Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Mitos que ainda circulam sobre ouvido, nariz e garganta
Como em toda área da saúde, a otorrinolaringologia também tem seus mitos. São ideias que passam de geração em geração e que muita gente segue sem desconfiar, algumas delas capazes de prejudicar a saúde.
Cinco desses mitos aparecem com frequência no consultório. O cotonete limparia o ouvido, o ronco seria só um barulho, toda dor de garganta pediria antibiótico, perder audição com a idade não teria jeito, e gripe e resfriado seriam a mesma coisa. A seguir, cada um deles é explicado, com o que de fato acontece e o que fazer no lugar.

Mito 1: cotonete limpa o ouvido e previne problemas
Este é, provavelmente, o maior mito da otorrinolaringologia. Muita gente usa o cotonete no ouvido há anos, e nos filhos também, convencida de que está tirando o excesso de cera e evitando problemas. Acontece o contrário. O cotonete traz vários problemas para o ouvido.
O cotonete empurra a cera
O cotonete até tira um pouquinho de cera da entrada do ouvido, mas no geral ele empurra a cera para dentro. Ela vai para uma região de onde não consegue mais sair sozinha. E a cera sai do ouvido naturalmente, sem ajuda. A pele do canal se renova e leva a cera aos poucos para fora.
Com o uso repetido, a cera empurrada vai se acumulando e forma um bloco, chamado de rolha de cerume. A rolha muitas vezes causa dor, atrapalha a audição, dá zumbido e deixa a sensação de ouvido tampado. Por isso, o cotonete não remove a cera, e muito menos previne problemas. Ele pode criar problemas. A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia sobre a cera de ouvido também orienta não colocar cotonete nem outro objeto no canal, porque o ouvido se limpa sozinho.
O cotonete pode machucar o canal e o tímpano
Além de empurrar a cera, o cotonete pode machucar a pele do canal do ouvido, que é muito fina, e até o tímpano. Basta um acidente. A pessoa cai, alguém esbarra ou dá um susto, e o cotonete entra de uma vez. Isso pode causar uma perfuração do tímpano e outros problemas sérios no ouvido, mesmo em adultos que usam com cuidado. Os riscos e o que fazer quando o ouvido fica tampado depois do cotonete estão na orientação sobre cotonete no ouvido.
Como limpar o ouvido sem cotonete
A melhor forma de limpar o ouvido é na hora do banho, com água e sabão na mão. A orelha é lavada por fora, inclusive atrás dela. Depois do banho, a parte externa é seca com a ponta da toalha ou com o dedo envolvido num lenço de papel fino.
A limpeza é só na parte externa. Dentro do canal do ouvido, não se mexe, e nada mais do que isso é necessário. Quando o ouvido parece tampado ou a cera incomoda, a solução é examinar o ouvido, e a retirada da cera, quando indicada, é feita na consulta.
Mito 2: ronco é só um incômodo e não tem tratamento
Muita gente acha que o ronco é só um barulho chato da noite, que incomoda quem dorme junto e pode ser deixado para lá. Está totalmente errado. Também não é verdade que roncar seja sinal de sono profundo.
Ronco e apneia do sono
Quem ronca tem uma tendência maior de ter apneia do sono. Na apneia, a respiração para por alguns segundos, várias vezes na mesma noite, e com isso cai a oxigenação do sangue. Ao longo dos anos, essas paradas levam a uma série de problemas de saúde. O ronco é um dos sinais que mais indicam a presença de apneia. Os graus e os sintomas da doença estão na orientação sobre apneia do sono, e o teste STOP-Bang ajuda a estimar o risco.
Ronco sem apneia também atrapalha o sono
Existem, com certeza, pessoas que roncam e não têm apneia. Mesmo nelas, os estudos mostram que o sono fica desorganizado e não tem a qualidade que deveria ter. Um consenso da Associação Australiana do Sono sobre o ronco primário, nome dado ao ronco sem apneia, reconhece que ele pode prejudicar bastante a qualidade de vida e reúne os tratamentos disponíveis para ele.
O ronco não atrapalha só quem está dormindo ao lado. Ele atrapalha a qualidade do sono de quem ronca. E hoje se sabe, cada vez com mais certeza, que o sono é uma das bases da boa saúde. Os hábitos que ajudam a dormir bem estão na orientação sobre como dormir melhor.
Ronco tem tratamento
Dizer que não há o que fazer pelo ronco é outro mito. O ronco tem tratamento, com várias opções clínicas e cirúrgicas, e a escolha depende do caso. O ronco é um problema sério, que precisa de avaliação com o otorrino. Na consulta, o nariz e a garganta são examinados para encontrar o que estreita a passagem do ar. As causas estão na orientação sobre ronco, e as opções de tratamento, na orientação sobre tratamento para ronco e apneia.
