Carne esponjosa no nariz: adenoide, cornetos ou pólipos?

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Carne esponjosa no nariz pode ser uma de três estruturas

A carne esponjosa virou assunto nas redes sociais quando uma atriz contou que tinha passado por uma cirurgia de desvio de septo e de retirada da carne esponjosa, uma cirurgia considerada simples. Ela já tinha retirado a carne esponjosa dez anos antes, voltou a respirar bem por um tempo e depois sentiu que a carne esponjosa tinha voltado.

Muita gente ficou sem saber o que, afinal, havia sido retirado, e a dúvida faz sentido. Os pacientes usam a palavra carne esponjosa para falar da adenoide, dos pólipos nasais e da hipertrofia dos cornetos inferiores, também chamados de conchas inferiores. Os três são tecidos moles que, vistos por dentro do nariz, têm uma aparência meio esponjosa.

Dra. Larissa Vilela aponta com uma caneta, em modelo anatômico em corte do nariz e da garganta, a região chamada popularmente de carne esponjosa

Carne esponjosa não é um termo médico. O nome popular descreve três estruturas que podem crescer e entupir o nariz, a adenoide, os cornetos inferiores e os pólipos nasais. O tratamento começa com remédio, e a cirurgia fica para quando ele não resolve.

Pelo vídeo que a atriz publicou, não dá para saber qual das três foi operada. E a diferença importa, porque cada estrutura tem uma causa própria e responde a um tratamento diferente, inclusive quanto à chance de o nariz voltar a entupir.

Adenoide: a carne esponjosa da criança

A adenoide ocupa o fundo do nariz, na rinofaringe, no ponto em que o nariz se encontra com a garganta. Junto com as amígdalas, ela forma o anel linfático de Waldeyer, uma barreira de defesa contra vírus e bactérias que entram pela respiração e pela alimentação. Toda criança tem adenoide. Ela cresce ao longo da infância, alcança o tamanho máximo perto dos 6 ou 7 anos. A partir daí, encolhe aos poucos, até quase não existir mais na idade adulta.

Em algumas crianças, ela cresce tanto que avança para a frente e fecha a saída do ar pelo nariz. Isso causa nariz entupido o tempo todo, a respiração pela boca, o ronco e o sono agitado. A voz pode sair anasalada, como a de quem está gripado. A adenoide grande também favorece otites e sinusites que se repetem. Ronco com paradas na respiração durante o sono merece atenção, porque pode indicar apneia do sono na criança.

O tratamento começa com corticoide em spray nasal, que consegue diminuir a adenoide, junto com a lavagem nasal, como mostra a orientação sobre como tratar a adenoide. Quando ela continua grande depois de um período de tratamento bem feito, e a criança segue respirando mal ou tendo infecções, a cirurgia passa a ser considerada. Os critérios dessa decisão estão na orientação sobre quando operar a adenoide.

Cornetos inferiores: a carne esponjosa da rinite

Os cornetos são estruturas normais, que todo mundo tem. São pregas de osso recobertas por mucosa, presas às paredes laterais do nariz. De cada lado há três, chamados inferior, médio e superior. Segundo o Manual MSD, essas pregas aumentam muito a superfície interna do nariz, e assim o ar inspirado é aquecido e umedecido antes de chegar aos pulmões.

O corneto inferior sofre muito com a rinite, alérgica ou não. A rinite inflama a mucosa do nariz, e quando essa inflamação dura muito tempo ou fica sem controle, a mucosa que recobre o corneto incha e vai crescendo, até ganhar o aspecto esponjoso. Esse aumento se chama hipertrofia dos cornetos inferiores e tira o espaço por onde o ar deveria passar. Acontece em adultos e também em crianças com rinite muito intensa.

Como o corneto é uma parte útil do nariz, o alvo do tratamento é a rinite. Corticoide nasal em spray, antialérgico nas crises de alergia e as demais medidas do tratamento da rinite alérgica desincham a mucosa. O descongestionante alivia na hora, mas depois vem o rebote, com o nariz mais fechado do que estava, e repetir a dose cria um ciclo que só piora a obstrução, como explica a orientação sobre descongestionante nasal.

