Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
O que é apneia do sono
Apneia do sono é a parada da respiração durante o sono: o fluxo de ar cai 90% ou mais e a pausa dura pelo menos 10 segundos. Quando essas pausas, somadas às hipopneias, se repetem ao longo da noite e vêm acompanhadas de sintomas, ou são muito frequentes, forma-se a síndrome da apneia obstrutiva do sono, uma doença que precisa de tratamento.
O tema ganhou espaço porque se sabe cada vez mais o quanto o sono pesa na saúde. Dormir mal de forma repetida é fator de risco para doenças cardiovasculares, alterações metabólicas, queda da imunidade e prejuízo da memória e da concentração. Os problemas respiratórios do sono formam uma sequência: ronco, hipopneia, apneia e, por fim, a síndrome. Entender cada etapa ajuda a saber quando procurar avaliação.

Ronco frequente não é normal. Mesmo sem apneia, ele indica que o ar passa com dificuldade pela garganta ou pelo nariz, e o sono de quem ronca é menos profundo do que o de quem respira bem à noite.
Ronco: o primeiro sinal de obstrução
O ronco é um ruído produzido pela via respiratória superior, no nariz ou na garganta. Quando essa passagem está estreitada, o ar que atravessa faz vibrar a musculatura e os tecidos da região, e essa vibração é o som do ronco. Ele mostra, portanto, que existe uma obstrução no caminho do ar.
Alguns fatores pioram o ronco porque aumentam essa obstrução:
- posição de barriga para cima: a língua tende a cair para trás e estreita ainda mais a garganta, por isso o ronco costuma ser mais forte nessa posição do que de lado;
- bebida alcoólica: relaxa a musculatura da garganta;
- hábitos alimentares, como refeições pesadas perto da hora de dormir.
Muita gente acredita que o ronco só incomoda quem dorme ao lado e que o roncador dorme bem. Não é assim. O ronco é fator de risco para a apneia do sono e, mesmo quando ela não existe, passar a noite com a respiração ruidosa e trabalhosa deixa o sono mais superficial e menos reparador.
No nariz, desvio de septo e aumento dos cornetos estão entre as causas de obstrução; na garganta, amígdalas grandes, palato e base da língua. O exame do otorrino, com a nasofibrolaringoscopia, mostra onde está o estreitamento.
Apneia e hipopneia: qual é a diferença?
Apneia é a parada da respiração. Pela definição técnica, é uma redução de pelo menos 90% do fluxo de ar em relação ao normal daquela pessoa, que dura no mínimo 10 segundos. Na prática, é quem para de respirar durante a noite ou acorda com sensação de engasgo ou de sufocamento.
Hipopneia é uma forma mais leve, mas que também prejudica o sono. É uma redução de pelo menos 30% do fluxo de ar, também por 10 segundos ou mais, acompanhada de uma destas duas alterações:
- queda de pelo menos 3% na saturação de oxigênio, que é o nível de oxigenação do sangue; ou
- um microdespertar, um despertar muito breve que a pessoa não percebe, mas que interrompe o sono profundo.
Os três tipos de apneia
- Obstrutiva: a respiração para porque a passagem do ar está bloqueada, geralmente por estreitamento da via respiratória. É o tipo mais comum e o que o otorrino trata.
- Central: não há obstrução. A pausa acontece porque falta o comando do cérebro para respirar.
- Mista: combina as duas, com componente obstrutivo e central.
Sintomas da apneia do sono
Os sinais que levam à investigação se organizam em quatro grupos. Basta um deles para que o exame do sono seja indicado:
- Sono de má qualidade: sonolência durante o dia, sensação de não ter descansado ao acordar, cansaço ou sintomas de insônia.
- Despertares com falta de ar: acordar com sensação de sufocamento, afogamento ou asfixia.
- Relato de quem observa o sono: o companheiro de cama percebe ronco frequente, pausas na respiração ou os dois.
- Doenças associadas: pressão alta, alterações de humor, dificuldade de memória ou concentração, doença das coronárias, AVC, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial ou diabetes tipo 2.
Quem dorme sozinho muitas vezes não sabe que ronca ou que para de respirar. Por isso, a sonolência diurna e as doenças associadas merecem atenção mesmo sem testemunha.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é feito com a polissonografia, o exame que registra a respiração, a oxigenação do sangue e as fases do sono durante a noite. Dele sai o IAH, o índice de apneia e hipopneia: a soma de todas as apneias e hipopneias dividida pelas horas de sono. Não se trata de multiplicar apneias por hipopneias, como aparece em algumas explicações na internet.
A síndrome da apneia obstrutiva do sono está confirmada em uma de duas situações:
- IAH de 5 ou mais por hora em quem tem pelo menos um dos quatro grupos de sintomas descritos acima; ou
- IAH de 15 ou mais por hora, mesmo sem nenhum sintoma, sem queixa do companheiro e sem doença associada.
