Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Enxaqueca vestibular é tontura causada pela enxaqueca, com ou sem dor de cabeça
A enxaqueca vestibular, também chamada de migrânea vestibular, é uma forma de a enxaqueca se manifestar como crises de tontura. Migrânea é o nome médico da enxaqueca. A tontura pode surgir junto com a dor de cabeça, antes dela, depois dela ou em períodos sem nenhuma dor.
É uma das causas mais comuns de tontura recorrente em adultos e, ainda assim, costuma demorar a ser reconhecida. Muitas pessoas passam anos tratando uma suposta labirintite sem que a relação com a enxaqueca seja investigada.

Não ter dor de cabeça na crise não afasta o diagnóstico. Uma história de enxaqueca, mesmo no passado, já torna importante considerar a migrânea vestibular diante de tonturas repetidas.
Quais são os sintomas da enxaqueca vestibular?
A tontura pode ter formas bem diferentes, inclusive na mesma pessoa:
- Vertigem: sensação de que o ambiente gira ou de que o próprio corpo está girando.
- Desequilíbrio: instabilidade ao ficar em pé ou caminhar, sem rotação.
- Cabeça vazia ou flutuação: mal-estar difícil de descrever, como se a cabeça estivesse leve.
- Tontura visual: impressão de que as imagens se movem, ou piora diante de telas, corredores de supermercado e ambientes com muito estímulo visual.
As crises duram de minutos a horas e, às vezes, dias. Após uma crise mais intensa, algumas pessoas levam semanas para se sentir totalmente recuperadas. É comum haver enjoo, vômito, suor frio e palidez.
Também podem aparecer sinais típicos da enxaqueca: dor de cabeça latejante, incômodo com luz e com sons, pontos brilhantes ou escuros na visão e aura visual. Sensibilidade ao movimento, como enjoo em carro ou barco, é frequente em quem tem enxaqueca.
Por que a enxaqueca causa tontura?
A causa exata da enxaqueca ainda não é totalmente conhecida. Há forte participação genética, com história familiar frequente, além de alterações em neurotransmissores e processos inflamatórios no sistema nervoso central.
Uma forma de entender o problema é pensar em neurônios sensoriais mais sensíveis do que o habitual. Esse desequilíbrio pode gerar dor, mas também pode afetar o sistema vestibular, conjunto formado pelo labirinto e pelas vias cerebrais que mantêm o equilíbrio e a postura. Quando essa parte é envolvida, a enxaqueca aparece como tontura.
Como é feito o diagnóstico da migrânea vestibular?
O diagnóstico é clínico e segue critérios definidos pela Bárány Society em conjunto com a classificação internacional das cefaleias. São necessários todos os pontos abaixo:
- Pelo menos cinco episódios de tontura de intensidade moderada ou forte, capazes de atrapalhar as atividades, com duração entre 5 minutos e 72 horas.
- Enxaqueca atual ou no passado, com ou sem aura.
- Em pelo menos metade das crises, ao menos um destes sinais: dor de cabeça com características de enxaqueca; sensibilidade à luz e ao som ao mesmo tempo; ou aura visual.
- Nenhuma outra doença explica melhor os sintomas.
A dor de cabeça típica da enxaqueca tem pelo menos duas destas características: costuma ser de um lado só, é latejante, tem intensidade moderada ou forte e piora com esforço físico.
O último critério torna a investigação indispensável. Conforme o caso, podem ser pedidos audiometria, testes do labirinto como a vectoeletronistagmografia ou o vHIT, ressonância magnética e exames de sangue para afastar causas metabólicas e hormonais. Um recurso simples que pode acrescentar informação é o teste caseiro de convergência para migrânia vestibular, que não substitui a avaliação.
Como é o tratamento da enxaqueca vestibular?
O tratamento combina três frentes, ajustadas a cada pessoa.
1. Controle da crise. Quando a tontura está forte e incapacitante, medicamentos supressores vestibulares ajudam a sair da crise. Eles são usados por pouco tempo, porque o uso contínuo de remédio para tontura pode atrasar a recuperação.
2. Mudança de rotina. Quem tem enxaqueca tende a reagir a qualquer desequilíbrio no dia a dia. Dormir pouco, abandonar a atividade física e comer de forma desregrada podem desencadear crises de dor e de tontura. Sono regular, exercício frequente e alimentação organizada fazem parte do tratamento, não são apenas recomendações gerais.
