Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Como tratar ronco e apneia do sono
O tratamento do ronco e da apneia do sono combina medidas para todos, como perda de peso, atividade física e controle do refluxo, com opções escolhidas conforme o grau e a anatomia de cada pessoa: dormir de lado, aparelho intraoral, fonoterapia, cirurgias e CPAP. Não existe um tratamento único que sirva para todos.
Ronco e apneia são manifestações da mesma dificuldade: respirar enquanto se dorme. Na maior parte das vezes o ponto de obstrução fica na garganta, a faringe, que é um tubo de músculo sem osso ou cartilagem firme para sustentá-la. Por isso ela se fecha com facilidade durante o sono. No ronco, a passagem fica estreita e o ar faz barulho ao atravessar; na apneia, o estreitamento é maior ou a passagem se fecha por completo, e a pessoa pode acordar engasgada.

O tratamento depende do grau. Ronco sem apneia, o chamado ronco primário, e apneia leve, moderada ou grave pedem planos diferentes. A gravidade vem da polissonografia, e o que cada grau significa está na orientação sobre apneia do sono.
Tratar vale a pena porque o sono ruim cobra caro: sonolência e cansaço durante o dia, sensação de não ter descansado, memória e raciocínio mais lentos, irritação e alterações de humor, além de efeitos no coração, no metabolismo e nos hormônios, incluindo mais facilidade para ganhar peso.
1. Perda de peso
Quem está acima do peso adequado para a altura tem como primeira recomendação emagrecer. O ganho de peso não deposita gordura só no abdômen, nos braços e no quadril: o pescoço também acumula gordura por dentro, em volta da garganta. Como a faringe é maleável, essa pressão externa a estreita. A língua também acumula tecido gorduroso, fica maior e tende a fechar a passagem do ar.
O efeito do peso é bem documentado. Em um estudo que acompanhou adultos por quatro anos, cada 10% de perda de peso se associou a uma queda de cerca de 26% no índice de apneia, e cada 10% de ganho elevou esse índice em cerca de 32%. Em alguns casos, a perda de peso pode incluir medicação, como mostra a orientação sobre Mounjaro para apneia do sono.
2. Atividade física
Exercício aeróbico e musculação melhoram o tônus dos músculos do corpo inteiro, inclusive os da garganta. À noite, quando essa musculatura relaxa, um tônus melhor ajuda a mantê-la firme e reduz o estreitamento. Por isso a atividade física faz parte do tratamento, e não é só uma recomendação geral de saúde.
3. Tratamento do refluxo
O refluxo gastroesofágico sem controle piora o ronco e a apneia. Quem tem as duas condições não deve deixar o refluxo de lado achando que ele não interfere no sono: tratá-lo tende a melhorar a respiração noturna. Peso, atividade física e refluxo são os três pontos avaliados em todos os pacientes, qualquer que seja o grau.
4. Dormir de lado
Algumas pessoas respiram bem de lado e roncam ou têm apneia só de barriga para cima. A polissonografia mostra esse padrão. Nesses casos, manter a posição de lado durante a noite pode bastar para o ronco e para a apneia mais leve, e a medida ajuda praticamente todos os outros pacientes. Os recursos para não virar de barriga para cima durante o sono estão na orientação sobre terapia posicional.
5. Aparelho intraoral
O aparelho intraoral, também chamado de aparelho de avanço mandibular, é removível, apoiado nas duas arcadas, e leva o queixo um pouco para a frente durante o sono. Isso amplia o espaço da garganta, justamente na região que costuma se fechar. Tem boa eficácia, mas costuma ser indicado para ronco primário e apneia leve ou, no máximo, moderada. Indicação e cuidados estão na orientação sobre aparelho intraoral para ronco e apneia.
6. Fonoterapia
A terapia miofuncional orofacial é uma fonoterapia com exercícios específicos para a musculatura da garganta e da língua. Ao melhorar o tônus desses músculos, ela deixa a faringe mais firme e estável ao longo da noite e atua numa das bases do problema: a flacidez que deixa a garganta fechar.
Ela pode ser indicada no ronco primário, na apneia leve e moderada e também na apneia grave, somada a outros tratamentos. Uma revisão com metanálise encontrou redução de cerca de 50% no índice de apneia em adultos que fizeram os exercícios, além de menos ronco e menos sonolência.
7. Cirurgias da garganta
A cirurgia depende muito de cada paciente. Quem tem uma causa anatômica clara costuma melhorar bastante. O exemplo típico são as amígdalas muito grandes: a retirada das amígdalas libera a garganta e reduz muito o ronco.
