Aparelho auditivo: quando usar, para quais graus de perda e o que acontece se não usar

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Por que tanta gente adia o aparelho auditivo

Quando é preciso usar aparelho auditivo? Quais graus de perda de audição melhoram com ele? Adultos e crianças têm a mesma indicação? E a dúvida que talvez seja a mais importante: o que acontece se a pessoa não quiser usar o aparelho e deixar a audição para lá?

A perda auditiva é muito comum. Estima-se que cerca de 800 milhões de pessoas no mundo tenham algum grau de perda auditiva, e que no Brasil sejam mais ou menos 6 milhões. A Organização Mundial da Saúde calcula que 430 milhões de pessoas precisam de reabilitação por uma perda auditiva que já atrapalha a vida, 34 milhões delas crianças.

Dra. Larissa Vilela ao lado de quatro modelos de aparelho auditivo, retroauriculares e intracanal, e de um estojo carregador com um par de aparelhos

Mesmo assim, muita gente com perda auditiva acaba deixando o tratamento para depois. Muitos têm medo de usar o aparelho, acham que vai ficar estranho ou que vai incomodar. Outros sentem vergonha, porque acham que o aparelho vai mostrar para todo mundo que a pessoa tem uma deficiência. Existe muito estigma em torno dos aparelhos auditivos.

Para quem trava justamente na vergonha, a tecnologia abriu um caminho interessante. Desde março de 2025, os AirPods Pro 2 e os AirPods Pro 3 têm no Brasil um modo aparelho auditivo, pensado para adultos com perda leve a moderada. E fone de ouvido, hoje, não chama a atenção de ninguém. No trabalho, na academia ou no metrô, quem está com os AirPods para ouvir melhor uma conversa passa despercebido entre tantas pessoas que ouvem música, podcast ou atendem uma ligação. Para quem tem vergonha, pode ser um primeiro passo para começar a cuidar da audição sem se sentir exposto.

O recurso tem limites. A bateria dura poucas horas, e por isso o fone não acompanha o uso ao longo de todo o dia, que é o ideal para quem tem indicação de aparelho auditivo. Ele também não resolve perdas severas, profundas ou de um ouvido só. Como ativar e até onde ele ajuda está na orientação sobre AirPods como aparelho auditivo. Mesmo com o fone, a avaliação da audição continua sendo o primeiro passo.

O que é e como funciona o aparelho auditivo

O aparelho auditivo é um dispositivo eletrônico. Ele também é chamado de prótese auditiva ou, de forma mais técnica, de aparelho de amplificação sonora individual, pela sigla AASI, muito usada pelos otorrinos.

De forma simplificada, ele tem três partes.

  • microfone, que capta o som do ambiente e o transforma em energia elétrica;
  • amplificador, que aumenta o som justamente nas frequências em que existe a perda auditiva;
  • receptor, que nada mais é do que um pequeno alto-falante e leva o som amplificado para dentro do canal do ouvido.

Ou seja, o aparelho capta o som, aumenta e entrega esse som no ouvido na intensidade ideal para a pessoa escutar. Quem tem perda auditiva precisa de um som mais intenso, num volume maior, para conseguir entender. O aparelho faz isso e dá ao paciente o som no volume de que ele precisa.

Tipos de aparelho auditivo

A tecnologia avançou tanto que os aparelhos estão cada vez menores. Existem modelos maiores e modelos tão pequenos que quase não se percebem.

  • retroauricular, que fica atrás da orelha. Nos modelos com receptor no canal, uma parte pequena, com o microfone e o amplificador, fica atrás da orelha, e um fio fino leva o som até o receptor, que fica dentro do canal. É um aparelho muito discreto;
  • intracanal, que fica totalmente dentro do canal auditivo e mal aparece.

O tipo de aparelho depende basicamente do grau da perda auditiva. Como regra, os aparelhos menores servem para perdas leves e moderadas, e as perdas maiores, como as severas, pedem um aparelho maior. Na perda condutiva, na perda mista e na surdez total de um ouvido, existe também o aparelho de condução óssea, que pode vir no óculos com aparelho auditivo.

