Surdez unilateral tem cura? Tratamentos para recuperar a audição

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

A surdez unilateral tem cura ou reversão?

A resposta médica para a cura da surdez unilateral depende diretamente da causa e do tipo de lesão identificada no ouvido acometido. Quando a perda de audição em um único ouvido é provocada por uma alteração condutiva — como acúmulo obstrutivo de cera, acúmulo de secreção por otite média secretora ou perfuração na membrana timpânica —, o tratamento clínico ou cirúrgico é capaz de restabelecer a audição original por completo.

No entanto, quando o quadro decorre de uma lesão neurossensorial definitiva nas células ciliadas da cóclea ou nas fibras do nervo auditivo, não existe uma cura biológica espontânea que regenere essas estruturas microscópicas: embora existam pesquisas experimentais de fronteira sobre a cura da surdez pela terapia gênica para mutações genéticas restritas, a conduta clínica imediata não consiste em esperar, mas sim em aplicar a reabilitação auditiva de alta tecnologia para reintegrar as vias neurais e devolver a qualidade de vida ao paciente.

Médica otorrinolaringologista explicando as opções de tratamento para surdez unilateral, sistema CROS, prótese osteoancorada e implante coclear

Ouvir bem com os dois ouvidos é essencial para a orientação espacial e a segurança. Se você percebeu perda de audição repentina ou convive com dificuldades para entender a fala de um dos lados, entre em contato com a Clínica OtoCare para uma investigação diagnóstica precisa em Brasília.

Perda auditiva total vs perda parcial em um ouvido

Antes de escolher a conduta terapêutica, a avaliação médica divide a surdez unilateral em duas categorias funcionais muito distintas: a perda parcial e a perda total.

A perda parcial ocorre quando o ouvido ainda preserva restos de audição identificáveis na audiometria e na imitanciometria. Conforme demonstrado no guia de graus de surdez, essa perda pode ser classificada em leve, moderada ou severa:

  • Perda moderada a severa em um lado: o aparelho auditivo convencional (AASI) posicionado no próprio ouvido afetado é altamente eficiente, pois ainda existem células viáveis na orelha interna capazes de captar o som amplificado;
  • Perda leve em um lado: quando o outro ouvido possui audição totalmente normal, a adaptação com aparelho simples no lado leve costuma trazer pouco ganho percebido na rotina diária; a recomendação usual é o acompanhamento periódico com exames e orientações rigorosas de preservação auditiva.

Por outro lado, quando o ouvido apresenta perda auditiva total (anacusia unilateral), o aparelho auditivo comum não consegue ajudar. O aparelho convencional apenas amplifica acusticamente o som ambiente; se a cóclea não possui capacidade residual de recepção, aumentar o volume mecânico não produz qualquer estímulo compreensível para o cérebro. É para a anacusia que a medicina desenvolveu soluções especializadas.

As 3 opções modernas para surdez unilateral total

Durante muitas décadas, a medicina otorrinolaringológica adotava uma postura passiva diante da perda auditiva total em um ouvido só, acreditando que o indivíduo conseguiria se adaptar razoavelmente utilizando apenas o ouvido sadio. Como esclarecido no artigo sobre surdez unilateral, essa visão foi superada ao comprovar o enorme cansaço mental, a dificuldade de localização sonora e o impacto no rendimento escolar e profissional de quem ouve com uma única orelha.

Atualmente, existem três grandes opções tecnológicas consagradas para a reabilitação da surdez unilateral total:

Tecnologia de reabilitaçãoTipo de funcionamentoPrincipal benefícioExigência cirúrgica
Sistema CROSCaptação sem fio no ouvido surdo e envio ao ouvido bomAlívio do efeito sombra da cabeçaNão requer cirurgia
Prótese osteoancoradaTransmissão por vibração óssea para a cóclea sadiaOuvido bom totalmente livre; teste prévioProcedimento cirúrgico simples
Implante coclearEstimulação elétrica direta na cóclea acometidaRestauração da audição binaural real e controle do zumbidoCirurgia otológica com feixe de eletrodos

Opção 1: Sistema CROS (Contralateral Routing of Signals)

O sistema CROS é uma modalidade avançada de aparelho auditivo indicada para quem possui anacusia em um ouvido e audição perfeitamente normal no outro. O dispositivo é composto por dois aparelhos sincronizados:

Na orelha com surdez total, é colocado um microfone transmissor discreto. Esse aparelho capta os sons e vozes que chegam pelo lado comprometido e os transmite, por sinal digital sem fio, para uma unidade receptora posicionada na orelha que ouve perfeitamente.

