Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Dor de garganta muito forte que não melhora com o tratamento
Uma dor de garganta muito forte, que se arrasta por meses e não melhora apesar dos tratamentos, faz pensar em uma doença específica, a neuralgia do glossofaríngeo.
Um caso de consultório mostra bem como ela se apresenta. A paciente estava havia dois anos com uma dor muito intensa na garganta. Em uma escala de 0 a 10, em que zero é nenhuma dor e 10 é a pior dor da vida, ela deu nota 9 como média dos últimos meses. Uma nota assim mostra uma dor muito, muito forte.
A dor vinha em crises, como uma facada ou uma pontada, aguda e fina, que deixava a paciente totalmente desestabilizada. Quando a crise era forte, ela não conseguia nem engolir, sentia a pressão cair e chegava a ter a sensação de desmaio.
Ela já tinha passado por vários médicos e vários otorrinos. O exame de vídeo da garganta mostrou apenas sinais de refluxo, e o tratamento do refluxo, mantido havia meses, não aliviava a dor. A própria história apontava para outro diagnóstico. Dores agudas, muito fortes, que vêm e passam em segundos ou minutos e têm gatilhos, como engolir, beber ou comer, fazem pensar em uma dor que nasce de um nervo.

O que é neuralgia
Na medicina, neuralgia é a dor que se origina em um nervo irritado. Quando se fala de dor, o nervo envolvido é um nervo de sensibilidade, aquele que leva ao cérebro as sensações de uma região do corpo. Irritado, ele passa a disparar crises de dor intensa, e o exame do lugar onde a dor é sentida costuma ser normal.
Na cabeça e no pescoço, a neuralgia mais comum é a do trigêmeo, o nervo do rosto. A do glossofaríngeo é bem mais rara e segue a mesma lógica, com a dor na garganta.
O glossofaríngeo, nervo da sensibilidade da garganta
O glossofaríngeo é o nervo de sensibilidade da garganta. Ele leva a sensibilidade do fundo da garganta, da região das amígdalas, da parte de trás da língua e de parte do ouvido. Por isso, a neuralgia desse nervo provoca uma dor no fundo da garganta, em geral de um lado só, que pode se estender para o ouvido e para baixo do ângulo da mandíbula.
A neuralgia do nervo glossofaríngeo é uma doença rara. Estima-se que cerca de 8 pessoas a cada 1 milhão desenvolvam o problema por ano, e mais da metade dos pacientes tem mais de 50 anos. Apesar de rara, ela precisa ser lembrada. Sem o diagnóstico, o paciente pode passar anos com dor, como aconteceu com a paciente que estava havia dois anos sem saber o que tinha.
Sintomas da neuralgia do glossofaríngeo
A dor lembra a de uma infecção de garganta, porque fica lá no fundo, mas vem muito mais forte e de outro jeito. Ela é aguda, começa de repente e dura de alguns segundos a cerca de 2 minutos. Os pacientes descrevem uma dor lancinante, como uma facada, uma fisgada no fundo da garganta ou um choque elétrico.
Em geral, a crise é disparada por algum movimento da garganta. O gatilho principal é engolir, mas falar, tossir, espirrar e bocejar também podem provocar a dor.
Entre uma crise e outra, a pessoa pode ficar sem dor. A doença também alterna fases de crises frequentes com meses de melhora espontânea, e, em uma série clássica de 217 pacientes, três em cada quatro tiveram esses períodos de remissão.
Como engolir dispara a dor, algumas pessoas passam a ter medo de comer e beber e acabam perdendo peso. A dor também pode se espalhar para o olho, o nariz, o queixo ou o ombro.
Pressão baixa e desmaio durante a crise
Em casos raros, a crise de dor vem acompanhada de queda dos batimentos do coração e da pressão, com tontura, sensação de desmaio ou desmaio. Isso acontece porque o glossofaríngeo trabalha junto com o nervo vago, que ajuda a controlar o coração. Quando a crise envolve o vago, o quadro é chamado de neuralgia vagoglossofaríngea.
Desmaio ou sensação de desmaio durante as crises de dor na garganta precisa de avaliação médica sem demora.