Pólipos nasais: a carne esponjosa da sinusite crônica

Os pólipos nasais nascem de uma inflamação da mucosa, o revestimento interno do nariz e dos seios paranasais. Essa camada, que deveria ser lisa, incha tanto que forma saliências macias dentro do nariz, também de aspecto esponjoso. Em geral eles surgem como complicação de uma sinusite crônica, crescem na região do meato médio, entre os cornetos, e costumam aparecer nos dois lados. Em geral, são benignos.

A obstrução causada pelos pólipos pode ser tão grande que a pessoa mal consegue respirar pelo nariz. A perda do olfato também pesa muito, porque o ar com os cheiros não alcança a parte alta do nariz, onde eles são percebidos. Secreção e, muitas vezes, crises de dor no rosto completam o quadro. O tratamento começa pelo corticoide nasal, e as etapas seguintes estão na orientação sobre polipose nasal.

Um pólipo ou uma massa em uma só narina, principalmente com sangramento pelo mesmo lado, foge do padrão dos pólipos comuns. Segundo o Manual MSD, o pólipo de um lado só pode esconder um tumor, benigno ou maligno, e por isso esse quadro precisa de avaliação médica sem demora.

Como saber qual das três é o seu caso

A idade e os sintomas ajudam a apontar a estrutura mais provável, mas não fecham o diagnóstico.

  • Na criança que ronca, dorme de boca aberta e tem otites ou sinusites de repetição, a primeira suspeita recai sobre a adenoide, muitas vezes acompanhada de cornetos inchados pela rinite.
  • Em quem tem espirros, coriza e coceira no nariz, com o nariz trancado nas crises, o mais provável é o corneto inflamado pela rinite.
  • No adulto com o nariz fechado dos dois lados há meses, perda de olfato e secreção, a suspeita passa a ser de pólipos.

Quem decide é o exame que olha por dentro. A endoscopia nasal usa uma pequena câmera no próprio consultório e mostra qual estrutura está aumentada e quanto ela obstrui. Na criança, a adenoide também pode ser avaliada pelo raio X de cavo, uma radiografia de perfil do rosto. Nos pólipos, às vezes se acrescenta uma tomografia da face, para conhecer a extensão da doença.

Encontrar mais de uma causa na mesma pessoa é comum, como adenoide e cornetos grandes na mesma criança. Desvio de septo e carne esponjosa são coisas diferentes. O septo divide o nariz ao meio e é feito de cartilagem e osso, enquanto as três estruturas ficam nas laterais e no fundo, e as diferenças estão na orientação sobre desvio de septo. Quando o desvio e a carne esponjosa atrapalham juntos, a septoplastia pode ser feita na mesma cirurgia que trata os cornetos ou a adenoide.

Tratamento: remédio primeiro, cirurgia depois

Nas três estruturas, a regra é a mesma. A carne esponjosa pode ser tratada com remédio e, em último caso, com cirurgia, quando o tratamento com medicação não resolve. A cirurgia funciona muito bem quando é bem indicada, mas toda cirurgia tem riscos, e por isso ela vem em segundo lugar.

O corticoide nasal em spray é a base, porque age na inflamação que faz o tecido inchar. Ele não funciona na hora, como o descongestionante. O efeito começa em algumas horas e vai crescendo nos dias seguintes, e quem desiste nos primeiros dias perde o benefício. Usado na dose certa, quase nada dele chega ao resto do corpo, como mostra a orientação sobre corticoide nasal.

A lavagem nasal com soro acompanha o tratamento das três. Ela limpa a secreção do nariz, e nos pólipos o médico pode indicar o corticoide dentro da própria lavagem.

O antialérgico entra quando há rinite alérgica em crise, para tratar a alergia. Para diminuir a adenoide, o que funciona é o corticoide nasal com a lavagem. O montelucaste, um antileucotrieno usado na asma e na rinite, chegou a ser estudado para a adenoide, mas os estudos seguintes mostraram pouco impacto sobre ela.

Como é a cirurgia de carne esponjosa

Não existe uma cirurgia única de carne esponjosa. Cada estrutura tem a sua, e a escolha depende do que o exame mostrou.

