Surdez súbita: o que é, causas e como tratar

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O que é surdez súbita

Muitas vezes a pessoa acorda e percebe que não escuta bem de um dos ouvidos. Em outras, a audição cai de uma vez durante o dia ou vai piorando ao longo de poucos dias. Essa perda repentina da audição pode ser uma surdez súbita, também chamada de surdez neurossensorial súbita, e precisa ser avaliada logo pelo otorrino.

Neurossensorial quer dizer que o problema está dentro do ouvido, na cóclea, a parte da orelha interna que capta o som, ou no nervo auditivo, que leva esse sinal até o cérebro. Não se trata de um bloqueio na passagem do som, como acontece com uma rolha de cera.

Para fechar o diagnóstico, a audiometria precisa mostrar uma perda de pelo menos 30 decibéis em três frequências seguidas, instalada de forma brusca ou em até 3 dias. As frequências são os tons testados no exame, dos graves aos agudos, e um exemplo seria uma queda de 30 decibéis ou mais nos tons de 500, 1.000 e 2.000 Hz. Na maior parte das vezes, só um ouvido é atingido.

Nos Estados Unidos, a estimativa é de 5 a 27 casos por 100 mil habitantes a cada ano. A surdez súbita aparece mais entre os 50 e os 60 anos. Em crianças ela é muito rara, mas pode acontecer.

Médica otorrino examinando paciente com queixa de surdez súbita e zumbido no ouvido

A perda repentina da audição precisa de avaliação rápida. Quanto antes o tratamento começa, maior a chance de recuperar a audição.

Sintomas da surdez súbita

O sintoma principal é a queda da audição, que muitas vezes vem com a sensação de ouvido tampado e de som abafado. Mais de 90% das pessoas com surdez súbita têm zumbido, e até 60% sentem tontura junto com a perda.

O zumbido costuma começar junto com a perda, num ouvido que antes não tinha esse som. Algumas pessoas ouvem um estalo forte logo antes de a audição sumir, e outras só notam a diferença quando tentam usar aquele ouvido.

Como a perda costuma atingir um lado só, o ouvido bom dá conta de boa parte do dia a dia, e muita gente adia a consulta achando que é cera, alergia ou sinusite. Esse atraso tira tempo do tratamento. Mesmo com o outro ouvido bom, a perda traz as dificuldades da surdez unilateral, como saber de onde vem o som e entender a fala no barulho.

Surdez súbita ou ouvido tampado por cera?

Nem toda perda de audição repentina é surdez súbita. Uma rolha de cera pode fechar o canal do ouvido de repente e deixar a pessoa sem escutar daquele lado. Um tapa no ouvido pode furar o tímpano e baixar a audição na hora, como mostra a orientação sobre surdez por impacto. Nesses casos, o som é barrado no caminho, e a perda é chamada de condutiva.

A surdez súbita é outra situação. A lesão fica dentro do ouvido, na orelha interna, e envolve a cóclea e o nervo auditivo. Os dois tipos de perda, com as suas causas, estão explicados na orientação sobre tipos de perda auditiva.

Numa gripe, o ouvido também pode tampar pela inflamação do nariz, e isso costuma passar quando o nariz melhora. A orientação sobre se a gripe pode causar surdez súbita mostra como separar essas alterações passageiras da surdez súbita, que também pode ser causada por um vírus.

Em casa, o teste caseiro para surdez súbita, feito com a própria voz, ajuda a desconfiar do tipo de perda quando só um ouvido foi atingido. A confirmação vem do exame do ouvido e da audiometria.

O que causa a surdez súbita

As infecções por vírus são consideradas a principal causa. Vírus como os da covid, da gripe, do sarampo, da caxumba e da catapora podem inflamar a cóclea ou o nervo auditivo e provocar a perda. Na prática, é difícil comprovar o vírus, porque ele quase nunca é isolado, e a causa viral fica como a explicação mais provável.

Em segundo lugar vêm os problemas de circulação, como um coágulo ou um espasmo que reduz o sangue que chega à cóclea. Essa região depende de um único vaso, sem caminho alternativo, e por isso uma interrupção curta do fluxo já pode lesar a audição. As causas vasculares parecem comuns, mas provavelmente menos do que as virais.

Há também causas menos frequentes, que a investigação procura com cuidado.

  • doenças autoimunes, como o lúpus e a granulomatose de Wegener, que podem atacar a orelha interna;
  • doenças neurológicas, como a esclerose múltipla;
  • infecções por bactéria, como a doença de Lyme;
  • a doença de Ménière, mais rara como causa de perda súbita;
  • remédios que podem lesar o ouvido, como alguns antibióticos do grupo dos aminoglicosídeos, a aspirina em dose alta e o diurético furosemida;
  • trauma na cabeça;
  • mudanças bruscas de pressão, como no mergulho, que podem abrir uma pequena passagem entre a orelha média e a interna, chamada de fístula perilinfática;
  • tumores do nervo auditivo, como o schwannoma vestibular (neurinoma do acústico), um tumor benigno.