Neuralgia do trigêmeo ou do glossofaríngeo: como diferenciar
O trigêmeo é o nervo de sensibilidade do rosto. Ele tem três ramos, o oftálmico, o maxilar e o mandibular, e a neuralgia do trigêmeo geralmente atinge um deles. A dor também é muito intensa e vem em crises curtas, como choques, só que no rosto.
Quando os ramos de baixo são atingidos, a dor pode se projetar para os dentes e para o fundo da boca e se confundir com uma dor de garganta ou de dente. Os gatilhos ajudam a separar as duas. Na neuralgia do trigêmeo, a crise costuma ser disparada por estímulos leves na própria área do rosto, como um toque na pele. Na do glossofaríngeo, o gatilho principal é engolir.
As duas neuralgias podem aparecer na mesma pessoa, mas isso é raro. Na consulta, o lugar exato da dor e o que dispara cada crise são os primeiros dados para chegar ao diagnóstico certo.
Dor forte na garganta: infecção, refluxo ou neuralgia?
Uma dor de garganta causada por vírus ou por refluxo incomoda, mas não costuma ser muito intensa. Diante de uma dor muito forte na garganta, a primeira suspeita é uma infecção por bactéria. Como diferenciar está na orientação sobre garganta inflamada por vírus ou bactéria, e o teste rápido feito na consulta é explicado na orientação sobre o teste de estreptococo na garganta.
Quando não é uma infecção bacteriana, outras suspeitas precisam ser levantadas, como a neuralgia do glossofaríngeo. Na neuralgia, a dor vem em crises de segundos a poucos minutos, sem febre e sem placas de pus, e a garganta costuma estar normal ao exame.
O refluxo pode existir ao mesmo tempo. A paciente do caso tinha refluxo de fato, e o tratamento dele foi mantido. Mesmo assim, não se deve esperar que o refluxo na garganta cause uma dor tão intensa. Os sintomas típicos dele estão na orientação sobre refluxo laringofaríngeo.
Causas da neuralgia do glossofaríngeo
Muitas vezes, a neuralgia não tem nenhuma razão específica, e esse é o chamado quadro primário. Em outros casos, a ressonância encontra uma causa no próprio trajeto do nervo, como um vaso sanguíneo encostado nele e comprimindo-o perto da saída do cérebro.
Algumas vezes, a neuralgia é secundária a outro problema. Entre essas causas estão o herpes-zóster, as doenças desmielinizantes, como a esclerose múltipla, os tumores e as lesões vasculares.
O herpes-zóster é um vírus que inflama o nervo e pode deixar uma dor no trajeto dele depois que a inflamação passa, a chamada neuralgia pós-herpética. Quando o vírus afeta a região da garganta, essa neuralgia pode atingir o glossofaríngeo. O herpes-zóster na região do ouvido é explicado na orientação sobre herpes-zóster no ouvido.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico começa pela história. O tipo de dor, a duração das crises e os gatilhos já apontam para a neuralgia, e muitas vezes o quadro é bem clássico.
Na consulta com otorrino, a garganta, a base da língua e a laringe são examinadas, inclusive com a nasofibrolaringoscopia, para afastar inflamações, tumores e outras lesões da região.
Quando se suspeita de neuralgia, é muito importante fazer um exame de imagem, em geral a ressonância magnética, que mostra o crânio e o trajeto do nervo. O objetivo é ver se existe alguma alteração no local do nervo que explique a dor, como um vaso comprimindo, um tumor ou sinais de esclerose múltipla.
Outro recurso descrito nos estudos é aplicar um anestésico na região da amígdala e na parede da garganta. Na neuralgia do glossofaríngeo, as crises costumam parar por algumas horas depois dessa aplicação, o que reforça o diagnóstico.
Tratamento da neuralgia do glossofaríngeo com remédios
Existe tratamento, e a maioria dos pacientes responde muito bem aos remédios. Eles dessensibilizam o nervo, ou seja, tiram a irritação do nervo atingido. Entre os usados estão a carbamazepina, a gabapentina e a pregabalina. A bula da carbamazepina inclui a neuralgia glossofaríngea idiopática, aquela sem causa encontrada nos exames, entre as indicações.