Quando as amígdalas não são grandes, mas a anatomia é desfavorável, as faringoplastias remodelam a musculatura da garganta para ampliar a passagem do ar. As técnicas mais modernas são as faringoplastias expansoras, que substituíram em grande parte a antiga uvulopalatofaringoplastia. Podem ser indicadas do ronco primário à apneia grave, desde que o exame mostre que há espaço a ganhar. A sonoendoscopia ajuda a ver em que ponto a garganta se fecha durante o sono.
8. Cirurgia de avanço maxilomandibular
É uma cirurgia dos ossos da face: a maxila e a mandíbula são cortadas e reposicionadas mais à frente, o que amplia a via respiratória por trás. É indicada para quem tem a maxila pouco desenvolvida ou a mandíbula retraída, com o queixo para dentro, condição chamada de retrognatia. Tem alta eficácia, inclusive na apneia grave, mas é um procedimento extenso, reservado para alterações ósseas bem definidas na avaliação.
Operar só o nariz resolve a apneia?
Na maioria dos casos, não. Essa é uma das dúvidas mais comuns. A correção do desvio de septo e o tratamento dos cornetos aumentados, como a cauterização dos cornetos, desobstruem o nariz, melhoram muito a respiração e a qualidade do sono e ajudam um pouco no ronco. Mas o efeito sobre a apneia é pequeno: estima-se uma melhora em torno de 10%, o que em geral não basta nem para a apneia leve.
Uma metanálise confirmou esse padrão: a cirurgia nasal isolada melhorou a sonolência durante o dia, sem reduzir de forma significativa o índice de apneia. Por isso, o nariz costuma ser operado para melhorar a respiração e permitir que outros tratamentos funcionem. Sozinha, a cirurgia nasal só resolve o ronco primário e os quadros muito leves.
9. CPAP
O CPAP é um aparelho de pressão positiva: durante a noite, envia ar com pressão por uma máscara e mantém a via aérea aberta. Em teoria trata todos os tipos de apneia e também o ronco, e é considerado o padrão-ouro no tratamento da apneia do sono.
Mesmo assim, costuma ficar reservado para a apneia grave ou para a moderada que não melhorou com as outras opções. O equipamento tem custo relativamente alto, exige dormir com a máscara todas as noites, e muitas pessoas não se adaptam. Quando bem indicado e bem tolerado, resolve o quadro na grande maioria dos casos.
O que vem por aí: estimulador do nervo hipoglosso
O nervo hipoglosso comanda o músculo genioglosso, o principal responsável por manter a língua à frente e a garganta aberta. O estimulador é um dispositivo implantado em cirurgia que ativa esse nervo durante o sono. Em um estudo multicêntrico com pacientes de apneia moderada a grave que não toleravam o CPAP, o implante reduziu o índice de apneia de forma significativa em 12 meses. O procedimento já é usado em outros países e deve chegar à prática brasileira. Também há medicações em estudo, e novas opções devem surgir nos próximos anos.
Vídeo: todos os tratamentos para ronco e apneia
O vídeo abaixo percorre cada opção de tratamento, das medidas de estilo de vida às cirurgias e ao CPAP, e explica para quem cada uma costuma ser indicada.
Perguntas frequentes
Qual é o melhor tratamento para ronco e apneia?
Depende do grau, do peso, da anatomia do nariz, da garganta e da face e da preferência do paciente. Medidas como perda de peso, exercício e controle do refluxo valem para todos; as demais são escolhidas depois do exame e da polissonografia, e muitas vezes são combinadas.
Apneia do sono tem cura?
Em muitos casos, sim, especialmente quando a causa é tratável, como amígdalas grandes, excesso de peso ou uma alteração óssea corrigida por cirurgia. Em outros, o tratamento controla a doença enquanto é mantido, como acontece com o CPAP e o aparelho intraoral.
Quem usa CPAP pode trocar por outro tratamento?
Às vezes. Perda de peso importante, fonoterapia, cirurgia bem indicada e, no futuro, o estimulador do hipoglosso podem reduzir ou substituir o uso. A troca só deve ser feita depois de reavaliação, de preferência com nova polissonografia.
Referências
- VILELA, Larissa. Todos os tratamentos para ronco e apneia! YouTube, 20 set. 2025. 1 vídeo (21 min 41 s). Disponível em: https://youtu.be/gQ1Et7GCsFk. Acesso em: 16 set. 2026.
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