Quando usar aparelho auditivo: o grau da perda

Em teoria, o aparelho auditivo pode ser usado por qualquer pessoa com perda auditiva. Na prática, a indicação é mais criteriosa. O aparelho aumenta o som, mas o som não fica totalmente natural. Ele fica um pouco diferente, um pouco artificial, às vezes meio metalizado. Um adulto que tem um ouvido muito bom e o outro com uma perda muito pequena geralmente não se adapta bem.

No adulto, a indicação habitual segue esta regra geral.

  • perda leve nos dois ouvidos: o aparelho é indicado;
  • perda moderada ou severa, em um ou nos dois ouvidos: o aparelho é indicado;
  • perda leve em um ouvido só: em geral o adulto não se adapta, porque ter um ouvido bom e o outro com som metalizado pode incomodar e angustiar mais do que ajudar.

Esse é um quadro geral. Cada paciente é único, e a decisão é feita caso a caso, na consulta. O grau da perda é medido na audiometria, e a orientação sobre graus de surdez explica como cada grau é classificado. A OtoCare faz a audiometria no Noroeste de Brasília.

Nas perdas leves e moderadas, os estudos também mostram benefício. Uma revisão da Cochrane atualizada em 2026, com 16 estudos e mais de 2 mil adultos com perda leve a moderada, concluiu que o aparelho provavelmente melhora bastante a capacidade de ouvir e a qualidade de vida ligada à audição.

Perda profunda e surdez total: quando o aparelho não resolve

O aparelho auditivo tem um limite, e esse limite é a perda severa. As perdas profundas e a perda completa da audição, chamada de anacusia, infelizmente não melhoram com o aparelho. Nesses casos, o tratamento passa por outras abordagens, como o implante coclear.

A Organização Mundial da Saúde faz a mesma divisão. Pessoas com perda leve a severa podem se beneficiar de aparelhos auditivos, enquanto quem tem perda profunda pode se beneficiar do implante coclear. Quando a surdez total é em um ouvido só, as opções estão na orientação sobre o tratamento da surdez unilateral.

Frequências: por que a perda só nos agudos melhora menos

O aparelho auditivo ajuda muito na faixa de 500 a 4.000 Hz. Quando a perda está nessa faixa e segue os critérios acima, o aparelho ajuda bastante. Por isso, o grau da perda usado para indicar o aparelho é o medido nessa faixa de frequências.

Já a perda isolada nos sons muito agudos, em 6.000 ou 8.000 Hz ou acima disso, geralmente não melhora tanto com o aparelho, e a adaptação não costuma ser boa. Essas frequências mais altas são medidas na audiometria de altas frequências.

A tecnologia continua melhorando. Há alguns anos se dizia que o aparelho ajudava de 500 a 2.000 Hz. Hoje a faixa já se estendeu, e ele já traz bom resultado para perdas em 3.000 e 4.000 Hz.

Aparelho auditivo em crianças

Na criança, a abordagem é muito mais incisiva. A tendência é tratar mesmo a menor perda que exista. Uma perda auditiva leve, mesmo em um ouvido só, já leva à indicação do aparelho, e a criança é encaminhada ao fonoaudiólogo para a adaptação.

A diferença em relação ao adulto tem um motivo. Em toda a fase de desenvolvimento, a criança precisa de todo o estímulo sonoro possível, e do melhor possível. Nas perdas profundas e na anacusia, a criança também passa para outras opções de tratamento, como o implante coclear.

Nem toda perda auditiva se trata com aparelho

O aparelho auditivo é uma das formas de tratar a perda auditiva, mas não é a única. Algumas perdas melhoram com remédio ou com cirurgia.

Um exemplo muito comum nas crianças é a otite média secretora, em que se acumula secreção dentro do ouvido e a criança fica com uma perda auditiva passageira. Em geral, o tratamento com medicação resolve, e essa criança não precisa de aparelho auditivo. Quando a otite secretora não melhora, pode ser colocado um tubo de ventilação.

Na otosclerose, existe a possibilidade de cirurgia. O aparelho auditivo fica para os casos em que o tratamento com remédio ou com cirurgia não resolve, ou em que o paciente com indicação de cirurgia não quer operar.

