Toda tontura é labirintite? Causas reais e quando procurar médico

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Por que nem toda tontura é labirintite?

Muita gente que sente tontura logo conclui que está com labirintite. A palavra virou sinônimo de qualquer tontura, mas, na medicina, ela tem um sentido bem mais estreito. Labirintite é a inflamação do labirinto, a parte da orelha interna, bem no fundo do ouvido, que cuida do equilíbrio. E, entre todas as causas de tontura, ela é uma das mais raras.

O nome pegou pela semelhança entre labirinto e labirintite, e porque o labirinto lembra logo a tontura. Assim, a cabeça que roda ao deitar, o desequilíbrio ao andar e a sensação de estar flutuando passaram a ser chamados pelo mesmo nome. A confusão não fica só no nome. Quem se convence de que tem labirintite tende a tratar toda tontura do mesmo jeito, muitas vezes com o mesmo remédio, e a causa real continua sem diagnóstico.

Mulher encostada na parede com a mão na cabeça com tontura sendo amparada por médica em corredor

Nem toda tontura é labirintite. A labirintite verdadeira é rara e grave. A tontura do dia a dia tem muitas outras causas, e cada uma precisa de diagnóstico para ser tratada.

A tontura é um sintoma, e a labirintite é só uma das doenças que podem causá-lo. A mesma queixa pode nascer dos cristais do labirinto que saem do lugar, de mudanças no metabolismo e nos hormônios, de outras doenças do próprio labirinto e até de problemas fora do ouvido. Por isso, mais útil do que perguntar se é labirintite é descobrir de onde vem a tontura.

O que é a labirintite verdadeira e por que ela é tão rara hoje?

Na labirintite, o labirinto inflama. A inflamação pode ser causada por vírus ou por bactérias. Quando a causa é bacteriana, a infecção costuma chegar ao labirinto por dois caminhos, a partir de uma otite média, que é a infecção da orelha média, ou como consequência de uma meningite bacteriana.

Hoje esses casos são muito raros, por causa dos antibióticos. As infecções de ouvido costumam ser tratadas logo no começo, e, com o tratamento iniciado cedo, é muito difícil uma otite evoluir até a orelha interna. A dor de ouvido aponta para uma otite, e não para uma labirintite. Algumas otites podem, sim, trazer tontura, mas a maior parte das tonturas não tem relação nenhuma com otite.

Neste trecho de entrevista à Rádio Bandeirantes, a resposta a quem sofre com dor de ouvido e se pergunta se tem labirintite resume essa diferença.

Os sintomas, o diagnóstico e o tratamento da doença estão detalhados na orientação sobre a labirintite.

Quais são os sintomas da labirintite infecciosa e a sua gravidade?

A labirintite verdadeira é um quadro grave, e por isso dificilmente passa despercebida. A tontura é muito intensa, vem com náuseas e vômitos e, muitas vezes, com perda de audição. O mal-estar é tão grande que, em geral, a pessoa precisa de internação para controlar os sintomas e fazer o tratamento.

A raridade é uma boa notícia, porque a labirintite costuma deixar sequelas sérias. Depois de uma labirintite, é comum ficar um déficit do labirinto, que passa a funcionar menos, e também um déficit de audição. Os dois pedem reabilitação depois da fase aguda, e a reabilitação com exercícios para o labirinto é indicada conforme o que ficou de sequela.

Na outra ponta estão as tonturas que voltam de tempos em tempos há meses ou anos, sem perda de audição, em quem segue trabalhando e andando sozinho. Elas incomodam, às vezes muito, mas não têm o perfil de uma labirintite, e a explicação costuma estar em outra causa.

Tontura muito forte e contínua, que começa de repente e vem com vômitos ou perda de audição, precisa de avaliação médica sem demora. Segundo a revisão do StatPearls sobre labirintite, esse quadro pode imitar um AVC, e só o exame separa um do outro.

Se não é labirintite, o que está causando a sua tontura?

As causas de tontura são muitas, e várias delas também ficam no labirinto, sem nenhuma inflamação. Num centro alemão especializado em vertigem, que reuniu 17.718 pacientes atendidos entre 1988 e 2012, a VPPB foi a forma mais diagnosticada, e a labirintite nem aparece na lista das formas mais frequentes.

Em linhas gerais, a tontura costuma vir de um destes grupos.

