Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Uma engenharia complexa por trás de cada palavra
Falar, cantar, rir e chamar alguém parecem gestos simples. Por trás deles existe um sistema muito complexo, uma engenharia elaborada que coloca várias partes do corpo para trabalhar juntas, ao mesmo tempo, a cada palavra. Entender esse caminho ajuda a cuidar melhor da voz e a perceber quando alguma coisa não vai bem.
A produção da voz acontece em três etapas. O ar que sai dos pulmões fornece a energia. Na laringe, no meio do pescoço, as pregas vocais vibram e transformam esse ar em um som primário. Depois, a garganta, o nariz e os seios da face dão ressonância a esse som, e a língua, os lábios, os dentes e o céu da boca o transformam em vogais e consoantes.

Os pulmões: de onde vem a energia da voz
A voz começa a ser produzida nos pulmões, e não na garganta. Para falar ou emitir qualquer som, o primeiro passo é uma inspiração completa. Em seguida, o ar é impulsionado para cima pela traqueia até chegar à laringe.
Esse ar funciona como a fonte de energia da voz. Ele forma uma pressão logo abaixo das pregas vocais, chamada de pressão subglótica, e essa pressão coloca as pregas em vibração. Por isso, uma boa força dos pulmões na expiração faz parte de uma boa voz.
A mesma pressão comanda boa parte do volume. Os estudos de biomecânica da voz mostram que, para falar mais alto, o corpo aumenta a pressão do ar que sai dos pulmões, e as pregas vocais passam a vibrar com mais amplitude. Para falar baixo, a pressão diminui.
A laringe e o pomo de Adão
A laringe fica mais ou menos no meio do pescoço e guarda as pregas vocais. Ela tem um arcabouço, ou seja, uma estrutura de sustentação, formada por cartilagens, músculos e ligamentos.
Nos homens, a laringe tem um marco bem nítido, o pomo de Adão, a parte mais saliente da frente do pescoço. Ao passar a mão no pescoço masculino, ele é sentido com clareza. O pomo de Adão indica onde está a cartilagem tireoide, uma das cartilagens que formam a estrutura da laringe. Nas mulheres a cartilagem é a mesma, mas costuma ser bem menos saliente. Para quem se incomoda com um pomo de Adão muito aparente, existe a cirurgia de redução do pomo de Adão.
A laringe não serve só para a voz. Na respiração, as pregas vocais ficam abertas para o ar passar. Ao engolir, a entrada da laringe se fecha para proteger os pulmões dos alimentos. Essas funções de proteção, e o que acontece quando elas ficam desreguladas, estão na orientação sobre a laringe irritada.
O que são as pregas vocais
As pregas vocais são conhecidas popularmente como cordas vocais. O nome usado pelos médicos descreve melhor o que elas são. Não são fios esticados. São pregas mesmo, cada uma formada por uma dobra de músculo coberta por uma mucosa. Existe uma de cada lado, e as duas ficam na posição horizontal, dentro da laringe.
Vistas de perto, as pregas vocais têm camadas. Por dentro fica o músculo, chamado tireoaritenóideo. Por cima dele vem uma camada de tecido macio, a lâmina própria, e por fora o epitélio, a parte mais superficial da mucosa. O músculo dá corpo e firmeza à prega. A cobertura macia é a parte que ondula durante a vibração. Quando essa cobertura incha, como no edema de Reinke causado pelo cigarro, ou ganha um calo, como no nódulo vocal, a vibração muda e a voz fica rouca.
Os músculos da laringe abrem, fecham, alongam e encurtam as pregas vocais. Eles recebem o comando do cérebro pelo nervo vago, principalmente por um ramo chamado nervo laríngeo recorrente. Uma lesão desse nervo pode paralisar uma das pregas vocais e deixar a voz fraca e rouca. A paralisia e uma das cirurgias que aproximam a prega parada da outra estão na página da tireoplastia tipo I.
Como as pregas vocais vibram e formam o som
Abertas durante a respiração, as pregas vocais se fecham quando a pessoa tem a intenção de emitir um som. O ar que vem dos pulmões fica retido logo abaixo das pregas fechadas e faz pressão sobre elas.
