Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Quando um som específico provoca raiva
Misofonia é uma aversão intensa a sons específicos, como alguém mastigando, respirando ou batendo uma caneta. A reação é de irritação e raiva muito fortes, desproporcionais, que a pessoa às vezes não consegue controlar. O nome vem do grego: miso significa ódio ou aversão, e fonia, som.
O que incomoda não é o volume, e sim o tipo de som: em geral, sons repetitivos e de baixa intensidade. Essa é a diferença para a hiperacusia, em que o problema é a intensidade dos sons comuns. A misofonia é o segundo tipo mais comum de hipersensibilidade auditiva, e os dois quadros podem aparecer juntos.

Sons que costumam disparar a misofonia
Em geral, são sons produzidos por pessoas:
- Boca: mascar chiclete, mastigar, engolir, sugar a comida.
- Nariz e respiração: respirar, assoar o nariz.
- Mãos: bater caneta, amassar papel, riscar giz na lousa.
- Pés: ficar batendo o sapato no chão.
Um detalhe curioso: muitas vezes o mesmo som feito por uma pessoa causa uma irritação enorme, e feito por outra não causa nada. A misofonia é específica para o tipo de som e, com frequência, também para a pessoa que o produz.
Quem tem misofonia
Os sintomas costumam começar na infância ou na adolescência, mas algumas pessoas passam a ter a partir da idade adulta. Estima-se que a misofonia atinja cerca de 3,5% da população: não é algo tão raro.
A reação vai além da irritação
Diante do som, a pessoa tem reações emocionais, como irritação, raiva e perda de controle, e reações do corpo, como aumento dos batimentos do coração e suor intenso. Em alguns momentos, o desconforto é tão grande que pode chegar a agressões.
Misofonia ou só incômodo? Todo mundo se incomoda com alguns sons ou com o que considera falta de educação. Na misofonia, as reações emocionais e físicas são muito intensas e vão muito além do que seria esperado numa situação desagradável, a ponto de a pessoa não conseguir se controlar.
Por que a misofonia acontece
Por muito tempo, a misofonia foi vista apenas como uma dificuldade de convívio social. Hoje se sabe que existem alterações no funcionamento de regiões do cérebro ligadas à audição, às emoções (o sistema límbico) e ao controle do comportamento (a região pré-frontal). Quando a pessoa ouve o som-gatilho, essas regiões se ativam de forma exagerada. Há também uma descarga intensa do sistema nervoso simpático, o que explica o coração acelerado e o suor.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é clínico: vem da história do paciente, dos sintomas que ele descreve e da forma como as crises acontecem. Como a misofonia pode vir acompanhada de outras alterações auditivas, como o zumbido e a hiperacusia, a avaliação inclui exames da audição: audiometria, impedanciometria e emissões otoacústicas.
Como é o tratamento
- Orientação. Entender o que está acontecendo: a reação não é normal, é um transtorno, e precisa ser tratada.
- Terapia cognitivo-comportamental. A psicoterapia trabalha as reações de raiva, aversão e irritação e melhora a tolerância ao som que incomoda.
- Terapia sonora. Em sessões de fonoterapia, a pessoa é dessensibilizada aos poucos para o som-gatilho.
- Medicamentos, quando necessário. Pessoas com misofonia têm taxas altas de transtorno obsessivo-compulsivo, ansiedade e depressão. Nesses casos, o tratamento psiquiátrico com medicação ajuda a melhorar também a misofonia.
O plano é definido na consulta na OtoCare, de acordo com os sintomas e os exames de cada paciente.
Vídeo: misofonia, causas, sintomas e tratamento
O vídeo abaixo apresenta o que é a misofonia, os sons que costumam disparar as crises, as alterações cerebrais envolvidas, o diagnóstico e as frentes do tratamento.
Perguntas frequentes
Misofonia é a mesma coisa que hiperacusia?
Não. Na misofonia, o que incomoda é o tipo de som, como mastigação ou respiração, mesmo em volume baixo. Na hiperacusia, o problema é a intensidade dos sons comuns do dia a dia. Os dois quadros podem aparecer juntos.
Por que o som de uma pessoa me irrita e o de outra não?
Porque a misofonia costuma ser específica não só para o tipo de som, mas também para quem o produz. O mesmo som pode causar uma irritação enorme quando vem de uma pessoa e nenhuma reação quando vem de outra.
Misofonia tem tratamento?
Sim. O tratamento combina orientação, terapia cognitivo-comportamental, terapia sonora com fonoterapia e, quando há transtorno obsessivo-compulsivo, ansiedade ou depressão associados, medicação.
Referências
- VILELA, Larissa. Misofonia: o que é, causas, sintomas, diagnóstico e como tratar! YouTube, 16 nov. 2024. 1 vídeo (8 min 8 s). Disponível em: https://youtu.be/qjtf8v3cXU0. Acesso em: 23 set. 2026.
- SWEDO, Susan E. et al. Consensus definition of misophonia: a Delphi study. Frontiers in Neuroscience, v. 16, 841816, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35368272/. Acesso em: 23 set. 2026.
- KUMAR, Sukhbinder et al. The brain basis for misophonia. Current Biology, v. 27, n. 4, p. 527–533, 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28162895/. Acesso em: 23 set. 2026.
- JAGER, Inge J. et al. Cognitive behavioral therapy for misophonia: a randomized clinical trial. Depression and Anxiety, v. 38, n. 7, p. 708–718, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33336858/. Acesso em: 23 set. 2026.
Avaliação da misofonia em Brasília
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