Algumas dessas causas são graves, e por isso toda surdez súbita precisa ser bem investigada pelo otorrinolaringologista, para chegar ao diagnóstico certo e escolher o melhor tratamento. Quando os exames não mostram nenhuma causa, o quadro é chamado de surdez súbita idiopática, ou seja, sem causa definida. Isso acontece na grande maioria das pessoas.

O que fazer ao perceber perda repentina da audição

Ao perceber uma queda brusca da audição, o caminho é procurar o otorrinolaringologista o quanto antes, sem esperar para ver se melhora sozinha. Na OtoCare, agende pelo WhatsApp contando o sintoma, para ter atendimento prioritário.

Enquanto isso, não use remédios por conta própria, nem os que sobraram de outro tratamento. O corticoide, base do tratamento, tem dose, tempo de uso e cuidados que só são definidos depois do exame.

Às vezes, a perda de audição vem junto com outros sinais que começam de repente, como fraqueza ou dormência de um lado do corpo, fala enrolada, boca torta ou visão dupla. Nesses casos, o problema pode estar no cérebro, e não só no ouvido. Sinais assim precisam de avaliação médica sem demora.

Como é feito o diagnóstico da surdez súbita

A consulta começa pelo exame do ouvido. O otorrino procura uma rolha de cera, uma perfuração do tímpano ou uma otite média, que também baixam a audição, mas são perdas condutivas e passageiras, e não surdez súbita.

Com o exame normal, o passo seguinte é a audiometria tonal e vocal, o exame inicial da investigação. Ela confirma se a perda é neurossensorial, mostra quanto a audição caiu em cada frequência e serve de comparação para acompanhar a melhora. Na OtoCare, que fica no Noroeste, em Brasília, a audiometria leva de 20 a 30 minutos, com resultado no mesmo dia.

Confirmada a surdez súbita, outros exames procuram a causa. Em geral, pede-se um exame de imagem, de preferência a ressonância magnética da região da orelha interna. Às vezes entram também o BERA e as emissões otoacústicas. Quando há tontura, a investigação inclui o labirinto, a parte do ouvido interno que cuida do equilíbrio, e exames de sangue ajudam a afastar algumas causas.

Essa investigação é complexa e pede um médico com experiência na área para conduzir o caso. As recomendações da Academia Americana de Otorrinolaringologia também pedem para separar a perda neurossensorial da condutiva logo no primeiro atendimento e procurar uma causa no nervo auditivo com a ressonância ou com o BERA.

Tratamento da surdez súbita

Quando os exames encontram uma causa, o tratamento é dirigido a ela. Se a investigação mostra uma doença de Lyme, por exemplo, o que se trata é a infecção.

Quando nenhuma causa aparece, a explicação mais provável é um vírus, e o tratamento procura ajudar a orelha interna a se recuperar da inflamação. O corticoide é o remédio com o melhor nível de evidência para isso. Em geral, ele é tomado por via oral, em dose relativamente alta, por cerca de 10 dias, com redução aos poucos no final. A dose e os cuidados de cada pessoa vêm na receita, e o uso desse remédio está explicado na orientação sobre corticoide oral.

A diretriz americana apresenta o corticoide como uma opção a ser conversada com cada paciente, junto com os possíveis benefícios, os riscos e os limites dos estudos. A decisão é tomada caso a caso, na consulta.

Antivirais e vasodilatadores já foram usados na surdez súbita, mas não têm evidência de benefício, e a Academia Americana de Otorrinolaringologia recomenda não receitá-los de rotina.

Injeção intratimpânica de corticoide

Quando a pessoa não pode tomar o corticoide por via oral, ou quando a audição não melhora com o comprimido, existe a injeção intratimpânica de corticoide. Com uma agulha fina, o remédio passa pelo tímpano e fica na orelha média. De lá, ele segue para a cóclea por uma pequena membrana chamada janela redonda. Assim, ele chega à orelha interna em nível mais alto do que pelo comprimido. Na OtoCare, a injeção é feita no consultório. Por envolver algum desconforto, ela fica reservada para esses casos, como tratamento de resgate.

Em perdas severas e profundas, alguns estudos recentes combinaram a injeção com o comprimido desde o início, com resultados animadores e evidência ainda limitada. É uma possibilidade que pode ser avaliada caso a caso, na consulta.

Oxigenoterapia hiperbárica

Na oxigenoterapia hiperbárica, a pessoa respira oxigênio dentro de uma câmara com pressão maior que a do ambiente. O tratamento aumenta a oxigenação da cóclea e tem mostrado bons resultados na recuperação da surdez súbita. É uma opção quando está disponível, o que nem sempre é fácil, porque poucos lugares têm a câmara. A OtoCare não tem câmara hiperbárica.

A diretriz americana trata a câmara como uma opção, sempre junto com o corticoide. Uma revisão Cochrane encontrou melhora da audição com a câmara, em estudos pequenos e com importância prática ainda incerta, e um estudo publicado em 2026 não viu ganho extra quando ela foi somada ao corticoide na veia e à injeção no ouvido. A indicação é pesada caso a caso, numa prática que continua evoluindo.