Mito 3: toda dor de garganta precisa de antibiótico
Este mito aparece todos os dias no consultório. A garganta começa a doer e, dois dias depois, a pessoa já está tomando amoxicilina por conta própria para melhorar. Ainda assim, a dor continua, e às vezes até piora. Chegar à consulta já usando antibiótico, sem necessidade, é muito ruim para o paciente.
A maioria das dores de garganta é causada por vírus
As principais causas de dor de garganta não são bactérias. Na maioria das vezes, a dor é causada por vírus, os mesmos das gripes e dos resfriados. Segundo a diretriz da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas, os vírus são a causa mais comum da dor de garganta, e a bactéria que pede antibiótico, o estreptococo do grupo A, responde por uma parte menor dos casos, mais frequente nas crianças em idade escolar do que nos adultos.
O antibiótico não tem nenhuma ação sobre os vírus. Na dor de garganta viral, ele não ajuda em nada e só traz problemas. Como diferenciar a garganta inflamada por vírus da inflamada por bactéria está na orientação sobre garganta inflamada por vírus ou bactéria.
O que o antibiótico sem necessidade causa
O antibiótico tomado sem necessidade causa resistência bacteriana, atrapalha a flora intestinal e pode trazer problemas no estômago. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o uso de antibiótico quando ele não é necessário está entre as principais causas da resistência das bactérias aos remédios. Os efeitos do antibiótico no intestino e na resistência das bactérias estão detalhados na orientação sobre quando otite e sinusite precisam de antibiótico.
Por isso, o antibiótico deve ser prescrito com muito cuidado e apenas pelo médico. O paciente nunca deve tomar antibiótico por conta própria.
Outras causas de dor de garganta
Além dos vírus, vários problemas que não são bactérias podem dar dor de garganta. O refluxo laringofaríngeo e as alergias estão entre eles. Nesses casos, o antibiótico também não resolve.
Quando a dor de garganta não melhora, o caminho é não tomar antibiótico e procurar avaliação. Na consulta da OtoCare, em Brasília, quando há suspeita de infecção por bactéria, o teste rápido do estreptococo é feito na hora e ajuda a decidir se o antibiótico é mesmo necessário.
Mito 4: perder audição com a idade é inevitável
Muita gente acredita que a perda auditiva da idade vai acontecer de qualquer jeito e que não há nada a fazer. Também está errado. Hoje se conhecem fatores ligados à piora da audição com a idade, e isso quer dizer que dá para evitar, pelo menos em parte, a perda auditiva que vem com o passar dos anos. A Organização Mundial da Saúde também considera evitáveis as causas mais comuns de perda auditiva no adulto, como a exposição a sons altos.
Proteja os ouvidos do ruído
O primeiro cuidado é proteger os ouvidos de ruído excessivo, como música muito alta e outros sons muito intensos. Quem trabalha num ambiente barulhento precisa usar o protetor auricular. Muitas pessoas têm o protetor no trabalho e não usam. Quem protege os ouvidos dos sons intensos está protegendo a audição da perda que vai acontecendo com o tempo. Os outros cuidados do dia a dia estão na orientação sobre como cuidar da audição.
Controle as doenças crônicas
O controle de doenças crônicas, como pressão alta, diabetes e doenças autoimunes, também ajuda a evitar que a perda auditiva avance ao longo da vida. Cuidar delas faz parte de cuidar do ouvido.
A perda auditiva da idade não afeta só o ouvido. O relatório de 2024 da comissão sobre demência da revista científica The Lancet incluiu a perda auditiva entre os fatores de risco para demência que podem ser modificados, e o tratamento dela entre as medidas de prevenção.
A alimentação também ajuda
A alimentação pode ajudar a prevenir a perda auditiva que vem com a idade. Os fitoesteróis, presentes em castanhas, linhaça, coco e abacate, são um exemplo. O estudo por trás dessa orientação e a lista de alimentos estão na orientação sobre alimentos para melhorar a audição.
Dizer que a perda auditiva com a idade é inevitável é um grande mito. Existem várias formas de proteger o ouvido da perda auditiva que vem com o passar do tempo. Os sinais de que ela já começou estão na orientação sobre surdez com a idade.
Mito 5: gripe e resfriado são a mesma coisa e não têm cura
Gripe e resfriado não são iguais. Os dois são infecções por vírus, com sintomas parecidos, mas o vírus causador é diferente, e a febre ajuda a separar um do outro.
