Como saber se tenho TDAH? Três condições de otorrino que parecem TDAH

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Desatenção nem sempre é TDAH

Dificuldade de atenção, dificuldade para se concentrar numa tarefa, agitação e falta de foco levam muita gente a se perguntar se tem TDAH. A dúvida aparece em pais de crianças que não vão bem na escola e também em adultos que sentem a cabeça cada vez mais dispersa.

Antes de chegar a esse diagnóstico, é preciso pensar em três condições da otorrinolaringologia que dão um quadro clínico praticamente idêntico ao do TDAH e que, na verdade, não são TDAH. São a perda auditiva, o transtorno do processamento auditivo central e a apneia obstrutiva do sono. Na otorrinolaringologia, essas três condições sempre são olhadas com muita atenção quando se suspeita de TDAH, principalmente nas crianças, em quem o diagnóstico é mais delicado e exige uma avaliação muito mais completa.

Menino distraído na sala de aula, com a mão na cabeça e o olhar longe do caderno, ao lado da Dra. Larissa Vilela, pensativa, com a mão no queixo

O que é o TDAH e como é feito o diagnóstico

TDAH é a sigla de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade. Ele causa falta de atenção, dificuldade de concentração, hiperatividade e falta de foco. Afeta muito as crianças, mas pode estar presente em adolescentes, adultos e até idosos. Segundo o protocolo do Ministério da Saúde para o TDAH, a estimativa no Brasil é de 7,6% das crianças e adolescentes de 6 a 17 anos.

O diagnóstico é clínico. Ele é feito pela história, pelos sintomas e pelas informações da família e, na idade escolar, da escola. O protocolo considera 18 sintomas, divididos entre desatenção, hiperatividade e impulsividade. Pelos critérios do protocolo, os sintomas precisam durar pelo menos seis meses e atrapalhar a vida em dois ou mais ambientes, como casa e escola. Pelo DSM-5, a classificação mais usada, eles precisam ter aparecido até os 12 anos.

A maioria das pessoas com TDAH não precisa de exames de laboratório para o diagnóstico. Os exames entram para afastar outras condições, e o protocolo cita a polissonografia, o exame do sono, entre as investigações que podem ser necessárias.

Sintomas de TDAH em crianças e adultos

Os sintomas se dividem em três grupos. Eles precisam ser frequentes, mais intensos do que o esperado para a idade e trazer prejuízo na escola, no trabalho ou na convivência.

  • Desatenção. Deixar tarefas pela metade, perder o interesse rápido e trocar de atividade, errar por descuido, esquecer compromissos e perder objetos.
  • Hiperatividade. Inquietação intensa, dificuldade para ficar parado ou quieto em lugares onde se espera calma.
  • Impulsividade. Agir sem pensar, interromper os outros e ter dificuldade para esperar a vez.

Nem sempre os sintomas são evidentes. A hiperatividade pode aparecer como uma sensação de inquietação por dentro, e a desatenção pode ficar escondida atrás de ansiedade ou de estratégias para compensar os esquecimentos. Alguns desses sintomas, como a desatenção, a dificuldade de concentração e a agitação, também aparecem nas três condições de otorrino descritas a seguir. Por isso, a lista de sintomas sozinha não diferencia um quadro do outro.

Por que outras condições podem parecer TDAH

A atenção depende de o cérebro receber bem as informações do ambiente e de estar descansado. Quando a criança não escuta direito, ela parece não prestar atenção. Quando escuta, mas não entende bem o que ouve, ela se perde na conversa. Quando dorme mal, fica cansada ou agitada durante o dia.

O próprio protocolo do Ministério da Saúde lista os distúrbios do sono entre as condições que se assemelham ao TDAH. Ele também cita transtornos psiquiátricos, como a ansiedade, o autismo e o transtorno opositivo-desafiador, alterações da tireoide e alguns medicamentos. A parte que cabe ao otorrino é a audição, o processamento do som e a respiração durante o sono.

1. Perda auditiva: a criança que não escuta bem parece desatenta

A primeira condição que pode simular um TDAH é a perda auditiva, principalmente nas crianças. O adulto percebe com mais facilidade que não está escutando bem. A criança, muitas vezes, não percebe a perda ou não consegue contar aos pais.

