Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Como o Mounjaro (tirzepatida) atua no tratamento da apneia obstrutiva do sono?
Sim, a tirzepatida, comercializada sob o nome Mounjaro, é a primeira medicação a obter aprovação formal em bula para o tratamento da apneia obstrutiva do sono (AOS) moderada a grave em adultos com obesidade. Desenvolvido inicialmente para o controle do diabetes tipo 2 e para a perda de peso sustentada, o medicamento inaugurou uma fronteira inédita na medicina do sono ao demonstrar que uma terapia farmacológica injetável é capaz de reduzir de forma expressiva o número de paradas respiratórias noturnas.
A apneia obstrutiva do sono caracteriza-se pelo fechamento repetitivo e temporário da via aérea superior durante o descanso, provocando quedas periódicas no oxigênio sanguíneo, elevação do gás carbônico, picos de pressão arterial e microdespertares cerebrais contínuos. A obesidade é o principal fator de risco modificável para essa condição. O mecanismo de ação do Mounjaro sobre a respiração ocorre essencialmente pela redução substancial da adiposidade corporal, que desobstrui o espaço da garganta e diminui o peso tecidual que colapsa a via respiratória.

A aprovação do Mounjaro representa um marco histórico no manejo da apneia obstrutiva do sono. Pela primeira vez, os pacientes contam com uma opção medicamentosa formalmente respaldada por ensaios clínicos robustos para atuar diretamente na causa anatômica e metabólica do colapso respiratório.
Aprovação regulatória: o que definiram a Anvisa e o FDA?
A inclusão da apneia do sono nas indicações clínicas do Mounjaro foi analisada pelos principais órgãos reguladores:
- Aprovação pela Anvisa no Brasil: em outubro de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou a indicação em bula do Mounjaro (tirzepatida) para o tratamento da apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade (IMC a partir de 30 kg/m²), associado a dieta hipocalórica e atividade física.
- Aprovação pelo FDA nos Estados Unidos: em dezembro de 2024, o Food and Drug Administration aprovou a tirzepatida (sob a marca Zepbound) para a mesma finalidade nos Estados Unidos.
Até então, o manejo da apneia do sono dependia exclusivamente de medidas comportamentais, dispositivos mecânicos de pressão positiva (como o CPAP), aparelhos intraorais de avanço mandibular e intervenções cirúrgicas da via aérea superior.
O estudo SURMOUNT-OSA: o que comprovou a ciência?
As aprovações regulatórias basearam-se no estudo SURMOUNT-OSA, ensaio clínico internacional de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, publicado no periódico New England Journal of Medicine em 2024.
O estudo avaliou 469 pacientes adultos com obesidade e apneia obstrutiva do sono moderada a grave, distribuídos em centros de pesquisa de nove países. O desenho da pesquisa dividiu os voluntários em dois estudos paralelos ao longo de 52 semanas de acompanhamento:
- Estudo 1: reuniu pacientes com apneia que não utilizavam e não toleravam o tratamento com CPAP.
- Estudo 2: avaliou pacientes que mantinham o uso regular do aparelho de CPAP durante as noites.
Os participantes apresentavam no início da pesquisa um quadro de apneia acentuadamente grave, com média basal em torno de 51,5 a 52 eventos obstrutivos por hora — o chamado índice de apneia e hipopneia (IAH). Os achados demonstraram avanços clínicos de grande relevância:
- Queda marcante no IAH: os pacientes tratados com tirzepatida apresentaram uma redução média de até 29,1 eventos respiratórios obstrutivos por hora em comparação ao grupo que recebeu apenas placebo.
- Remissão e controle da doença: aproximadamente 50% dos indivíduos medicados alcançaram critérios de resolução da apneia (IAH inferior a 5 eventos por hora) ou atingiram uma faixa leve (IAH entre 5 e 14) sem sonolência diurna residual, aferida pela Escala de Sonolência de Epworth.
- Melhora de biomarcadores cardiovasculares: além do ganho respiratório, observou-se redução expressiva da pressão arterial sistólica e diastólica, queda significativa nos níveis de proteína C reativa (PCR, marcador de inflamação vascular) e menor índice de hipoxemia (quedas severas na saturação de oxigênio).
