Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Quando sons comuns incomodam ou doem
Hiperacusia é uma intolerância a sons comuns do ambiente, de intensidade moderada ou baixa, que provoca desconforto ou até dor no ouvido e na face. É o principal tipo de hipersensibilidade auditiva; o segundo é a misofonia, em que o incômodo vem de sons específicos, e não do volume. Sons muito altos incomodam qualquer pessoa; na hiperacusia, o incômodo aparece com sons que não deveriam causar problema, e nos casos mais intensos até a voz em uma conversa normal.
Com o tempo, muitas pessoas passam a evitar reuniões, encontros de família e ambientes com mais barulho, e acabam se afastando do convívio social. A hiperacusia tem tratamento, e esse isolamento é justamente um dos pontos que ele precisa reverter.

Quem tem mais hiperacusia
Estima-se que a hiperacusia atinja de 3% a 15% da população geral. Em alguns grupos, ela é muito mais frequente e pode chegar a até 95% das pessoas:
- Transtorno do espectro autista (TEA).
- Síndromes genéticas, como a síndrome de Williams.
- Outras condições, como enxaqueca e lúpus.
Na prática clínica, os casos aumentaram durante e depois da pandemia, possivelmente por causa do aumento de quadros de ansiedade e depressão e do tempo maior de confinamento em casa.
Por que a hiperacusia acontece
A origem ainda é discutida, mas os estudos mais atuais apontam para uma alteração do processamento auditivo central, a parte do cérebro que interpreta os sons. É a chamada teoria do alto ganho: diante do mesmo som, o cérebro de quem tem hiperacusia produz uma resposta muito maior do que o normal. O resultado é desconforto e, nos quadros mais graves, dor no ouvido ou irradiada para a face.
Isso não significa ouvir melhor. A audição de quem tem hiperacusia costuma ser normal, e pode haver até perda auditiva: capacidade de ouvir e tolerância ao som são coisas diferentes. O que muda é a forma exagerada como o cérebro interpreta os sons do dia a dia. Também é comum a associação com o zumbido no ouvido.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico começa pela história clínica: incômodo importante com sons que normalmente não incomodam as pessoas. A confirmação vem de um exame específico, o LDL, sigla em inglês para nível de desconforto sonoro. Durante o teste, a pessoa avisa ao examinador em que intensidade o som começa a incomodar.
- Normal: o desconforto aparece a partir de 90 dB.
- Hiperacusia: o desconforto aparece abaixo de 90 dB, por exemplo em 70 dB.
- Casos mais graves: o desconforto aparece em torno de 55 dB, a intensidade de uma conversa normal.
A avaliação da audição completa a investigação, porque a hiperacusia pode vir acompanhada de perda auditiva, zumbido ou outras alterações. Por isso entram exames como a audiometria, a impedanciometria e, em alguns casos, as emissões otoacústicas.
Como é o tratamento
O tratamento combina várias abordagens, definidas de acordo com cada caso:
- Reduzir o isolamento sonoro. A tendência natural é fugir dos sons: sair menos de casa, usar abafadores e buscar silêncio. Esse caminho piora o quadro, porque o cérebro se acostuma ao silêncio e o desconforto fica maior a cada nova exposição. O estímulo sonoro ajuda o cérebro a se ajustar ao ambiente normal. O recomendado é voltar a se expor aos poucos, sem exageros, aos sons comuns do dia a dia, e evitar o uso excessivo de abafadores.
- Terapia cognitivo-comportamental. Essa linha de psicoterapia ajuda a reduzir a aversão ao som, a ansiedade e o medo da exposição, e facilita a volta aos ambientes evitados.
- Terapia sonora. Em sessões com fonoaudiólogo, estímulos sonoros controlados dessensibilizam a audição aos poucos. Depois de um tempo de terapia, muitas pessoas voltam a uma vida normal, sem tanto incômodo com os sons do ambiente.
- Cuidado com o que acompanha o quadro. Quando há ansiedade ou depressão associadas, medicamentos podem ser usados. A tensão constante também costuma gerar contrações musculares, e a fisioterapia para liberar a musculatura ajuda a reduzir esse componente, que piora o quadro.
Um alerta para pais de crianças com autismo
Como a hiperacusia é muito frequente no TEA, fique atento se seu filho evita o convívio social ou se incomoda muito com os sons do dia a dia. Uma avaliação auditiva com otorrino na OtoCare confirma o diagnóstico e, dependendo do caso, indica as abordagens do tratamento. A orientação sobre o exame de BERA no autismo explica o papel da avaliação da audição na investigação do TEA.
Vídeo: hiperacusia, causas, diagnóstico e tratamento
O vídeo abaixo apresenta o que é a hiperacusia, por que ela acontece, como o exame LDL confirma o diagnóstico e as abordagens do tratamento.
Perguntas frequentes
Quem tem hiperacusia escuta melhor?
Não. A audição costuma ser normal e pode até haver perda auditiva. Na hiperacusia, o cérebro interpreta de forma exagerada sons de intensidade moderada ou baixa.
Usar abafador ou protetor de ouvido ajuda na hiperacusia?
Usado em excesso, piora. O isolamento sonoro faz o cérebro se acostumar ao silêncio, e o desconforto aumenta quando a pessoa volta a se expor. O tratamento vai na direção contrária: exposição gradual aos sons comuns do dia a dia.
Hiperacusia tem tratamento?
Sim. O tratamento combina a redução do isolamento sonoro, a terapia cognitivo-comportamental, a terapia sonora e o cuidado com ansiedade, depressão e tensão muscular quando estão presentes. Muitas pessoas voltam a uma vida normal depois de um tempo de terapia.
Referências
- VILELA, Larissa. Hiperacusia: o que é, causas, sintomas, diagnóstico e como tratar! YouTube, 13 nov. 2024. 1 vídeo (11 min 32 s). Disponível em: https://youtu.be/vcP4yDdEVAg. Acesso em: 23 set. 2026.
- REN, Jie et al. Prevalence of hyperacusis in the general and special populations: a scoping review. Frontiers in Neurology, v. 12, 706555, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34539554/. Acesso em: 23 set. 2026.
- AAZH, Hashir et al. Insights from the First International Conference on Hyperacusis: causes, evaluation, diagnosis and treatment. Noise & Health, v. 16, n. 69, p. 123–126, 2014. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24804717/. Acesso em: 23 set. 2026.
- AUERBACH, Benjamin D.; RODRIGUES, Paulo V.; SALVI, Richard J. Central gain control in tinnitus and hyperacusis. Frontiers in Neurology, v. 5, 206, 2014. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25386157/. Acesso em: 23 set. 2026.
- JÜRIS, Linda et al. Cognitive behaviour therapy for hyperacusis: a randomized controlled trial. Behaviour Research and Therapy, v. 54, p. 30–37, 2014. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24508581/. Acesso em: 23 set. 2026.
Avaliação da hiperacusia em Brasília
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