No caso da paciente com dois anos de dor, como a dor era muito intensa e o quadro era bem clássico, a carbamazepina foi iniciada já na consulta, junto com o pedido da ressonância para os dias seguintes.
A dose é aumentada aos poucos pelo médico até a dor ser controlada e, depois, reduzida para a menor dose que mantém o efeito. Esses remédios só são usados com prescrição médica, e a carbamazepina é vendida com retenção da receita.
Cuidados com a carbamazepina
Segundo a bula, os efeitos colaterais mais comuns são tontura, sonolência, desequilíbrio, náusea e vômitos. Por isso, a bula orienta não dirigir nem operar máquinas durante o tratamento e evitar bebidas alcoólicas. A toranja, em fruta ou em suco, aumenta o efeito do remédio e também deve ser evitada.
A carbamazepina pode deixar os anticoncepcionais hormonais ineficazes, e a bula orienta usar um método não hormonal, diferente ou adicional, durante o tratamento. Gravidez, planejamento de gravidez e amamentação precisam ser informados na consulta, porque o remédio pode afetar o bebê. Quem já usa a carbamazepina e engravida não deve parar o remédio sem conversar com o médico.
A bula também descreve reações raras e graves. As reações graves de pele, como a síndrome de Stevens-Johnson, são muito raras, estimadas entre 1 e 6 a cada 10.000 novos usuários em populações de origem europeia, e aparecem sobretudo nos primeiros meses. Os sinais são vermelhidão e erupção na pele, bolhas nos lábios, nos olhos ou na boca e descamação da pele com febre.
As alterações graves no sangue, também muito raras, aparecem como febre, dor de garganta, feridas na boca, manchas roxas ou sangramentos com facilidade. Essa dor de garganta é diferente da neuralgia, porque vem com febre e não em choques. A hepatite, rara, deixa a pele ou os olhos amarelados e a urina escura.
A bula também cita pensamentos de se machucar ou de se matar, descritos em um pequeno número de pessoas tratadas com remédios desse grupo, um efeito que a grande maioria das pessoas que usam o remédio não apresenta. Diante de qualquer um desses sinais, suspenda o remédio imediatamente e agende pelo WhatsApp e informe o sintoma para ter atendimento prioritário na OtoCare.
A gabapentina e a pregabalina também são usadas para acalmar nervos sensíveis demais na tosse crônica, e os alertas raros e graves da bula delas estão na orientação sobre a laringe irritada.
Cirurgia para neuralgia do glossofaríngeo
Para quem não responde aos remédios, existe a possibilidade de cirurgia, mas, no geral, essa é a minoria dos casos. Quando há uma causa específica, como um vaso comprimindo o nervo, pode ser feita uma cirurgia para afastar o vaso e descomprimir o nervo, a descompressão microvascular. Existem também outros procedimentos feitos sobre o próprio nervo.
Em uma revisão de 2026, que reuniu mais de mil pacientes operados por descompressão microvascular, 92% continuavam sem dor no acompanhamento de longo prazo, e as complicações permanentes ficaram abaixo de 2%. A indicação da cirurgia é avaliada caso a caso.
Quando a dor de garganta precisa ser reavaliada
Uma dor de garganta muito intensa que continua apesar do tratamento precisa ser reavaliada. Se o paciente está usando a medicação e não melhora, o caso deve ser revisto, porque alguma coisa pode estar errada no diagnóstico.
Rever o caso significa voltar à história da dor, ao exame da garganta e aos exames de imagem, até encontrar a causa e o tratamento certo para ela.
Vídeo: dor de garganta muito forte e neuralgia do glossofaríngeo
No vídeo, o caso da paciente com dois anos de dor na garganta mostra como reconhecer a neuralgia do glossofaríngeo, como ela se diferencia da neuralgia do trigêmeo e como é tratada.
Perguntas frequentes
Neuralgia do glossofaríngeo tem cura?
A maioria dos pacientes controla bem a dor com os remédios, e muitos passam por longos períodos sem nenhuma crise. Quem não responde aos remédios pode ser operado, e depois da descompressão microvascular a grande maioria continua sem dor no longo prazo. O resultado depende da causa, e por isso o exame de imagem faz parte da investigação.