A grande vantagem do sistema CROS é não envolver qualquer procedimento cirúrgico. A calibração é conduzida pelo fonoaudiólogo no consultório, e o paciente começa a utilizar o sistema imediatamente. No entanto, o sistema apresenta duas limitações importantes: o paciente passa a utilizar dispositivos em ambos os ouvidos — o que pode causar leve desconforto de oclusão no canal auditivo saudável — e o som continua sendo processado pela cóclea da orelha ouvinte, o que melhora a compreensão da fala, mas não devolve com precisão a localização espacial de onde o som partiu.

Opção 2: Próteses osteoancoradas e de condução óssea

A segunda alternativa de reabilitação são as próteses auditivas de condução óssea (frequentemente chamadas de próteses osteoancoradas ou osteointegradas), representadas por dispositivos como BAHA, Ponto e Bonebridge. O princípio desse sistema é utilizar a condutividade natural dos ossos do crânio para transportar o sinal acústico.

Um pequeno processador sonoro é posicionado atrás da orelha com perda total. Ao captar os sons desse lado, o processador transforma as ondas acústicas em microvibrações mecânicas. Essas vibrações viajam pelos ossos temporais da cabeça até alcançarem a cóclea do ouvido sadio, estimulando diretamente o seu nervo auditivo.

Essa tecnologia proporciona vantagens expressivas em relação ao sistema CROS:

  • Ouvido sadio completamente livre: nada é inserido no canal auditivo da orelha normal, preservando sua acústica natural sem qualquer oclusão;
  • Teste prévio no consultório: antes de decidir pela cirurgia, o paciente tem a oportunidade ímpar de realizar um teste prático com uma tiara elástica de pressão (conhecida como softband) equipada com o vibrador ósseo, experimentando a sensação auditiva real antes do procedimento definitivo.

A colocação definitiva requer um procedimento cirúrgico rápido e seguro, realizado pelo cirurgião otorrino para implantar o pino de titânio ou o ímã subcutâneo sob a pele.

Opção 3: Implante coclear na surdez unilateral

O implante coclear representa a tecnologia mais sofisticada e revolucionária da otologia moderna. Diferente do sistema CROS e das próteses de condução óssea — que dependem da orelha ouvinte para decodificar o som —, o implante coclear é a única ferramenta capaz de reativar o ouvido que perdeu a audição.

Por meio de um procedimento cirúrgico especializado, um feixe de microeletrodos é inserido no interior da cóclea lesionada. Os sinais acústicos captados pelo processador externo são convertidos em impulsos elétricos que estimulam diretamente as fibras do nervo coclear, enviando a informação sonoro-espacial para o córtex auditivo correspondente.

Na prática médica e nos consensos internacionais de otologia, o implante coclear na surdez unilateral total possui duas grandes indicações prioritárias:

  • Bebês e crianças com surdez unilateral congênita: quando a criança nasce com perda total em um ouvido (identificada no teste da orelhinha e confirmada pelo exame de BERA), o implante coclear deve ser indicado precocemente, preferencialmente nos primeiros anos de vida (do primeiro até o quarto ano). Nessa fase de máxima neuroplasticidade, o cérebro integra perfeitamente os dois ouvidos, permitindo desenvolvimento da fala, linguagem e rendimento escolar com audição binaural verdadeira;
  • Adultos com perda auditiva recente associada a zumbido incapacitante: pacientes adultos que sofrem perda profunda súbita (por exemplo, após um episódio grave de surdez súbita) frequentemente desenvolvem um zumbido contínuo e perturbador no ouvido silenciado. O implante coclear é a tecnologia de maior eficácia comprovada para suprimir o zumbido refratário e reabilitar a audição binaural simultaneamente.

O implante coclear não é indicado em casos de aplasia ou ausência congênita do nervo auditivo, nem costuma ter adaptação favorável em perdas unilaterais ocorridas na infância que ficaram sem qualquer estimulação por mais de uma década. Além disso, o som inicial possui uma sonoridade ligeiramente metalizada, exigindo um período de reabilitação com fonoaudiólogo para o refinamento cortical da fala.

Como escolher a melhor forma de tratamento?