A segunda regra surpreende muitos pacientes: com 15 eventos ou mais por hora, o diagnóstico está feito ainda que a pessoa se sinta bem. Isso acontece porque, sem tratamento, a síndrome aumenta a longo prazo o risco de doenças cardiovasculares, metabólicas e hormonais.
Em alguns casos, o otorrino complementa a investigação com a sonoendoscopia, que mostra em que ponto da garganta a via aérea se fecha. Ela não substitui a polissonografia.
Apneia do sono leve, moderada e grave
A gravidade da síndrome é classificada pelo IAH:
- leve: de 5 a 14 eventos por hora de sono;
- moderada: de 15 a 30 eventos por hora;
- grave: mais de 30 eventos por hora.
Essa classificação é um dos pontos que orientam a escolha do tratamento, junto com o local da obstrução, o peso, os sintomas e a preferência do paciente.
Tratamento: o plano depende de cada caso
Depois do diagnóstico, a síndrome precisa de intervenção. As opções incluem:
- CPAP: aparelho que mantém a via aérea aberta com pressão de ar durante a noite;
- aparelho intraoral: placa que posiciona a mandíbula mais para a frente;
- fonoterapia: exercícios que fortalecem a musculatura da garganta e da língua;
- cirurgia: corrige a causa da obstrução, como a septoplastia, a cauterização dos cornetos, a retirada das amígdalas ou a cirurgia da adenoide, esta mais comum em crianças;
- perda de peso, inclusive com medicação em casos selecionados, como mostra a orientação sobre Mounjaro para apneia do sono.
Quando a cirurgia é considerada, a sonoendoscopia ajuda a escolher o procedimento, porque mostra quais estruturas da garganta se fecham durante o sono. O plano é definido em conjunto com o paciente, e muitas vezes combina mais de uma dessas medidas. Cada opção está detalhada na orientação sobre tratamento para ronco e apneia.
Quando procurar o otorrino
Procure avaliação se você ronca com frequência, se alguém já percebeu pausas na sua respiração, se acorda engasgado ou se sente sono e cansaço durante o dia mesmo dormindo o suficiente. Quem tem pressão alta difícil de controlar, arritmia, diabetes tipo 2 ou já teve AVC também deve ser investigado.
Sonolência ao dirigir é sinal de alerta: evite dirigir até ser avaliado.
Vídeo: síndrome da apneia do sono
O vídeo abaixo explica a diferença entre ronco, apneia e hipopneia, os critérios que confirmam a síndrome da apneia obstrutiva do sono e a classificação em leve, moderada e grave.
Perguntas frequentes
Todo mundo que ronca tem apneia do sono?
Não. O ronco pode existir sem apneia. Ainda assim, ele é fator de risco para a apneia e já reduz a qualidade do sono, por isso o ronco frequente merece avaliação.
Dormir de lado ajuda na apneia do sono?
Pode ajudar. De barriga para cima, a língua tende a cair para trás e estreitar a garganta. Dormir de lado costuma reduzir o ronco e alguns eventos, mas não substitui a avaliação nem o tratamento da síndrome.
É possível ter apneia do sono sem sintomas?
Sim. Muitas pessoas não percebem as pausas e não sentem sono durante o dia. Com 15 ou mais eventos por hora na polissonografia, o diagnóstico está confirmado mesmo sem sintomas, e o tratamento é indicado.
Referências
- VILELA, Larissa. Síndrome da apneia do sono: o que é, sintomas, diagnóstico e como tratar! YouTube, 23 nov. 2024. 1 vídeo (10 min 28 s). Disponível em: https://youtu.be/z7KwFoYtulY. Acesso em: 16 set. 2026.
- BITTENCOURT, Lia et al. Diretrizes brasileiras do diagnóstico da síndrome da apneia obstrutiva do sono e ronco primário. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 79, n. 6, p. 804-814, 2013. DOI: 10.5935/1808-8694.20130143. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24474492/. Acesso em: 16 set. 2026.
- BERRY, Richard B. et al. Rules for scoring respiratory events in sleep: update of the 2007 AASM Manual for the Scoring of Sleep and Associated Events. Journal of Clinical Sleep Medicine, v. 8, n. 5, p. 597-619, 2012. DOI: 10.5664/jcsm.2172. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23066376/. Acesso em: 16 set. 2026.
- KAPUR, Vishesh K. et al. Clinical practice guideline for diagnostic testing for adult obstructive sleep apnea: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine, v. 13, n. 3, p. 479-504, 2017. DOI: 10.5664/jcsm.6506. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28162150/. Acesso em: 16 set. 2026.
Avaliação de ronco e apneia em Brasília
Se você ronca ou suspeita de apneia do sono, uma consulta com otorrino em Brasília permite examinar o nariz e a garganta, indicar a polissonografia e montar o plano de tratamento.
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