Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Criança com dificuldade na escola: por onde começar
Muitos pais percebem que o filho está com alguma dificuldade de aprendizagem. Outras vezes, é a professora que comenta que, em alguns pontos do desenvolvimento escolar, a criança não está indo tão bem. A dificuldade escolar é uma situação comum no dia a dia das crianças, e a primeira dúvida dos pais costuma ser por onde começar.
Para o cérebro se desenvolver e aprender, ele precisa de boas entradas sensoriais, que permitam perceber bem todo o ambiente ao redor. As duas principais são a audição e a visão. Para ter um bom desenvolvimento escolar, a criança precisa escutar perfeitamente bem e enxergar muito bem. Por isso, quando ela não acompanha os colegas, o primeiro passo é avaliar essas duas entradas.

O que é dificuldade de aprendizagem
Fala-se em dificuldade de aprendizagem quando a criança não acompanha o que é esperado para a idade e para a turma na leitura, na escrita, na matemática ou na compreensão do que é ensinado. É um nome geral, que descreve o problema sem dizer de onde ele vem.
As causas são muitas. Algumas estão na saúde da criança, como uma perda auditiva ou um problema de visão. Outras estão na escola, no ambiente em casa ou nas emoções. E uma parte das crianças tem um transtorno específico da aprendizagem, uma condição do desenvolvimento.
Dificuldade de aprendizagem ou transtorno de aprendizagem?
O transtorno específico da aprendizagem é diferente da dificuldade em geral. Ele tem origem neurobiológica e envolve fatores genéticos e ambientais. Os exemplos mais conhecidos são a dislexia, na leitura e na escrita, e a discalculia, na matemática. Segundo a diretriz da Sociedade Brasileira de Pediatria, que cita o DSM-5, a prevalência dos transtornos de aprendizagem fica entre 5% e 15% das crianças em idade escolar.
Esse diagnóstico só é considerado depois de afastadas as outras causas. A própria diretriz orienta avaliar primeiro a visão e a audição da criança e, só depois de afastadas as causas sensoriais, investigar os transtornos de aprendizagem.
Por que a audição e a visão vêm primeiro
Escutar bem e enxergar bem parecem duas coisas muito simples. Mesmo assim, podem passar despercebidas nas crianças com alterações leves ou até moderadas. Numa sala de aula, a criança que não escuta bem ou não enxerga tão bem perde boa parte do que é ensinado, e esse é, com certeza, um dos principais fatores de dificuldade escolar.
A Sociedade Brasileira de Pediatria tem a mesma posição. Entre os problemas físicos que podem atrapalhar o aprendizado, a diretriz considera fundamental investigar as alterações da audição e da visão.
A criança se adapta, e o problema passa despercebido
O ser humano tem uma capacidade incrível de se adaptar. Uma criança com uma perda auditiva pequena ou moderada, e algumas vezes até com uma perda maior, pode não mostrar sintomas claros para os pais. Com a visão acontece o mesmo: a criança pode ter um déficit visual sem que ninguém em casa perceba.
Um exemplo é o da miopia descoberta só na adolescência. A pessoa experimenta, por brincadeira, os óculos de um irmão e leva um susto com a diferença, porque só então percebe como poderia estar enxergando. Até ali, ela achava que não tinha problema nenhum. Sentava na frente na sala de aula, fazia esforço para enxergar o quadro e ia levando a vida.
Essa situação é relativamente comum. Não é raro encontrar crianças com déficits visuais ou auditivos que passaram despercebidos, e eles estão entre os principais fatores que prejudicam o desenvolvimento escolar.
Perda auditiva e dificuldade escolar
A criança que não escuta bem muitas vezes parece estar desatenta, inquieta e com dificuldade de compreensão, como descreve a diretriz da Sociedade Brasileira de Pediatria. Em casa, isso pode aparecer como a criança que não responde quando é chamada. Na sala de aula, como a criança que parece não conseguir prestar atenção e manter o foco na professora. Essa criança que parece desatenta pode simplesmente não estar escutando bem, e o comportamento pode ser igual ao de uma criança com TDAH.
Mesmo uma perda pequena faz diferença. Num estudo com 1.218 crianças em idade escolar nos Estados Unidos, 5,4% tinham uma perda auditiva mínima do tipo neurossensorial, que inclui as perdas leves, as perdas só nos sons agudos e as perdas de um lado só. Entre essas crianças, 37% tinham repetido pelo menos um ano escolar, e elas tiveram mais dificuldade de comunicação na sala de aula do que as crianças com audição normal.
