Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Cera de ouvido é boa: só o excesso atrapalha
A cera de ouvido, chamada tecnicamente de cerume, não é sujeira. Muitos pacientes acham que ter cera é falta de higiene, mas ela tem funções importantes na proteção e na hidratação da pele do ouvido. Ajuda a defender o canal contra bactérias e fungos, evita o ressecamento, segura o excesso de umidade e forma uma barreira contra pequenos insetos.
O problema aparece só quando a cera fica em excesso. Algumas pessoas produzem muita cera, outras acabam empurrando a cera para dentro, e o acúmulo pode tampar o ouvido, piorar a audição e até doer. Nesses casos, a retirada é feita no consultório do otorrino. Em casa, dentro do canal, não se mexe.

Cera de ouvido não é sujeira, é proteção. Ela só precisa ser tirada quando se acumula e tampa o ouvido.
Ver um pouco de cera no fone ou na entrada do ouvido é normal. O próprio ouvido tem um mecanismo para expulsar o excesso de cerume, que sai aos poucos para a parte de fora da orelha.
O que é a cera de ouvido e onde ela é produzida?
O cerume é uma mistura de duas coisas. Uma parte é queratina, que vem da descamação natural da pele do canal auditivo. A outra é gordura, principalmente ácidos graxos de cadeia longa, produzida por dois tipos de glândulas da pele do canal, as glândulas ceruminosas e as glândulas sebáceas. Nas análises de laboratório, a queratina das células descamadas responde por cerca de 60% da cera.
Essas glândulas existem só na porção mais externa do canal, mais ou menos no terço externo, perto da orelha. Do terço externo para dentro, até o tímpano, não se produz cera. Por isso, o cerume fica naturalmente nessa região de fora, onde forma uma barreira de proteção.
Dali, a cera mais velha é levada para fora junto com a pele que descama, num movimento lento ajudado pela mastigação e pelos movimentos da mandíbula. Perto da entrada do ouvido, ela seca, se solta e cai, ou sai no banho.
Quando a cera aparece acumulada lá no fundo, encostada no tímpano, em geral ela foi empurrada para lá. Segundo a Academia Americana de Otorrinolaringologia, isso costuma acontecer em quem cutuca o ouvido com cotonete, grampo de cabelo ou ponta de guardanapo torcida. Dessa região, o ouvido já não consegue expulsá-la sozinho.
Cera de ouvido: para que serve?
A cera tem quatro funções principais, todas ligadas à proteção da pele do ouvido.
- Defesa contra infecções. A cera tem ação antibacteriana e antifúngica e protege o ouvido externo das infecções por bactérias e por fungos.
- Hidratação da pele. Ela lubrifica a pele do canal e evita o ressecamento, as descamações e até eczemas, que aparecem quando o ouvido fica seco demais.
- Controle da umidade. Ela impede que o ouvido retenha água em excesso e protege a pele da maceração, o amolecimento provocado pela umidade prolongada.
- Barreira física. Na entrada do canal, ela ajuda a segurar pequenos objetos e pequenos insetos.
As pesquisas sobre o cerume ajudam a entender essas funções. A cera mantém o canal levemente ácido, limita a umidade e contém substâncias de defesa do próprio corpo contra micróbios, como a lisozima e as defensinas.
Por isso, é importante ter cera. Quem já está com o ouvido molhado depois do banho ou da piscina encontra as formas seguras de secá-lo na orientação sobre como tirar água do ouvido.
É bom tirar a cera do ouvido?
Quando a cera não incomoda, não. A maioria das pessoas não precisa tirar cera no consultório, porque o próprio ouvido elimina o excesso. Segundo o Manual MSD, mesmo grandes quantidades de cera muitas vezes não causam sintoma nenhum. Na diretriz sobre cera da Academia Americana de Otorrinolaringologia, a recomendação é não tratar a cera de quem não tem queixa e tem o ouvido bem visível no exame.
Deixar o canal sem cera também não faz bem. Sem essa camada, a pele do ouvido fica seca e coça, segundo a mesma academia, e uma revisão recente associa a falta de cera a um desequilíbrio dos micróbios do canal, que favorece infecções. Quando a pele já está ressecada, a hidratação é feita com orientação médica, por exemplo com um hidratante de ouvido em gotas.
Por isso, nem todo mundo precisa ir ao otorrino fazer limpeza de ouvido. A remoção no consultório fica para alguns pacientes, quando a cera se acumula e causa sintomas ou atrapalha o exame.
Por que algumas pessoas produzem muita cera?
A produção de cera é muito individual. Algumas pessoas produzem muita cera e precisam limpar o ouvido no consultório com regularidade. Outras produzem tão pouco que a cera nunca chega a incomodar. Os fatores mais conhecidos estão abaixo.
- Mais glândulas. Quem tem mais glândulas ceruminosas e sebáceas no canal produz mais cerume.
- Canal estreito. Mesmo com produção normal, a pouca cera que existe se acumula com facilidade e passa a incomodar.