Neuralgia do glossofaríngeo é grave?
A dor é muito intensa e pode atrapalhar comer, beber e falar. O que pede mais atenção são as causas secundárias, como tumores e esclerose múltipla, que a ressonância ajuda a encontrar, e os casos raros em que a crise vem com queda dos batimentos do coração e desmaio. Desmaio durante a crise precisa de avaliação médica sem demora.
Qual é o CID da neuralgia do glossofaríngeo?
Na CID-10, a classificação internacional de doenças, o código é G52.1, que corresponde aos transtornos do nervo glossofaríngeo.
Qual médico procurar na neuralgia do glossofaríngeo?
O otorrino examina a garganta, a base da língua e a laringe e afasta infecção, refluxo e lesões da região, que são as outras causas de dor forte na garganta. Na consulta com otorrino na OtoCare, esse exame é feito com a nasofibrolaringoscopia quando necessário, o tratamento pode ser iniciado e a ressonância é pedida.
A neuralgia do glossofaríngeo causa dor no ouvido?
Sim. O glossofaríngeo também leva a sensibilidade de parte do ouvido, e a crise pode ser sentida no fundo da garganta e no ouvido ao mesmo tempo, ou às vezes só no ouvido, como uma pontada ao engolir. Outras causas de dor no ouvido estão na orientação sobre dor de ouvido.
O que é neuralgia glossofaríngea idiopática?
Idiopática quer dizer que os exames não encontraram a causa da irritação do nervo, nem um vaso encostado nele, nem outra doença. O tratamento com remédios segue o mesmo caminho dos outros casos.
Quanto tempo dura a neuralgia do glossofaríngeo?
Cada crise dura de alguns segundos a cerca de 2 minutos. A doença costuma ir e voltar, com fases de crises frequentes e meses de melhora, e sem diagnóstico pode se arrastar por anos, como no caso da paciente com dois anos de dor.
A neuralgia do glossofaríngeo pode doer dos dois lados?
Pode, mas é menos comum. Na maioria das vezes, a dor fica de um lado só. Em uma série clássica de 217 pacientes, 12% tinham dor dos dois lados.
Dor de garganta muito forte sem febre, o que pode ser?
Quando a dor vem em crises curtas, como choques, é disparada ao engolir, falar ou tossir e a garganta parece normal, a neuralgia do glossofaríngeo é uma das suspeitas. A infecção da garganta, o refluxo e as lesões da região são afastados no exame da consulta.
Por que a dor de garganta forte aparece ao engolir?
Na neuralgia, engolir é o principal gatilho, porque o movimento estimula justamente a região que o glossofaríngeo inerva, e a dor surge de repente, em choque, e passa em segundos ou minutos. Na infecção, engolir também dói, mas a garganta está inflamada e a dor costuma continuar entre um gole e outro.
O que tomar para dor de garganta muito forte?
Na dor de garganta comum, de vírus ou de bactéria, o analgésico de costume ajuda, de preferência a dipirona ou o paracetamol, com o ibuprofeno como segunda opção. A dor da neuralgia, em choques, é tratada com remédios que dessensibilizam o nervo, como a carbamazepina, sempre com prescrição médica. Uma dor muito forte que não passa precisa de avaliação, e não de mais remédio por conta própria.
Neuralgia do glossofaríngeo pode ser câncer?
Raramente. Tumores na região do crânio ou do pescoço estão entre as causas secundárias da neuralgia, e por isso a ressonância e o exame da garganta fazem parte da investigação de toda dor com essas características.
Referências
- VILELA, Larissa. Dor de garganta muito forte (neuralgia do trigêmeo ou do glossofaríngeo). YouTube, 30 maio 2026. 1 vídeo (8 min 55 s). Disponível em: https://youtu.be/UND7eVb97H0. Acesso em: 4 out. 2026.
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Avaliação da dor de garganta forte na OtoCare, em Brasília
Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, a dor de garganta forte ou que não melhora é investigada com a história, o exame da garganta e os exames necessários, e o tratamento é indicado conforme a causa. Outras orientações estão na página de orientações aos pacientes.