Na cirurgia de adenoide, chamada adenoidectomia, o tecido é retirado pelo nariz, pela boca ou pelas duas vias, com anestesia geral e sem nenhuma cicatriz no rosto. O pós-operatório costuma ser tranquilo, sem dor importante. O maior cuidado é o repouso e evitar o calor, porque o principal risco dessa cirurgia é o sangramento.

Nos cornetos, a cauterização de cornetos inferiores usa o cautério, um instrumento que aplica pequenos choques elétricos na mucosa e faz o corneto perder volume. Ela é feita principalmente em crianças, porque o nariz delas é pequeno demais para instrumentos de corte. No adulto, que tem mais espaço dentro do nariz, a redução costuma ser feita por turbinoplastia ou turbinectomia, cirurgias que retiram parte do corneto e dão um resultado mais duradouro. Logo depois da cauterização, o corneto incha como reação ao procedimento, e o nariz fica mais entupido por alguns dias antes de a respiração melhorar.

Nos pólipos, a cirurgia endoscópica dos seios da face retira a polipose e abre os caminhos de drenagem dos seios, para melhorar a ventilação e evitar que o quadro volte. Ela é indicada para quem não melhora com o corticoide, e a lavagem nasal continua depois dela.

A carne esponjosa volta depois da cirurgia?

A sensação de que a carne esponjosa voltou, como na história da atriz, pode ter duas explicações diferentes. Uma é o tecido crescer de novo. A outra é o nariz voltar a entupir sem que nada tenha crescido.

A adenoide raramente cresce de novo a ponto de pedir outra cirurgia. Numa metanálise que reuniu 16 estudos e 95.727 crianças operadas, a reoperação foi necessária em 1,9% delas, sem diferença relevante entre as técnicas usadas na primeira cirurgia.

Os cornetos podem voltar a inchar ao longo de muitos anos, mas, com a rinite controlada e o acompanhamento mantido, isso em geral não acontece. Numa revisão sistemática com 18 estudos e 1.411 pacientes com rinite alérgica, a melhora da obstrução depois da cirurgia dos cornetos se manteve por mais de um ano, com poucas complicações.

Nos pólipos, a cirurgia tira o pólipo, mas não a inflamação da mucosa. Segundo o Manual MSD, eles tendem a reaparecer quando a inflamação não é controlada, e o corticoide nasal usado depois da retirada ajuda a evitar isso. Os fatores que aumentam essa chance estão detalhados na orientação sobre por que os pólipos voltam.

O nariz também pode fechar de novo sem que nada tenha crescido. A mucosa que fica continua sujeita à rinite, e a cirurgia não cura a rinite. A cirurgia abre espaço, e o tratamento clínico mantém esse espaço aberto. Quem opera e abandona o tratamento da rinite pode voltar a sentir o nariz fechado.

Quando procurar o otorrino

Procure avaliação quando o nariz ficar entupido na maior parte dos dias, quando a criança roncar ou dormir de boca aberta, quando houver otites ou sinusites que se repetem, perda de olfato, secreção que não passa, sangramentos repetidos pelo nariz ou quando o nariz voltar a entupir depois de uma cirurgia.

Na criança, a demora pesa mais. Esperar a adenoide encolher sozinha pode significar anos de respiração ruim, com noites mal dormidas, e a respiração pela boca altera o crescimento do rosto, deixando a parte do meio da face pouco desenvolvida. Depois de começar o tratamento, os retornos fazem parte dele, porque a adenoide que não responde não pode ficar esquecida. Na OtoCare, a consulta examina o nariz por dentro e define qual das estruturas está em jogo.

Vídeo: o que é a carne esponjosa do nariz

O vídeo abaixo apresenta, em modelo anatômico, onde fica cada uma das três estruturas chamadas de carne esponjosa e por que elas recebem o mesmo nome popular.

Perguntas frequentes

Carne esponjosa no nariz é adenoide?

Nem sempre. A adenoide é um dos tipos mais comuns de carne esponjosa, principalmente na criança, mas os cornetos inferiores inchados e os pólipos nasais recebem o mesmo nome popular. No adulto, depois que a adenoide encolhe, a carne esponjosa em geral é o corneto ou o pólipo.

Ter carne esponjosa no nariz é normal?