Chega um momento em que essa pressão vence a resistência, e as pregas se abrem um pouco pela força do ar. Logo em seguida, a mucosa é puxada de volta e as pregas voltam a se fechar. Uma das forças desse fechamento se chama efeito Bernoulli, a sucção criada quando o ar passa depressa por um espaço estreito. A outra é a própria elasticidade do tecido, que tende a voltar à posição de antes.
Esse abrir e fechar se repete muitas vezes por segundo, de centenas a até milhares de vezes. A cada fechamento, a passagem do ar é interrompida por um instante, e o fluxo contínuo vira uma sequência de pequenos pulsos de ar. Esses pulsos formam o som primário da laringe, ainda bruto, antes de ganhar a forma da fala.
O cérebro não manda um comando para cada vibração. Ele ajusta a posição, a tensão e o fechamento das pregas, e, quando a pressão do ar passa de certo limite, a vibração se mantém sozinha. Os estudos de biomecânica deram mais peso, nos últimos anos, à elasticidade do tecido e ao movimento em onda da mucosa, a onda mucosa, que transfere a energia do ar para as pregas. Nesses trabalhos, o efeito Bernoulli aparece como uma das forças do ciclo, com papel menor do que muitos livros ainda descrevem. O ciclo não muda. A pressão do ar abre as pregas, e a sucção e a elasticidade as fecham.
Voz grave e voz aguda: o que muda o tom
O tom da voz, mais grave ou mais agudo, depende de quantas vezes por segundo as pregas vocais vibram. Essa medida se chama frequência fundamental e é dada em hertz (Hz). Mais vibrações por segundo deixam a voz mais aguda.
Na voz dos adultos, as pregas vibram de cem a pouco mais de duzentas vezes por segundo. Um estudo brasileiro que mediu vogais sustentadas em adultos de 20 a 45 anos com voz normal encontrou média de cerca de 206 Hz nas mulheres e de 119 Hz nos homens. Nas crianças pequenas, os valores ficam em torno de 257 a 275 Hz. No canto, a frequência sobe bem mais. Em um estudo com sopranos líricas, as notas mais agudas passaram de mil vibrações por segundo, com as pregas vocais ainda se tocando a cada ciclo.
O tamanho das pregas pesa muito no tom. Pregas vocais menores vibram mais rápido, e por isso a voz das crianças é a mais aguda, seguida pela das mulheres e depois pela dos homens. Na mesma pessoa, o tom muda o tempo todo durante a fala. Para subir, músculos da laringe, em especial o cricotireóideo, alongam as pregas vocais, que ficam mais tensas e vibram mais rápido. Para descer, elas ficam mais curtas e mais frouxas.
A espessura também conta, e pregas mais grossas tendem a deixar a voz mais grave. Nos homens, a testosterona engrossa os ligamentos das pregas vocais, o que contribui para a voz mais grave. Pelo mesmo motivo, os anabolizantes, derivados da testosterona, podem mudar a voz, como mostra a orientação sobre voz grossa por anabolizantes.
A caixa de ressonância: garganta, nariz e seios da face
O som primário formado na laringe ainda não é a voz que se ouve. Ele segue para a caixa de ressonância, também chamada de trato vocal, que inclui a garganta (a faringe), a boca, o nariz e os seios paranasais, as cavidades de ar dentro dos ossos da face.
Essas cavidades funcionam como um filtro. Elas reforçam alguns sons e abafam outros, e o som ganha corpo e as características que tornam a voz reconhecível. Os pesquisadores chamam esse modelo de teoria fonte-filtro. A laringe é a fonte do som, e o trato vocal é o filtro que dá forma a ele.
O nariz participa de alguns sons. Quando o palato mole, a parte de trás do céu da boca, se abaixa, a cavidade do nariz se junta à da boca e o som passa a ressoar nas duas. Assim se formam as consoantes nasais, como o m e o n, e as vogais nasais, muito presentes no português.
