Edema de Reinke: por que o cigarro deixa a voz rouca e grossa e qual é o tratamento

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Por que o cigarro deixa a voz rouca e grossa

Quem fuma há muitos anos, ou convive com alguém que fuma, muitas vezes percebe que a voz vai ficando rouca e mais grossa com o tempo. A mudança chama mais atenção nas mulheres, principalmente nas que fumam ao longo de décadas.

Na maior parte das vezes, essa voz de fumante tem uma causa bem definida nas cordas vocais, chamada edema de Reinke. É uma doença da prega vocal provocada pelo cigarro, e tem tratamento. Entender como ela aparece ajuda a entender por que parar de fumar é o passo mais importante.

Jovem fumando um cigarro em primeiro plano, com a Dra. Larissa Vilela ao fundo e maços de cigarro sobre a mesa

O que é o edema de Reinke

O edema de Reinke é um inchaço das pregas vocais, o nome médico das cordas vocais, causado basicamente pelo cigarro. O inchaço fica numa camada logo abaixo do revestimento da prega vocal, chamada espaço de Reinke. É justamente a parte mais flexível, a que ondula quando a voz sai.

Dentro dessa camada se acumula um tecido de aspecto gelatinoso. A prega vocal, que numa pessoa saudável é fina e leve, fica inchada, grossa e pesada. A alteração pode atingir uma prega vocal só ou as duas.

Nos livros e artigos médicos, a doença também aparece como degeneração polipoide ou cordite polipoide. É uma doença benigna e pouco comum, que atinge menos de 1% da população, quase sempre adultos com muitos anos de cigarro.

Como o cigarro incha as pregas vocais

O cigarro é um agressor direto da prega vocal. A fumaça que a pessoa inala passa pela laringe e entra em contato com as pregas vocais a cada tragada. Esse contato provoca uma inflamação que nunca chega a se resolver, porque a agressão se repete no cigarro seguinte.

Com os anos, a inflamação crônica e a irritação contínua deixam a prega vocal edemaciada, que é o termo médico para inchada. Assim se forma o edema de Reinke.

Os estudos colocam o cigarro como o principal fator de risco. Num trabalho brasileiro com 30 pacientes operados de edema de Reinke, todos eram fumantes. O uso excessivo da voz e o refluxo que chega à garganta também são apontados como fatores que aumentam a irritação, e o controle do refluxo faz parte do tratamento.

Por que a voz fica grossa e rouca

A prega vocal inchada fica mais grossa, e o timbre da voz muda. Funciona como as cordas de um violão. A corda mais fina dá um som mais agudo, e a mais grossa dá um som mais grave. Com a prega vocal acontece o mesmo.

Por isso quem fuma há muitos anos vai ficando com a voz mais grossa e mais grave. O peso extra também atrapalha a vibração, e a voz fica rouca, áspera, com menos controle do tom e dificuldade para alcançar as notas agudas. Muitas pessoas sentem cansaço ao falar.

A voz costuma ser tão característica que o otorrino muitas vezes suspeita do edema de Reinke só de ouvir o paciente falar. É o quadro clássico da paciente que ficou com uma voz bem grossa e grave por causa do cigarro.

Quando o inchaço é grande, a voz deixa de ser o único sintoma, e pode aparecer dificuldade para respirar, assunto tratado mais adiante.

Por que a mudança pesa mais para as mulheres

O edema de Reinke atrapalha mais as mulheres. No homem, ficar com a voz mais grossa muitas vezes não incomoda tanto. Na mulher, cuja voz é naturalmente mais aguda, a mudança chama atenção e pode trazer grande sofrimento.

Há pacientes que ficam muito tristes porque, ao telefonar para alguém ou para algum lugar, são confundidas com um homem. É um estigma real.

Os números acompanham essa percepção. Num estudo escocês com 189 pacientes com edema de Reinke confirmado na biópsia, 171 eram mulheres. Uma revisão explica que as mulheres procuram tratamento com mais frequência justamente porque a voz grave nelas é mais perceptível.

O cigarro não é a única causa de voz grossa na mulher. O uso de esteroides anabolizantes também engrossa a voz, por outro mecanismo, como mostra a orientação sobre voz grossa por anabolizantes.

Como é feito o diagnóstico

A suspeita começa pela voz e pela história de cigarro, e a confirmação vem do exame da laringe. A nasofibrolaringoscopia, feita no consultório da OtoCare, no Noroeste de Brasília, mostra as pregas vocais inchadas, o tamanho do edema e o espaço que sobra para a passagem do ar. Exames de imagem não são necessários para o diagnóstico.

O exame tem ainda outra função. O cigarro é o principal fator de risco tanto do edema de Reinke quanto do câncer de laringe, e outras lesões podem causar uma rouquidão parecida. Por isso a rouquidão persistente em quem fuma ou fumou sempre precisa ser examinada.

Graus do edema de Reinke

Existem várias classificações do edema de Reinke, e isso explica por que os laudos falam ora em tipo, ora em grau. Uma das classificações divide o edema em quatro graus, conforme a parte do espaço de passagem do ar entre as pregas vocais que o inchaço ocupa.