Uma causa comum de perda leve na infância é a otite média secretora, o acúmulo de líquido atrás do tímpano, que muitas vezes não causa dor. A perda de um lado só também costuma passar despercebida, porque o outro ouvido compensa boa parte do dia a dia, como explica a orientação sobre surdez unilateral.
A audição da criança é avaliada com a audiometria e a impedanciometria, exames feitos na própria OtoCare. Os sinais de perda auditiva em cada idade e como o exame é feito na criança estão na orientação sobre audiometria em crianças.
Na criança que demora a falar, o primeiro passo também é o otorrino, porque a criança aprende a falar escutando as pessoas ao redor, e mesmo uma perda auditiva leve pode atrasar a fala e a linguagem. Os marcos que ajudam a perceber esse atraso estão na orientação sobre atraso na fala.
Escuta bem, mas não entende bem
Algumas crianças têm a audição normal no exame e, mesmo assim, não entendem bem o que escutam, principalmente com barulho. É o que acontece no transtorno do processamento auditivo central (TPAC), que pode vir junto com as dificuldades de aprendizagem. Muitas vezes é a própria professora que levanta a suspeita, diante da criança que não consegue entender bem e não acompanha a turma. O quadro varia muito, de alterações sutis, em que a criança acompanha a turma com mais esforço, a uma dificuldade escolar mais séria. O TPAC é investigado com o exame de processamento auditivo central (PAC), também feito na OtoCare. Quando ele é diagnosticado e tratado, muitas vezes a criança passa a ter um desenvolvimento escolar muito melhor. Quando a dificuldade está mais na fala e na linguagem, a orientação sobre o transtorno do desenvolvimento da linguagem explica os sinais.
Problemas de visão e dificuldade escolar
A visão é a outra entrada principal de informação na sala de aula. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, a avaliação oftalmológica regular deve fazer parte do acompanhamento escolar, principalmente quando há suspeita de dificuldade de aprendizagem. A diretriz cita o estrabismo, a miopia, a hipermetropia e o astigmatismo entre as alterações que podem ser confundidas com um transtorno de aprendizagem.
Como no exemplo da miopia, a criança que não enxerga bem se adapta. Senta mais perto do quadro, força a vista e não reclama, porque acha que todo mundo enxerga daquele jeito. Quando a visão é corrigida, a diferença pode ser grande. A visão é avaliada pelo oftalmologista.
Respiração e sono ruins também atrapalham o aprendizado
A criança que vai mal na escola, que parece muito aérea, a ponto de se suspeitar de TDAH, ou que aos dois ou três anos ainda não fala tão bem quanto os colegas pode ter por trás uma causa relativamente comum de todos esses problemas. É a má respiração, principalmente durante o sono.
A respiração é a base de todos os processos do organismo, e no sono ela tem um papel fundamental. A criança que dorme com o nariz obstruído, ronca e tem apneia do sono não dorme como uma criança que respira bem. O sono fica mais superficial, e ela não chega ao sono profundo, tão importante para a memória, para o desenvolvimento cognitivo e até para as emoções e o comportamento.
É o que acontece com a criança que tem a adenoide e as amígdalas aumentadas. Ao deitar, a dificuldade para respirar não a deixa dormir tranquila, e ela perde os benefícios do sono. Com isso, começam a aparecer problemas de aprendizado, de atenção, de memória, de comportamento e emocionais. Na criança, o sono ruim costuma aparecer mais como agitação do que como sonolência.
Muitas vezes os pais olham só para a consequência, a criança que não está aprendendo bem, e a suspeita vai direto para o TDAH ou para o TPAC, enquanto a base passa despercebida. Por isso vale observar a respiração da criança durante o dia e, principalmente, à noite. Os sinais que pedem atenção são estes.
- Respira muito de boca aberta ao longo do dia.
- Está sempre com o nariz entupido.
- Ronca à noite.
- Tem paradas na respiração durante o sono.
Com qualquer um desses sinais, a criança precisa passar por uma avaliação com o otorrino, que mostra se existe obstrução e se é preciso algum tratamento específico. As causas e os cuidados estão nas orientações sobre ronco em criança e respirador bucal.
O que fazer quando a criança tem dificuldade de aprendizagem
Quando a criança não está indo bem na escola, a primeira coisa é avaliar as entradas sensoriais, a audição e a visão. A sequência fica assim.
- Avaliar a audição com o otorrinolaringologista, que começa pelo exame dos ouvidos, para ver se há rolha de cera, líquido atrás do tímpano ou alguma malformação da orelha, e depois indica os exames de audição para a idade.
