Betaistina (Labirin): para que serve, quando usar e efeitos colaterais

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Betaistina não é indicada para qualquer tontura nem para tratar uma crise

A betaistina é uma medicação de uso selecionado para a doença de Ménière e para alguns pacientes com redução da função do labirinto. Ela não trata toda causa de tontura e não foi feita para produzir alívio imediato durante uma crise intensa. Labirin®, Labirin XR®, Betina®, Betadine®, Betadine XR®, Betaserc®, Vitalia® e Vitalia XR® são nomes comerciais associados ao dicloridrato de betaistina; os medicamentos genéricos aparecem pelo nome do próprio princípio ativo. A disponibilidade das marcas pode mudar, e as formulações XR têm liberação prolongada, por isso não devem ser trocadas nem usadas na mesma frequência sem conferir a prescrição.

O nome Labirin® ficou tão associado ao ouvido interno que muitas pessoas compram a medicação diante de qualquer tontura. Esse atalho é arriscado: cristais soltos no labirinto, enxaqueca vestibular, alterações de pressão, glicemia e ansiedade exigem abordagens diferentes. A indicação começa pelo diagnóstico.

Dra. Larissa Vilela ao lado de caixas de Labirin, Betina, Betadine e Betaserc, marcas de dicloridrato de betaistina

Betaistina não é medicação de resgate. Não inicie, interrompa, associe ou aumente a dose por conta própria. Durante uma crise forte, a prioridade é segurança, controle dos sintomas quando prescrito e investigação da causa.

O que é a betaistina e como ela age?

A betaistina é um análogo da histamina. Sua ação envolve receptores histamínicos, aumento do fluxo sanguíneo na orelha interna e modulação dos núcleos vestibulares no tronco encefálico. Em termos práticos, busca favorecer o funcionamento do labirinto e o processo de compensação central, pelo qual o cérebro se adapta depois de uma lesão vestibular.

Esse mecanismo é diferente do dos supressores vestibulares usados por curto período para reduzir náusea e vertigem intensa. Em vez de diminuir temporariamente a atividade do sistema do equilíbrio, a betaistina é empregada como tratamento de manutenção em situações específicas.

Também é diferente da labirintite verdadeira, que é uma inflamação rara e grave da orelha interna. O fato de o medicamento atuar sobre vias vestibulares não transforma toda tontura em labirintite.

Quando a betaistina pode ser indicada?

Na prática clínica apresentada nesta orientação, duas situações concentram as indicações mais úteis:

  • Doença ou síndrome de Ménière: quadro marcado por crises de vertigem associadas a sintomas auditivos, como zumbido, sensação de ouvido cheio e flutuação da audição.
  • Hipofunção vestibular: redução documentada da função do labirinto, especialmente quando é necessário favorecer a compensação depois da fase aguda.

A avaliação pode incluir exame clínico, audição e testes da função vestibular, como o vHIT, conforme a história. A betaistina não recoloca cristais no lugar, não corrige sozinha uma causa metabólica e não substitui o tratamento específico da migrânea vestibular.

Por isso, sentir tontura não basta para concluir que o medicamento é necessário. A orientação sobre por que nem toda tontura é labirintite ajuda a entender essa diferença.

Por que a betaistina não é usada como remédio de crise?

Durante uma crise intensa, com sensação de rotação, náusea, vômito e incapacidade para ficar em pé, podem ser prescritos medicamentos que reduzem temporariamente a atividade vestibular. A betaistina atua em outra direção e não oferece o efeito imediato esperado de uma medicação de resgate.

A meclizina, princípio ativo do Meclin®, tem ação anti-histamínica. A betaistina age sobre o sistema histamínico, e as bulas registram que anti-histamínicos podem, em teoria, reduzir o efeito da betaistina e também ter seu efeito reduzido por ela. Isso não significa que a associação seja sempre proibida; significa que ela não deve ser montada ou mantida por conta própria.