Por que a perda de peso desobstrui a via aérea durante o sono?
Para entender o impacto da tirzepatida, é indispensável examinar a anatomia funcional da respiração noturna. Durante o sono, ocorre um relaxamento fisiológico natural da musculatura de sustentação da faringe. Em pessoas sem alterações anatômicas, o espaço da garganta permanece amplo o suficiente para permitir o fluxo livre de ar.
Nos indivíduos com sobrepeso ou obesidade, o acúmulo de tecido adiposo não se restringe à região subcutânea abdominal. A gordura deposita-se intensamente na região cervical profunda e nas estruturas internas da via aérea:
- Gordura ao redor da faringe: o tecido adiposo acumulado nas paredes laterais da garganta estreita o canal respiratório, tornando a parede da faringe mais complacente e suscetível ao colapso diante da pressão negativa gerada pelo diafragma ao inspirar.
- Gordura na base da língua: estudos por ressonância magnética comprovam que a língua de indivíduos com obesidade acumula grande volume de gordura intramuscular. Quando a pessoa adormece de barriga para cima (decúbito dorsal), a gravidade faz com que essa língua aumentada despenque para trás, encostando na parede posterior da faringe e bloqueando totalmente a entrada de ar.
A tirzepatida é uma molécula inovadora que atua como agonista duplo dos receptores de GIP e GLP-1, hormônios que modulam a saciedade no hipotálamo, retardam o esvaziamento gástrico e melhoram a sensibilidade à insulina. A perda de peso maciça proporcionada pelo fármaco reduz diretamente os depósitos de gordura cervical e o volume da língua. Os gráficos do estudo SURMOUNT-OSA evidenciam que a curva de redução do índice de apneia corre em paralelo à curva de emagrecimento corporal.
É importante lembrar que alterações metabólicas decorrentes da adaptação ao tratamento podem provocar outros sintomas no início do uso. Veja também as orientações sobre como as canetinhas emagrecedoras podem causar tontura por oscilações na glicose e na hidratação.
Ozempic e Wegovy também tratam a apneia do sono?
Uma dúvida comum é se outras canetas emagrecedoras consagradas, como o Ozempic e o Wegovy, também possuem autorização para tratar a apneia. A resposta técnica é não.
Tanto o Ozempic quanto o Wegovy contêm o princípio ativo semaglutida, que é um agonista simples do receptor de GLP-1. Embora a semaglutida proporcione controle glicêmico no diabetes e perda de peso relevante na obesidade — o que indiretamente pode favorecer a respiração —, o laboratório fabricante não conduziu ensaios clínicos de fase 3 específicos para a indicação de apneia obstrutiva do sono até o presente momento.
Portanto, o Mounjaro (tirzepatida) permanece como o único medicamento com comprovação científica direta e aprovação formal em bula para o tratamento da apneia do sono reconhecido pela Anvisa no Brasil.
O Mounjaro substitui o uso do CPAP?
Não se deve abandonar o aparelho de CPAP ao iniciar o uso da medicação. O CPAP continua sendo o tratamento padrão-ouro para a apneia moderada a grave porque fornece alívio mecânico imediato, abrindo as vias aéreas desde a primeira noite de uso com eficácia próxima a 100% enquanto estiver em funcionamento.
Por outro lado, o efeito do Mounjaro sobre a respiração é progressivo e depende da perda de peso acumulada ao longo de várias semanas ou meses. A interrupção abrupta do CPAP sem controle clínico expõe o paciente ao retorno imediato das paradas respiratórias, ao aumento da pressão arterial matinal e ao risco cardiovascular agudo.
Em pacientes que atingem perda de peso significativa e apresentam melhora visível dos sintomas de ronco e cansaço, o médico especialista pode solicitar uma nova polissonografia de controle. Comprovada a normalização ou redução acentuada dos eventos respiratórios no exame do sono, o profissional poderá avaliar o ajuste de pressão do equipamento, a transição para outros dispositivos ou, em casos selecionados, a suspensão monitorada do CPAP.