Diferença entre gripe e resfriado
A gripe é causada pelo vírus influenza e se caracteriza principalmente pela febre, além dos sintomas respiratórios de dor de garganta, nariz entupido, secreção no nariz e tosse. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a febre da gripe começa de forma súbita, muitas vezes com dor no corpo e cansaço.
O resfriado é causado por vários outros vírus, e o principal deles é o rinovírus. Ele traz os mesmos sintomas respiratórios de dor de garganta, nariz entupido, secreção e tosse, mas em geral sem a febre da gripe. No resfriado pelo rinovírus, pode haver um pouco de febre no primeiro dia, que logo diminui. Os sintomas do resfriado também chegam aos poucos, ao longo de alguns dias, enquanto a gripe começa de repente.
A grande diferença, então, está no tipo de vírus e na febre. A gripe vem do vírus influenza e tem febre. O resfriado comum vem de outros vírus e, no máximo, tem um pouco de febre no começo. Para a gripe existe vacina, aplicada todos os anos, como explica a orientação sobre a vacina da gripe.
Gripe e resfriado têm cura
A outra parte do mito, a de que gripe e resfriado não têm cura, também está errada. Existe cura, e quem faz esse combate ao vírus é o próprio corpo. Muitas vezes, a pessoa precisa da ajuda de remédios para tirar a inflamação, a febre e a dor, mas quem resolve as gripes e os resfriados é o corpo. O que alivia os sintomas e o que não tem efeito está na orientação sobre gripes e resfriados.
Ter gripes e resfriados algumas vezes por ano é normal
É normal ter resfriados ou gripes algumas vezes ao longo do ano. Depois da pandemia, parece que todo mundo ficou mais doente, com mais gripes e resfriados. Uma criança em idade escolar pode ter uma virose respiratória quase mês sim, mês não, embora algumas passem o ano sem nenhuma. A média de cada idade está na orientação sobre gripes e resfriados em crianças que vão à escola.
Esses quadros se repetem porque a transmissão dos vírus é muito fácil. A gripe e o resfriado têm cura, mas podem voltar algumas vezes no mesmo ano. Como cada sintoma evolui dia a dia está na orientação sobre quanto tempo dura uma gripe ou resfriado.
Outros mitos comuns sobre ouvido, nariz e garganta
Além desses cinco, outras ideias erradas aparecem com frequência no consultório do otorrino.
- Cera de ouvido é sujeira. Não é. A cera protege e hidrata a pele do canal, segura a poeira e sai sozinha, como mostra a orientação sobre cera de ouvido.
- Gelado causa infecção de garganta. Não causa. O gelado pode irritar a garganta de quem é sensível, mas infecção só vem de vírus, bactérias ou fungos, como explica a orientação sobre gelado e dor de garganta.
- Toda tontura é labirintite. Não é. A tontura é um sintoma com muitas causas, e a labirintite verdadeira é rara, como mostra a orientação sobre se toda tontura é labirintite.
Muitas outras histórias que parecem verdade, ou que parecem mentira, circulam sobre o ouvido, o nariz e a garganta. Na dúvida, a pergunta pode ser levada à consulta.
Vídeo: 5 mitos sobre otorrinolaringologia
No vídeo, os cinco mitos aparecem um a um, do cotonete à diferença entre gripe e resfriado, com o que fazer no lugar de cada um deles.
Perguntas frequentes
Como limpar o ouvido por dentro?
Não é preciso. O ouvido se limpa sozinho, e qualquer objeto colocado no canal, inclusive o dedo, mais atrapalha do que ajuda. Quando a cera chega a tampar o ouvido, a retirada é feita na consulta, com o canal examinado. Para que a cera serve está na orientação sobre cera de ouvido.
Como limpar o ouvido do bebê?
Do mesmo jeito que o do adulto, só por fora. No banho, a orelha é lavada com água e sabonete, e depois a parte externa é seca com a ponta da toalha. O cotonete não deve entrar no ouvido do bebê, porque um movimento brusco da criança basta para a haste ir longe demais.
Cone hindu ou vela limpam o ouvido?
Não. O material escuro que aparece dentro do cone depois da queima vem da própria vela, e não do ouvido. A técnica ainda pode queimar a orelha e o canal. Os detalhes estão na orientação sobre o cone hindu.
Ronco é sinal de sono profundo?
Não. O ronco é o barulho do ar passando com dificuldade por uma garganta mais estreita durante o sono. Um sono pesado não faz ninguém roncar, e o ronco, ao contrário, costuma deixar o sono mais superficial.
Ronco tem a ver com o peso?
