Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Por que cuidar da voz
A voz é o meio de comunicação mais importante que temos, e por isso cuidar da saúde vocal importa para todo mundo. Alguns cuidados simples do dia a dia, a maior parte deles de graça, ajudam as pregas vocais a trabalhar bem e diminuem o risco de rouquidão.
Saber como cuidar da voz é ainda mais importante para os profissionais da voz, as pessoas que dependem da voz para trabalhar, como cantores, professores, advogados e recepcionistas, e para os idosos, que ficam roucos com mais facilidade. Nesses grupos, a atenção com a voz precisa ser redobrada.
A seguir estão dez dicas para cuidar da voz. As cinco primeiras mostram o que faz bem para a voz, e as outras cinco, o que faz mal para a voz e deve ser evitado. Depois vêm os pontos que mais geram dúvida, como a alimentação, a água gelada, as pastilhas, os cuidados de quem dá aula ou canta e a voz rouca que não melhora.

Como a voz é produzida
A voz começa nos pulmões. O ar sobe pela traqueia e chega à laringe, no meio do pescoço, onde ficam as pregas vocais, também chamadas de cordas vocais. São duas dobras de músculo cobertas por uma mucosa, uma de cada lado. Na respiração elas ficam abertas. Para falar, elas se fecham, e a pressão do ar que vem de baixo faz a mucosa abrir e fechar muitas vezes por segundo, até milhares de vezes.
Essa vibração forma o som primário da voz. Ele ganha ressonância na garganta, no nariz e nos seios da face e vira vogais e consoantes com os movimentos da língua, dos lábios, dos dentes e do céu da boca. Como o tamanho da laringe, a espessura das pregas vocais e o formato da garganta, do nariz e do rosto mudam de uma pessoa para outra, cada um tem uma voz única, quase como uma impressão digital.
Para vibrar direito, a mucosa das pregas vocais precisa estar bem hidratada e sem inflamação. Quase todos os cuidados com a voz servem para proteger essa vibração, mantendo a hidratação, evitando o que resseca e irrita e não forçando as pregas vocais além da conta.
5 cuidados que fazem bem para a voz
1. Beba muita água
É a primeira dica, a mais importante de todas, e é de graça. Para a prega vocal vibrar e emitir sons, ela precisa de uma hidratação ideal. Um estudo brasileiro com 422 professores mostrou que os que não bebiam água tinham mais chance de ter rouquidão do que os que bebiam com frequência. Outros estudos mostram que, com o corpo bem hidratado, a voz sai com menos esforço, e uma revisão sistemática concluiu que beber água é a forma mais simples e barata de melhorar a qualidade da voz.
A água bebida não passa pelas pregas vocais. Na hora de engolir, a laringe se fecha para proteger os pulmões. A hidratação chega às pregas vocais por dentro do corpo, depois que a água é absorvida. Por isso o que conta é beber ao longo do dia inteiro, e não só um gole antes de falar.
2. Use microfone em ambientes grandes ou barulhentos
Falar em lugar grande ou com muito ruído obriga a aumentar a intensidade e a força da voz. O microfone, ou outro amplificador de som, diminui esse esforço, causa menos desgaste vocal e ajuda a manter a qualidade da voz por mais tempo. Para quem precisa falar nesse tipo de ambiente, o uso de microfone é importantíssimo.
Um estudo com 44 professores com problema de voz comparou o uso de um amplificador portátil com aulas de higiene vocal e com um grupo sem tratamento. Em seis semanas, os dois tratamentos ajudaram mais do que ficar sem tratamento, e só o grupo do amplificador teve melhora significativa nas escalas de voz e nas medidas acústicas. Esses professores também contaram que a voz ficou mais fácil de produzir.
3. Faça pequenas pausas vocais durante o dia
Um repouso vocal de alguns minutos já reduz a fadiga vocal e ajuda a recuperar as pregas vocais depois de um período de uso intenso. Não é preciso passar o dia calado. Pausas curtas, espalhadas ao longo do dia, já fazem diferença.
O professor que dá uma aula de uma hora, por exemplo, pode passar uma atividade para os alunos no meio da aula e ganhar alguns minutos de descanso, em vez de falar o tempo inteiro. A mesma ideia vale para quem atende o público ou passa horas ao telefone.
4. Cuide da umidade do ambiente
A umidade do ar tem impacto direto na qualidade vocal, porque a prega vocal precisa de umidade para produzir uma voz boa. No clima seco, como na seca de Brasília, a orientação é melhorar a umidade de casa e do trabalho com umidificador, climatizador, bacias de água ou plantas no ambiente. O ar-condicionado também resseca as mucosas, e quem passa o dia nele precisa beber ainda mais água.