  • grau 1: o edema ocupa menos de 25% do espaço;
  • grau 2: ocupa de 25% a 50%;
  • grau 3: ocupa de 50% a 75%;
  • grau 4: ocupa mais de 75%.

Outra classificação, feita pelo aspecto das pregas vocais no exame, fala em tipos 1, 2 e 3, do edema restrito à superfície até o edema volumoso. O grau ajuda a descrever o tamanho do problema, e a decisão sobre o tratamento considera também quanto a voz incomoda e se existe falta de ar.

Quando o edema de Reinke fica grave

O edema de Reinke pode ficar sério. Em alguns pacientes, o inchaço das pregas vocais cresce tanto ao longo dos anos que fecha a glote, o espaço por onde o ar passa na laringe. A pessoa passa a ter dificuldade para respirar.

Há casos em que a laringe fica bloqueada pelo edema, e o paciente precisa ir às pressas para o centro cirúrgico fazer uma traqueostomia, uma abertura no pescoço para conseguir respirar. Isso não acontece com todos os pacientes, mas mostra que o edema de Reinke não é só uma questão de voz. Ele pode levar a quadros dramáticos de obstrução da respiração.

Edema de Reinke e câncer de laringe

O edema de Reinke não é câncer, e a tendência não é que ele se transforme em câncer. Ainda assim, é um sinal de alerta importante. Ele mostra que a prega vocal está sofrendo muito com o cigarro e que existe uma agressão intensa ao tecido da laringe.

Os estudos tranquilizam quanto ao próprio edema. Na série escocesa de 189 pacientes, nenhum caso de câncer apareceu nas biópsias, 170 pacientes não tinham nenhuma alteração pré-maligna e, nos demais, as alterações eram na maioria leves.

O edema de Reinke é uma das alterações que o cigarro provoca nas pregas vocais, e existem várias outras, inclusive o câncer de laringe.

Tratamento: parar de fumar vem primeiro

O edema de Reinke tem tratamento, e existem algumas possibilidades. O primeiro ponto do tratamento, e o mais importante, é parar de fumar.

Quando o edema é leve, muitas vezes só parar de fumar já permite que a prega vocal reabsorva o inchaço aos poucos e que a voz melhore, voltando ao normal. Nos quadros mais graves, parar de fumar continua sendo fundamental, porque sem isso o problema pode piorar ainda mais.

Um estudo dinamarquês acompanhou por seis meses pacientes com edema de Reinke crônico que conseguiram parar de fumar. Todos relataram menos incômodo, e nesse prazo o edema não desapareceu por completo. A resposta de cada prega vocal ao fim do cigarro é acompanhada caso a caso, na consulta.

Parar de fumar muitas vezes não é fácil. Existem várias opções de ajuda para quem fuma conseguir parar, como medicações e terapias, e vale a pena ir atrás delas, porque esse é o ponto mais importante do tratamento.

O Instituto Nacional de Câncer sugere escolher uma data para ser o primeiro dia sem cigarro. Deixar de fumar de uma vez nessa data deve ser a primeira opção. Quem prefere parar aos poucos, reduzindo o número de cigarros ou adiando a hora do primeiro cigarro do dia, não deve levar mais de duas semanas nesse processo.

Cirurgia: a microcirurgia de laringe

Depois que o paciente para de fumar, se o edema é grande, sem chance de ser reabsorvido sozinho, ou se atrapalha muito a qualidade da voz, existe a possibilidade de cirurgia. É a microcirurgia de laringe para o edema de Reinke.

Na cirurgia é feita uma pequena incisão na prega vocal, e todo o excesso de tecido gelatinoso que se formou dentro dela é retirado. Depois, a mucosa é fechada. É uma cirurgia tecnicamente simples. Anestesia, técnica e recuperação estão explicadas na página da microcirurgia de laringe para edema de Reinke.

O bom resultado depende de o paciente parar de fumar. Se o cigarro continua, a prega vocal pode sair perfeita da cirurgia e, mesmo assim, volta a inchar, e o problema retorna. Os autores do estudo dinamarquês citado acima relatam que o edema volta bem menos depois da cirurgia nos pacientes que param de fumar.

O desafio é grande. Num estudo brasileiro, 80% dos pacientes operados continuaram fumando depois da cirurgia, e a manutenção do vício foi apontada como um dos fatores que pioram a recuperação da voz.

Fonoterapia no edema de Reinke

A fonoterapia vocal tem papel auxiliar. No edema leve, os exercícios melhoram a estabilidade da onda mucosa, o movimento de ondulação da mucosa da prega vocal durante a fala, e a vibração da prega vocal. Depois da cirurgia, a fonoterapia ajuda o paciente a ter uma boa recuperação e uma boa cicatrização.

Ela ajuda a melhorar ainda mais a voz quando o paciente para de fumar e também nos casos operados. É um complemento e não substitui parar de fumar.

O que esperar da voz depois do tratamento

O edema de Reinke tem cura e tem tratamento. Com o fim do cigarro, a cirurgia quando indicada e a fonoterapia, a voz melhora. Num estudo brasileiro com mulheres operadas, a voz ficou significativamente melhor na avaliação feita seis meses depois da cirurgia.