- Avaliar a visão com o oftalmologista, para descartar miopia, hipermetropia, astigmatismo e estrabismo.
- Com a audição e a visão perfeitamente bem, seguir para uma avaliação mais detalhada das outras causas de dificuldade de aprendizagem.
Começar por essas duas avaliações não é perder tempo. Quando a causa é a audição ou a visão, existe tratamento, muitas vezes simples, como os óculos, e a criança passa a ter melhores condições de acompanhar a turma. Quando as duas estão normais, a investigação continua com uma dúvida a menos.
Outras causas de dificuldade de aprendizagem
Afastadas a audição e a visão, a avaliação mais detalhada olha para outras causas. A diretriz da Sociedade Brasileira de Pediatria lista as principais delas.
- Saúde da criança. Anemia, desnutrição, hipotireoidismo, epilepsia, doenças crônicas, infecções de repetição e apneia do sono.
- Escola. Método de ensino, relação com o professor, socialização e bullying.
- Emoções e comportamento. Ansiedade, depressão e transtorno do espectro autista.
- Ambiente em casa. Falta de estímulo à leitura, cobrança excessiva, excesso de tela e sono em horário inadequado.
- Desenvolvimento. Os transtornos específicos da aprendizagem, como a dislexia e a discalculia, a deficiência intelectual e o TDAH, que também pode vir junto com eles.
Algumas dessas causas também passam pelo otorrino, como a apneia do sono, explicada acima, e as infecções de repetição do nariz, da garganta e dos ouvidos. E a desatenção que parece TDAH pode vir da audição, do processamento auditivo ou do sono, como explica a orientação sobre como saber se tem TDAH.
Quando avaliar a audição e a visão da criança, mesmo sem queixa
A avaliação da audição e da visão também deve ter um enfoque preventivo. O ideal é não esperar a criança manifestar algum problema ou alguma dificuldade para cuidar dessas duas áreas, tão importantes para o bom desenvolvimento.
Num mundo ideal, toda criança em idade escolar teria a audição e a visão avaliadas com regularidade. Como isso é difícil de garantir para toda a população, existe um mínimo que vale seguir.
- Audição ao nascer, com o teste da orelhinha, e depois nas idades definidas para a infância, explicadas na orientação sobre audiometria em crianças.
- Visão com 1 ano e depois a cada dois anos, aos 3, aos 5 e aos 7 anos.
- Em qualquer idade, audição e visão avaliadas logo que surgir dificuldade na escola, sem esperar o calendário.
Vídeo: dificuldade de aprendizagem, visão e audição
Perguntas frequentes
Filho com dificuldade de aprendizagem: o que fazer?
O primeiro passo é conferir se a criança escuta e enxerga bem. A audição é avaliada pelo otorrinolaringologista, e a visão, pelo oftalmologista. Com as duas perfeitamente normais, a criança segue para uma avaliação mais detalhada das outras causas de dificuldade escolar.
Criança com dificuldade de aprendizagem: qual médico procurar?
Para começar, o otorrinolaringologista, que avalia a audição, e o oftalmologista, que avalia a visão. O otorrino também examina o nariz, a adenoide e as amígdalas quando a criança ronca ou respira pela boca, porque o sono ruim também atrapalha o rendimento na escola.
Dificuldade de aprendizagem: o que pode ser?
Pode ser uma alteração da audição ou da visão, que está entre as causas mais frequentes e tem tratamento. Também pode vir de doenças como anemia, hipotireoidismo e apneia do sono, de questões emocionais, da escola ou do ambiente em casa, ou de um transtorno específico da aprendizagem, como a dislexia. Por isso a investigação começa pela audição e pela visão e só depois segue para as outras causas.
Qual a diferença entre dificuldade de aprendizagem e transtorno de aprendizagem?
Dificuldade de aprendizagem é o nome geral para a criança que não acompanha a escola, por qualquer motivo, inclusive por não escutar ou não enxergar bem. O transtorno específico da aprendizagem, como a dislexia e a discalculia, é uma condição do desenvolvimento, de origem neurobiológica, que só é considerada depois de afastadas as outras causas.
Dificuldade de aprendizagem e concentração: pode ser problema de audição?
Pode. A criança que não escuta bem costuma parecer desatenta, inquieta e com dificuldade para entender o que a professora explica. Esse comportamento lembra falta de concentração, e por isso a audição é avaliada antes de se pensar em um problema de atenção. A relação com o TDAH está na orientação sobre como saber se tem TDAH.
Perda auditiva leve atrapalha a criança na escola?
