Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Quando o antibiótico não resolve a infecção
Tomar um antibiótico para tratar uma otite ou uma sinusite e ele não fazer efeito. Precisar de um segundo, às vezes de um terceiro antibiótico, até a infecção finalmente melhorar. Essa situação está cada vez mais frequente, e na prática clínica do otorrino ela aparece no dia a dia.
Por trás dela estão as superbactérias, bactérias que ficaram resistentes a vários tipos de antibióticos, de classes diferentes. Quando isso acontece, o tratamento habitual deixa de resolver a infecção.
O aumento aparece também nos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Um relatório divulgado em 2022 mostrou que as infecções do sangue por E. coli e por Salmonella resistentes, e os casos de gonorreia resistente, cresceram pelo menos 15% em relação a 2017. O relatório seguinte, de 2025, mostrou que em 2023 uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório no mundo já era resistente a antibióticos.
O relatório de 2025 também apontou que, entre 2018 e 2023, a resistência cresceu em mais de 40% das combinações de bactéria e antibiótico acompanhadas pela OMS, com alta média de 5% a 15% ao ano. Algumas notícias resumiram o dado como se a resistência tivesse aumentado 40%, o que não corresponde ao relatório.

O que é uma superbactéria e como ela surge
Superbactéria não é uma espécie de bactéria. O nome vale para qualquer bactéria que ficou resistente a diversos antibióticos, independentemente da classe do remédio. Com ela, infecções comuns, como as urinárias, as pneumonias e as feridas, podem ficar difíceis de tratar, porque o remédio que costumava funcionar não tem mais efeito, segundo o Ministério da Saúde.
A resistência começa com uma mudança no material genético da bactéria, que acontece ao acaso. O antibiótico não provoca essa mudança, mas faz a seleção. No corpo existem bilhões de bactérias, e algumas poucas podem ser resistentes a um ou outro antibiótico. O uso excessivo ou errado do remédio elimina as sensíveis e deixa espaço para as resistentes, que sobrevivem ao tratamento e se multiplicam. Elas ainda podem passar os genes de resistência para outras bactérias.
As bactérias resistentes também passam de uma pessoa para outra. Por isso, a resistência não fica só com quem tomou o antibiótico, e mesmo quem nunca usou o remédio pode ter uma infecção por superbactéria.
Fleming previu a resistência aos antibióticos em 1945
A penicilina, o primeiro antibiótico usado em larga escala, foi descoberta pelo cientista britânico Alexander Fleming. Em 1945, no discurso do Prêmio Nobel, ele já previa que um dia o remédio seria vendido livremente e que qualquer pessoa poderia comprá-lo. E alertou que, sem um uso cuidadoso, as bactérias poderiam ficar resistentes a ele.
Fleming sabia que, expostas a doses pequenas demais para matá-las, as bactérias ficavam resistentes no laboratório, e que o mesmo já tinha acontecido algumas vezes no corpo humano. A lição dele ficou conhecida: quem for usar penicilina deve usar o suficiente.
As duas previsões se confirmaram. Durante muitos anos, os antibióticos foram vendidos e comprados livremente, sem uma regulamentação rigorosa. Hoje, no Brasil, a farmácia só vende antibiótico com a retenção da receita. Mais de oito décadas depois do alerta de Fleming, as bactérias resistentes aparecem cada vez mais, e antibióticos que antes funcionavam muito bem deixam de fazer efeito.
Superbactérias no Brasil e em crianças: o que os estudos mostram
No Brasil, o Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz, analisa bactérias isoladas de pacientes atendidos em serviços de saúde de vários estados. Em 2019, o laboratório confirmou bactérias resistentes em pouco mais de mil amostras. Entre janeiro e outubro de 2021, foram mais de 3,7 mil, um número que mais do que triplicou durante a pandemia de covid-19. Os dados se referem às amostras enviadas ao laboratório, não ao total de casos do país. Ainda assim, mostram um aumento bem significativo.
Na mesma época, uma análise de mais de 150 estudos de vários países, citada pela Fiocruz, mostrou que mais de 70% dos pacientes internados com covid-19 receberam antibiótico, embora só 8% tivessem de fato uma infecção por bactéria.
Fora do Brasil, um estudo da Universidade de Sydney, na Austrália, publicado em 2023 numa revista do grupo The Lancet, avaliou infecções comuns e graves da infância, como pneumonia, sepse e meningite, em recém-nascidos e crianças do Sudeste Asiático e do Pacífico. Muitos dos antibióticos recomendados para essas infecções tiveram menos de 50% de eficácia. A ceftriaxona, um dos antibióticos mais usados nesses casos, deve fazer efeito em só cerca de 29% dos casos de sepse e meningite dos recém-nascidos.