3. Prevenção com medicamentos. Quando as crises são frequentes ou intensas, pode ser indicada medicação preventiva, também chamada de profilática, mesmo que a pessoa não esteja tendo dor de cabeça. Entre as opções estão betabloqueadores como o propranolol e antidepressivos como a amitriptilina, entre outros. Alguns suplementos, como magnésio e complexos de vitamina B, podem ser considerados. A escolha depende do perfil de cada paciente e é feita pelo médico.
Quais alimentos podem desencadear crises?
Os gatilhos alimentares são individuais: o que provoca crise em uma pessoa pode não afetar outra. Observar e anotar o que foi consumido antes das crises ajuda a identificar os próprios gatilhos. Os mais comuns são:
- cafeína, presente no café, em chás escuros como preto, verde e mate, e no chocolate;
- bebidas alcoólicas, sobretudo o vinho;
- embutidos, enlatados, defumados e alimentos muito condimentados;
- queijos amarelos e envelhecidos, como o cheddar;
- em algumas pessoas, frutas como laranja e melancia.
Como regra geral, reduzir a cafeína e manter uma alimentação natural, com poucos industrializados, costuma ajudar.
O que fazer durante uma crise de tontura por enxaqueca?
Repouse, mas não fique imóvel. Na crise, a enxaqueca piora com esforço, então vale deitar, dormir se houver vontade e suspender atividades que ofereçam risco de queda.
Ao mesmo tempo, travar o pescoço e evitar qualquer movimento da cabeça por medo da tontura atrapalha. Pequenos movimentos, como virar-se na cama e levantar com calma, ajudam o cérebro a reajustar as informações do equilíbrio, processo chamado de compensação central. Veja outras medidas na orientação sobre o que fazer em uma crise de tontura.
Vídeo: migrânea vestibular, sintomas, diagnóstico e tratamento
O vídeo abaixo apresenta as formas de tontura da enxaqueca vestibular, os critérios usados no diagnóstico, os exames que ajudam a afastar outras causas e as três frentes do tratamento:
Perguntas frequentes
Enxaqueca vestibular tem cura?
Não existe uma cura definitiva para a tendência à enxaqueca, mas as crises de tontura podem ser bem controladas. Com mudança de rotina, identificação dos gatilhos e, quando indicado, medicação preventiva, muitas pessoas passam a ter crises raras e mais leves.
Enxaqueca vestibular é a mesma coisa que labirintite?
Não. Labirintite é uma inflamação do labirinto, geralmente associada a infecção. Na enxaqueca vestibular, a tontura vem de uma alteração no processamento das informações do equilíbrio ligada à enxaqueca, e o tratamento é diferente.
Crianças podem ter enxaqueca vestibular?
Sim. Em crianças, crises repetidas de tontura podem estar ligadas à enxaqueca, e muitas vezes existe história familiar. A avaliação considera a idade e outras causas possíveis de tontura na infância.
Referências científicas
- VILELA, Larissa. Migrânea vestibular ou tontura por enxaqueca: o que é, sintomas, causas, diagnóstico e tratamento. YouTube, 8 jan. 2025. 1 vídeo (19 min 58 s). Disponível em: https://youtu.be/cYFBR7MThyI. Acesso em: 15 set. 2026.
- LEMPERT, Thomas et al. Vestibular migraine: diagnostic criteria: literature update 2021. Journal of Vestibular Research, v. 32, n. 1, p. 1-6, 2022. DOI: 10.3233/VES-201644. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34719447/. Acesso em: 15 set. 2026.
- ALMOHAMMED, Hamdi A. et al. Prophylactic management of vestibular migraine: a systematic review. Annals of Clinical and Translational Neurology, v. 12, n. 12, p. 2384-2397, 2025. DOI: 10.1002/acn3.70234. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41166161/. Acesso em: 15 set. 2026.
Avaliação de tontura por enxaqueca em Brasília
Se você tem enxaqueca, ou já teve, e passou a sentir crises repetidas de tontura, a consulta com otorrino em Brasília permite organizar a investigação, afastar outras causas e montar o plano de tratamento.
Na Clínica OtoCare, no Setor Noroeste, a avaliação considera o padrão das crises e os diagnósticos que podem coexistir. Veja também por que nem toda tontura é labirintite.
Veja todas as orientações aos pacientes da OtoCare.