Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Até que ponto a sujeira faz bem para a criança
Vitamina S é um nome que pode parecer estranho, e o S vem de sujeira. É o apelido dado ao contato da criança com a terra, a areia, a grama, os animais e o ambiente fora de casa, que ajuda o sistema imunológico a se desenvolver.
A dúvida que muitas mães e pais trazem à consulta é até que ponto deixar o filho se sujar. Até onde essa exposição é saudável e estimula a imunidade, e a partir de quando ela passa do ponto e começa a expor a criança ao risco de infecções? A mesma pergunta vale para os adultos.
A resposta está no equilíbrio entre exposição e cuidados. A criança não precisa viver numa bolha. Ela precisa sair de casa, brincar e ter contato com o ambiente, e os hábitos de higiene continuam valendo.

O que é a vitamina S
O termo é uma brincadeira. Não existe vitamina S em alimento, farmácia ou suplemento. Segundo uma reportagem da revista da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), vitamina S é o apelido dado ao universo de bilhões de bactérias que não causam doença, germes e outras substâncias que fazem parte do ambiente em que a criança vive.
Muitas teorias têm surgido sobre o assunto. Elas sugerem que expor a criança a um pouco de sujeira talvez seja interessante, porque deixar uma criança num ambiente extremamente limpo, sem contato com a terra, com o ambiente externo ou com a areia de um parquinho, pode na verdade ser prejudicial. Por isso, locais extremamente limpos talvez não sejam o melhor para uma criança.
Como o contato com o ambiente treina o sistema imunológico
O bebê já nasce com o sistema imunológico. Ele precisa, porém, das interações com o ambiente e dessas pequenas exposições para ir reconhecendo o que é normal, o que faz parte do ambiente de uma criança, e o que não é normal e deve ser combatido.
Imagine uma criança que nunca tenha contato com poeira, grama ou animais. O sistema imunológico dela não vai estar acostumado com esses agentes externos. Quando ela finalmente se expuser a eles, lá pelos 2 ou 3 anos, as defesas podem não reconhecer o que encontram e desencadear reações alérgicas a tudo o que está no ambiente.
Por isso, uma certa exposição faz parte do desenvolvimento do sistema imunológico e do jeito como ele aprende a regular as próprias respostas. Uma exposição excessiva, por outro lado, já não é interessante, porque pode aumentar o risco de infecções para a criança.
Os especialistas ouvidos pela reportagem da SBP descrevem o mesmo processo. A imunidade amadurece ao longo dos primeiros anos de vida, e o contato ponderado com micro-organismos ajuda nesse amadurecimento. Uma das pediatras compara o processo ao treino de um exército, que se prepara em pequenas batalhas antes de enfrentar as doenças mais sérias.
Hipótese da higiene: o que os estudos mostram
A ideia ganhou base científica em 1989. O epidemiologista britânico David Strachan observou que crianças de famílias maiores, com irmãos mais velhos, tinham menos rinite alérgica, e propôs que as infecções da primeira infância, trazidas pelo convívio com os irmãos, poderiam proteger contra as alergias. A proposta ficou conhecida como hipótese da higiene.
Os estudos com crianças criadas em fazendas reforçaram a ideia. Em uma pesquisa publicada em 2011 no New England Journal of Medicine, crianças europeias que moravam em fazendas tinham menos asma e menos alergia e estavam expostas a uma variedade maior de micro-organismos do que as crianças que não moravam em fazendas. Quanto maior a variedade de micróbios na poeira do quarto, menor o risco de asma.
Outro estudo, de 2016, comparou duas comunidades rurais dos Estados Unidos com origem e modo de vida muito parecidos. Os amish, que mantêm a criação tradicional de animais, tiveram asma quatro vezes menos frequente e sensibilização alérgica seis vezes menos frequente do que os huteritas, que trabalham em fazendas industrializadas. A poeira das casas amish tinha muito mais restos de micróbios, e as defesas das crianças amish funcionavam de forma diferente.