Quando existe indicação de betaistina depois de uma crise, o momento de início é definido após a retirada dos supressores vestibulares, frequentemente já fora da fase aguda. Veja as medidas de segurança em o que fazer durante uma crise de tontura e por que o uso prolongado de alguns remédios para tontura pode atrasar a recuperação.

Dose, formulação XR e duração do tratamento

A dose depende do diagnóstico, da apresentação e da resposta individual. No vídeo, 48 mg por dia é apresentada como uma dose total inicial comum no adulto para as indicações selecionadas. Isso não é uma recomendação para começar ou ajustar o medicamento sem prescrição: doses maiores podem ser usadas em casos específicos de Ménière, mas exigem decisão e acompanhamento médico.

ApresentaçãoComo costuma ser organizadaCuidado prático
Liberação imediataA dose diária é dividida em mais de uma tomadaA concentração do comprimido não deve ser confundida com a dose total do dia
XR, de liberação prolongadaLibera o medicamento gradualmente e pode permitir uma tomada diáriaO comprimido não deve ser partido nem mastigado

A betaistina não é uma medicação para usar apenas quando a tontura aparece. Quando indicada, o tratamento costuma durar pelo menos algumas semanas e pode seguir por meses. A duração depende da causa, da frequência das crises, da função vestibular e da resposta observada nas consultas.

Efeitos colaterais, contraindicações e cuidados

A betaistina costuma ser bem tolerada e, ao contrário de vários supressores vestibulares, não costuma causar sonolência ou lentificação cognitiva. Os efeitos mais relatados são dor de cabeça, náusea, má digestão, dor ou distensão no estômago. Tomar após a alimentação pode reduzir o desconforto gástrico. Algumas pessoas relatam insônia, razão pela qual a tomada mais tarde pode não ser adequada.

Antes de usar, informe ao médico se houver:

  • asma ou histórico de broncoespasmo, porque a medicação exige cautela e acompanhamento;
  • úlcera no estômago ou duodeno, gastrite importante ou dor gástrica recorrente;
  • feocromocitoma, tumor da glândula adrenal que aparece como contraindicação nas bulas;
  • gestação ou amamentação, situações em que o uso depende de avaliação médica;
  • uso de anti-histamínicos ou inibidores da monoaminoxidase, porque podem ocorrer interações;
  • idade abaixo de 18 anos, faixa para a qual as apresentações brasileiras não são recomendadas.

Reação alérgica, falta de ar, inchaço no rosto ou piora importante da asma exigem suspensão e avaliação imediata. Desconforto gástrico persistente, dor de cabeça intensa ou alteração relevante do sono também devem ser comunicados a quem prescreveu.

Por que existe divergência científica sobre o benefício na doença de Ménière?

A betaistina é amplamente usada na prática clínica e possui indicação em bula para a doença de Ménière e para vertigem de origem vestibular. Muitos pacientes e médicos relatam boa resposta, e a experiência clínica sustenta seu uso em casos selecionados.

Ao mesmo tempo, um grande ensaio randomizado acompanhou pacientes com doença de Ménière por nove meses e não encontrou diferença na frequência das crises entre placebo, 48 mg por dia e uma dose alta de 144 mg por dia. Revisões sistemáticas posteriores concluíram que a certeza da evidência permanece baixa ou muito baixa e que ainda não está claro quanto do benefício médio vem do medicamento.

Esses resultados não demonstram que nenhum paciente se beneficia. A doença oscila naturalmente, os critérios de diagnóstico variam entre estudos e uma média de grupo pode esconder respostas individuais. A leitura equilibrada é que existe uma indicação clínica reconhecida, mas a magnitude do benefício e quais pacientes respondem melhor ainda são pontos de debate científico.

Na prática, essa incerteza reforça três cuidados: confirmar o diagnóstico, definir um objetivo mensurável para o tratamento e reavaliar a resposta. Se não houver benefício, a conduta precisa ser revista em vez de manter o medicamento indefinidamente apenas porque ele é conhecido como remédio para o labirinto.