Pode ter. O ganho de peso aumenta a gordura em volta da garganta e facilita o ronco, e perder peso costuma ajudar quem engordou. O ronco também aparece em pessoas magras, por nariz entupido, amígdalas grandes ou o formato da garganta. As causas estão na orientação sobre ronco.
Dor de garganta com febre precisa de antibiótico?
Não necessariamente. A febre aparece tanto na infecção por vírus quanto na infecção por bactéria, e por isso ela sozinha não indica antibiótico. O exame da garganta e, quando há suspeita de bactéria, o teste rápido do estreptococo ajudam a separar um caso do outro. Como olhar a garganta está na orientação sobre garganta inflamada por vírus ou bactéria.
Antibiótico ajuda a gripe a passar mais rápido?
Não. A gripe é causada por vírus, e o antibiótico não age sobre vírus. Ele não alivia os sintomas nem encurta a doença e ainda traz os efeitos colaterais. Para a gripe existe um antiviral específico, que não é antibiótico e tem indicação definida pelo médico, como explica a orientação sobre gripes e resfriados.
Perda auditiva com a idade é reversível?
Não existe remédio que devolva a audição perdida com a idade. O aparelho auditivo, quando indicado, melhora a comunicação. Por isso o foco está em prevenir, proteger o ouvido do ruído e controlar as doenças crônicas, para que a perda avance o mínimo possível.
Perda auditiva com a idade é genética?
Existe uma influência genética, e algumas pessoas perdem audição mais rápido do que outras com uma vida parecida. Os fatores que se somam a ela, como o ruído, a pressão alta e o diabetes, podem ser controlados. Por que a pessoa escuta mas não entende está na orientação sobre surdez com a idade.
Perder a audição de repente pode ser da idade?
Não. A perda da idade chega aos poucos, ao longo dos anos. Perder a audição de um dia para o outro, principalmente em um ouvido só, é outra situação e precisa ser avaliada logo, como explica a orientação sobre surdez súbita. Nesse caso, agende pelo WhatsApp e informe o sintoma para que o horário seja priorizado.
Resfriado tem febre?
Em geral, não. A febre é a marca da gripe. No resfriado comum, ela costuma não aparecer e, quando aparece, é baixa e fica nos primeiros dias. Febre alta, ou febre que volta depois de ter passado, merece avaliação.
Qual a diferença entre gripe e resfriado em crianças?
A diferença é a mesma do adulto, com a febre e o abatimento maiores na gripe. As crianças pegam mais viroses respiratórias do que os adultos, principalmente quando vão para a escola, e podem ter febre com mais facilidade. Quantas vezes por ano é esperado está na orientação sobre gripes e resfriados em crianças que vão à escola.
Qual a diferença entre gripe, resfriado e rinite?
Gripe e resfriado são infecções por vírus, passam em alguns dias e podem ser transmitidas a outras pessoas. A rinite alérgica não é infecção. Ela volta sempre que a pessoa entra em contato com o que causa a alergia, como poeira e ácaro, e costuma vir com coceira no nariz e crises de espirro, sem febre. Os sintomas estão na orientação sobre rinite.
Como saber se é gripe, resfriado ou covid?
Os sintomas se parecem muito, e muitas vezes só o teste separa uma doença da outra. Na consulta da OtoCare, quando há suspeita desses vírus, é feito o teste rápido combinado de covid-19 e influenza. A comparação dos sintomas está na orientação sobre como saber se é dengue, gripe ou covid.
Quanto tempo dura uma gripe?
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a maioria das pessoas se recupera da febre e dos outros sintomas da gripe em cerca de uma semana. A tosse costuma ser o último sintoma a passar. Como saber se o quadro está melhorando ou piorando está na orientação sobre quanto tempo dura uma gripe ou resfriado.
Referências
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- VILELA, Larissa. O que acontece se eu usar cotonete? YouTube, 27 maio 2026. 1 vídeo (3 min 28 s). Disponível em: https://youtu.be/D4ci75-xuY0. Acesso em: 4 out. 2026.
- VILELA, Larissa. Sintomas de viroses respiratórias (gripes e resfriados): estou melhorando ou piorando? YouTube, 14 dez. 2024. 1 vídeo (8 min 22 s). Disponível em: https://youtu.be/4UjWX6H-uE4. Acesso em: 4 out. 2026.
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Dúvidas sobre ouvido, nariz e garganta: consulta com otorrino na OtoCare, em Brasília
Ouvido tampado, ronco, dor de garganta que não melhora, dificuldade para ouvir ou gripes que se repetem merecem um exame, e não uma solução por conta própria. A consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, avalia o ouvido, o nariz e a garganta de adultos e crianças. Outras orientações estão na página de orientações aos pacientes.