Gagueira (disfluência da fala): o que é, causas, gagueira infantil e tratamento

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O que é gagueira

Uma pessoa com gagueira sabe exatamente o que quer dizer e consegue organizar o pensamento. A dificuldade aparece na hora de falar: surgem repetições, prolongamentos de sons, pausas e, às vezes, bloqueios em que a palavra não sai.

O nome popular é gagueira. O nome técnico é disfluência da fala. A gagueira atinge cerca de 2 milhões de brasileiros, que, segundo o Conselho Federal de Fonoaudiologia, gaguejam de forma crônica, e até 70 milhões de pessoas no mundo, o que faz dela um problema relativamente frequente. A Stuttering Foundation fala hoje em mais de 80 milhões de pessoas, cerca de 1% da população mundial.

Dra. Larissa Vilela de blazer branco ao lado de um jovem de camiseta azul com expressão de esforço para falar e dois homens gesticulando ao fundo

A informação mais importante sobre a gagueira diz respeito às crianças. Quanto mais cedo vêm o diagnóstico e o início do tratamento, maior a chance de remissão, ou seja, de a gagueira desaparecer.

Fluência, disfluência e gagueira

A fala normal tem uma fluência suave, com um ritmo próprio da comunicação humana. Esse ritmo pode sofrer alterações, que recebem o nome técnico de disfluências da fala. São alterações na sequência rítmica e na produção da fala, e a mais comum delas é a gagueira.

Na gagueira, a criança sabe o que quer dizer, e a dificuldade está no fluxo da fala. Nos transtornos de linguagem, como o transtorno do desenvolvimento da linguagem, a dificuldade é outra, com o vocabulário e a construção das frases.

Gagueira infantil: quando começa

A gagueira que começa na infância é um transtorno do neurodesenvolvimento. Por alterações no cérebro, a criança passa a ter mudanças no ritmo e na fluência da fala. Isso costuma acontecer entre 1 ano e meio e 7 anos de idade, com maior número de casos entre 3 e 4 anos.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, a gagueira surge mais por volta dos 2 anos, com pico por volta dos 3, e pode aparecer até os 12 anos. Cerca de 5% das crianças passam por uma fase de gagueira. O início pode ser de repente, aos poucos ou em fases que vão e voltam.

Os sinais mais comuns da gagueira infantil são:

  • repetições de sons, sílabas ou palavras;
  • prolongamentos, como falar mããããe em vez de mãe;
  • pausas no meio da fala;
  • bloqueios, quando a palavra trava e não sai.

Gagueira em criança é normal?

Pequenas falhas de fluência fazem parte da fala de todo mundo. Até 10% de alterações, como repetições e prolongamentos, são consideradas normais. Uma falha de fluência de vez em quando não é problema.

O problema é quando essas alterações ficam muito frequentes, e o número de referência é justamente 10%. Mais de 10% de alterações na fluência da fala caracterizam uma disfluência. Quando isso acontece com frequência na criança, o quadro recebe o nome de gagueira infantil, ou disfluência do neurodesenvolvimento.

O tipo de falha também conta. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, dos 10% de disfluências esperados numa fala fluente, só 3% são do tipo típico da gagueira, como bloqueios, repetições de sons e de sílabas e prolongamentos. A partir de 3% desse tipo, ou quando a criança faz força visível para falar, a avaliação é indicada mais cedo.

Fatores de risco para a gagueira persistir

A Sociedade Brasileira de Pediatria considera de maior risco para a gagueira continuar os casos em que:

  • há alguém na família que gagueja ou gaguejou;
  • a criança é menino;
  • há 3% ou mais de disfluências típicas da gagueira, sinais de esforço para falar ou a criança passa a evitar palavras e situações de conversa;
  • há outras alterações de fala ou uma linguagem abaixo ou acima do esperado para a idade.

O que causa a gagueira

Por muito tempo, a gagueira foi vista como um problema emocional. Em alguns casos chegou a ser tratada como neurose, e também se dizia que pais muito exigentes faziam a criança gaguejar. Hoje se sabe que a gagueira não é uma questão apenas emocional nem apenas do ambiente.

Existe uma base orgânica. Há uma alteração no córtex cerebral que deixa a pessoa predisposta a desenvolver a gagueira. As teorias estudadas apontam para duas possibilidades: uma alteração da mielinização, a camada que envolve as fibras nervosas, ou uma alteração dos núcleos da base, com aumento de dopamina nessa região do cérebro. Os núcleos da base ajudam a dar o ritmo para o início de cada movimento da fala.

Junto dessa base orgânica entram as questões ambientais e pessoais. Elas podem agravar o quadro ou servir de gatilho para o começo da gagueira. É a soma da predisposição orgânica com o ambiente e com as questões da própria pessoa que leva à gagueira.

