Surdez unilateral: as dificuldades de ouvir só de um lado

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Por que um ouvido bom não resolve

Quem ouve bem de um lado e nada do outro tem, sim, dificuldades no dia a dia. A frase mais comum no consultório é que o ouvido bom compensa tudo. Ele compensa muita coisa, mas não compensa aquilo que só existe porque somos feitos com duas orelhas: saber de onde vem o som e separar a conversa do barulho ao redor.

Essa é a razão de a surdez unilateral passar despercebida por anos, principalmente em crianças. A audição parece normal em casa, no silêncio, cara a cara. As dificuldades aparecem na rua, na sala de aula, na reunião e na festa.

Médica otorrino apontando para a própria orelha ao lado de ilustrações de som chegando de um lado, representando a surdez unilateral

Dificuldade de saber de onde vem o som

O cérebro descobre a direção do som comparando as duas orelhas. Quando alguém fala à esquerda, o som chega primeiro à orelha esquerda e só depois à direita, com uma diferença de menos de um milésimo de segundo. Essa diferença mínima de tempo, somada à diferença de intensidade entre um lado e outro, é o que permite apontar a origem do som sem olhar.

Com uma orelha fora de operação, a comparação deixa de existir. O resultado aparece em cenas concretas:

  • Na mesa de reunião: várias pessoas falando e a dificuldade de identificar quem começou a falar, com a sensação de estar sempre um passo atrás da conversa.
  • Na rua: ouvir o carro, a buzina ou a bicicleta e não saber de que lado vem, o que transforma atravessar a rua em um problema de segurança.
  • Em casa: procurar o celular que toca ou responder a quem chama de outro cômodo.

Essa perda de localização é o achado mais característico da surdez unilateral, e é a queixa que mais se repete no consultório.

Dificuldade de entender no barulho

A segunda dificuldade aparece sempre que o ambiente tem ruído: restaurante, festa, escritório aberto, sala de aula. Ouvir com as duas orelhas oferece três vantagens que se perdem de uma vez:

Vantagem de ouvir dos dois ladosO que ela faz
Sombra da cabeçaA própria cabeça funciona como barreira. Com duas orelhas, sempre há uma em posição melhor em relação à voz que interessa. Com uma só, se a conversa vier do lado surdo, ela chega abafada.
Separação do ruídoO cérebro compara as duas entradas e descarta parte do barulho de fundo, destacando a fala. Com uma entrada só, não há o que comparar.
SomaçãoO mesmo som captado pelos dois lados é percebido com mais conforto e clareza do que por um lado apenas.

Na prática, a pessoa entende bem no silêncio e mal no barulho. É um padrão que costuma ser confundido com desatenção, tanto na criança quanto no adulto.

O cansaço de ouvir com um ouvido só

Existe um terceiro efeito, menos visível: o esforço. Quando as pistas dos dois lados faltam, o cérebro precisa trabalhar mais para preencher as lacunas, prestando atenção redobrada, lendo lábios e deduzindo pelo contexto. Isso funciona, mas cobra caro.

O resultado é cansaço no fim do dia de aula ou de trabalho, vontade de evitar ambientes barulhentos e desgaste em situações sociais. Não é preguiça nem falta de interesse: é o custo de escutar sem a ajuda do segundo ouvido.

Na escola, o impacto é medido

A ideia de que a criança com um ouvido normal acompanha a turma sem prejuízo não se sustenta nos estudos. Em uma revisão sobre desempenho escolar de crianças com perda auditiva unilateral:

  • de 22% a 35% repetiram pelo menos um ano escolar;
  • de 12% a 41% precisaram de apoio educacional adicional.

Some-se a isso o risco de a perda piorar: em crianças com perda unilateral de grau leve a severo, a chance de progressão no ouvido pior chega a 40%, e cerca de 20% evoluem para perda nos dois lados. Por isso o acompanhamento é periódico, e não uma avaliação única.

Na sala de aula, medidas simples mudam o rendimento: sentar a criança na frente, com o ouvido bom voltado para a professora e longe do corredor e do ar-condicionado, e informar a escola sobre a perda. Quando o ruído da sala é o principal obstáculo, sistemas de microfone sem fio, que levam a voz da professora diretamente ao ouvido do aluno, são os que mais ajudam a entender a fala no barulho.

O grau da perda muda o tamanho da dificuldade

A surdez unilateral pode ser leve, moderada, severa, profunda ou total, sem nenhum resíduo de audição. As dificuldades de localizar o som e de entender no barulho aparecem em praticamente todos esses graus, mas a intensidade acompanha a perda: na perda leve o incômodo costuma ser pequeno e situacional; conforme a audição daquele lado piora, as limitações se acentuam.

O grau é definido pela audiometria. Em bebês e crianças pequenas, que não respondem ao exame convencional, o BERA mede a resposta do nervo auditivo e confirma a perda. Esse grau, a lateralidade e o código do CID são o que o laudo de surdez registra por escrito.

Quando a perda de um lado é uma urgência

Perda de audição que se instala em minutos, horas ou poucos dias em um ouvido só não é para esperar. A surdez súbita tem tratamento com prazo: quanto antes o corticoide começa, maior a chance de recuperar audição. Ao agendar na OtoCare, informe que a perda foi repentina, para que o horário seja priorizado.