É a criança que parece desatenta, não responde quando é chamada ou, na sala de aula, parece não conseguir prestar atenção e manter o foco na professora. Ela pode simplesmente ter uma perda auditiva. Crianças com perda auditiva podem se comportar de forma exatamente igual a uma criança com TDAH.

Perdas leves ou moderadas passam despercebidas com facilidade, porque a criança se adapta e não dá sinais claros aos pais. Para aprender, a criança depende de duas entradas principais de informação, a audição e a visão. A audição é avaliada pelo otorrino, e a visão, pelo oftalmologista. Uma causa comum de perda leve na infância é a otite média secretora, o acúmulo de líquido atrás do tímpano, que muitas vezes não dá dor nem outros sintomas evidentes.

Antes de pensar no diagnóstico de TDAH, a audição da criança precisa ser avaliada. Isso é feito com a audiometria e a impedanciometria, exames feitos na própria OtoCare. Como cada idade é avaliada está na orientação sobre audiometria em crianças.

2. Transtorno do processamento auditivo central (TPAC): escuta, mas não entende bem

O segundo ponto também está na audição. No transtorno do processamento auditivo central, o TPAC, a orelha capta o som, mas o cérebro tem dificuldade para entender e organizar o que foi ouvido. Quem tem TPAC pode ter sintomas praticamente iguais aos de quem tem TDAH.

Pela dificuldade de compreensão do som, essas pessoas muitas vezes ficam um pouco nas nuvens, sem atenção e sem foco, simplesmente porque ficam perdidas no ambiente. Isso acontece muito mais nas crianças. A criança com TPAC pode ter desatenção, dificuldade de concentração e dificuldade para focar num assunto, e ficar perdida na sala de aula, numa situação que imita o TDAH.

Por isso, antes de fechar um diagnóstico de TDAH, é importante saber se a criança não tem uma alteração do processamento auditivo central. O exame que dá esse diagnóstico é o exame de processamento auditivo central (PAC), feito na própria OtoCare. Os sintomas, as causas e o tratamento estão na orientação sobre o transtorno do processamento auditivo central.

TDAH e TPAC ao mesmo tempo: uma condição não exclui a outra

Algumas vezes, a pessoa tem TDAH e também tem TPAC. São condições que não se excluem e podem aparecer associadas. Encontrar uma delas não descarta a outra.

Daí a importância de ter um bom profissional avaliando esses pacientes, com muita experiência, que saiba até onde os sintomas podem ser explicados pelo TDAH e quando existe outra condição associada, como o transtorno do processamento auditivo central. O protocolo do Ministério da Saúde também destaca que o TDAH costuma vir acompanhado de outras condições e que a avaliação delas muda o tratamento.

3. Apneia do sono: criança agitada, adulto sonolento

A terceira condição de otorrino que pode dar um quadro semelhante ao TDAH é a síndrome da apneia obstrutiva do sono. Quem ronca, tem apneia do sono e não consegue ter um sono de qualidade também pode ter déficit de atenção, dificuldade de concentração, falta de foco e hiperatividade.

Crianças e adultos se comportam de formas diferentes. Nas crianças com apneia do sono, em geral a adenoide ou as amígdalas estão muito grandes. Na hora de dormir, a passagem do ar fica obstruída, a criança não consegue respirar bem e, como consequência, ronca. Essas crianças muitas vezes têm um perfil de hiperatividade. A criança que não dorme bem e ronca muito à noite fica hiperativa.

O adulto é diferente. Ele fica mais sonolento, com falta de memória e atenção baixa, pela privação do sono. Parece curioso, mas a criança que não dorme bem fica hiperativa, enquanto o adulto fica com sono excessivo ao longo do dia e, como consequência, com déficit de atenção e de concentração.

Uma revisão de 2021 sobre apneia do sono e TDAH em crianças mostrou que, nas crianças com apneia, a retirada da adenoide e das amígdalas melhora os sintomas parecidos com TDAH a curto prazo, e que ainda faltam estudos sobre o efeito a longo prazo. A relação entre respiração pela boca, sono e escola está na orientação sobre o respirador bucal, e os sinais de alerta na infância estão em ronco em criança.