Quantas horas por dia usar o aparelho auditivo

Usar o aparelho só durante uma conversa, ou uma horinha por dia, e depois deixar de lado não é o ideal. O aparelho deve ser usado pelo maior tempo possível, para que o cérebro, na parte responsável pela audição, continue recebendo estímulo sonoro.

O aparelho auditivo é para ser usado ao longo de todo o dia. Ele só sai na hora de dormir, no banho e para nadar, quando o modelo não pode molhar.

O que acontece se não usar o aparelho auditivo

O motivo mais importante para usar o aparelho está no cérebro. O paciente que tem perda auditiva, vai deixando para lá e prefere voltar no ano seguinte para ver se precisa acaba tendo um problema sério no cérebro, pela falta do estímulo auditivo.

A parte do córtex cerebral responsável pela audição sofre um processo de atrofia por falta de estímulo. Funciona como um músculo, que vai afinando e atrofiando quando não é usado. Quem fica se virando no dia a dia com a perda auditiva sem tratar vai piorando cada vez mais numa parte muito sensível e muito importante, que é a compreensão. A pessoa percebe que até escuta os sons, mas não consegue entender o que os outros falam. E isso progride se a perda auditiva não for tratada.

Um estudo clássico mostrou esse efeito. Adultos com perda nos dois ouvidos que usaram aparelho em um ouvido só foram avaliados depois de 4 a 5 anos. O ouvido sem aparelho passou a entender pior as palavras, embora o limiar da audição medido no exame não tivesse mudado. Nos que usaram aparelho nos dois ouvidos, a compreensão ficou estável. A relação entre a perda auditiva sem tratamento e a memória está na orientação sobre surdez e demência.

Por isso os aparelhos auditivos são tão importantes. Quem tem perda auditiva com indicação precisa tentar e se esforçar para se adaptar e usar o aparelho do jeito certo. Quando o aparelho mais atrapalha do que ajuda, a causa pode estar no ajuste, como explica a orientação sobre como se adaptar ao aparelho auditivo.

Quanto custa um aparelho auditivo

O preço varia muito, porque depende da tecnologia do aparelho. Hoje existem diversas tecnologias que podem ser incluídas, como conectividade, Bluetooth e gerador de som para tratar o zumbido, explicado em aparelho auditivo para zumbido. Tudo isso interfere diretamente no preço.

No vídeo, gravado em janeiro de 2024, a média citada era de R$ 3 mil a R$ 20 mil por aparelho. É um aparelho que dura anos.

Os planos de saúde, em geral, não cobrem o aparelho auditivo. A lei dos planos de saúde permite excluir da cobertura o fornecimento de próteses e órteses que não estejam ligadas a uma cirurgia.

Aparelho auditivo pelo SUS

O SUS fornece aparelho auditivo. Pacientes com perda auditiva que precisam do aparelho conseguem recebê-lo pelo SUS. Muitas vezes existe uma fila, e pode demorar um pouco até o aparelho chegar, mas ele está disponível para quem tem indicação.

Segundo o Ministério da Saúde, o fornecimento é feito pelos serviços de saúde auditiva e pelos centros especializados em reabilitação habilitados. Esses serviços fazem a avaliação e o diagnóstico da perda auditiva, a escolha e a entrega do aparelho, a reabilitação auditiva, o acompanhamento e a manutenção.

Coceira e cuidados com o ouvido de quem usa aparelho

Uma queixa relativamente comum de quem usa aparelho auditivo é o canal do ouvido ficar sensível, com um pouco de coceira. Os cuidados com a pele do canal para evitar essa irritação estão na orientação sobre coceira no ouvido com aparelho auditivo.

Vídeo: aparelhos auditivos, quando usar e quais perdas melhoram

O vídeo abaixo mostra modelos de aparelho auditivo e explica quando ele é indicado, as diferenças entre adultos e crianças e o que acontece quando a perda não é tratada.

Perguntas frequentes

Aparelho auditivo piora a audição?

Não. No estudo que acompanhou usuários por 4 a 5 anos, o limiar da audição não mudou com o uso do aparelho. O que piorou foi a compreensão das palavras no ouvido que ficou sem aparelho.

