Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
O que é terapia posicional
Quem ronca muitas vezes já percebeu que, de barriga para cima, o ronco piora e respirar fica mais difícil, e que de lado a respiração melhora. Em boa parte dos casos de ronco e de apneia do sono, a posição do corpo tem um peso muito importante.
Terapia posicional é o nome das técnicas que ajustam a posição na hora de dormir para melhorar a respiração. O objetivo é que a pessoa passe a noite de lado, e não de barriga para cima, o que reduz o ronco e a apneia. A cinta posicional e a camiseta com bola de tênis são as duas formas mais usadas de conseguir isso.
Dormir de lado ajuda praticamente todos os pacientes com ronco e apneia, e essa orientação ganha ainda mais importância em quem tem apneia posicional.

Cinta antirronco não é faixa de queixo. Nas lojas, o mesmo nome aparece para a faixa que mantém a boca fechada. A cinta posicional é outro dispositivo: ela fica no tórax e impede virar de barriga para cima.
Por que dormir de barriga para cima piora o ronco
Durante o sono, a musculatura da garganta, que tecnicamente se chama faringe, relaxa, e a língua relaxa junto. De barriga para cima, a língua cai para trás, em direção à parte da garganta atrás da boca, e fecha ainda mais a passagem do ar. Deitar de lado tira boa parte dessa queda da língua e amplia o espaço para respirar. O resultado é menos ronco e menos pausas na respiração.
Como se definem o ronco, a apneia e a hipopneia, e quais são os graus da doença, está na orientação sobre apneia do sono.
Apneia posicional: quem mais se beneficia
Apneia posicional é aquela muito ligada à posição em que a pessoa dorme. Há quem tenha um quadro totalmente posicional. De lado, respira bem, não ronca e não tem apneia. De barriga para cima, ronca e para de respirar repetidas vezes ao longo de toda a noite.
O diagnóstico vem da polissonografia, o exame do sono. Nela se observa que, deitado de lado, o paciente tem muito menos eventos respiratórios do que de barriga para cima. Um critério bastante usado é o índice de eventos de barriga para cima ser pelo menos o dobro do índice nas outras posições. Um estudo mostrou que, no laboratório do sono, quem tem apneia posicional precisa de mais horas de sono para o exame, como explica a orientação sobre quantas horas de sono a polissonografia precisa.
Esse padrão é frequente. Em média, 56% das pessoas com apneia obstrutiva do sono têm a forma posicional, e outros 30% também pioram de barriga para cima, embora sem chegar ao dobro. Em geral, quem tem apneia posicional é mais jovem e tem índice de massa corporal mais baixo do que quem tem apneia sem relação com a posição.
Nesses pacientes, a terapia posicional é parte central do tratamento. Nos demais, ela continua sendo uma orientação útil, que não faz mal e ajuda pelo menos um pouco.
O desafio: continuar de lado a noite toda
Começar o sono de lado costuma ser fácil. A dificuldade é manter a posição ao longo da noite, porque ninguém controla como se mexe dormindo. A cinta posicional e a camiseta antirronco servem para isso. As duas tornam desconfortável ficar de barriga para cima, e o próprio corpo volta para o lado.
Cinta posicional: como funciona
A cinta posicional é o dispositivo técnico da terapia posicional. Parece um colete ou uma faixa presa ao tórax e tem uma elevação que fica no meio das costas, entre as escápulas. Quando a pessoa começa a virar de barriga para cima, sente essa elevação, e o incômodo faz com que volte a ficar de lado durante o sono.
Ela é vendida pronta, inclusive pela internet. Na hora de comprar, confira que se trata de uma cinta com volume nas costas, e não da faixa de queixo, que tem outro objetivo.
Como fazer a camiseta antirronco com bola de tênis
Existe uma alternativa caseira que funciona muito bem e costuma ser mais prática, mais fácil e mais barata que a cinta. A dica, ensinada na residência médica, continua sendo passada aos pacientes no consultório.
- Separe uma blusa de pijama: use uma blusa que você já veste para dormir, para a bola ficar sempre no mesmo lugar.
- Marque o meio das costas: o ponto certo fica entre as escápulas, os ossos das costas na altura dos ombros.
- Costure um bolso nesse ponto: o bolso deve ter o tamanho exato de uma bola de tênis, para ela não escorregar para os lados.
- Coloque a bola de tênis: uma bola no centro das costas já basta.
- Comece a noite deitado de lado: ao virar de barriga para cima, a bola incomoda e o corpo volta a ficar de lado, sem precisar acordar.
Também há camisetas antirronco prontas, algumas com três bolsos e três bolas de tênis nas costas. Três bolas deixam a técnica um pouco mais efetiva, mas uma só, no centro das costas e na altura das escápulas, já é suficiente.
A ideia é antiga. Em 1948, um médico já observava que muitas pessoas roncam só quando estão de costas e sugeria costurar um carretel de linha nas costas do pijama.
Outras formas de evitar a posição de barriga para cima
Os estudos testaram vários recursos com a mesma função, como mochilas semirrígidas, faixas presas à cintura ou ao abdome e travesseiros longos que apoiam as costas.
Há também aparelhos pequenos que vibram quando a pessoa fica de barriga para cima, como um modelo usado no pescoço. A vibração aumenta até a pessoa mudar de posição, sem atrapalhar o sono.
Um estudo comparou um desses aparelhos com a técnica da bola de tênis em pessoas com apneia posicional leve. Os dois evitaram a posição de barriga para cima e reduziram os eventos respiratórios de forma parecida. A diferença apareceu no uso. Com o aparelho que vibra, 76% dos pacientes usaram o recurso pelo menos 4 horas por noite, 5 noites por semana, contra 42% com a bola de tênis, e a qualidade do sono melhorou mais.
