Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
O que existe de verdade nessa associação?
A resposta curta é não: lavar o nariz não é causa de otite. A lavagem nasal está entre os cuidados mais bem estabelecidos para rinite, sinusite, gripes e resfriados, e o tratamento de quem tem otites de repetição muitas vezes começa justamente por uma boa lavagem do nariz.
O que existe é um vínculo estreito e específico. A lavagem feita com pressão excessiva, ou feita em uma pessoa com predisposição anatômica, pode empurrar solução e secreção em direção ao ouvido. É a minoria dos casos, e é um problema de execução, não do método.

Os números acompanham essa leitura. Em um estudo com 61 crianças que passaram a lavar o nariz, 86% toleraram bem o procedimento e cerca de 12% relataram efeitos leves — dor de ouvido entre eles, ao lado de tosse e náusea. No outro prato da balança, um ensaio randomizado com 220 crianças com rinite alérgica registrou redução do líquido na orelha média no grupo que lavou o nariz com solução hipertônica.
Ou seja: a lavagem nasal aparece com mais frequência como parte do cuidado do ouvido do que como ameaça a ele. Por isso a recomendação de “não lave o nariz, porque causa otite” inverte o problema. O que precisa mudar não é o hábito, é a forma de fazer.
O caminho pelo qual a solução pode chegar ao ouvido, e o que fazer no momento em que a dor aparece, estão na orientação sobre dor de ouvido na lavagem nasal.
Desconforto no ouvido não é normal
Esta é a regra prática mais útil de todo o assunto: durante a lavagem nasal, o ouvido não deve doer, tampar nem dar a sensação de que a solução está subindo. Não existe um grau aceitável de incômodo no ouvido a ser tolerado como parte do procedimento.
É comum que a pessoa sinta pressão no ouvido a cada lavagem e suponha que seja assim mesmo. Não é. Quando o desconforto se repete, mesmo com a aplicação suave e a técnica correta, a conclusão é outra: aquele método não é o adequado para aquela pessoa. Há quem tenha a tuba auditiva mais permeável e seja simplesmente mais sensível à lavagem de maior volume.
Qualquer desconforto no ouvido durante ou logo após a lavagem é um sinal de troca, não de abandono. Primeiro revise a forma como a lavagem está sendo feita. Se o incômodo continuar mesmo sem força, mude para um dispositivo de menor volume.
A regra vale igualmente para as crianças que já sabem se expressar. Quando a criança diz que o ouvido dói ou que “o soro foi para o ouvido”, ou reclama logo depois da lavagem, a informação deve ser levada a sério e a forma de lavar precisa mudar.
A escada dos volumes: da garrafinha ao jato contínuo
Quando o ouvido reclama, a saída não é aumentar a pressão para “vencer” o nariz nem interromper a higiene nasal. É descer um degrau na quantidade de solução. Os três métodos usados no dia a dia se organizam do maior para o menor volume:
- Garrafinha de alto volume. O maior volume por aplicação e, por consequência, o método em que a pressão mal dosada tem mais efeito.
- Seringa. Volume intermediário. Costuma resolver o desconforto de quem não se adaptou à garrafinha.
- Jato contínuo. O menor volume e a menor pressão dos três. Queixas de ouvido com esse método são raras.
A descida é feita um degrau por vez: quem sente desconforto com a garrafinha passa para a seringa; se ainda sentir, passa para o jato contínuo. Trocar de método não é compensar com mais força — cada dispositivo tem a sua técnica, e as três estão descritas lado a lado na comparação entre as formas de lavagem nasal.
Criança chorando e contida: não faça a lavagem
Existe uma cena conhecida em muitas casas: a criança que não aceita lavar o nariz, um adulto que segura, outro que ajuda a conter, e a lavagem feita à força enquanto ela chora e grita. Nessa situação, a lavagem não deve ser feita.
O motivo é duplo. A criança contida e chorando está com a musculatura da faringe, o choro e a deglutição trabalhando contra o procedimento; e quem aplica tende a apertar com mais força para terminar logo. É exatamente aí que a chance de a solução ou a secreção seguir para o ouvido fica alta.
Lavagem nasal à força não é lavagem bem feita. Se a criança precisa ser segurada por duas ou três pessoas, o procedimento deve ser interrompido e substituído por um método que ela aceite.
Como apresentar o jato contínuo à criança
O jato contínuo costuma ser bem aceito pelas crianças e é uma boa alternativa quando a garrafinha ou a seringa viraram um transtorno. A apresentação faz diferença: vale mostrar o aparelho fora do momento da lavagem, deixar que a criança aperte o botão, brincar com o jato na mão dela e fazer a lavagem em um adulto primeiro, para que ela veja.
A escolha de dispositivo, volume e posição por faixa etária está na orientação sobre lavagem nasal em crianças.