Prazo para começar o tratamento

Quanto antes o tratamento começa, melhores tendem a ser os resultados de recuperação da audição. Por esse motivo, a otorrinolaringologia trata a surdez súbita como prioridade, com diagnóstico rápido e corticoide iniciado o mais cedo possível. O ideal é começar nas primeiras 24 a 48 horas.

Quem começa o tratamento um pouco mais tarde ainda tem chance de melhorar, mas essa chance diminui com a demora. Segundo o NIDCD, o instituto de surdez e distúrbios da comunicação dos Estados Unidos, o tratamento iniciado depois de duas a quatro semanas tem menos chance de reverter ou reduzir a perda.

Surdez súbita tem cura? Chances de recuperação

Muitas pessoas recuperam a audição, em parte ou por completo. Algumas melhoram até sem tratamento, ao longo de semanas a meses, mas uma parte importante não recupera tudo, e por isso o diagnóstico e o tratamento logo no início fazem tanta diferença. Com o tratamento adequado desde o início, a maioria melhora nas primeiras duas semanas.

Alguns sinais ajudam a prever a evolução. A chance de recuperar é menor quando o tratamento começa tarde, quando a perda é mais grave, quando atinge mais os sons agudos, com a idade mais avançada e em quem tem pressão alta ou diabetes. A perda leve e a perda que atinge mais os sons graves tendem a se recuperar melhor. O tamanho da perda, de leve a profunda, está explicado na orientação sobre graus de surdez.

A resposta é acompanhada com audiometrias repetidas. Durante o tratamento, elas mostram se vale acrescentar a injeção de resgate. Depois, a diretriz americana recomenda repetir o exame ao final do tratamento e de novo em até seis meses, para saber até onde a audição voltou.

Quando a audição não volta por completo

Parte das pessoas fica com alguma perda de audição, com zumbido ou com os dois. Nesses casos, a diretriz americana recomenda conversar sobre a reabilitação auditiva e outras medidas de apoio, que podem ajudar na comunicação e no incômodo do zumbido.

Quando a perda continua, o aparelho auditivo pode ajudar, e nas perdas severas ou profundas o implante coclear também pode ser avaliado. As opções para quem ficou ouvindo de um lado só estão na orientação sobre o tratamento da surdez unilateral, e as medidas para conviver melhor com esse som estão nas dicas sobre zumbido no ouvido. A consulta avalia cada caso e indica o caminho.

A surdez súbita também é diferente da perda que chega com o envelhecimento, explicada na orientação sobre surdez com a idade. Nela, a audição cai devagar, em geral nos dois ouvidos.

Vídeos sobre surdez súbita

O vídeo principal, de maio de 2025, explica o que define a surdez súbita na audiometria, as causas, a investigação, o tratamento e os fatores que pesam na recuperação da audição.

O segundo vídeo, de setembro de 2023, resume os sintomas e o tratamento e usa um modelo do ouvido para mostrar como o corticoide é aplicado através do tímpano e chega à cóclea.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura a surdez súbita?

Não existe um prazo único. Em quem melhora, a recuperação aparece aos poucos, nas primeiras semanas, e a audiometria repetida mostra até onde a audição voltou. Em outras pessoas, parte da perda fica permanente, e o acompanhamento passa a cuidar da reabilitação.

Qual é o remédio para surdez súbita?

O tratamento é feito com corticoide, receitado pelo otorrino depois do exame e da audiometria, por via oral ou, em alguns casos, com a injeção no ouvido. Não existe remédio de farmácia para tomar por conta própria, e a dose e o tempo de uso são definidos para cada pessoa.

Surdez súbita é grave?

É um quadro sério por dois motivos. A demora no tratamento reduz as chances de recuperação, e, numa parte menor dos casos, a perda é o primeiro sinal de outra doença que precisa ser tratada, como um tumor benigno do nervo auditivo. Por isso a perda repentina é avaliada com prioridade, mesmo quando parece só um ouvido tampado.

Surdez súbita pode acontecer nos dois ouvidos?

Pode, mas é muito raro. Quando os dois lados perdem audição juntos, o mais comum é outra causa, como cera acumulada nos dois ouvidos. Uma perda súbita nos dois ouvidos pede uma investigação ainda mais cuidadosa, que inclui doenças autoimunes, infecções e remédios que lesam o ouvido.

Surdez súbita é PCD?

A surdez súbita, sozinha, não define a deficiência. O que conta é a perda que fica depois do tratamento, medida na audiometria. A Lei 14.768, de 2023, considera deficiência auditiva a limitação de longo prazo da audição, total em um ouvido ou parcial ou total nos dois, e usa como referência a média de 41 decibéis ou mais nas frequências de 500, 1.000, 2.000 e 3.000 Hz. Na avaliação, a perda profunda em um ouvido, a partir de 80 decibéis pela classificação da OMS, também pode ser considerada como perda total. Essa informação é de outubro de 2026 e pode mudar com o tempo. Na OtoCare, o laudo de surdez fica pronto no mesmo dia, sem cobrança à parte da consulta.

Referências

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Avaliação de surdez súbita em Brasília

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