Em 2016, uma revisão de especialistas em alergia e infecção propôs abandonar o nome hipótese da higiene. Para os autores, os hábitos de higiene do dia a dia, como lavar as mãos e limpar a casa, não são o que tira da criança o contato com os micróbios importantes. Pesam mais as mudanças no modo de vida, como a vida na cidade, o pouco contato com a natureza e com outras pessoas e o uso de antibióticos. Eles defendem uma higiene direcionada, feita nos momentos que importam, como antes de comer, depois de ir ao banheiro e no preparo dos alimentos, junto com mais atividades ao ar livre e menos tempo dentro de casa. É o mesmo equilíbrio entre exposição e cuidados, visto pela ciência: manter a higiene nos momentos certos e não criar a criança numa bolha.
Quando a exposição passa do ponto
Deixar a criança se expor não significa deixar que ela leve a mão suja à boca. O exagero na sujeira traz o risco de infecções, e é aí que entram os cuidados. O hábito de lavar as mãos com regularidade, principalmente antes das refeições, continua sendo importante, assim como lavar bem os alimentos.
O bom senso também vale para os lugares. O pediatra ouvido pela SBP lembra que expor a criança ao ambiente natural é importante, mas não significa deixar que ela coloque a boca na mesinha do avião ou passe a mão no corrimão do metrô, lugares com muita contaminação. O mesmo vale para o chão de aeroportos, do metrô e de hospitais.
A areia do parquinho faz parte das brincadeiras, e vale um olhar antes de soltar a criança. Segundo a reportagem da SBP, é importante conferir se o tanque de areia não fica perto de lixo e se animais costumam deixar fezes no local. O ideal é que o tanque fique coberto quando não está em uso. O Ministério da Saúde, entre as medidas contra a toxoplasmose, recomenda evitar os tanques de areia que ficam sempre descobertos, porque podem guardar restos de fezes de animais infectados. Depois da brincadeira, mãos lavadas.
O equilíbrio na prática: o que fazer e o que evitar
A grande dica vale para qualquer idade. Não é bom deixar a criança somente em casa, isolada, sem passeios ao ar livre. Ela precisa dessas exposições.
- Sair de casa com a criança e caminhar ao ar livre.
- Deixar a criança brincar na rua, no parquinho e na terra, com as brincadeiras normais de criança.
- Deixar a criança brincar no chão de casa e ter as próprias vivências e experiências.
Ao voltar para casa, entram os cuidados de higiene, que continuam valendo.
- Tomar banho e lavar as mãos ao chegar da rua.
- Criar na criança o hábito de lavar as mãos, sempre antes das refeições.
- Lavar bem os alimentos.
- Manter a casa limpa, com limpeza regular do chão.
No fim das contas, é tudo uma questão de bom senso. A criança não precisa viver numa bolha, isolada, num ambiente esterilizado. O que não faz bem são os excessos. O excesso de limpeza não é interessante, e o excesso de exposição à sujeira também não.
Para a criança que já frequenta creche ou escola, a rotina de chegada em casa e as medidas que reduzem gripes e resfriados estão na orientação sobre prevenção de gripes e resfriados na escola.
A partir de que idade a criança pode se expor
Desde bebê. Ainda pequenininho, é importante que ele saia um pouco de casa. A exposição vai progredindo aos poucos, e à medida que a criança cresce, ela pode se expor um pouco mais.
Nos primeiros meses, antes das primeiras vacinas, o cuidado é maior, segundo a reportagem da SBP, principalmente com quem pega o bebê no colo, que deve estar com as mãos limpas. Depois dessa fase, lavar as mãos com água e sabão ao chegar da rua e depois de ir ao banheiro passa a ser a regra, e ela vale para a vida toda.
Animal de estimação: melhor antes dos 2 ou 3 anos
Muitos pais perguntam se podem ter um animal de estimação. Para a família que tem vontade de ter um bichinho, o ideal é que a criança tenha contato com ele antes dos 2 ou 3 anos de idade, porque é nessa fase que o sistema imunológico da criança faz a modulação das próprias respostas.
Quando a criança nunca teve contato com nenhum animal e ganha um bichinho lá pelos 5 anos, a chance de ela desenvolver uma reação alérgica ao animal novo que chegou ao ambiente pode ser grande. Se existe a vontade de ter um animal, é bom que a criança conviva com ele desde pequenininha.