Outra medida estudada não muda a posição, mas também reduz a apneia. Num estudo brasileiro, elevar um pouco a cabeceira da cama, numa inclinação leve de 7,5 graus, reduziu o índice de apneia e hipopneia de 15,7 para 10,7 eventos por hora, sem piorar a qualidade do sono. Nos pacientes que repetiram o exame com a cama reta, o índice voltou ao valor de antes.
O recurso que combina melhor com cada pessoa é escolhido caso a caso, na consulta.
Terapia posicional funciona?
Funciona. Com a bola de tênis ou com a cinta, fica muito mais fácil dormir só de lado, e o ronco e a apneia melhoram bastante.
Uma revisão Cochrane reuniu oito estudos com 323 participantes. Em comparação com nenhuma intervenção, a terapia posicional reduziu em média cerca de 7 eventos respiratórios por hora e melhorou a sonolência durante o dia. O CPAP reduziu mais os eventos, em torno de 6 por hora a mais que a terapia posicional, mas os pacientes relataram usar a terapia posicional por mais tempo a cada noite. Os estudos foram curtos, e a qualidade da evidência foi considerada baixa a moderada.
O ponto fraco é o incômodo. Num dos estudos da revisão, as queixas mais comuns foram dor nas costas e no peito e alterações do sono. Em um acompanhamento de seis meses de pacientes com apneia posicional que usavam a técnica da bola de tênis, 38% dos que responderam continuavam com ela, 24% tinham parado mas já dormiam de lado por conta própria, e 38% tinham abandonado sem aprender a se manter fora da posição de barriga para cima. O desconforto foi o principal motivo do abandono. Quando a bola atrapalha o sono, a troca por outro recurso posicional pode ser avaliada na consulta.
Quando só a posição não basta
Em alguns pacientes, a terapia posicional sozinha resolve o ronco e até a apneia, quando ela é mais leve. Outros precisam de tratamentos associados, como o aparelho intraoral, o CPAP, a perda de peso, às vezes com ajuda de medicação, tema da orientação sobre Mounjaro® para apneia do sono, ou uma cirurgia que corrija a obstrução. Nesse caso, a sonoendoscopia mostra em que altura a passagem do ar se fecha.
A avaliação com otorrino é indicada quando o ronco é frequente, quando alguém percebeu pausas na respiração ou quando há sono e cansaço durante o dia. Na consulta na OtoCare, a nasofibrolaringoscopia mostra onde está o estreitamento, e a polissonografia, quando indicada, confirma se a apneia é posicional.
Vídeo: cinta e camiseta antirronco
O vídeo abaixo explica por que dormir de barriga para cima piora o ronco e a apneia, como funciona a cinta posicional e como montar a camiseta com bola de tênis.
Perguntas frequentes
A faixa de queixo antirronco é a mesma coisa que a cinta posicional?
Não. A faixa de queixo segura a mandíbula para manter a boca fechada. A cinta posicional fica no tórax e tem um volume nas costas que impede dormir de barriga para cima. São dispositivos com objetivos diferentes.
Posso usar a camiseta com bola de tênis sem fazer polissonografia?
Pode. Dormir de lado não faz mal e costuma reduzir o ronco. Mas o ronco frequente merece avaliação, porque pode haver apneia, e só a polissonografia mostra se ela existe, qual é a gravidade e se depende da posição.
A bola de tênis incomoda para dormir?
Ela só deve incomodar quando a pessoa vira de barriga para cima, e esse incômodo a faz voltar para o lado. Deitada de lado, a pessoa não se apoia sobre a bola. Se a bola acorda a pessoa várias vezes por noite, a troca por outro recurso é conversada na consulta.
Apneia posicional tem cura?
Em parte dos pacientes, as medidas posturais bastam para acabar com o ronco e até com a apneia mais leve. Mesmo nesses casos, o efeito depende de continuar dormindo de lado, porque a terapia posicional não muda a anatomia da garganta. Por isso se fala em controle, e não em cura. A consulta de acompanhamento mostra se o controle continua bom com o passar do tempo.
A terapia posicional substitui o CPAP?
Depende do caso. Quando a apneia depende da posição, a terapia posicional pode ser o tratamento principal. Para quem tem indicação de CPAP e não consegue usá-lo, o consenso brasileiro sobre distúrbios respiratórios do sono, publicado pela SBPT em 2022, inclui a terapia posicional entre as alternativas, ao lado do aparelho intraoral e da cirurgia. A escolha é feita na consulta, com o resultado da polissonografia.
Criança pode usar a camiseta antirronco?
A terapia posicional foi estudada principalmente em adultos. Na criança, adenoide e amígdalas aumentadas estão entre as causas mais comuns do ronco, e a avaliação vem antes de qualquer dispositivo. As causas e o tratamento estão na orientação sobre ronco em criança.
Precisa repetir a polissonografia depois de começar a terapia posicional?
Pode ser útil. O consenso brasileiro sobre distúrbios respiratórios do sono, da SBPT, indica que quem trata a apneia com alternativas ao CPAP, como a terapia posicional, pode se beneficiar de uma reavaliação com novo exame do sono. Esse exame mostra se a posição de lado está de fato controlando os eventos respiratórios.
Referências
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Avaliação de ronco e apneia em Brasília
Se você ronca ou suspeita de apneia do sono, uma consulta com otorrino em Brasília permite examinar o nariz e a garganta, indicar a polissonografia e definir se a terapia posicional basta ou precisa ser combinada com outro tratamento.
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