  • A VPPB, a tontura dos cristais que saem da posição dentro do labirinto. Ela vem em crises curtas ao deitar, virar na cama, olhar para cima ou para baixo e costuma melhorar com a manobra de reposicionamento para VPPB, sem remédio. Por que os cristais se soltam está explicado na orientação sobre os cristais do labirinto fora do lugar.
  • As causas metabólicas e hormonais. O labirinto sente muito as mudanças de glicose, de colesterol, de hormônio da tireoide e de hormônios sexuais, e até a gestação pode trazer tontura. Esse grupo tem orientação própria, sobre a tontura metabólica ou hormonal.
  • Outras doenças do próprio labirinto, como a doença de Ménière, com crises que juntam tontura, zumbido, sensação de ouvido tampado e flutuação da audição.
  • A neurite vestibular, inflamação do nervo que leva as informações do labirinto ao cérebro, em geral por vírus. Ela dá uma tontura forte por dias, parecida com a da labirintite, mas sem perda de audição, e está entre as causas mais comuns de vertigem.
  • Um labirinto que funciona menos do que deveria, o chamado déficit labiríntico, que em algumas pessoas tem origem genética.
  • A enxaqueca vestibular, em que a enxaqueca também se manifesta como crises de tontura.
  • As tonturas ligadas às emoções, como a tontura por ansiedade, a tontura por estresse e a TPPP, em que a tontura é real mesmo com o labirinto sem lesão.
  • Os remédios, entre eles os de pressão alta, as canetinhas emagrecedoras e, quando usados por tempo demais, os próprios remédios contra tontura.
  • A queda de pressão logo depois de se levantar, assunto da orientação sobre tontura ao levantar.

Mais de uma causa pode aparecer na mesma pessoa, principalmente com o avanço da idade, como mostra a orientação sobre tontura em idosos. Na infância, o peso de cada causa muda, e os quadros mais comuns estão reunidos na orientação sobre tontura em crianças.

Os perigos de tomar remédio para labirintite sem diagnóstico médico

O remédio de labirintite que muita gente guarda em casa costuma ser um supressor vestibular, como a meclizina (Meclin®), o dimenidrinato (Dramin®), a flunarizina ou a cinarizina. Esses remédios diminuem a função do labirinto. Na crise forte, isso alivia, porque os dois labirintos estão trabalhando de forma desigual, e o remédio reduz essa diferença.

O problema começa quando o remédio da crise vira remédio de todo dia, ou é tomado a cada pequena tontura. Usado por tempo demais, o supressor deixa o labirinto funcionando abaixo do normal, e a própria medicação passa a causar tontura. Em geral, ela aparece como instabilidade ao caminhar e uma sensação de estar meio aéreo, e não como a tontura que roda. Na prática do consultório, não é raro a tontura melhorar só com a retirada do remédio, feita com orientação médica.

Além disso, o remédio não trata a causa. Na VPPB, por exemplo, o que resolve é a manobra, e a diretriz norte-americana de otorrinolaringologia para VPPB orienta não tratá-la de rotina com supressores vestibulares. Tomar remédio de labirintite por conta própria pode abafar o sintoma por um tempo e atrasar o diagnóstico. A orientação que explica por que o remédio para tontura pode piorar o quadro detalha esse efeito, e os cuidados durante uma crise de tontura estão em orientação própria.

Como é feita a investigação completa com o médico otorrino?

O ponto de partida é a história da tontura, contada com detalhes. Importa saber como ela é, quanto tempo dura, o que a provoca e o que vem junto. Em seguida, o otorrino examina o equilíbrio e os movimentos dos olhos e faz testes de posição na maca. Muitas vezes, essa avaliação já aponta a causa. A orientação que responde se tontura é normal mostra como descrever a sensação na consulta.

Quando é preciso, entram os exames. Entre os exames da OtoCare estão a audiometria, que mostra se a audição foi afetada, e o vHIT (Video Head Impulse Test), que avalia cada canal do labirinto enquanto a cabeça é girada depressa. Conforme a suspeita, o otorrino pode pedir outros exames, como os de sangue, para investigar a parte metabólica e hormonal.

Com a causa definida, o tratamento muda de um caso para outro. A VPPB melhora com a manobra, as causas metabólicas e hormonais pedem o controle da alteração de origem, e as lesões do labirinto podem precisar de reabilitação. Na maioria dos casos, existe alguma opção de tratamento.

Quando procurar avaliação para a tontura?