Gagueira é genética?

A herança familiar pesa bastante. A Sociedade Brasileira de Pediatria descreve a gagueira como hereditária em cerca de 80% dos casos, e um estudo publicado em 2010 no New England Journal of Medicine identificou alterações em genes ligados à gagueira persistente.

Como a gagueira afeta a pessoa

Quando alguém com gagueira tem uma ruptura na fala, os sinais de ansiedade e angústia costumam ser nítidos. É comum a pessoa contrair o rosto, fechar os olhos e ficar com o rosto tenso durante o episódio.

A gagueira traz grandes implicações emocionais. À medida que a pessoa percebe que não consegue falar, a situação desencadeia ansiedade, e a ansiedade piora a fala. Por isso o diagnóstico correto e o tratamento são tão importantes.

Tratamento da gagueira

Existe tratamento para a gagueira. Vários remédios já foram testados, como antidepressivos, ansiolíticos e medicamentos que bloqueiam a dopamina, já que uma das teorias é o excesso de dopamina nos núcleos da base. Os remédios não mostraram efeitos consistentes o suficiente para virar o tratamento de base. Os resultados variaram muito e os efeitos colaterais foram frequentes, e por isso os medicamentos deixaram de ser o tratamento principal.

Uma revisão de 2006, com 31 estudos, não encontrou nenhum remédio com benefício comprovado em estudos de boa qualidade. Pesquisas mais recentes estudam novos medicamentos que agem sobre a dopamina, e cada caso pode ser avaliado individualmente na consulta.

Fonoterapia: a base do tratamento

A fonoterapia é a base do tratamento da gagueira. Feita por um fonoaudiólogo especialista em gagueira, ela tem taxas excepcionais de remissão, que chegam a até 98% em algumas descrições da literatura. A Sociedade Brasileira de Pediatria cita que a intervenção especializada, feita logo nas primeiras alterações, pode evitar que a gagueira se instale em cerca de 90% dos casos. Um estudo com crianças de 3 a 6 anos mostrou menos gagueira depois de nove meses no grupo tratado com um programa de fonoterapia precoce.

A fonoterapia não tem efeito colateral. Ela exige, porém, assiduidade. As sessões são, em geral, uma ou duas vezes por semana, por um tempo que costuma ser de meses. A regularidade e o tempo que a pessoa consegue dedicar talvez sejam o ponto mais importante para o tratamento dar certo.

Quando existe uma ansiedade muito importante, a pessoa pode ser encaminhada para a psicoterapia, num tratamento combinado com o fonoaudiólogo. A base do tratamento, mesmo assim, continua sendo a fonoterapia.

Como lidar com quem gagueja

A atitude de quem está por perto faz parte do tratamento. Algumas posturas são clássicas e, na maioria das vezes, atrapalham. A melhor forma de agir é deixar a pessoa falar.

  • não interromper a pessoa;
  • não completar nem falar a palavra por ela, mesmo com a intenção de ajudar;
  • escutar com calma e esperar que ela termine;
  • depois que ela terminar, se não deu para entender, dizer algo como “desculpe, não entendi, pode repetir?”.

Com as crianças vale o mesmo cuidado. Frases como “não é assim”, “está errado”, “você gaguejou” e “calma, respira” são muito ruins, porque aumentam a ansiedade e acabam piorando a gagueira. Se a criança gaguejou na palavra bola, o melhor é esperar que ela termine e dizer, com naturalidade, “ah, bola”. Assim ela escuta a pronúncia sem ouvir que errou. A mesma postura ajuda a criança que troca letras, explicada na orientação sobre o que fazer quando a criança fala errado.

O ambiente tranquilo também ajuda muito. Um ambiente tumultuado, com barulho e muita gente falando alto ou gritando, é ruim para a criança com gagueira. Um dia a dia calmo, com as pessoas falando baixo, contribui para a melhora.

Gagueira tem cura?

A gagueira começa tipicamente na infância, e a maioria das crianças tem remissão espontânea, ou seja, melhora sozinha. Existe, porém, uma parcela significativa que não melhora, e é por isso que a fonoterapia é tão importante. A avaliação médica define quem precisa começar a fonoterapia e em quais casos dá para esperar um pouco mais, porque a remissão espontânea pode acontecer.

A Sociedade Brasileira de Pediatria cita remissão espontânea entre 50% e 80% das crianças, e uma revisão de 2013 aponta números em torno de 80%. A mesma sociedade alerta que a ideia de que a gagueira sempre desaparece sozinha antes dos 6 anos não corresponde à realidade. As meninas melhoram mais, e entre os que continuam gaguejando há cerca de 4 meninos para cada menina.

