Como cantar melhor: cuidados com a voz de quem canta

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Cantar melhor começa pela saúde da voz

Quem canta costuma chegar ao consultório com a mesma pergunta. O que fazer para cuidar bem da voz e para ela ficar melhor no canto? A resposta passa por cuidados simples do dia a dia, e quase todos eles servem também para quem não canta e quer uma voz saudável.

A técnica, a afinação e a respiração do canto se aprendem com a prática e com a aula de canto. A técnica, porém, rende menos numa prega vocal ressecada, inflamada pelo refluxo ou machucada pelo esforço. Por isso, para cantar melhor, cuidar da saúde da voz vem antes. Como a voz se forma na laringe e por que o canto pede um controle tão fino está na orientação sobre como a voz é produzida.

Os problemas de voz são comuns entre os cantores. Uma revisão de estudos encontrou queixa de alteração na voz em quase metade deles, em todos os estilos de canto. Muitos têm alguma alteração na laringe mesmo sem perceber nada de diferente na própria voz.

Três cantores sorrindo e cantando ao microfone em um palco iluminado, e a Dra. Larissa Vilela de blazer branco ao lado deles

Cigarro, cigarro eletrônico e álcool

A primeira dica para quem canta é ficar longe do cigarro e da bebida alcoólica. Isso inclui o cigarro comum e também o cigarro eletrônico. As duas substâncias fazem muito mal às pregas vocais, as cordas vocais, e pioram bastante a qualidade da voz, principalmente em quem tem uma demanda alta, como os cantores.

O cigarro está fortemente ligado ao edema de Reinke, o inchaço das pregas vocais que deixa a voz grossa. Mesmo depois de parar de fumar e de operar, a voz das mulheres com esse edema nem sempre volta a ser como era. O vapor do cigarro eletrônico também não é inofensivo, e quem usa todos os dias relata mais sintomas na voz.

O que o cantor deve evitar comer e beber

Para quem canta e usa muito a voz, a alimentação faz diferença. Em vários dos itens a seguir, o que pesa é o consumo repetido ao longo do dia.

Frituras, gorduras e o refluxo

Frituras e comidas gordurosas favorecem o refluxo gastroesofágico, hoje uma das principais causas de rouquidão. Nos cantores, os sintomas de refluxo aparecem em um quarto a dois terços deles, conforme o estudo. Em uma série brasileira de artistas atendidos por rouquidão, os que tinham sinais de refluxo na laringe tiveram mais crises de voz.

As dietas usadas contra o refluxo, com pouca gordura, pouca cafeína e sem álcool, reduziram os sintomas em boa parte dos pacientes, embora a qualidade desses estudos ainda seja baixa. Como o refluxo chega à garganta e o que muda na rotina estão nas orientações sobre refluxo laringofaríngeo e sobre como evitar o refluxo.

Café, refrigerante de cola e chás escuros

A cafeína resseca a prega vocal e atrapalha a qualidade da voz do cantor. Entram nessa conta o café, os refrigerantes de cola, inclusive os zero, e os chás escuros, como o chá preto, o chá verde e o chá-mate.

Algumas revisões de estudos não encontraram piora mensurável da voz depois da cafeína, e os próprios autores consideram essa evidência ainda fraca. A resposta muda de pessoa para pessoa, e a quantidade que cada cantor tolera pode ser avaliada caso a caso, na consulta.

Chocolate, leite e derivados

O chocolate também não é um bom aliado de quem precisa da voz. O leite e seus derivados aumentam a quantidade de muco na via respiratória, incluindo a laringe e as pregas vocais. Quando consumidos em excesso, podem trazer pigarro e até um pouco de rouquidão, dependendo da pessoa. O Ministério da Saúde também recomenda evitar leite, chocolate e refrigerantes antes de usar a voz por muito tempo.

Alguns estudos não encontraram aumento real da secreção depois do leite, embora a sensação de saliva mais grossa na garganta seja comum. A reação varia de pessoa para pessoa, e a quantidade de leite e derivados que cada cantor tolera pode ser avaliada caso a caso, na consulta.

Chás diuréticos e vitamina C em dose alta

Os chás diuréticos, como o de hibisco, têm seus benefícios e são naturais. Mesmo assim, não são bons para cantores, porque ressecam um pouco a prega vocal. Tomar um pouco não tem problema. O que pesa é passar o dia inteiro tomando chá diurético. Em um estudo, retirar líquido do corpo aumentou o esforço necessário para a prega vocal vibrar, e, na maioria dos participantes, o efeito passou com a reposição de líquido.