Tontura que se repete, que dura, que atrapalha a rotina ou que dá medo de cair merece avaliação, mesmo quando parece leve. Tontura não é algo com que se precise conviver para sempre, e a maioria tem solução.

O mesmo vale para quem já toma remédio para labirintite e não melhora. Nesse caso, a tontura precisa ser reavaliada até que a causa apareça. Muitas vezes o diagnóstico certo muda o tratamento por completo, como na VPPB, que se resolve sem remédio.

Vídeo: tontura é labirintite?

No vídeo abaixo, a explicação parte da localização do labirinto, mostra por que a labirintite verdadeira é rara e grave e termina com as causas mais comuns de tontura.

Perguntas frequentes

VPPB é labirintite?

Não. Na VPPB, pequenos cristais do labirinto saem da posição e provocam crises curtas de tontura quando a cabeça muda de posição, sem inflamação. Ela está entre as causas mais comuns de tontura, enquanto a labirintite é rara. O tratamento também é outro, feito com manobras, e não com remédio de labirintite.

Vertigem é o mesmo que labirintite?

Não. Segundo o Manual MSD, vertigem é o tipo de tontura em que a pessoa sente que ela mesma ou o ambiente está girando, sem que nada se mova de verdade. Ela aparece em várias doenças, como a VPPB, a neurite vestibular, a doença de Ménière e a enxaqueca vestibular. A labirintite causa vertigem, mas ter vertigem não significa ter labirintite.

Existe labirintite crônica?

A labirintite verdadeira costuma ser um quadro agudo, com sintomas fortes por dias e melhora aos poucos. O que pode durar muito tempo é a sequela, um labirinto que passou a funcionar menos e deixa instabilidade, tratada com reabilitação. Crises de tontura que voltam ao longo dos anos, com intervalos sem sintomas, costumam ter outra causa, como a VPPB, a doença de Ménière ou a enxaqueca vestibular. Um exemplo é o caso de tontura há anos que era VPPB.

Labirintite é hereditária ou genética?

A labirintite verdadeira não passa de pais para filhos, porque vem de uma infecção ou inflamação. O que pode ter origem genética são outros problemas do labirinto, como alguns déficits labirínticos. A enxaqueca vestibular, segundo o Manual MSD, aparece mais em quem tem histórico familiar de enxaqueca, e a herança na doença de Ménière está na orientação sobre a Ménière.

Pressão alta causa labirintite?

Não. Pressão alta e labirintite são problemas diferentes. A pressão pode entrar na história da tontura de outras formas. A queda da pressão ao ficar em pé dá tontura, como mostra a orientação sobre tontura ao levantar, e o Manual MSD cita os remédios, principalmente os de pressão alta, entre as causas comuns de tontura sem vertigem. Quem passou a ter tontura depois de começar um remédio deve contar isso na consulta, sem suspender nada por conta própria.

Enjoo em carro ou barco é labirintite?

Não. O enjoo de movimento, chamado cinetose, é uma resposta normal do corpo quando o labirinto recebe movimento demais ou quando ele e os olhos mandam informações que não combinam, como ao olhar para a parede da cabine de um barco que balança. Segundo o Manual MSD, ele é mais comum em crianças e pode ter relação com a enxaqueca vestibular. Enjoo exagerado, ou crises de tontura também fora das viagens, merecem investigação.

Bater a cabeça pode causar labirintite?

A pancada, por si só, não costuma causar labirintite, que vem de infecção ou inflamação. Uma pancada forte pode causar tontura por outros caminhos, soltando os cristais do labirinto ou, nos traumas graves, lesando o próprio labirinto. Esses casos estão na orientação sobre tontura após traumatismo craniano.

Labirintite é excesso de inteligência?

Não. É um dito popular, sem nenhuma base médica. A labirintite é uma inflamação do labirinto e não tem relação com inteligência nem com pensar demais. Quando a tontura começa numa fase de muito estresse ou preocupação, a explicação costuma ser outra, e o estresse pode ser o gatilho de quadros como a TPPP.

Referências

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Avaliação de tontura na OtoCare, em Brasília

Se a tontura se repete, aparece ao deitar, tira o equilíbrio ou já foi chamada de labirintite sem um diagnóstico, a consulta com otorrino ajuda a descobrir a causa e a definir o tratamento. A Clínica OtoCare fica no Setor Noroeste, em Brasília.

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