A surdez unilateral instalada há anos não tem essa pressa, mas merece investigação da causa. Ela pode vir de infecções na infância, caxumba, trauma, doença de Ménière, malformação da orelha interna ou do nervo auditivo e, mais raramente, de tumores benignos do nervo. Zumbido no ouvido que ouve menos é um acompanhante frequente, e a relação entre audição e zumbido está explicada em aparelho auditivo ajuda no zumbido.

O que existe de tratamento

Não há como devolver a audição de um ouvido com lesão definitiva, mas há como devolver informação ao cérebro. A força-tarefa da Sociedade Brasileira de Otologia, publicada em 2025, organizou as opções:

OpçãoComo funcionaO que resolve
Aparelho CROSUm microfone no lado surdo envia o som para o aparelho do lado que ouve bem.Reduz o efeito da sombra da cabeça e ajuda quando a fala vem do lado surdo. Não devolve a localização do som.
Prótese de condução ósseaO som do lado surdo é conduzido pelo osso do crânio até a orelha interna que funciona.Costuma render melhor que o CROS para entender no barulho. Também não restaura a audição dos dois lados.
Implante coclearEstimula diretamente o nervo auditivo do lado surdo.É a única opção que devolve audição nos dois lados, com ganho em compreensão no ruído, localização e controle do zumbido.

O implante coclear recebeu recomendação forte para a surdez unilateral nessa força-tarefa, com uma ressalva importante: ele depende de um nervo auditivo presente, o que precisa ser verificado antes, sobretudo nos casos de nascença. A escolha entre as três opções depende do grau da perda, da causa, da idade e do quanto o dia a dia está prejudicado, e um período de teste com o dispositivo ajuda a decidir.

Para entender em detalhes como funciona cada opção, as indicações em bebês e adultos e as vantagens de testar a prótese óssea com tiara no consultório, veja o guia sobre tratamento da surdez unilateral.

Quando a perda do outro lado também existe ou aparece com o tempo, a conduta muda: veja surdez com a idade.

Surdez unilateral dá direito de PCD?

Depende do grau. A lei reconhece como deficiência auditiva a perda total em uma orelha; a perda parcial de um lado só não se enquadra, mesmo quando é significativa. O critério, com as frequências que entram na conta, está na orientação sobre o cálculo do PCD auditivo, e a calculadora de PCD auditivo faz a média da sua audiometria.

Vídeo: as dificuldades da surdez unilateral

O vídeo abaixo explica, em cinco minutos, por que localizar o som e entender no barulho dependem das duas orelhas.

Perguntas frequentes

Quem ouve de um lado só pode dirigir?

Pode. A audição unilateral não impede a habilitação, mas exige compensar a falta de localização com atenção visual: usar mais os retrovisores, conferir os dois lados nos cruzamentos e manter o volume do som baixo.

Criança que ouve bem de um ouvido precisa mesmo de tratamento?

Precisa acompanhar, no mínimo. As crianças com perda unilateral repetem mais de ano e precisam mais de apoio escolar do que os colegas, e a perda pode progredir. Adaptações na sala de aula e o acompanhamento periódico da audição vêm primeiro; a indicação de dispositivo é discutida caso a caso.

Aparelho auditivo comum resolve a surdez unilateral?

Só quando ainda existe audição aproveitável naquele lado. Quando a perda é profunda ou total, amplificar aquele ouvido não adianta, e a alternativa é levar o som para o lado que ouve, com CROS ou condução óssea, ou estimular o nervo com implante coclear.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Quais são as dificuldades causadas pela surdez unilateral? YouTube, 4 jan. 2024. 1 vídeo (5 min 24 s). Disponível em: https://youtu.be/lmOSllguTeg. Acesso em: 20 set. 2026.
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE OTOLOGIA. Brazilian Society of Otology task force: single sided deafness — recommendations based on strength of evidence. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 91, n. 1, 101514, 2025. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11492085/. Acesso em: 20 set. 2026.
  3. LIEU, J. E. Speech-language and educational consequences of unilateral hearing loss in children. Archives of Otolaryngology–Head & Neck Surgery, v. 130, n. 5, p. 524-530, 2004. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15148171/. Acesso em: 20 set. 2026.
  4. LIEU, J. E. C. Permanent unilateral hearing loss (UHL) and childhood development. Current Otorhinolaryngology Reports, v. 6, n. 1, p. 74-81, 2018. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5884900/. Acesso em: 20 set. 2026.
  5. APPACHI, S. et al. Auditory outcomes with hearing rehabilitation in children with unilateral hearing loss: a systematic review. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 157, n. 4, p. 565-571, 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28849705/. Acesso em: 20 set. 2026.

Avaliação da audição em Brasília

Ouvir de um lado só tem explicação, tem grau e tem conduta. Na consulta com otorrino em Brasília, o ouvido é examinado, a causa é investigada e a audiometria é realizada na própria clínica, com o resultado discutido na mesma consulta.

Telefone e WhatsApp: (61) 99957-8479

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