- Diferença entre os lados. Um ouvido pode produzir bem mais cera que o outro, e há pacientes que só precisam tirar cera de um lado.
- Irritação da pele do canal. A pele irritada produz mais cera. O NHS, o sistema público de saúde britânico, cita também as doenças de pele do couro cabeludo e ao redor da orelha e a inflamação do canal entre as causas de acúmulo.
- Inflamação e febre. Estados inflamatórios no corpo, como os quadros febris, também podem aumentar a produção.
- Questões emocionais. Também aparecem ligadas ao aumento da cera.
- Idade. Com o envelhecimento, a produção pode aumentar e a cera pode mudar, ficando mais seca e diferente do que era antes.
- Pelos e aparelho dentro do canal. Muitos pelos no canal dificultam a saída da cera, segundo o NHS. O aparelho auditivo, que fica dentro do ouvido, também atrapalha a limpeza natural e empurra a cera para o fundo.
Os pelinhos da entrada do ouvido, porém, têm sua função. Eles ajudam a impedir que insetos e objetos maiores entrem no canal. Se estão em excesso, saindo da orelha, podem ser aparados, mas não precisam ser retirados.
Em quem usa aparelho auditivo, a pele do canal se irrita com facilidade, e essa irritação tem cuidados próprios, descritos na orientação sobre coceira no ouvido com aparelho auditivo.
No trecho de entrevista abaixo, a dúvida de quem produz muita cera é respondida em poucas palavras, da cera que bloqueia o canal à limpeza periódica no otorrino.
Pessoas com produção alta de cera ou canal estreito retornam periodicamente ao otorrino para retirar a cera, antes que ela feche o ouvido. O intervalo muda de uma pessoa para outra e, depois de descoberto, costuma se repetir ao longo dos anos, como explica a orientação sobre de quanto em quanto tempo lavar o ouvido.
Cera seca ou úmida: o que define o tipo?
Existem dois tipos de cera. A seca se desfaz em pequenos flocos, e a úmida é mais pegajosa. O tipo vem de família e é definido sobretudo por uma variação no gene ABCC11. A cera seca aparece em cerca de 95% das pessoas do leste da Ásia e é rara em quem tem origem europeia ou africana, em que predomina a úmida.
Os dois tipos são normais e não indicam doença.
Tabelas que circulam na internet associam cera marrom ao estresse, cera branca à falta de vitaminas ou cera cinza à poluição. Essas interpretações não têm base em estudos.
Quais sintomas indicam excesso de cera?
A cera vira problema quando se acumula a ponto de fechar o canal, a chamada rolha de cerume, ou cerume impactado. Isso acontece de duas formas. Ou a pessoa produz cera demais, ou a cera é empurrada para dentro e não consegue mais sair. Os sintomas mais comuns são estes.
- sensação de ouvido tampado;
- audição pior, mais abafada;
- zumbido;
- dor leve, em alguns casos;
- coceira;
- tontura;
- tosse.
Muitas vezes o excesso não aparece por fora, e a pessoa apenas sente o ouvido tampado. Esses sintomas também surgem em otites e em outras doenças do ouvido, e só o exame com o otoscópio confirma que a causa é a cera.
A rolha de cera aparece com frequência em idosos e em pessoas com deficiência intelectual, e quem usa aparelho auditivo tende a acumular mais cera. Nas crianças pequenas e em quem não consegue contar o que sente, a diretriz americana orienta procurar a cera durante o exame, e o canal de quem usa aparelho auditivo deve ser examinado nas consultas. Na criança que demora a falar, uma rolha de cera pode atrapalhar a audição, e por isso o exame dos ouvidos é o primeiro passo da investigação do atraso na fala.
Ao primeiro sinal de ouvido tampando, não vale esperar que ele feche por completo, porque a retirada pode ser mais simples antes que o acúmulo cresça.
Se o ouvido tampou de repente, o teste caseiro para surdez súbita, conhecido como teste do hum, dá uma pista se a causa parece ser cera ou um problema da orelha interna. Ele não substitui o exame.
Perda de audição súbita, dor forte, secreção saindo do ouvido ou tontura intensa não devem ser atribuídas à cera sem exame. Todos esses sinais precisam de avaliação médica sem demora.
Como limpar o ouvido e quando tirar a cera?
A limpeza do dia a dia acontece no banho. Com as mãos, água e sabão passam só pela parte de fora da orelha, e a secagem fica por conta da ponta da toalha. O cotonete não entra nessa rotina, porque empurra a cera para regiões de onde o ouvido não consegue mais expulsá-la e pode ferir o canal. Os riscos estão na orientação sobre cotonete no ouvido.
Não tente remover a cera em casa, de nenhuma forma. A chance de empurrar o cerume ou de machucar o ouvido é grande, seja com removedores e kits de limpeza, seja ao lavar o ouvido em casa, seja com cone hindu ou vela no ouvido. Gotas também não entram por conta própria. Mesmo a água oxigenada no ouvido depende de indicação do otorrino, e o Cerumin® apenas prepara a cera para a lavagem feita no consultório, sem resolver a rolha sozinho.