No adulto, os sinais de sono ruim e a forma de descobrir o ronco estão na orientação sobre como saber se ronco, e os graus e os riscos, na orientação sobre apneia do sono. O teste STOP-Bang ajuda a estimar o risco. A confirmação é feita pela polissonografia. A OtoCare não realiza a polissonografia. Na consulta, o exame é indicado e o resultado é interpretado.

Teste de TDAH online: o que ele mostra e o que não mostra

Os testes de TDAH da internet são questionários com os sintomas do transtorno. Eles podem ajudar a perceber que algo não vai bem e a organizar o que contar na consulta. Escalas parecidas, como a SNAP-IV, são usadas pelos profissionais como apoio na avaliação e no acompanhamento.

Um questionário, porém, não diagnostica o TDAH. E nenhum teste online consegue verificar se a pessoa escuta bem, se entende bem o que escuta ou se dorme bem. Uma criança com perda auditiva, com TPAC ou com apneia do sono pode marcar muitos pontos num teste de TDAH, porque os sintomas são parecidos.

Quando procurar o otorrino antes de fechar o diagnóstico de TDAH

Antes de fechar o diagnóstico de TDAH, vale pensar se a desatenção não vem de uma perda auditiva, de um transtorno do processamento auditivo central ou de uma apneia do sono com sono de má qualidade. Na presença de sintomas de desatenção, dificuldade de concentração ou falta de foco, o otorrino deve fazer parte da avaliação.

Alguns sinais deixam essa avaliação ainda mais importante.

  • A criança não responde quando é chamada ou parece não acompanhar a professora na sala de aula.
  • A criança parece perdida no ambiente, como se estivesse nas nuvens, mesmo escutando.
  • A criança ronca, dorme de boca aberta ou tem pausas na respiração durante o sono.
  • O adulto ronca, não tem um sono de qualidade, sente muito sono durante o dia e percebe a memória mais fraca.

Para a criança que ronca com pausas na respiração, ao agendar pelo WhatsApp, informe o sintoma para que o horário seja priorizado.

Vídeo: três condições que parecem TDAH

Perguntas frequentes

Como saber se tenho TDAH sendo adulto?

Pelo jeito como os sintomas aparecem ao longo da vida. O TDAH começa na infância, e os critérios pedem que os sintomas tenham surgido até os 12 anos, mesmo quando o diagnóstico só chega depois de adulto. Desatenção que começou na vida adulta, junto com ronco, sono que não descansa, sonolência durante o dia e memória fraca, aponta também para a investigação da apneia do sono.

Existe exame para saber se tenho TDAH?

Não existe um exame que, sozinho, confirme o TDAH. O diagnóstico é clínico, feito pela história, pelos sintomas e pelas informações da família e da escola, com escalas que ajudam a organizar a avaliação. Os exames entram para afastar as condições que imitam o TDAH. Entre eles estão a audiometria, o exame do processamento auditivo e a polissonografia.

Como saber se tenho TDAH em casa?

Em casa, dá para observar os sintomas e anotar desde quando eles aparecem e em que lugares atrapalham. Os testes e questionários da internet ajudam a organizar essa observação, mas não fecham o diagnóstico. Também não mostram se a pessoa escuta bem, se entende bem o que escuta ou se dorme bem, e essas três perguntas fazem parte da investigação.

Como saber se tenho TDAH: qual médico avalia?

O diagnóstico do TDAH é clínico e exige um profissional com treinamento e experiência no transtorno, de preferência com uma equipe multidisciplinar. Antes de fechar esse diagnóstico, o otorrino avalia a audição, o processamento auditivo e a respiração durante o sono, as três condições de otorrino que dão sintomas parecidos.

Perda auditiva pode ser confundida com TDAH?

Pode. A criança que não escuta bem não responde quando é chamada, parece distraída e não acompanha a explicação da professora. Esse comportamento é igual ao de uma criança desatenta, e muitas vezes a perda é leve e passa despercebida pelos pais. Por isso, a audição é um dos primeiros pontos avaliados quando se pensa em TDAH.

Como saber se a criança tem TDAH ou perda auditiva?