Quando e como usar o aparelho sem exagero está na orientação sobre umidificador de ar. Para quem já sente a garganta seca, a nebulização com soro fisiológico leva umidade até a laringe, como explica a orientação sobre nebulização.
5. Pratique atividade física
Alguns estudos mostram a importância da atividade física também para a voz. As pessoas que se exercitam têm menos rouquidão e menos predisposição a alguns tipos de lesão das pregas vocais. Em um estudo com mais de 3 mil professores de Belo Horizonte, os que não faziam atividade física tinham mais problemas de voz do que os que se exercitavam três ou mais vezes por semana.
Manter o exercício físico em dia, portanto, também faz parte de uma boa saúde vocal.
5 hábitos que fazem mal para a voz
1. Não fume
O cigarro comum, o cigarro eletrônico, conhecido como vape, e qualquer outro tipo de fumo irritam diretamente a via respiratória, incluindo as pregas vocais, e aumentam o risco de rouquidão. O cigarro é também o principal fator de risco para o câncer de laringe, e o risco se multiplica quando o fumo vem junto com o álcool em excesso.
Em quem fuma há muitos anos, a voz muitas vezes fica rouca e mais grossa por um inchaço das pregas vocais, explicado na orientação sobre edema de Reinke.
2. Evite o excesso de álcool e de café
O álcool e a cafeína estão ligados ao ressecamento da via respiratória e, por consequência, da prega vocal, o que pode piorar a qualidade da voz. Os dois também podem favorecer o refluxo, que irrita as pregas vocais e pode levar à rouquidão, como mostra a orientação sobre refluxo laringofaríngeo. Quem quer cuidar da voz deve evitar o excesso de álcool e de café.
Uma revisão de estudos com professores encontrou o consumo de cafeína entre os fatores de risco para problemas de voz. Em pessoas sem problema de voz, os poucos estudos que mediram a voz depois de café ou de cafeína não encontraram piora, e os próprios autores consideram essas pesquisas insuficientes para uma conclusão firme. A quantidade que cada pessoa tolera pode ser avaliada caso a caso, na consulta.
3. Não grite, não fale alto demais e não sussurre
Gritar, falar muito alto e até sussurrar forçam as pregas vocais e podem levar a lesões. O sussurro surpreende muita gente, porque parece uma forma de poupar a voz. Só que sussurrar faz um movimento de força na laringe. Um estudo que filmou a laringe de 100 pacientes falando e sussurrando encontrou mais tensão durante o sussurro em cerca de sete a cada dez.
Quando a voz está cansada ou rouca, o melhor descanso é o silêncio, e não o cochicho. O atrito repetido entre as pregas vocais é o que forma os calos nas cordas vocais, tema da orientação sobre nódulo vocal.
4. Evite pigarrear e tossir demais
Pigarrear e tossir demais também podem machucar a prega vocal, porque provocam atrito entre uma prega e a outra. Quando o pigarro ou a tosse aparecem muito, o caminho é a avaliação com otorrino, para descobrir a causa e tratar. As causas mais comuns e o que fazer no lugar de pigarrear estão na orientação sobre pigarro constante.
5. Evite descongestionantes orais e antialérgicos antigos
Alguns remédios ressecam a prega vocal e pioram a qualidade da voz. Os principais são os descongestionantes orais e os antialérgicos, principalmente os mais antigos, de primeira geração, como o Polaramine®. Em alguns pacientes, eles deixam a voz um pouco pior e um pouco mais rouca.
Esse cuidado vale principalmente para cantores e profissionais da voz, que precisam de uma qualidade vocal muito boa. As diferenças entre as gerações de antialérgicos estão na orientação sobre antialérgico para gripe e resfriado.
Os antidepressivos também podem ressecar a região das pregas vocais. Quem toma antidepressivo e nota a voz mais seca ou rouca não deve parar o remédio por conta própria. A alteração na voz pode ser avaliada na consulta com otorrino.
Alimentação e voz: o que evitar
Para quem usa muito a voz, alguns alimentos e bebidas atrapalham quando consumidos em excesso. Um pouco não causa problema nenhum. O que pesa é o consumo frequente, ao longo do dia todo. Os principais são estes.
- Frituras e gorduras, que favorecem o refluxo, hoje uma das principais causas de rouquidão.
- Bebidas com cafeína, como café, refrigerantes de cola, mesmo os sem açúcar, e chás escuros, como chá preto, chá verde e chá-mate. A cafeína resseca a prega vocal.
- Chocolate.
- Leite e derivados, que aumentam a quantidade de muco na via respiratória, incluindo a laringe, e podem trazer pigarro e até um pouco de rouquidão.