Quando há excesso, a cera é retirada no consultório, por lavagem ou com instrumentos específicos, como curetas, estiletes ou pequenas pinças. A escolha depende do exame. Na maioria das lavagens, a água morna basta, e o soro fisiológico fica para o ouvido com inflamação no canal ou com perfuração do tímpano, como explica a orientação sobre água ou soro na lavagem de ouvido.
Quem tem aflição de limpar o ouvido no médico pode ficar tranquilo. Mesmo nas pessoas mais sensíveis, o otorrino costuma conseguir tirar a cera, pela lavagem ou com instrumentos.
Na OtoCare, a retirada da cera é feita depois do exame do ouvido, e as diferenças entre os métodos estão na página de lavagem de ouvido em Brasília.
Vídeo: cera de ouvido, para que serve e quando retirar
O vídeo abaixo explica como a cera é produzida, suas funções e os fatores que aumentam a produção, e mostra, em um modelo anatômico da orelha, onde o cerume se forma e o que acontece quando ele é empurrado.
Perguntas frequentes
Cera de ouvido escura ou preta é normal?
Cera escura, por si só, não é sinal de sujeira nem de doença. O que leva ao exame são os sinais que vêm junto, como cheiro forte, secreção, coceira ou ouvido tampado. Em casos muito raros, a cera escura vem junto com manchas escuras na cartilagem da orelha, num erro do metabolismo de nascença chamado alcaptonúria, em que a cera escura pode aparecer antes dos 30 anos, como um dos primeiros sinais.
Cera de ouvido branca ou seca é normal?
Sim. A cera do tipo seco costuma ser clara, amarelada ou acinzentada, e se desfaz em flocos. É o tipo mais comum em pessoas de origem asiática. Clara ou seca, ela continua protegendo o canal.
Por que a cera do ouvido fica com mau cheiro?
Cheiro forte saindo do ouvido pede exame. A Academia Americana de Otorrinolaringologia lista o odor, a secreção e a infecção entre os sinais de problema com a cera, e o cheiro ruim também aparece quando um objeto fica esquecido dentro do ouvido, segundo o Manual MSD. Não pingue nada e não tente limpar por dentro antes da consulta, porque o exame mostra se há cera presa, inflamação ou corpo estranho.
Cera de ouvido líquida, verde ou com sangue é normal?
Não. A cera úmida é pegajosa, e não líquida. Líquido que sai do ouvido, secreção esverdeada, pus ou sangue não são cera e precisam ser examinados. No adulto, uma das causas é a inflamação do canal, explicada na orientação sobre otite externa. Na criança, a secreção saindo do ouvido tem orientação própria.
Cera no ouvido pode causar infecção?
Pode, quando fica parada. A rolha de cera que demora a ser retirada pode inflamar a pele do canal e chegar a uma otite externa. O acúmulo também altera os micróbios naturais do canal e facilita as infecções, segundo uma revisão recente.
Cera no ouvido dá coceira?
Pode dar, quando se acumula. A coceira forte e frequente, porém, em geral vem de um problema da pele do canal, uma espécie de dermatite dentro do ouvido chamada otite externa eczematosa. Há várias gotas que tratam esse quadro, indicadas na consulta. Coçar com cotonete ou outros objetos machuca a pele e piora a irritação.
Cera no ouvido do bebê ou da criança é normal?
Sim. A criança também produz cera, e a quantidade varia de uma para outra. Ela é limpa como o adulto, só na parte de fora da orelha, durante o banho. Como a criança pequena pode não perceber que o ouvido tampou, a cera é procurada nas consultas e retirada no consultório quando fecha o canal.
Saiu uma bola de cera do ouvido: é normal?
Em geral, sim. O ouvido leva a cera mais velha para fora, com a ajuda da mastigação, e perto da entrada ela seca e pode se soltar em pedaços, às vezes maiores. Se depois disso o ouvido continuar tampado, doer ou escutar menos, ele precisa ser examinado.
Cera endurecida no ouvido sai sozinha?
Nem sempre. Algumas pessoas têm cera mais grossa ou pegajosa e precisam de limpeza periódica com o médico, segundo o Manual MSD. Gotas para amolecer a cera entram só com indicação do otorrino e por pouco tempo, antes da retirada no consultório, porque o uso prolongado pode irritar a pele do canal.
Cerume impactado tem cura?
Tem. A rolha sai com a retirada da cera no consultório, e no fim do procedimento o otorrino confere se o canal ficou livre. A produção de cera, porém, continua. Com produção alta ou canal estreito, a rolha pode se formar outra vez com o tempo, e por isso essas pessoas voltam ao otorrino de vez em quando.
Qual é o CID de cera no ouvido?
Na CID-10, a classificação de doenças usada no Brasil, o cerume impactado tem o código H61.2. Esse mesmo código inclui os termos cera no ouvido e rolha de cerume. A cera normal, que não tampa o ouvido nem causa sintomas, não é doença.
Referências
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