Os estudos olharam sobretudo para o primeiro ano de vida. Em uma pesquisa de Detroit, nos Estados Unidos, publicada em 2002, as crianças que conviveram com dois ou mais cães ou gatos no primeiro ano tinham, aos 6 ou 7 anos, menos da metade da sensibilização alérgica das que não tiveram animais. Um estudo sueco com mais de um milhão de crianças, de 2015, associou o convívio com cachorro no primeiro ano a um risco menor de asma aos 6 anos. Outro estudo sueco, de 2018, encontrou menos alergia quanto maior o número de cães e gatos em casa no primeiro ano, um efeito que os autores compararam ao de uma pequena fazenda.
Nem todas as pesquisas sobre animais e alergia chegaram ao mesmo resultado, e a decisão de ter um animal em uma família com alergia é avaliada caso a caso, na consulta. Quando a alergia ao cão ou ao gato já foi confirmada, os cuidados são outros, e estão na orientação sobre rinite alérgica e cães e gatos.
Vacinas: a forma mais eficaz de fortalecer a imunidade
Independentemente da vitamina S, as vacinas são a forma mais eficaz de fortalecer a imunidade das crianças contra doenças específicas. Uma vacina é um forte estímulo do sistema imunológico contra uma doença específica.
Para cuidar bem da imunidade do filho, o mais importante é deixar o cartão de vacinas dele sempre atualizado. Isso vale também para o adulto. Na criança e no adulto, o cartão de vacinas em dia é a forma mais eficaz de cuidar da imunidade.
O Calendário Nacional de Vacinação, do Ministério da Saúde, define quais vacinas são aplicadas em cada idade, a partir do nascimento, quando o bebê recebe as vacinas contra a hepatite B e a BCG. A vacina da gripe é anual, e as dúvidas sobre ela estão na orientação sobre a vacina da gripe.
Espirros, coriza e nariz entupido que não passam podem ser sinal de uma rinite alérgica. Quando as infecções do nariz, do ouvido ou da garganta se repetem, a consulta com otorrino na OtoCare investiga a causa.
Vídeo: a verdade sobre a vitamina S
Perguntas frequentes
Vitamina S existe? Para que serve?
É só um apelido. Não há vitamina S em alimento, na farmácia ou em suplemento. O nome é uma brincadeira com a palavra sujeira e serve para lembrar que o contato da criança com o ambiente, como a terra, o parquinho e os animais, ajuda o sistema imunológico a se desenvolver, desde que os cuidados de higiene continuem.
Brincar na terra cria imunidade?
Ajuda. O contato com a terra, a grama e o ambiente fora de casa faz parte do treino do sistema imunológico, que aprende a reconhecer o que é normal no ambiente e o que precisa combater. Brincar na terra não substitui as vacinas, que são a forma mais eficaz de proteger a criança contra doenças específicas. Depois da brincadeira, banho e mãos lavadas.
Com quantos meses o bebê pode brincar no chão ou na terra?
Não existe uma idade mínima fixa. Desde pequeno, o bebê pode sair um pouco de casa, e a exposição vai aumentando aos poucos, conforme ele cresce. Segundo a reportagem da Sociedade Brasileira de Pediatria, engatinhar e brincar no chão é fundamental para o desenvolvimento e a coordenação dos movimentos, desde que o chão esteja minimamente limpo. A recomendação não vale para chão de aeroporto, metrô ou hospital.
Criança pode brincar com areia de gato?
Não deve. A toxoplasmose é transmitida pelo contato com as fezes de animais infectados, e o gato é o mais conhecido deles. O Ministério da Saúde orienta evitar o contato com as fezes de gatos e limpar todos os dias a caixa de areia do gato de estimação, lavando bem as mãos com sabão depois. Gestantes e pessoas com baixa imunidade devem evitar mexer na caixa. Na areia do parquinho, o cuidado é escolher um tanque bem cuidado, longe do lixo e sem sinal de fezes de animais, e lavar as mãos depois. Conviver com o gato, segundo o Ministério, não aumenta necessariamente o risco.
Criança pode andar descalço?
Pode. Segundo a reportagem da SBP, andar descalço é aconselhável em casa, na grama e na terra, e ajuda a criança a dar os primeiros passos. O cuidado maior fica com lugares úmidos, como o vestiário do clube, onde os fungos podem se multiplicar. Depois, basta lavar e secar bem os pés.