Um ponto que muitos cantores não conhecem é a vitamina C em dose muito alta. Doses acima de 1 grama por dia aumentam a eliminação de água pela urina e deixam a laringe e as pregas vocais um pouco mais secas. Por isso, longos ciclos de suplemento com dose alta de vitamina C não combinam com o canto.

Água e pausas: a hidratação da voz de quem canta

A prega vocal precisa estar bem hidratada para vibrar. A desidratação do corpo piora a voz, e beber água melhora. Em um estudo com cantores amadores de karaokê que cantaram por muito tempo, quem bebeu água e fez pequenas pausas manteve a voz. Quem cantou sem parar passou a alcançar notas menos agudas.

A água bebida não toca as pregas vocais e chega até elas pelo sangue, depois de absorvida. Por isso a hidratação se constrói ao longo do dia, e os goles durante o ensaio e o show completam esse cuidado. A quantidade e os outros cuidados gerais estão na orientação sobre como cuidar da voz, e o ar seco e o ar-condicionado, na orientação sobre tempo seco.

Pastilhas e sprays anestésicos antes de cantar

Usar pastilhas ou sprays para a garganta é um hábito muito comum de quem canta e de quem usa muito a voz. Os anestésicos, inclusive os naturais, como os de gengibre e de cravo, não são bons aliados, principalmente perto da hora do canto.

Eles alteram a sensibilidade do trato vocal. Com o efeito anestésico, o cantor percebe menos como tudo está funcionando na garganta e pode fazer força demais num momento em que as pregas vocais não aguentam abuso. Por isso a anestesia no trato vocal não é desejada em quem vai cantar. Se for usar pastilha ou spray anestésico, que seja de forma pontual e nunca perto do canto.

Frio e mudanças bruscas de temperatura

Para cantores, evitar mudanças bruscas de temperatura faz diferença. O frio muito intenso, sem proteção, também deve ser evitado. Em ambiente frio, proteger o pescoço e o corpo antes de cantar reduz o efeito da variação de temperatura, que, em quem precisa de alta performance vocal, pode deixar a voz um pouco rouca e prejudicar o show.

A água gelada é outra dúvida comum. Para beber antes de cantar, o Ministério da Saúde recomenda água em temperatura ambiente, que costuma ser a mais confortável. Se o gelado causa ou não dor de garganta é assunto da orientação sobre gelado e dor de garganta.

Aquecimento e desaquecimento vocal

Muitos cantores esquecem uma etapa importante, que é sempre aquecer e desaquecer a voz nas apresentações. O aquecimento vocal é importantíssimo, faz parte da prevenção das lesões das pregas vocais e melhora a qualidade da voz. O desaquecimento, depois de cantar, ajuda a voz a voltar ao uso do dia a dia.

Os estudos com cantores reforçam esse efeito. Depois do aquecimento, a voz cantada teve parâmetros acústicos melhores, e depois do desaquecimento, o tom da voz voltou a ficar mais baixo, mais próximo do da fala. Mesmo assim, o desaquecimento ainda é pouco feito. Em uma pesquisa com cantores, quase nove em cada dez aqueciam a voz, mas pouco mais de um em cada cinco desaquecia depois de cantar.

O exercício do som de z

Um exercício simples, que não precisa de nada, ajuda a aquecer a voz. Ele usa o som da letra z, feito de forma contínua, durante 2 minutos. Quando precisar respirar, a pessoa para, inspira, solta o ar e volta ao som. O rosto fica relaxado, sem força nos lábios nem contração na musculatura em volta da boca.

Durante o som de z, a prega vocal vibra de um jeito que aquece a musculatura e melhora a vibração da mucosa que a recobre. O ideal é fazer logo antes de cantar, até no caminho, no carro. É um exercício usado na fonoterapia da voz e não tem contraindicação. Os exercícios do aquecimento completo variam com o estilo e o repertório e podem ser definidos com o professor de canto ou na fonoterapia vocal, feita na OtoCare.

Remédios e hormônios que mudam a voz do cantor

Alguns remédios atrapalham a qualidade vocal, e conhecê-los evita surpresas antes de um show. Os remédios em geral podem mexer com a hidratação, com a mucosa e com a sensibilidade da laringe, às vezes de forma sutil.