O impacto da resistência no número de mortes no mundo, e o que essas estimativas de fato dizem, está na orientação sobre otite e sinusite precisam de antibiótico.
Como evitar as superbactérias: as recomendações da OMS
A OMS fez recomendações que qualquer pessoa pode seguir para ajudar a frear o aumento da resistência bacteriana. Algumas dependem do paciente, outras do médico.
Lavar as mãos com regularidade
A primeira é uma regra simples, que todos podem cumprir. Lavar as mãos é o principal meio de evitar a contaminação por bactérias, vírus e outros micro-organismos. Nos hospitais, a lavagem regular das mãos por toda a equipe é alvo de campanhas intensas, porque está entre as medidas mais importantes para reduzir as infecções hospitalares.
Fora do hospital vale o mesmo, principalmente antes de comer. Nas crianças que frequentam escola, a lavagem das mãos também é a medida mais bem estudada contra gripes e resfriados, como mostra a orientação sobre prevenção de gripes e resfriados na escola.
Higiene com os alimentos
A OMS dá grande importância aos cuidados de higiene com os alimentos, comprovadamente ligados à redução de contaminações e de infecções por bactérias. As Cinco Chaves da OMS para alimentos seguros resumem esses cuidados: manter a limpeza, separar os alimentos crus dos cozidos, cozinhar bem, guardar os alimentos em temperatura segura e usar água limpa.
Para os médicos: diagnóstico certo e antibiótico certo
O segundo ponto é um alerta para os médicos. Antes de escolher o antibiótico, é preciso ter certeza do diagnóstico e do que está sendo tratado. A prescrição precisa ser adequada para a infecção, com a dose e o tempo de uso corretos. O uso errado de antibiótico também aumenta muito a resistência bacteriana.
Nas infecções de ouvido, nariz e garganta, esse cuidado começa por separar o que é vírus do que é bactéria. O antibiótico não age contra vírus e, segundo o Ministério da Saúde, não deve ser usado para tratar gripes e resfriados. A maioria das sinusites também não precisa dele, como explica a orientação sobre sinusite precisa de antibiótico. Na dor de garganta com suspeita de infecção por bactéria, a OtoCare faz na consulta o teste rápido de estreptococo, que ajuda a indicar o antibiótico só quando ele é necessário.
Para o paciente: seguir a receita à risca
O terceiro ponto é do paciente. Quem recebeu uma receita de antibiótico precisa segui-la corretamente, tomando o remédio nos horários certos e pelo tempo que o médico orientou. A OMS acrescenta outros cuidados:
- usar antibiótico só com prescrição médica;
- não insistir no antibiótico quando o médico explica que ele não é necessário;
- nunca compartilhar antibiótico nem usar sobras de outro tratamento;
- manter a vacinação em dia, para evitar as infecções.
Antibiótico no horário certo: por que cada atraso conta
Na correria do dia a dia, é comum esquecer o horário do antibiótico e deixar a dose passar. Uma dica prática é colocar o alarme do celular para tocar na hora de cada dose.
Cada atraso de 30 minutos, 40 minutos ou uma hora na tomada do antibiótico pode contribuir para a resistência bacteriana. Por isso, tomar cada dose no horário certo faz parte do tratamento tanto quanto tomar o remédio.
A explicação está no nível do remédio no corpo. Quando a dose atrasa, a quantidade de antibiótico no sangue continua caindo e pode ficar, por mais tempo, abaixo do necessário para combater as bactérias. Estudos de laboratório mostram que concentrações baixas de antibiótico, insuficientes para eliminar as bactérias sensíveis, já bastam para favorecer as resistentes. Um estudo de simulação publicado em 2026 calculou que perder uma ou duas doses pode aumentar de forma importante o risco de resistência. Fleming já apontava esse risco das doses insuficientes em 1945.
Pode diminuir o intervalo entre as doses?
Uma dúvida comum é se dá para tomar o antibiótico com um intervalo menor do que o da receita, para encaixar os horários na rotina. Ajustar os horários e reduzir um pouco o intervalo não é problema. O que não se deve fazer, de jeito nenhum, é deixar um intervalo maior do que o previsto na receita.
Um antibiótico de 8 em 8 horas, por exemplo, pode passar das 8h, 16h e meia-noite para 7h, 15h e 23h, adiantando uma das doses em uma hora. Empurrar a dose para mais tarde, o caminho inverso, não deve ser feito.
Pelo tempo que o médico orientou
O tempo de tratamento também faz parte da receita. O antibiótico deve ser tomado pelo tempo que o médico orientou. Na sinusite, por exemplo, a duração e o momento da reavaliação estão na orientação sobre antibiótico para sinusite.
Nos últimos anos, algumas referências, como um artigo publicado no BMJ em 2017 e o manual de antibióticos da OMS, discutem tratamentos mais curtos para várias infecções comuns. A duração ideal acompanha a evolução da ciência e é ajustada caso a caso, na consulta, por quem fez o diagnóstico.
