem quando o ouvido incomoda.

Lavagem nasal e spray de tratamento são a mesma coisa?

Não. A lavagem usa soro para limpar o nariz. O spray de tratamento leva remédio, como o corticoide, e tem dose e horário definidos pelo médico. Quando os dois fazem parte da rotina, a lavagem vem primeiro e o remédio depois, com um intervalo entre eles. Veja como usar spray nasal corretamente e por que não usar o spray de tratamento logo após a lavagem.

Quando parar a lavagem e procurar avaliação?

Sentir o ouvido incomodar enquanto lava o nariz não é normal. Se o ouvido tampar, se der a sensação de que o soro foi para lá ou se doer, pare na hora, espere um pouco e volte devagar. Se a sensação voltar, interrompa a lavagem. Se o desconforto volta a cada lavagem, mesmo feita do jeito certo, aquele método não serve para o seu caso, e o próximo passo é passar para um dispositivo de menor volume, a garrafinha pela seringa e, se preciso, a seringa pelo jato contínuo.

Dor de ouvido que não passa, sangramento ou incômodo forte pedem avaliação. Agende pelo WhatsApp da OtoCare e conte o que está sentindo, assim o atendimento é prioritário. Quando o ouvido já está dolorido, a conduta está detalhada na orientação sobre dor de ouvido na lavagem nasal.

Também vale procurar avaliação se o nariz segue entupido apesar da técnica correta, se a secreção tem cheiro ruim ou sai só de um lado, se a febre não passa, se há dor forte no rosto, perda do olfato ou sangramentos que se repetem. A consulta avalia o nariz por dentro e orienta o método mais adequado para cada caso.

Vídeo: garrafinha, seringa e jato contínuo na prática

O vídeo, de maio de 2024, mostra as três formas de lavagem nasal feitas na prática, com a posição da cabeça, a boca aberta e a força certa em cada uma.

Perguntas frequentes

Qual o melhor horário para fazer lavagem nasal?

Não existe um horário obrigatório para o adulto, e os manuais de lavagem nasal não fixam um momento do dia. O que mais conta é encaixar a lavagem num horário fixo da rotina, para que ela não seja esquecida, e repetir quando o nariz voltar a incomodar.

Qual é o melhor lavador nasal para adulto e para criança?

No adulto, a garrafinha e a seringa de 20 mL são as que mais limpam, e a escolha depende do problema e da adaptação. Na criança, o começo costuma ser pelo jato contínuo próprio para a idade, com bico menor e mais arredondado e jato mais suave, e só depois a seringa e a garrafinha infantil, conforme ela aceita.

Como fazer lavagem nasal com soro fisiológico sem seringa?

Com a garrafinha cheia só de soro fisiológico, sem o sachê, ou com a lota, em que o soro passa pelo nariz por gravidade. Outra saída é o jato contínuo, que já vem com o soro pronto dentro do frasco.

A lavagem nasal tem efeitos colaterais?

Tem poucos, e em geral leves. O manual da ABORL-CCF descreve que cerca de 57% dos pacientes podem sentir algum ardor, que varia com a solução usada e com o estado da mucosa, o revestimento interno do nariz. Quando a lavagem é feita por muito tempo, pode surgir um pequeno sangramento ou ressecamento. Se o incômodo se repete, a técnica e a solução podem ser revistas na consulta.

Referências

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