Ter adenoide na infância e ter cornetos é normal, porque os dois fazem parte do corpo e têm função. O que não é normal é eles crescerem a ponto de atrapalhar a respiração. Os pólipos são outra história, porque não existem num nariz saudável e já indicam uma inflamação crônica.

Carne esponjosa no nariz é perigosa ou pode virar câncer?

Nenhuma das três é câncer. A adenoide e os cornetos são tecidos normais que aumentaram, e os pólipos comuns são benignos. O que foge desse padrão, como uma massa em uma só narina, precisa de avaliação médica sem demora. No dia a dia, o problema está nas consequências da obstrução. Na criança, respirar mal por anos prejudica o sono e o crescimento do rosto, e no adulto o nariz fechado atrapalha o sono e o olfato.

Carne esponjosa no nariz tem que operar?

Nem sempre. Na maior parte dos casos, o remédio vem primeiro e a cirurgia fica para quando a obstrução continua apesar dele. Se a adenoide for muito grande, o tratamento também vem antes, mas a chance de precisar operar é maior, e por isso o acompanhamento com o otorrino é mais próximo.

Busonid® ou Avamys® servem para carne esponjosa?

Os dois são corticoides nasais em spray, o Busonid® com budesonida e o Avamys® com furoato de fluticasona, e essa é a classe de remédio que serve de base para as três estruturas. Pelas bulas, o Avamys® trata os sintomas da rinite alérgica, e o Busonid® inclui também os pólipos nasais e a prevenção da volta deles depois da cirurgia. A escolha, a dose e o tempo de uso dependem do diagnóstico e da idade, e por isso pedem prescrição.

A carne esponjosa pode sumir sozinha?

A adenoide pode, porque começa a encolher por volta dos 7 anos. Isso acontece aos poucos, ano a ano, e uma criança com obstrução grande pode passar muito tempo respirando mal enquanto espera. Os cornetos desincham quando a rinite é controlada e voltam a inchar quando ela piora. Nos pólipos, o corticoide nasal pode reduzir ou até eliminar os menores, segundo o Manual MSD.

A cirurgia de carne esponjosa é perigosa?

A cirurgia de adenoide é considerada tecnicamente simples, e a cauterização de cornetos é um procedimento rápido, com poucos riscos e, por não ter corte, pouco sangramento. A adenoidectomia é feita com anestesia geral, que hoje é muito segura, mas nenhuma cirurgia é livre de riscos, e por isso a indicação só vem quando o remédio não resolveu.

Carne esponjosa no nariz tem cura?

Depende da estrutura. Quando a adenoide é a causa, a cirurgia bem indicada costuma resolver por completo a obstrução, e ela também encolhe com a idade. Nos cornetos e nos pólipos, a cirurgia melhora a respiração, mas a inflamação por trás deles continua e precisa de controle contínuo, como mostra a orientação que responde se a rinite alérgica tem cura.

Carne esponjosa no nariz pode afetar o ouvido?

Pode, principalmente quando se trata da adenoide. Aumentada, ela atrapalha a drenagem do ouvido, o líquido fica retido atrás do tímpano, e surgem otites agudas de repetição ou a otite média secretora, que pode diminuir a audição. Nas crianças que continuam com essas infecções apesar do tratamento clínico, a retirada da adenoide reduz muito os episódios.

Carne esponjosa no nariz dá dor de cabeça?

Dor no rosto pode aparecer quando há pólipos, porque a sinusite crônica por trás deles traz sensação de pressão e crises de dor na face. Dor de cabeça tem muitas outras causas, e a diferença entre sinusite e enxaqueca está na orientação sobre sinusite ou enxaqueca.

Qual é o nome técnico e o CID da carne esponjosa?

Cada estrutura tem o seu. Na CID-10, a hipertrofia das adenoides tem o código J35.2, a hipertrofia dos cornetos nasais, J34.3, e o pólipo nasal fica no grupo J33, com o pólipo da cavidade nasal em J33.0.

Qual médico trata carne esponjosa no nariz?

O otorrinolaringologista. Ele faz a endoscopia para ver o nariz por dentro, trata com remédio e, quando é preciso, opera a adenoide, os cornetos ou os pólipos. Na OtoCare, a consulta com otorrino atende adultos e crianças.

Referências

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