Vídeo: cuidado com as superbactérias
Perguntas frequentes
Superbactéria tem cura?
Em muitos casos, tem. A infecção pode ser tratada com um antibiótico que ainda funciona contra aquela bactéria, escolhido depois de exames de laboratório que testam quais remédios fazem efeito sobre ela. O tratamento costuma ser mais longo, mais caro e, muitas vezes, exige internação. Em parte dos casos, segundo a OMS, a infecção fica difícil ou até impossível de tratar, e por isso a prevenção pesa tanto.
Superbactéria é contagiosa? Como se pega?
É. As bactérias resistentes passam de uma pessoa para outra como qualquer bactéria, pelo contato e pelas mãos, e também se espalham pela falta de higiene com os alimentos. Segundo a OPAS, quando o remédio deixa de fazer efeito, a infecção persiste no corpo e aumenta o risco de transmissão. Lavar as mãos e cuidar da higiene dos alimentos são as formas de reduzir esse contágio, como recomenda a OMS.
Superbactéria só existe em hospital?
Não. O risco é maior em pacientes internados, principalmente depois de cirurgias, segundo o Ministério da Saúde. A resistência também atinge as infecções adquiridas fora do hospital. A OPAS cita como exemplos infecções urinárias por Escherichia coli e infecções respiratórias por pneumococo e por Haemophilus influenzae, que podem não responder aos antibióticos usados de rotina.
Quais são as superbactérias mais conhecidas?
Duas das mais citadas são a KPC e o MRSA. A sigla KPC vem da enzima carbapenemase produzida pela Klebsiella pneumoniae, bactéria comum do intestino, que por isso resiste aos carbapenêmicos, antibióticos usados como último recurso. Segundo a OPAS, a resistência da Klebsiella pneumoniae a esses antibióticos já se espalhou por todas as regiões do mundo. O MRSA é o Staphylococcus aureus resistente à meticilina, causa comum de infecções graves no hospital e fora dele.
Quais são os sintomas de uma infecção por superbactéria?
Não existe um sintoma próprio. Os sintomas são os da infecção, como febre, dor e secreção, conforme o local atingido. A diferença costuma aparecer no tratamento, quando a infecção não melhora com o antibiótico que normalmente resolveria o quadro.
Esqueci de tomar o antibiótico no horário. O que fazer?
Tome a dose assim que lembrar e siga com os horários normais das doses seguintes. Essa é a orientação da bula da amoxicilina (Amoxil®), que acrescenta um limite, o de não tomar duas doses com intervalo de 1 hora ou menos entre elas. O tratamento continua normalmente. Cada antibiótico tem a sua bula, que deve ser conferida, e o alarme do celular ajuda a não esquecer de novo.
Antibiótico serve para gripe ou resfriado?
Não. Gripes e resfriados são causados por vírus, e o antibiótico só age contra bactérias. Tomar antibiótico sem necessidade não acelera a melhora e ainda favorece a resistência. Quando a gripe se complica com uma infecção por bactéria, como uma sinusite ou uma otite, a conduta muda, e os sinais de que é hora de procurar avaliação estão na orientação sobre quando procurar médico na gripe.
Posso usar o antibiótico que sobrou de outro tratamento?
Não. A OMS orienta nunca compartilhar antibiótico nem usar sobras. O remédio que serviu para outra pessoa, ou para outra infecção, pode não ser o certo agora, e a quantidade que sobrou não completa um tratamento. Usar a sobra é uma forma de tomar dose ou tempo insuficientes, justamente o que favorece as bactérias resistentes.
Por que a farmácia fica com a receita do antibiótico?
Para controlar a venda e evitar o uso sem prescrição. Pela RDC 471/2021 da Anvisa, os antibióticos só são vendidos com a retenção da receita. A farmácia fica com a segunda via e devolve a primeira ao paciente. A receita vale por 10 dias a partir da data em que foi feita e, nos tratamentos prolongados, quando a receita indica uso contínuo, pode ser usada para novas compras por até 90 dias.
Referências
- VILELA, Larissa. Cuidado com as superbactérias! YouTube, 5 dez. 2023. 1 vídeo (5 min 40 s). Disponível em: https://youtu.be/wMpL_2Qstws. Acesso em: 6 out. 2026.
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Infecção que não melhora com antibiótico: avaliação na OtoCare, em Brasília
Otite, sinusite ou dor de garganta que não melhora com o antibiótico, ou infecções que se repetem, pedem uma avaliação cuidadosa antes de trocar de remédio. Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, o diagnóstico é feito com exame completo, e o antibiótico é indicado só quando é necessário, na dose e pelo tempo certos.