Gagueira em adulto

Algumas crianças não melhoram e chegam à idade adulta com gagueira. Esses adultos também podem se beneficiar do tratamento. A fonoterapia serve para crianças e para adultos e não depende da idade, mas a chance de melhora da criança é maior, porque o adulto conviveu muitos anos com o transtorno da fala.

SpeechEasy: o aparelho para gagueira

Para adultos existe uma opção interessante, o SpeechEasy. Ele se parece com um aparelho auditivo e pode ser usado em momentos específicos, quando a pessoa precisa de uma melhora na fala.

O aparelho faz a pessoa escutar a própria voz com alguns milissegundos de atraso. Essa escuta simula a fala em coro. Quando a pessoa com gagueira fala a mesma frase junto com outras pessoas, a gagueira melhora muito, e o mesmo acontece no canto. O SpeechEasy aproveita esse efeito, e a fala tende a melhorar enquanto ele está em uso.

Um exemplo é um discurso importante, em que a pessoa não quer gaguejar. O aparelho pode ajudar naquele momento. O SpeechEasy não é um tratamento. É uma solução momentânea, que só deve ser usada com a orientação do fonoaudiólogo, com a pessoa já em fonoterapia e depois de algum treinamento.

Num estudo com 31 adultos, o aparelho reduziu a gagueira em 79% na leitura e em 61% na fala espontânea, medidos no consultório. A fala, porém, continuou mais lenta que o normal, e o efeito no dia a dia, ao longo do tempo, ainda precisa ser mais estudado.

Vídeo: gagueira, causas e tratamento

O vídeo abaixo explica o que é a gagueira, o que causa, como identificar os sinais e como é o tratamento.

Perguntas frequentes

Qual é o nome técnico da gagueira?

Disfluência da fala. A gagueira que começa na infância também é chamada de gagueira do desenvolvimento, ou disfluência do neurodesenvolvimento.

Qual é o CID da gagueira?

Na CID-10, a gagueira tem o código F98.5.

Gagueira em criança de 3 anos é normal?

Algumas falhas na fala são esperadas nessa idade, e muitas crianças melhoram sozinhas. Repetições e bloqueios frequentes, esforço para falar ou casos de gagueira na família pedem avaliação, porque o tratamento precoce aumenta a chance de remissão.

Gagueira infantil vai e volta?

Pode ir e voltar. Em algumas crianças a gagueira aparece em fases, com períodos de fala fluente intercalados com períodos de gagueira. Essa oscilação não significa que o problema acabou.

Gagueira pode ser emocional ou por ansiedade?

A ansiedade não é a causa principal, porque a gagueira tem uma base orgânica no cérebro. Situações de tensão, porém, agravam a gagueira, e o nervosismo de não conseguir falar alimenta o problema.

Susto pode causar gagueira?

Um susto não cria a gagueira sozinho. Uma situação difícil pode servir de gatilho em quem já tem a predisposição orgânica, mas a origem está no funcionamento do cérebro.

Gagueira é contagiosa?

Não. A gagueira é um transtorno do neurodesenvolvimento e não passa de uma pessoa para outra pela convivência.

Existe remédio para gagueira?

Nenhum remédio é usado como tratamento de base. Antidepressivos, ansiolíticos e bloqueadores de dopamina foram testados, sem resultados consistentes e com efeitos colaterais. O tratamento principal é a fonoterapia.

Gagueira tem cura em adulto?

O adulto também pode melhorar com a fonoterapia, que não depende da idade. A chance de melhora é maior na criança, e por isso o tratamento cedo faz tanta diferença.

Por que quem gagueja não gagueja cantando?

Cantar e falar junto com outras pessoas, em coro, costumam melhorar muito a fluência. O ritmo externo parece ajudar o cérebro a dar a partida em cada parte da fala, e esse é o mesmo efeito que o SpeechEasy aproveita.

Quem trata a gagueira?

A avaliação médica define se a criança precisa começar a fonoterapia ou se é possível aguardar a remissão espontânea. Na OtoCare, a consulta com otorrino faz essa avaliação. O tratamento é feito pelo fonoaudiólogo, e a clínica oferece fonoterapia.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Gagueira (disfluência da fala): o que é, o que causa, como identificar e como tratar? YouTube, 30 abr. 2024. 1 vídeo (14 min 50 s). Disponível em: https://youtu.be/IQZFtW3lfgc. Acesso em: 29 set. 2026.
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Avaliação da gagueira em Brasília

Repetições, prolongamentos ou bloqueios frequentes na fala da criança, esforço para falar ou gagueira que continua na vida adulta pedem avaliação. A OtoCare, no Noroeste de Brasília, faz a consulta com otorrino para crianças e adultos e oferece fonoterapia na própria clínica.

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