O mesmo estudo mostrou que a melhora pode não ser completa. Aos seis meses, a voz das pacientes operadas, que tinham parado de fumar, ainda era diferente da voz de mulheres que não fumavam e não tinham alteração na laringe. O quanto a voz de cada pessoa pode mudar é avaliado caso a caso, na consulta.

Cigarro eletrônico e edema de Reinke

O edema de Reinke está relacionado ao cigarro comum. Na prática do consultório, casos de edema de Reinke causados pelo cigarro eletrônico, o vape, não aparecem, e os estudos até aqui não descrevem essa relação.

Isso não quer dizer que o vape seja inofensivo para a voz. O edema de Reinke leva anos para aparecer, e talvez ainda não tenha passado tempo suficiente para perceber o mesmo quadro em quem usa cigarro eletrônico.

Vídeo: cigarro, voz rouca e edema de Reinke

O vídeo abaixo explica por que o cigarro deixa a voz rouca e grossa, o que é o edema de Reinke, quando ele fica grave e quais são as opções de tratamento.

Perguntas frequentes

Cigarro causa rouquidão?

Sim. A fumaça agride diretamente as pregas vocais e mantém uma inflamação crônica. Com os anos, forma-se o edema de Reinke, que deixa a voz rouca e mais grave. Rouquidão que não passa em quem fuma precisa ser examinada.

Como é a voz de quem tem edema de Reinke?

Grossa, grave e rouca, muitas vezes áspera, com dificuldade para alcançar os tons agudos e cansaço ao falar. Nas mulheres, a voz pode ficar tão grave que elas são confundidas com um homem ao telefone.

Parando de fumar, a voz volta ao normal?

Muitas vezes, sim. No edema leve, só parar de fumar já permite que a prega vocal reabsorva o inchaço aos poucos e que a voz melhore, voltando ao normal. Nos edemas maiores, pode ser necessária a cirurgia. Em qualquer caso, parar de fumar é o passo mais importante.

Edema de Reinke tem cura?

Tem. O edema de Reinke tem cura e tem tratamento, e a voz pode melhorar bastante. O tratamento combina parar de fumar, cirurgia quando o edema é grande ou atrapalha muito a voz, e fonoterapia. O resultado depende principalmente de a pessoa não voltar a fumar.

Edema de Reinke pode virar câncer?

A tendência não é essa. Num estudo com 189 pacientes, nenhum teve câncer na biópsia. O edema é, porém, um sinal de que o cigarro está agredindo muito a laringe, e o cigarro é o principal fator de risco do câncer de laringe.

Edema de Reinke pode causar falta de ar?

Pode, quando o inchaço é grande. Ele ocupa o espaço por onde o ar passa e, nos casos extremos, fecha a glote. Há casos em que a laringe fica bloqueada e o paciente precisa de uma traqueostomia para conseguir respirar.

O que quer dizer edema de Reinke grau 3?

Na classificação por graus, o grau 3 indica que o inchaço ocupa de 50% a 75% do espaço de passagem do ar entre as pregas vocais. O grau 1 é o menor, com menos de 25%, e o grau 4 é o maior, com mais de 75%.

O edema de Reinke pode atingir as duas pregas vocais?

Sim. Ele pode atingir uma prega vocal só ou as duas. O exame da laringe mostra quais estão inchadas e o tamanho do edema em cada uma.

Existe tratamento natural ou caseiro para edema de Reinke?

Não há chá, xarope ou receita caseira que desinche a prega vocal. O tratamento que age sobre a causa é parar de fumar, com a fonoterapia e, quando necessário, a cirurgia.

Exercícios de voz resolvem o edema de Reinke?

Os exercícios da fonoterapia ajudam, principalmente no edema leve e depois da cirurgia, porque melhoram a vibração da prega vocal. Eles completam o tratamento e não substituem parar de fumar.

O edema de Reinke volta depois da cirurgia?

Volta, se a pessoa continuar fumando. A cirurgia retira o excesso de tecido, mas o cigarro continua inflamando a prega vocal, que volta a inchar. Parar de fumar é o que mantém o resultado.

Homem também tem edema de Reinke?

Tem. A doença é mais notada nas mulheres porque a voz grave chama mais atenção nelas. Nos homens que fumam, o edema também aparece, e a mudança da voz muitas vezes passa despercebida.

Vape causa edema de Reinke?

Até aqui, os casos de edema de Reinke estão ligados ao cigarro comum, e os estudos não descrevem o edema causado pelo vape. Como o edema leva anos para aparecer, talvez ainda não tenha havido tempo para perceber esse efeito.

Fumante com rouquidão precisa ir ao otorrino?

Sim. Só o exame da laringe mostra se a rouquidão vem do edema de Reinke ou de outra lesão. Como o cigarro também é o principal fator de risco do câncer de laringe, a rouquidão persistente em quem fuma sempre merece avaliação.

Referências

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Avaliação da voz rouca em Brasília

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