Vídeo: Mounjaro® para tratar apneia do sono
No vídeo a seguir, a médica otorrinolaringologista detalha a aprovação em bula do Mounjaro pela Anvisa e pelo FDA, explica como a redução da gordura na faringe e na língua desobstrui a respiração e analisa os resultados do estudo SURMOUNT-OSA.
Perguntas frequentes
O Mounjaro cura a apneia do sono de forma definitiva?
Não necessariamente de forma definitiva. Embora cerca de metade dos participantes do ensaio clínico tenha alcançado a remissão dos eventos obstrutivos durante o uso da medicação, a apneia do sono é uma condição crônica. Caso o paciente interrompa o tratamento e ocorra reganho do peso corporal, a gordura cervical pode voltar a se depositar na via aérea, reativando as pausas respiratórias. Além disso, alterações ósseas craniofaciais prévias mantêm fatores obstrutivos independentes do peso.
Posso suspender o CPAP logo após iniciar as injeções de Mounjaro?
Não. A melhora dos índices respiratórios não ocorre nos primeiros dias de aplicação da medicação, pois depende da redução expressiva do tecido adiposo na garganta e na língua ao longo dos meses. O CPAP deve ser mantido todas as noites até que o médico assistente solicite uma nova polissonografia para checar a evolução objetiva da respiração.
O Mounjaro elimina o ronco completamente?
O ronco é o som produzido pela vibração das partes moles estreitadas da faringe durante a respiração. Ao reduzir o volume da gordura ao redor da via aérea, o espaço respiratório se amplia e o ronco costuma reduzir consideravelmente em frequência e volume. No entanto, problemas anatômicos concomitantes, como desvio septal, rinite com hipertrofia de cornetos ou amígdalas volumosas, podem manter o ronco residual.
Qualquer pessoa que ronca pode usar o Mounjaro?
Não. A indicação do medicamento aprovada em bula destina-se especificamente a pacientes adultos com obesidade (IMC igual ou maior que 30 kg/m²) que apresentem apneia obstrutiva do sono confirmada nos graus moderado ou grave. Pacientes com peso normal, com ronco primário isolado ou com apneia leve fora dos critérios de obesidade não possuem indicação para essa abordagem farmacológica.
Referências
- VILELA, Larissa. Mounjaro® para tratar apneia do sono!. YouTube, 11 fev. 2026. 1 vídeo (13 min 19 s). Disponível em: https://youtu.be/EN4LnGynMeo. Acesso em: 10 set. 2026.
- MALHOTRA, Atul et al. Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity. New England Journal of Medicine, v. 391, n. 13, p. 1193-1205, 2024. DOI: 10.1056/NEJMoa2404881. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38912654/. Acesso em: 10 set. 2026.
- PATIL, Susheel P. et al. Treatment of Adult Obstructive Sleep Apnea with Positive Airway Pressure: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine, v. 15, n. 2, p. 335-343, 2019. DOI: 10.5664/jcsm.7640. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30736887/. Acesso em: 10 set. 2026.
- BITTENCOURT, Lia et al. Diretrizes brasileiras do diagnóstico da síndrome da apneia obstrutiva do sono e ronco primário. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 79, n. 6, p. 804-814, 2013. DOI: 10.5935/1808-8694.20130143. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24474492/. Acesso em: 10 set. 2026.
Avaliação de ronco e apneia do sono em Brasília
O ronco e as paradas respiratórias noturnas exigem diagnóstico otorrinolaringológico aprofundado para mapear os pontos exatos de obstrução na via aérea superior. Em uma consulta com otorrino em Brasília na Clínica OtoCare, é possível realizar a inspeção detalhada da cavidade oral, da faringe e a nasofibrolaringoscopia para verificar desvios de septo, cornetos nasais, amígdalas e a base da língua.
Para casos selecionados que demandam investigação anatômica durante o sono induzido, a clínica oferece também a sonoendoscopia em Brasília, além de direcionamento para polissonografia e acompanhamento terapêutico conjunto.
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