Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Sim: a apneia pode aumentar a pressão e favorecer arritmias
Sim. A apneia do sono pode provocar aumentos da pressão arterial e favorecer arritmias cardíacas, principalmente durante a noite. As pausas repetidas na respiração diminuem a oxigenação do sangue e fazem o organismo reagir como se estivesse diante de um perigo.
Essa reação aumenta a frequência cardíaca e a pressão. Por isso, uma alteração encontrada no MAPA ou no Holter, sobretudo quando aparece durante o sono, pode levar o cardiologista a investigar se existe apneia.

Pressão alta e arritmia não confirmam apneia sozinhas. Elas são pistas. A suspeita fica mais forte quando aparecem junto de ronco, pausas percebidas na respiração, engasgos durante a noite, sono não reparador ou sonolência durante o dia.
O que acontece com o coração durante uma pausa respiratória
Na apneia obstrutiva, a via respiratória fica estreita durante o sono. O ar passa com dificuldade até ocorrer uma parada da respiração. Quando essa pausa se prolonga, a quantidade de oxigênio no sangue cai.
O organismo então libera hormônios adrenérgicos para voltar a respirar. Essa descarga acelera os batimentos, contrai os vasos e eleva a pressão arterial. Se o ciclo de obstrução, queda de oxigênio e retomada da respiração se repete muitas vezes, o coração passa a noite submetido a sucessivos períodos de estresse.
A explicação completa sobre ronco, hipopneia, apneia e os critérios do diagnóstico está na orientação sobre apneia do sono.
Por que a pressão deveria cair durante o sono
Enquanto dormimos, o corpo tende a relaxar. A frequência cardíaca e a pressão arterial normalmente ficam mais baixas do que durante o dia. Esse comportamento é chamado de descenso noturno da pressão.
Na apneia, cada pausa respiratória ativa novamente o organismo. Em vez de permanecer mais baixa, a pressão pode apresentar picos ou deixar de cair como deveria. Quando a redução durante o sono é menor que a esperada, o laudo pode descrever um padrão sem descenso noturno ou non-dipper.
Esse padrão não é exclusivo da apneia e não fecha o diagnóstico. Ele mostra que vale olhar para o sono, especialmente se a pessoa também ronca ou apresenta outros sintomas respiratórios noturnos.
O que o MAPA pode mostrar
O MAPA é a monitorização ambulatorial da pressão arterial. Um aparelho mede a pressão várias vezes ao longo de 24 horas, inclusive enquanto a pessoa dorme. Assim, o exame revela não apenas a média da pressão durante o dia, mas também o que acontece à noite.
Picos de pressão no período do sono ou a ausência da queda noturna esperada podem levantar a suspeita de apneia. Foi exatamente esse o motivo do encaminhamento apresentado no vídeo: o paciente procurou avaliação por aumento da pressão, e o MAPA mostrou que a alteração acontecia durante o sono.
O MAPA avalia a pressão; ele não registra as pausas respiratórias. Por isso, um resultado sugestivo precisa ser relacionado aos sintomas e, quando indicado, a um exame do sono.
Arritmia no Holter também pode ser uma pista
O Holter acompanha os batimentos cardíacos ao longo do dia e da noite. Se o exame registra arritmias principalmente no período do sono, a apneia pode estar entre as condições que precisam ser investigadas.
A queda repetida de oxigênio e as descargas que aceleram o coração alteram o ambiente elétrico cardíaco. A fibrilação atrial é a arritmia mais lembrada nessa associação, mas outros ritmos também podem ocorrer. Isso não significa que toda arritmia noturna venha da apneia: o diagnóstico cardiológico continua indispensável.
Quais sinais reforçam a suspeita de apneia
Quando o MAPA ou o Holter trazem alterações noturnas, observe se também existem:
- ronco frequente;
- pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado;
- engasgos ou retomadas bruscas da respiração durante o sono;
- sonolência, cansaço ou indisposição ao longo do dia;
- dor de cabeça ao acordar;
- dificuldade de memória ou concentração;
- pressão alta ou arritmia de difícil controle.
A combinação dessas pistas aumenta a importância de investigar o sono, mas a ausência de sonolência não exclui a doença.
Como confirmar se existe apneia
O exame usado para confirmar a apneia é a polissonografia, também chamada de exame do sono. Ela registra a respiração, a oxigenação, os batimentos e outros sinais ao longo da noite. O resultado mostra se há pausas respiratórias e ajuda a definir a gravidade do quadro.
A avaliação do otorrino procura estreitamentos no nariz e na garganta que dificultem a passagem do ar. O acompanhamento cardiológico continua em paralelo para interpretar o MAPA ou o Holter e tratar diretamente a pressão ou a arritmia.
Tratar a apneia ajuda a proteger o coração
Deixar a apneia sem tratamento mantém as quedas de oxigênio e os picos de ativação durante a noite. O tratamento é escolhido de acordo com a gravidade, a anatomia e as condições de cada pessoa.
As opções podem incluir CPAP, cirurgias, fonoterapia, aparelho intraoral, terapia posicional e perda de peso. Em situações selecionadas, a redução de peso pode envolver medicação, como explicado na orientação sobre Mounjaro para apneia do sono.
Controlar a apneia não substitui o tratamento prescrito para pressão alta ou arritmia. São partes complementares do cuidado e precisam ser acompanhadas pelos profissionais responsáveis.
Vídeo: pressão alta e arritmia por apneia do sono
O vídeo abaixo explica como as pausas respiratórias elevam a frequência cardíaca e a pressão, e por que alterações noturnas no MAPA e no Holter podem chamar atenção para a apneia.
Perguntas frequentes
Pressão normal no consultório exclui alteração durante o sono?
Não. A medida do consultório mostra a pressão naquele momento. O MAPA acompanha as variações por 24 horas e pode revelar pressão elevada ou ausência do descenso apenas durante o sono.
Toda arritmia que aparece à noite é causada por apneia?
Não. Existem várias causas de arritmia. Quando ela predomina durante o sono, a apneia passa a ser uma possibilidade importante, principalmente se há ronco, pausas respiratórias ou sonolência, mas a investigação cardiológica define o diagnóstico.
Quem tem fibrilação atrial deve investigar apneia?
A investigação deve ser considerada principalmente quando a fibrilação atrial é recorrente, existe hipertensão, obesidade, ronco ou episódios predominantemente noturnos. A decisão depende da avaliação clínica e pode envolver polissonografia.
Referências
- VILELA, Larissa. Arritmia cardíaca e pressão alta por apneia do sono! YouTube, 20 ago. 2025. 1 vídeo (5 min 26 s). Disponível em: https://youtu.be/8VLG5VKRA-Y. Acesso em: 16 set. 2026.
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- BARROSO, Weimar Kunz Sebba et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 116, n. 3, p. 516-658, 2021. DOI: 10.36660/abc.20201238. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/Z6m5gGNQCvrW3WLV7csqbqh/?format=html&lang=pt. Acesso em: 16 set. 2026.
- MEHRA, Reena et al. Sleep-disordered breathing and cardiac arrhythmias in adults: mechanistic insights and clinical implications. Circulation, v. 146, n. 9, e119-e136, 2022. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001082. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35912643/. Acesso em: 16 set. 2026.
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