Atrapalha, e mais do que parece. A criança se adapta, não reclama, e a perda leve costuma ser percebida só quando as notas caem ou a professora comenta. Um estudo com crianças em idade escolar mostrou mais repetência e mais dificuldade de comunicação na sala de aula quando existe uma perda auditiva mínima.
Dificuldade de aprendizagem pode ser autismo?
O transtorno do espectro autista está entre as condições que podem dificultar a aprendizagem, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria. Ele faz parte da avaliação mais detalhada, feita depois de conferidas a audição e a visão. Uma criança que não escuta bem também pode parecer distante e não responder quando é chamada, e por isso a audição vem primeiro.
Dificuldade de aprendizagem tem cura?
Depende da causa. Quando a dificuldade vem da visão ou da audição, o tratamento da causa, com óculos, com o tratamento da perda auditiva ou com aparelho auditivo, costuma devolver à criança a condição de acompanhar a turma. Nos transtornos específicos da aprendizagem, o acompanhamento individualizado ajuda a criança a desenvolver as habilidades que estão em atraso.
Exame de vista em criança: com que idade fazer?
A orientação habitual é uma avaliação da visão com 1 ano e depois a cada dois anos, aos 3, aos 5 e aos 7 anos, mesmo sem queixa. Na criança com dificuldade na escola, a visão é avaliada sem esperar essas idades. O exame é feito pelo oftalmologista.
Criança precisa fazer exame de audição todo ano?
Não há recomendação de exame anual de audição para todas as crianças. A audição é avaliada ao nascer, com o teste da orelhinha, e depois em idades definidas ao longo da infância, explicadas na orientação sobre audiometria em crianças. Fora dessas idades, a audição é avaliada sempre que a criança apresenta dificuldade na escola ou outro sinal de perda auditiva.
Referências
- VILELA, Larissa. TPAC (transtorno do processamento auditivo central): o que é, sintomas, tratamento e mais. YouTube, 17 jul. 2024. 1 vídeo (11 min 17 s). Disponível em: https://youtu.be/vwA0860Mu74. Acesso em: 7 out. 2026.
- VILELA, Larissa. Como saber se tenho TDAH? Você pode se surpreender ao saber de 3 outras condições semelhantes. YouTube, 24 jul. 2024. 1 vídeo (7 min 37 s). Disponível em: https://youtu.be/h0SFDsfNPzw. Acesso em: 7 out. 2026.
- VILELA, Larissa. Dificuldade de aprendizagem: você já conferiu a visão e a audição do seu filho? YouTube, 30 out. 2024. 1 vídeo (5 min 15 s). Disponível em: https://youtu.be/rN4o4Me7QOs. Acesso em: 6 out. 2026.
- VILELA, Larissa. Audiometria em crianças e adolescentes: quando devo levar meus filhos para fazer o exame? YouTube, 15 jan. 2025. 1 vídeo (7 min 10 s). Disponível em: https://youtu.be/Klpd_o9oIbY. Acesso em: 6 out. 2026.
- VILELA, Larissa. Atraso na aprendizagem de criança: TDAH? TPAC? Ou má respiração e sono ruim? YouTube, 7 mar. 2026. 1 vídeo (4 min 25 s). Disponível em: https://youtu.be/k3_L8H5EyD8. Acesso em: 7 out. 2026.
- VILELA, Larissa. Criança demorando para falar: procure o otorrino! YouTube, 22 jul. 2026. 1 vídeo (8 min 2 s). Disponível em: https://youtu.be/rPGFBMjZfoo. Acesso em: 7 out. 2026.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento. O papel do pediatra diante da criança com dificuldade escolar. Diretrizes, n. 1. Rio de Janeiro: SBP, set. 2018. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/21156d-DIRETRIZES_-Papel_pediatra_diante_crianca_DificEscolar.pdf. Acesso em: 6 out. 2026.
- BESS, F. H.; DODD-MURPHY, J.; PARKER, R. A. Children with minimal sensorineural hearing loss: prevalence, educational performance, and functional status. Ear and Hearing, v. 19, n. 5, p. 339-354, 1998. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9796643/. Acesso em: 6 out. 2026.
Avaliação da audição da criança com otorrino na OtoCare, em Brasília
Quando a criança não está indo bem na escola, a avaliação da audição é um dos primeiros passos. Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, a criança é examinada, a audição é avaliada com audiometria e impedanciometria, e o processamento auditivo pode ser investigado com o PAC quando há indicação. Nariz, adenoide e amígdalas também são examinados quando há ronco ou respiração pela boca.