E se as otites começaram depois da garrafinha?
Crianças pequenas nem sempre conseguem localizar o incômodo ou avisar que algo mudou. Algumas aceitam bem a lavagem, não reclamam de nada, e mesmo assim os pais percebem uma coincidência no tempo: as otites passaram a acontecer depois que a garrafinha entrou na rotina.
Essa coincidência pode ser testada. A conduta é substituir a garrafinha pelo jato contínuo e observar o período seguinte. Como a chance de complicação com o jato contínuo é muito baixa, o resultado tende a ser informativo: se as otites deixarem de acontecer, o dispositivo anterior provavelmente tinha participação no quadro.
A troca é reversível e não interrompe o cuidado com o nariz, que continua sendo feito. Não se trata de um exame diagnóstico, e sim de uma observação orientada, que deve ser conversada com o médico que acompanha a criança.
Existe momento de adiar a lavagem?
Sim, em duas situações. A primeira é o nariz totalmente bloqueado, sem passagem de ar, em que o alto volume não encontra por onde escoar — motivo pelo qual a garrafinha deve ser evitada nas crises mais intensas de congestão, como detalha a orientação sobre a lavagem nasal com garrafinha.
A segunda é a otite aguda em curso. Um painel de especialistas reunido por consenso Delphi para definir contraindicações da lavagem nasal em lactentes classificou como contraindicação absoluta apenas a fratura osteomeníngea com fístula liquórica. A otite aguda não alcançou esse patamar: pouco mais de 60% dos participantes sugeriram evitar a lavagem enquanto o quadro estiver ativo, percentual abaixo do limiar de consenso adotado no estudo. Trata-se, portanto, de uma orientação de prudência, e não de uma proibição estabelecida — o que reforça que essa decisão seja individual.
Vídeo: lavagem nasal causa otite?
O vídeo discute a origem da associação entre lavagem nasal e otite, por que ela vale para poucos casos, o que fazer quando o ouvido incomoda e como conduzir a lavagem nas crianças que resistem ao procedimento.
Perguntas frequentes
Lavagem nasal causa otite?
Não. A lavagem nasal feita com pressão suave é um procedimento de baixo risco e faz parte do tratamento de quem tem otites de repetição. A associação com otite aparece quando a lavagem é feita com força excessiva ou em pessoas com predisposição anatômica, o que corresponde à minoria dos casos.
Devo parar de lavar o nariz para evitar otite?
Não. Parar de lavar o nariz retira um cuidado com benefício comprovado em rinite, sinusite e infecções respiratórias. Quando existe desconforto no ouvido, a conduta é revisar a técnica e reduzir o volume do dispositivo, não abandonar a lavagem.
Sentir pressão no ouvido durante a lavagem é normal?
Não. Dor, sensação de ouvido tampado ou percepção de que a solução subiu para o ouvido indicam que aquele método não está adequado. Se o desconforto se repete mesmo com aplicação suave, o dispositivo deve ser trocado por outro de menor volume.
Qual método tem menor risco de desconforto no ouvido?
O jato contínuo, que trabalha com o menor volume e a menor pressão entre os métodos usuais. A seringa fica em posição intermediária e a garrafinha de alto volume é a mais sensível a erros de pressão.
Posso lavar o nariz da criança segurando-a à força?
Não. Com a criança contida e chorando, a tendência é aplicar mais força para terminar rápido, e a chance de a solução seguir para o ouvido aumenta. O procedimento deve ser interrompido e substituído por um método de menor volume que a criança aceite.
Posso fazer lavagem nasal durante uma otite?
Essa decisão é individual e deve ser conversada com o médico. A otite aguda não é considerada contraindicação formal à lavagem nasal, mas parte dos especialistas recomenda evitar o procedimento enquanto o quadro estiver ativo.
Referências
- VILELA, Larissa. Lavagem nasal causa otite? YouTube, 6 set. 2025. 1 vídeo (10 min 53 s). Disponível em: https://youtu.be/XMDnTjIOL4U. Acesso em: 4 set. 2026.
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- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE OTORRINOLARINGOLOGIA E CIRURGIA CÉRVICO-FACIAL (ABORL-CCF). Manual de lavagem nasal na criança e no adulto. São Paulo: ABORL-CCF, 2022. Disponível em: https://aborlccf.org.br/wp-content/uploads/2022/11/1669816618_Manual_de_lavagem_nasal-v2.pdf. Acesso em: 4 set. 2026.
Avaliação com otorrino em Brasília
Dor de ouvido que se repete a cada lavagem, otites frequentes ou dúvida sobre qual dispositivo usar merecem exame do ouvido e do nariz. Essa avaliação é feita em consulta com otorrino em Brasília. A Clínica OtoCare atende adultos e crianças no Setor Noroeste.
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