Articulação: como nascem as vogais e as consoantes
Com movimentos do palato, da língua, dos lábios e dos dentes, o som primário é articulado e vira fala. Cada posição da língua e cada abertura da boca mudam o formato da caixa de ressonância e, com ele, o som que sai. Com os movimentos da língua se formam as vogais, a, e, i, o, u.
As consoantes surgem quando os lábios, os dentes e a língua se juntam ou se aproximam e interrompem ou estreitam a passagem do ar em pontos diferentes da boca. O p e o b, por exemplo, nascem do encontro dos lábios.
Esse mecanismo vale para qualquer língua. Em português, inglês ou francês, as vogais e as consoantes são produzidas na mesma região, a boca e a garganta, com ajustes da língua, dos lábios e dos dentes. As crianças aprendem esses movimentos aos poucos, e os marcos de cada idade estão na orientação sobre atraso na fala. O mesmo processo serve à fala, ao canto e a todos os sons emitidos ao longo da vida.
Por que cada pessoa tem uma voz única
Cada pessoa tem a sua voz, quase como uma impressão digital. A voz é muito individual porque cada um tem a sua anatomia, com o seu tamanho de laringe, a sua espessura de prega vocal, a sua forma de garganta e de nariz e o seu formato de rosto, com os seios paranasais.
A ressonância torna cada voz única. Somada ao jeito de cada um mover a língua e os lábios, ela permite que, muitas vezes, uma pessoa seja reconhecida só pela voz, sem ser vista. Além das palavras, a voz carrega informações sobre quem fala, como o estado emocional.
Como a voz muda ao longo da vida
Na puberdade
Na puberdade, a laringe cresce, principalmente nos meninos, sob a influência dos hormônios masculinos, sobretudo a testosterona. As pregas vocais ficam mais longas e a voz fica mais grave. A parte da frente da cartilagem tireoide cresce junto e forma o pomo de Adão. Nos dados brasileiros, a diferença entre a voz de meninos e meninas começa por volta dos 12 anos, e nos meninos o tom cai até os 13 a 15 anos e depois se estabiliza. Nos meninos, um estudo britânico mostrou que essa mudança costuma ser rápida e acontecer no fim da puberdade. A voz das meninas também fica mais grave, de forma bem mais discreta e gradual.
No envelhecimento
Com os anos, a laringe também envelhece. As cartilagens podem calcificar, a mucosa fica menos lubrificada, a lâmina própria fica mais rígida e o músculo enfraquece. Esse envelhecimento se chama presbilaringe, e a voz que resulta dele, presbifonia, pode ficar mais fraca, soprosa ou rouca. Nas mulheres, o tom costuma cair, em até cerca de 40 Hz. Nos homens, quando muda, tende a subir um pouco.
Nem toda mudança de voz no idoso vem da idade. Uma revisão de estudos encontrou que a presbifonia responde por perto de 18% das alterações de voz em idosos, e as demais têm outras causas, que o exame da laringe ajuda a identificar.
Quando a produção da voz falha
Como a voz depende de tantas partes, uma alteração em qualquer etapa aparece no som. Alguns exemplos:
- pregas vocais que não fecham por completo deixam escapar ar, e a voz fica soprosa, como na fenda vocal;
- alterações na cobertura das pregas, como nódulos, pólipos, cistos e o sulco vocal, atrapalham a onda mucosa e causam rouquidão;
- a inflamação da laringe pelo refluxo laringofaríngeo pode deixar a voz rouca e provocar pigarro;
- alterações neurológicas mudam o controle dos músculos da laringe, como no tremor vocal e na disfonia espasmódica.
Por toda essa complexidade do sistema da voz, da fala, do canto e da linguagem, a voz merece muito cuidado. Qualquer alteração persistente da voz, qualquer rouquidão, qualquer coisa estranha na voz pede avaliação com o otorrinolaringologista. A Academia Brasileira de Laringologia e Voz e a ABORL-CCF orientam avaliar a rouquidão que dura duas semanas ou mais.
Na OtoCare, a nasofibrolaringoscopia, feita no consultório, mostra as pregas vocais em movimento e ajuda a encontrar a causa da alteração. Quando indicada, a fonoterapia vocal, também feita na clínica, ajuda a reabilitar a voz. Os cuidados do dia a dia que protegem cada etapa da voz estão na orientação sobre como cuidar da voz.