Vídeo: betaistina, indicações, doses e efeitos colaterais

O vídeo abaixo apresenta os nomes comerciais da betaistina, seu mecanismo de ação, as indicações clínicas selecionadas, a diferença entre tratamento de manutenção e medicação de crise, as formulações disponíveis e os principais cuidados:

Perguntas frequentes

Betaistina dá sono ou atrapalha para dirigir?

Sonolência não é um efeito esperado da betaistina, e a medicação não costuma reduzir a atenção ou a coordenação. A própria doença que causa vertigem, porém, pode tornar perigoso dirigir ou operar máquinas. Se ainda houver tontura, desequilíbrio ou visão instável, não dirija.

O que fazer se esquecer uma dose?

Não dobre a próxima dose para compensar. Siga a orientação da bula da apresentação prescrita, porque comprimidos de liberação imediata e XR têm instruções diferentes para atraso ou esquecimento. Em caso de dúvida, confirme com o médico ou farmacêutico.

Crianças podem tomar betaistina?

As apresentações brasileiras não são recomendadas para menores de 18 anos por falta de dados suficientes de segurança e eficácia nessa faixa. Uma criança com tontura precisa de investigação dirigida à idade, e não de adaptação da dose de um adulto.

Quanto tempo a betaistina demora para começar a fazer efeito?

O efeito não é imediato. A melhora pode aparecer depois de algumas semanas e, em alguns casos, os melhores resultados são percebidos após meses. Se a expectativa era aliviar uma crise em minutos ou horas, a finalidade do medicamento foi confundida com a de um tratamento de resgate.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Betaistina (Labirin®, Betina®, Betadine®, Betaserc®): o que é, para que serve, colaterais e mais. YouTube, 12 fev. 2025. 1 vídeo (10 min 25 s). Disponível em: https://youtu.be/xoPP9FDwU9s. Acesso em: 16 set. 2026.
  2. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Lista de preços de medicamentos da CMED. Brasília, DF: Anvisa, atualização mensal. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/cmed/precos. Acesso em: 16 set. 2026.
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  5. ABBOTT LABORATÓRIOS DO BRASIL. Betaserc: dicloridrato de betaistina — bula para o paciente. São Paulo: Abbott, 2026. Disponível em: https://www.abbottbrasil.com.br/nossas-bulas/betaserc-dicloridrato-betaistina.html. Acesso em: 16 set. 2026.
  6. ADRION, Christine et al. Efficacy and safety of betahistine treatment in patients with Meniere’s disease: primary results of a long term, multicentre, double blind, randomised, placebo controlled, dose defining trial. BMJ, Londres, v. 352, art. h6816, 2016. DOI: 10.1136/bmj.h6816. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26797774/. Acesso em: 16 set. 2026.
  7. VAN ESCH, Babette F. et al. Betahistine in Ménière’s disease or syndrome: a systematic review. Audiology and Neurotology, Basileia, v. 27, n. 1, p. 1-33, 2022. DOI: 10.1159/000515821. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34233329/. Acesso em: 16 set. 2026.
  8. WEBSTER, Katie E. et al. Systemic pharmacological interventions for Ménière’s disease. Cochrane Database of Systematic Reviews, Londres, n. 2, art. CD015171, 2023. DOI: 10.1002/14651858.CD015171.pub2. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36827524/. Acesso em: 16 set. 2026.

Avaliação de tontura e labirinto em Brasília

Se a tontura volta, vem acompanhada de zumbido ou alteração auditiva, persiste depois de uma crise ou levou ao uso repetido de medicamentos, a consulta com otorrino em Brasília permite diferenciar doença de Ménière, hipofunção vestibular, VPPB, migrânea e causas não vestibulares.

Quando existe perda de função do labirinto, o tratamento pode incluir medicação e exercícios de reabilitação vestibular, conforme a fase e a causa. A Clínica OtoCare atende no Setor Noroeste.

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