Quem tem perda auditiva leve precisa de aparelho?

No adulto, a perda leve nos dois ouvidos tem indicação de aparelho. A perda leve em um ouvido só geralmente não tem, porque o adulto costuma não se adaptar. Na criança, mesmo a perda leve em um ouvido já leva à indicação.

Aparelho auditivo serve para todos os surdos?

Não. Ele ajuda da perda leve até a severa. Nas perdas profundas e na surdez total, o aparelho não traz benefício, e o tratamento passa por outras opções, como o implante coclear.

Pode dormir com o aparelho auditivo?

O aparelho sai na hora de dormir. Fora isso, ele deve ser usado pelo maior tempo possível ao longo do dia.

Aparelho auditivo pode molhar?

Depende do modelo. O aparelho sai no banho e, quando o modelo não pode molhar, também para nadar.

Quanto tempo dura um aparelho auditivo?

É um aparelho que dura anos. A manutenção faz parte do acompanhamento, inclusive nos serviços do SUS.

Aparelho auditivo serve para zumbido?

Quando o zumbido vem junto com a perda auditiva, o aparelho costuma ajudar, e alguns modelos têm gerador de som próprio para o zumbido. A indicação é avaliada na consulta.

Plano de saúde cobre aparelho auditivo?

Em geral, não. A lei dos planos de saúde permite excluir da cobertura as próteses que não estão ligadas a uma cirurgia, e o aparelho auditivo está entre elas. O SUS fornece o aparelho para quem tem indicação.

Quem tem direito ao aparelho auditivo pelo SUS?

Quem tem perda auditiva com indicação de aparelho. A avaliação, a escolha e a entrega são feitas pelos serviços de saúde auditiva habilitados pelo Ministério da Saúde, e muitas vezes existe fila.

Aparelho auditivo é prótese ou órtese?

O aparelho auditivo também é chamado de prótese auditiva. O nome técnico é aparelho de amplificação sonora individual, ou AASI.

AirPods podem substituir o aparelho auditivo?

Só em parte, e em perdas leves a moderadas. As diferenças e os limites estão na orientação sobre AirPods como aparelho auditivo.

Qual médico indica o aparelho auditivo?

O otorrinolaringologista. Ele examina o ouvido, avalia a audiometria, confere se a perda tem outro tratamento, como remédio ou cirurgia, e indica o aparelho quando ele é a melhor opção. A adaptação é feita com o fonoaudiólogo.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Aparelhos auditivos: quando eu preciso usar? Quais graus de perdas auditivas são beneficiadas? YouTube, 23 jan. 2024. 1 vídeo (14 min 50 s). Disponível em: https://youtu.be/6U8UJmp-CgY. Acesso em: 29 set. 2026.
  2. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Deafness and hearing loss. Genebra: WHO, 2026. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/deafness-and-hearing-loss. Acesso em: 29 set. 2026.
  3. FERGUSON, M. A. et al. Hearing aids for mild to moderate hearing loss in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews, v. 8, n. 8, CD012023, 2026. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42644645/. Acesso em: 29 set. 2026.
  4. SILMAN, S.; GELFAND, S. A.; SILVERMAN, C. A. Late-onset auditory deprivation: effects of monaural versus binaural hearing aids. The Journal of the Acoustical Society of America, v. 76, n. 5, p. 1357–1362, 1984. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/6512097/. Acesso em: 29 set. 2026.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Como adquirir aparelho auditivo ou Sistema FM no SUS? Brasília, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-pessoa-com-deficiencia/faq/como-adquirir-aparelho-auditivo-ou. Acesso em: 29 set. 2026.
  6. BRASIL. Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998. Dispõe sobre os planos e seguros privados de assistência à saúde. Brasília, 1998. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9656.htm. Acesso em: 29 set. 2026.

Dificuldade para ouvir: avaliação com otorrino em Brasília

Pedir para as pessoas repetirem, aumentar o volume da televisão ou ter dificuldade para entender conversas são sinais que pedem avaliação. A OtoCare, no Noroeste de Brasília, faz a consulta com otorrino e a audiometria, identifica a causa e o grau da perda e indica o tratamento, com ou sem aparelho auditivo.

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