Vídeo: como a voz é produzida
O vídeo mostra o caminho da voz desde os pulmões, a posição da laringe e do pomo de Adão, o abrir e fechar das pregas vocais, a ressonância na garganta, no nariz e nos seios da face e a formação das vogais e das consoantes.
Perguntas frequentes
Pregas vocais e cordas vocais são a mesma coisa?
São. Cordas vocais é o nome popular, e pregas vocais é o nome usado por médicos e fonoaudiólogos. O termo técnico foi adotado porque elas não são cordas, e sim dobras de músculo cobertas por mucosa.
Onde ficam as cordas vocais: na laringe ou na faringe?
Na laringe. A faringe é a garganta, o tubo que fica atrás do nariz e da boca. A laringe fica abaixo da base da língua e acima da traqueia, no meio do pescoço, e as pregas vocais se prendem na frente da cartilagem tireoide, um pouco abaixo do ponto mais saliente do pomo de Adão.
As cordas vocais são músculos?
Em parte. Cada prega vocal tem um músculo por dentro, o tireoaritenóideo, coberto por uma camada macia e pela mucosa. A prega vocal não é um órgão separado, e sim parte da laringe.
Qual é o órgão responsável pela produção da voz?
A laringe. Nela ficam as pregas vocais, que vibram e produzem o som primário da voz. Os pulmões dão a energia, e a garganta, o nariz e a boca dão ressonância e forma a esse som.
Quais órgãos formam o aparelho fonador?
O aparelho fonador reúne três partes. Os pulmões e a traqueia fornecem o ar, a laringe com as pregas vocais produz o som, e a faringe, a boca, o nariz e os seios paranasais dão ressonância, enquanto a língua, os lábios, os dentes e o palato articulam as palavras.
O que são as pregas vocais falsas?
São as pregas vestibulares, duas dobras de mucosa que ficam logo acima das pregas vocais verdadeiras. Na voz normal, quem vibra são as pregas vocais verdadeiras.
O que é adução e abdução das pregas vocais?
Adução é o movimento de aproximar as pregas vocais, que acontece para falar. Abdução é o movimento de afastar, que abre a passagem do ar na respiração. Na laringe, um único músculo de cada lado, o cricoaritenóideo posterior, faz a abertura.
O que é a glote?
Glote é o espaço entre as duas pregas vocais. Ela se abre na respiração e se fecha, ou quase se fecha, na fala. Quando o fechamento é incompleto, fica uma fenda por onde o ar escapa.
Como a voz é produzida no canto?
O mecanismo é o mesmo da fala, com as pregas vocais vibrando e a caixa de ressonância moldando o som. O canto pede um controle muito mais fino da altura, da intensidade e da ressonância, e os cantores ganham esse controle dos músculos da laringe com anos de prática.
Qual a relação entre as cordas vocais e a tireoide?
O nome é parecido, mas são estruturas diferentes. A cartilagem tireoide faz parte da laringe e forma o pomo de Adão. A glândula tireoide fica abaixo, na frente da traqueia. A ligação está no nervo laríngeo recorrente, que passa junto à glândula e comanda as pregas vocais, e por isso as cirurgias da tireoide exigem cuidado para preservar a voz.
O que significa pregas vocais com mobilidade preservada no laudo?
Quer dizer que as duas pregas vocais se movimentam normalmente no exame, abrindo na respiração e fechando na fala. A expressão descarta paralisia, mas não descarta alterações na mucosa, que o laudo descreve à parte.
O que é hiperemia nas pregas vocais?
Hiperemia é vermelhidão da mucosa causada por aumento do fluxo de sangue, um sinal de irritação ou inflamação. Sozinha, ela não diz a causa, que é investigada junto com os sintomas e o restante do exame.
Referências
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Avaliação da voz na OtoCare, em Brasília
Rouquidão que não passa, voz que cansa, falha ou mudou sem explicação merecem avaliação. Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, a laringe é examinada, a causa da alteração é investigada e o tratamento é definido para cada caso. Outras orientações estão na página de orientações aos pacientes.