Pela avaliação da audição. A audiometria mostra se a criança escuta bem, e a impedanciometria mostra se existe líquido ou outra alteração atrás do tímpano. Com a audição normal, a investigação continua. Com perda auditiva, o tratamento dela vem primeiro, e a atenção é reavaliada depois.

Qual a diferença entre TDAH e transtorno do processamento auditivo?

No transtorno do processamento auditivo central, a orelha capta o som, mas o cérebro tem dificuldade para entender e organizar o que foi ouvido. A desatenção vem dessa dificuldade de compreensão, principalmente em ambiente com barulho. No TDAH, a dificuldade está no controle da atenção e aparece também em tarefas que não dependem da audição. As duas condições podem existir juntas.

Pode ter TDAH e TPAC ao mesmo tempo?

Pode. O TDAH e o transtorno do processamento auditivo central não se excluem, e a mesma pessoa pode ter os dois. Por isso, o diagnóstico de um não encerra a investigação do outro, e a avaliação precisa de experiência para separar o que vem de cada condição.

Apneia do sono pode causar sintomas de TDAH?

Pode. Quem ronca, tem apneia e não consegue ter um sono de qualidade pode ter dificuldade de atenção, de concentração e de foco. Na criança, o sono ruim costuma aparecer como agitação e hiperatividade. No adulto, aparece mais como sonolência durante o dia, memória fraca e atenção baixa.

Ronco na criança pode causar hiperatividade?

Pode. A criança que ronca porque a adenoide ou as amígdalas estão muito grandes dorme mal, e a criança que não dorme bem tende a ficar hiperativa, e não sonolenta. Ronco frequente, respiração pela boca ou pausas na respiração durante o sono pedem avaliação. As causas e os cuidados estão na orientação sobre ronco em criança.

Tirar a adenoide e as amígdalas melhora a hiperatividade?

Nas crianças com apneia do sono causada pelo aumento da adenoide e das amígdalas, os estudos mostram melhora dos sintomas parecidos com TDAH a curto prazo depois da cirurgia. O efeito a longo prazo ainda está sendo estudado, e a cirurgia trata a apneia, não o TDAH. A indicação é avaliada na consulta, como explicado na orientação sobre quando operar a adenoide.

Audiometria detecta TDAH?

Não. A audiometria avalia a audição. Ela entra na investigação porque uma perda auditiva pode imitar o TDAH, e um resultado normal afasta essa possibilidade. Com a audição normal e os sintomas mantidos, a avaliação segue para as outras causas.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Como saber se tenho TDAH? Você pode se surpreender ao saber de 3 outras condições semelhantes. YouTube, 24 jul. 2024. 1 vídeo (7 min 37 s). Disponível em: https://youtu.be/h0SFDsfNPzw. Acesso em: 6 out. 2026.
  2. VILELA, Larissa. Dificuldade de aprendizagem: você já conferiu a visão e a audição do seu filho? YouTube, 30 out. 2024. 1 vídeo (5 min 15 s). Disponível em: https://youtu.be/rN4o4Me7QOs. Acesso em: 6 out. 2026.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 14, de 29 de julho de 2022. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/portariaconjuntan14pcdttranstornododeficitdeatencaocomhiperatividadetdah.pdf/@@download/file. Acesso em: 6 out. 2026.
  4. URBANO, G. L. et al. The link between pediatric obstructive sleep apnea (OSA) and attention deficit hyperactivity disorder (ADHD). Children, v. 8, n. 9, art. 824, 2021. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8470037/. Acesso em: 6 out. 2026.
  5. ROSENFELD, R. M. et al. Clinical practice guideline: otitis media with effusion (update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 154, n. 1, supl., p. S1-S41, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26832942/. Acesso em: 6 out. 2026.

Avaliação da audição e do sono com otorrino na OtoCare, em Brasília

Desatenção, dificuldade de concentração ou agitação que levantam a suspeita de TDAH pedem, antes, uma avaliação da audição e do sono. Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, a audição é avaliada com audiometria e impedanciometria, o processamento auditivo pode ser investigado com o PAC, e o nariz, a adenoide e as amígdalas são examinados em busca da causa do ronco, com a indicação da polissonografia quando necessário.