A escolha entre o sistema CROS, a prótese osteoancorada e o implante coclear não segue uma fórmula matemática fechada. A indicação depende da causa da surdez, da idade de início, do tempo de privação sonora, da presença de zumbido no ouvido e das preferências individuais do paciente.

Em pacientes que não possuem indicação para implante coclear ou que preferem intervenções menos invasivas, a estratégia mais recomendada consiste em comparar na prática o sistema CROS e o teste com tiara da prótese de ancoragem óssea. Com o auxílio de testes de percepção de fala em ambiente com ruído e avaliação em cabine acústica, o indivíduo experimenta os dois sistemas e opta por aquele que oferece maior conforto acústico e comodidade na sua rotina.

Além disso, preservar a saúde do ouvido contralateral é indispensável. Quadros associados ao envelhecimento natural da audição, detalhados no guia sobre surdez com a idade, ou sintomas que combinam perda e ruído interno, explicados em aparelho auditivo para zumbido, devem ser monitorados de perto, pois a perda auditiva crônica não tratada pode acelerar o declínio cognitivo, como demonstrado na orientação sobre surdez e demência.

Vídeo: tratamentos e cura na surdez unilateral

No vídeo abaixo, assista às explicações completas sobre as modalidades de reabilitação auditiva na surdez unilateral total e parcial, as indicações clínicas de cada sistema e como é conduzido o teste prático de adaptação:

Perguntas frequentes sobre o tratamento da surdez unilateral

Quem tem perda total em um ouvido pode usar aparelho auditivo comum?

Não. O aparelho de amplificação sonora individual convencional funciona captando as ondas sonoras e amplificando-as acusticamente para o canal auditivo. Na perda auditiva total (anacusia unilateral), não há resíduo auditivo funcional na cóclea capaz de responder a essa amplificação mecânica. Nesses casos, o tratamento exige tecnologias que redirecionem o som para o ouvido saudável — como o sistema CROS ou as próteses ancoradas no osso — ou a estimulação elétrica direta do nervo por meio do implante coclear.

O implante coclear faz a audição voltar a ser exatamente como antes?

A percepção proporcionada pelo implante coclear não é idêntica à audição biológica natural. Como a estimulação é realizada por feixes de eletrodos inseridos na cóclea, o som inicial costuma ser descrito pelos pacientes como ligeiramente sintetizado ou metálico. Com o acompanhamento fonoaudiológico e o treinamento auditivo regular, o cérebro aprende a integrar os sinais elétricos do implante com a audição biológica da orelha sadia, restabelecendo a percepção de profundidade espacial e a discriminação de palavras no barulho.

É possível testar a prótese osteoancorada antes de fazer a cirurgia?

Sim. Uma das grandes vantagens das próteses de condução óssea é a possibilidade de realizar uma simulação no consultório antes de qualquer intervenção cirúrgica. O paciente utiliza uma tiara elástica de pressão (conhecida como softband) acoplada ao processador sonoro, que transmite as vibrações mecânicas pelo osso do crânio. Essa experiência prática permite vivenciar o ganho auditivo e o conforto no dia a dia, trazendo total segurança na tomada de decisão.

Referências científicas

  1. VILELA, L. Surdez unilateral: existe tratamento, existe cura, é possível recuperar a audição? Canal Clínica OtoCare, YouTube, 2024. Disponível em: https://youtu.be/_ZLyrMrMMGQ.
  2. BENTO, R. F. et al. Brazilian Society of Otology task force – Single-sided deafness. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 90, supl. 1, p. 101416, 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11492085/.
  3. VAN DE HEYNING, P. et al. Incapacitating unilateral tinnitus in single-sided deafness treated by cochlear implantation. Annals of Otology, Rhinology & Laryngology, v. 117, n. 9, p. 645-652, 2008. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18834065/.
  4. ARNDT, S. et al. Cochlear implantation as a durable tinnitus treatment in single-sided deafness. Cochlear Implants International, v. 12, supl. 1, p. S81-S83, 2011. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21756468/.
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. World Report on Hearing. Geneva: World Health Organization, 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240020481.

Avaliação audiológica especializada em Brasília

A Clínica OtoCare conta com corpo clínico experiente em otorrinolaringologia e fonoaudiologia, dispondo de estrutura tecnológica completa para o diagnóstico de perdas auditivas e testes avançados de reabilitação auditiva na Asa Norte e Noroeste. Para explorar outros temas de saúde auditiva, consulte o portal de orientações aos pacientes da clínica.

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