Esteroides anabolizantes

Os anabolizantes são os que têm maior impacto na voz do cantor. São hormônios masculinos usados para ganhar massa muscular, para hipertrofia ou para emagrecer. Eles também fazem crescer a musculatura e os tecidos da laringe, e no fim das contas a prega vocal fica mais grossa. A voz engrossa, o cantor não consegue mais alcançar os tons agudos e pode surgir rouquidão.

Quando a reposição de testosterona ou de outro hormônio é necessária por um problema de saúde, o uso tem justificativa. Para fins estéticos, não vale a pena, porque a voz tende a mudar e muitas vezes não volta ao que era antes. Os estudos com mulheres que usaram testosterona descrevem a mesma voz mais grave, com perda de extensão, e uma mudança que pode ser permanente. Quando o anabolizante já mudou a voz, o tratamento está explicado na orientação sobre voz grossa por anabolizantes.

Descongestionantes e antidepressivos

Quando o nariz entope num resfriado, muitos cantores recorrem ao descongestionante para conseguir respirar e cantar. O alívio no nariz tem um preço na laringe, porque o remédio resseca a prega vocal e engrossa o muco, e a voz piora. Os tipos de descongestionante e os cuidados com cada um estão na orientação sobre descongestionante nasal, e os antialérgicos que mais ressecam, na orientação sobre antialérgico para gripe e resfriado.

Os antidepressivos também podem deixar a região das pregas vocais mais ressecada e piorar a qualidade da voz. Em um estudo brasileiro, os remédios com efeito colateral direto na voz, de vários tipos, estiveram ligados à sensação de garganta seca. Quem toma antidepressivo não deve parar por conta própria. Se a voz mudar, a consulta com otorrino avalia a causa.

Receita antiga e remédio do amigo

Repetir a receita de uma rouquidão anterior, ou usar o remédio que funcionou para um amigo, é uma prática comum e perigosa. A rouquidão de hoje pode ter outra causa, e um remédio inadequado pode prejudicar a laringe e as pregas vocais.

Gritar, sussurrar e pigarrear

Alguns hábitos forçam as pregas vocais e somam esforço à rotina do canto. Gritar, falar alto por cima do barulho e pigarrear fazem as pregas vocais baterem com força uma na outra. Sussurrar parece poupar a voz, mas também aumenta a tensão da laringe, e quando a voz está cansada o melhor descanso é o silêncio. Quando o pigarro vira hábito, ele tem um motivo a investigar, e as alternativas a ele estão explicadas na orientação sobre pigarro constante.

O atrito repetido é o que forma os calos das cordas vocais, os nódulos vocais. O microfone, no ensaio e no show, diminui o esforço para a voz chegar ao público.

Rouquidão no cantor: quando procurar o otorrino

Se a voz não está boa, se está rouco e precisa de ajuda, o caminho é procurar o otorrinolaringologista. A avaliação é feita com o exame da laringe em vídeo, a videolaringoscopia ou a videoestroboscopia, que mostram as pregas vocais em funcionamento. Com o diagnóstico, a medicação correta é indicada, se for o caso. Tomar remédio por conta própria pode trazer uma série de malefícios.

Merecem atenção a rouquidão que não passa, a voz que cansa rápido, a dor ao cantar, a voz mais grossa e a perda das notas agudas. Cantar rouco ou com dor aumenta o risco de machucar as pregas vocais. Rouquidão que dura mais de duas semanas precisa de avaliação, como explica a orientação sobre como cuidar da voz. No profissional da voz, a diretriz americana sobre rouquidão recomenda não esperar o prazo habitual para examinar a laringe, porque a voz é o instrumento de trabalho.

Na OtoCare, o exame da laringe faz parte da própria consulta. A nasofibrolaringoscopia usa uma câmera fina que mostra as pregas vocais enquanto o cantor fala e emite sons. As alterações mais comuns nos cantores, como os nódulos e a fenda vocal, aparecem nesse exame.

Revisão com otorrino a cada três meses

Para os cantores, a orientação é consultar o otorrinolaringologista com frequência, de preferência a cada três meses. Nessa revisão, o exame mostra o estado da laringe, o jeito como a voz está sendo produzida e qualquer lesão ou fenda no início, quando ainda dá para agir de forma preventiva, antes de o problema crescer.