Criança pode usar álcool em gel o tempo todo?
Não é necessário. A reportagem da SBP chama de exagero limpar a criança com álcool em gel o tempo todo. Nos primeiros meses, antes das primeiras vacinas, o cuidado é maior, principalmente com quem pega o bebê no colo. Depois dessa fase, água e sabão bastam, sobretudo ao chegar da rua, depois de ir ao banheiro e antes das refeições.
Até quando esterilizar a mamadeira?
Segundo a reportagem da SBP, nos três primeiros meses do bebê vale ferver bicos e mamadeiras. Depois disso, água e sabão bastam. A atenção continua com os restos de leite ou de suco, que favorecem a multiplicação de fungos e bactérias, por isso a mamadeira precisa ser bem lavada, sem deixar restos.
Deixar o bebê comer com as mãos faz mal?
Não. Para a pediatra ouvida pela reportagem da SBP, comer e se sujar é muito positivo para a criança, porque ela descobre as texturas e os sabores dos alimentos. O cuidado é com as mãos limpas antes da refeição, um hábito que vale criar desde cedo, e com os alimentos bem lavados.
Precisa tirar o sapato antes de entrar em casa?
Não é obrigatório. Segundo a reportagem da SBP, mais importante do que tirar o sapato é manter o chão da casa limpo, com limpeza regular, já que a criança passa boa parte do tempo brincando nele.
Precisa limpar os brinquedos do bebê todos os dias?
Não. Os brinquedos que ficam no ambiente da criança não precisam de limpeza diária. A reportagem da SBP sugere lavar com água e sabão, ou passar álcool em gel, pelo menos uma vez por semana, para tirar a poeira e os restos de massinha.
Criança com rinite alérgica pode ter cachorro?
Depende do que causa a alergia. Quando a alergia ao cachorro ou ao gato já foi confirmada, o ideal seria evitar o contato. Quando a família decide manter o animal, alguns cuidados reduzem a exposição, e eles estão na orientação sobre rinite alérgica e animais de estimação. A exposição precoce aos animais, de que esta página trata, vale para a criança que ainda não tem a alergia.
Criança com imunidade baixa: o que pode ser?
Segundo a reportagem da SBP, é comum a criança pequena ter vários episódios infecciosos leves por ano, principalmente quando frequenta a creche ou a escola. Isso não significa imunidade baixa. Ela está exposta a muitos vírus, e o sistema imunológico ainda está aprendendo. Infecções graves, que se repetem além do esperado ou que não melhoram com o tratamento habitual, merecem investigação, e os sinais de alerta estão na orientação sobre imunodeficiência primária.
Como aumentar a imunidade da criança que vai para a creche?
Com o cartão de vacinas em dia, brincadeiras ao ar livre e o hábito de lavar as mãos. Na creche, a criança encontra muitos vírus novos, e é esperado que tenha mais gripes e resfriados nos primeiros tempos. As medidas que reduzem esses episódios, como a rotina de chegada em casa e a lavagem nasal, estão na orientação sobre como prevenir gripes e resfriados em crianças na escola.
Qual vitamina dar para criança com imunidade baixa?
Nenhuma vitamina ocupa o lugar das vacinas, que são a forma mais eficaz de fortalecer a imunidade contra doenças específicas. O que a vitamina C faz e não faz nas gripes está na orientação sobre vitamina C para gripes e resfriados. Quando as infecções se repetem, a consulta avalia a causa e, em alguns casos, indica remédios como o lisado bacteriano para imunidade.
Referências
- VILELA, Larissa. Crianças, “sujeira” e imunidade: a verdade sobre a “vitamina S”. YouTube, 24 maio 2025. 1 vídeo (8 min 32 s). Disponível em: https://youtu.be/u9ABKzjv81U. Acesso em: 6 out. 2026.
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Alergias e infecções de repetição na criança: consulta na OtoCare, em Brasília
Espirros, coriza e nariz entupido que não passam, otites e sinusites que se repetem ou uma criança que parece adoecer o tempo todo pedem uma avaliação cuidadosa. Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, o exame do nariz, do ouvido e da garganta ajuda a separar a alergia da infecção e a orientar a família sobre o que fazer em casa.