Tratar depois que a lesão já se instalou, ou com a prega vocal já machucada, é mais difícil e demora mais. Os estudos reforçam a revisão. Muitos cantores que se sentem bem têm alguma alteração na laringe sem perceber, e os próprios autores destacam a importância de um exame de referência para comparar nas consultas seguintes. Com a abordagem preventiva e visitas a cada três meses, ou sempre que for possível, a corda vocal fica bem cuidada.

Vídeo: como cantar melhor e cuidar bem da voz

O vídeo reúne os cuidados de quem canta, com o que evitar na alimentação, as pastilhas, o aquecimento, os remédios que mudam a voz e a revisão periódica com otorrino.

Perguntas frequentes

O que é bom para a voz antes de cantar?

Água ao longo do dia, uma refeição leve e o aquecimento vocal, como o exercício do som de z por 2 minutos. Perto da hora de cantar, convém deixar de lado o café, o chocolate, o leite, as frituras e as pastilhas anestésicas.

Como limpar a voz para cantar?

Nenhum alimento ou bebida limpa as pregas vocais, porque o que se engole vai para o esôfago com a laringe fechada. A sensação de voz suja costuma vir do muco ou do pigarro. Diminuir o leite e o chocolate antes de cantar, beber água e tratar a causa do pigarro ajudam mais do que pigarrear.

Mel, gengibre e limão melhoram a voz?

Não há estudos mostrando que eles melhorem a voz ou limpem as pregas vocais. As pastilhas e os sprays de gengibre ou de cravo com efeito anestésico não devem ser usados perto da hora de cantar.

Cantar pode inflamar a garganta?

Cantar muito tempo, com esforço ou sem aquecimento, cansa as pregas vocais e pode deixar a voz rouca e a garganta dolorida. Dor ao cantar não é normal. Se ela se repete ou a voz não volta, a avaliação com otorrino mostra se existe inflamação ou lesão.

Posso cantar rouco ou gripado?

O melhor é poupar a voz enquanto estiver rouco, porque forçar a prega vocal inflamada aumenta o risco de lesão. Na gripe, o descongestionante tomado para conseguir cantar resseca a voz. Se a apresentação não pode ser adiada, a consulta antes do show ajuda a decidir.

Como recuperar a voz depois de cantar muito?

Descanso vocal, em silêncio e não cochichando, e água ao longo do dia. O exercício do som de z, 2 a 3 vezes ao dia, durante 2 minutos, ajuda a voz a voltar ao normal mais rápido. Se ela não melhorar, procure avaliação.

Quanto tempo de aquecimento antes de cantar?

O exercício do som de z leva 2 minutos e pode ser feito logo antes de cantar. A rotina completa de aquecimento varia com o estilo, o repertório e a duração da apresentação, e costuma ser montada com o professor de canto ou na fonoterapia vocal, que a OtoCare oferece.

Dá para melhorar a voz para cantar em 5 minutos?

O aquecimento já melhora a voz na hora, e o som de z em 2 minutos é um exemplo. A melhora que dura vem da prática, da técnica aprendida nas aulas e de uma laringe saudável.

Cantor pode tomar café?

A cafeína resseca a prega vocal e atrapalha a voz, por isso o café deve ficar longe da hora de cantar e não ser tomado o dia inteiro. Uma xícara ocasional, longe do show e acompanhada de água, não costuma trazer problema.

O microfone ajuda a cantar melhor?

Ajuda a poupar a voz. Com o som amplificado, o cantor não precisa forçar para ser ouvido, principalmente em ambiente grande ou barulhento. O uso do microfone, porém, também tem técnica, que se aprende nas aulas de canto.

O que é cantar com o diafragma?

É a forma popular de falar do apoio respiratório no canto, o controle da saída do ar enquanto as pregas vocais vibram. Essa coordenação entre a respiração e a voz é trabalhada nas aulas de canto e na fonoterapia vocal.

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Avaliação da voz do cantor na OtoCare, em Brasília

Cantor com rouquidão, voz cansada, perda dos agudos ou que quer fazer a revisão preventiva pode agendar a consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília. A laringe é examinada na própria consulta, e a fonoterapia vocal também é feita na clínica. Outras orientações estão na página de orientações aos pacientes.