- Chás diuréticos, como o de hibisco. Mesmo naturais e com seus benefícios, eles ressecam um pouco a prega vocal.
Outro ponto pouco conhecido é a vitamina C em dose alta. Acima de 1 grama por dia, ela tem ação diurética e desidrata um pouco a laringe e as pregas vocais. Por isso, longos períodos tomando vitamina C em dose alta não combinam com quem precisa da voz.
Água gelada, maçã, gengibre e pastilhas
Muita gente evita água gelada para proteger a voz. Para a hidratação das pregas vocais, o que conta é a quantidade de água bebida ao longo do dia. Em algumas pessoas, a bebida muito gelada irrita a garganta por alguns instantes e muda a voz de forma passageira, e para elas a água fresca ou em temperatura ambiente é mais confortável. A relação entre o gelado, a dor de garganta e as infecções está na orientação sobre gelado e dor de garganta.
A maçã aparece em muitas listas como um alimento que limpa as cordas vocais. Pelo mesmo motivo da água, ela não passa por elas, já que o alimento vai para o esôfago com a laringe fechada. A maçã é uma boa fruta, mas não limpa as pregas vocais.
Pastilhas e sprays anestésicos para a garganta, inclusive os naturais, como os de gengibre e de cravo, são um hábito comum de quem canta ou fala muito. Por terem efeito anestésico, eles reduzem a sensibilidade do trato vocal. Com a percepção diminuída, a pessoa não sente direito como a voz está funcionando e pode fazer força demais num momento em que as pregas vocais não aguentam abuso. Para quem canta, eles não são bons aliados. Se for usar, que seja de forma pontual e nunca perto da hora de cantar.
Cuidados com a voz para professores
O professor está entre os profissionais que mais usam a voz, muitas vezes em sala grande e barulhenta, e por isso tem mais risco de rouquidão. Os cuidados que mais ajudam são os que diminuem o esforço, como o microfone na sala de aula, as pausas com atividades para os alunos no meio da aula e a garrafa de água sempre por perto.
Evitar falar por cima do barulho e dar descanso à voz quando estiver rouco ou gripado também poupam as pregas vocais. Rouquidão que se repete, cansaço ao falar no fim do dia ou falhas na voz durante a aula merecem avaliação com otorrino. A fonoterapia, feita na OtoCare, ensina a usar a voz com menos esforço e faz parte da prevenção para quem trabalha falando.
Cuidados com a voz para quem canta
Os cantores têm uma demanda de voz ainda maior, e alguns cuidados fazem diferença na hora de cantar. O primeiro é sempre aquecer a voz antes e desaquecer depois das apresentações. O aquecimento vocal faz parte da prevenção das lesões das pregas vocais e melhora a qualidade da voz, e muitos cantores esquecem dessa etapa.
O segundo é evitar mudanças bruscas de temperatura e frio intenso sem proteção. Quem precisa cantar em ambiente frio deve proteger o pescoço e o corpo, porque a variação de temperatura pode causar um pouco de rouquidão e atrapalhar o desempenho na hora do canto.
Entre os remédios e hormônios, os esteroides anabolizantes são os que mais afetam a voz do cantor. Eles engrossam a prega vocal, a voz fica mais grave, o cantor perde os tons mais agudos, e muitas vezes a voz não volta ao que era antes. Fora dos casos em que a reposição hormonal é indicada por um problema de saúde, usá-los por estética não compensa. O tratamento dessa alteração está na orientação sobre voz grossa por anabolizantes.
Na gripe e no resfriado, é comum o cantor tomar descongestionante para respirar melhor e conseguir cantar. O descongestionante resseca a prega vocal e deixa o muco mais espesso, o que também piora a voz.
Para cantores, a orientação habitual é uma revisão com otorrino a cada três meses. O exame mostra como está a laringe, se o jeito de usar a voz está adequado e se há alguma lesão ou fenda vocal começando, o que permite agir de forma preventiva. Tratar depois que a lesão já se instalou é mais difícil e demora mais.
Voz rouca: o que fazer e quando procurar avaliação
A rouquidão tem muitas causas. Gripe, resfriado, alergia, um esforço vocal maior que o habitual e até o ar-condicionado podem deixar a voz rouca, e na maioria dessas vezes ela passa sozinha em menos de duas semanas. Nesse período ajudam o repouso vocal, a água ao longo do dia e evitar gritar e sussurrar.
Repetir por conta própria a receita de uma rouquidão anterior, ou usar o remédio que funcionou para um amigo, não é seguro. A causa pode ser outra, e o remédio errado pode trazer uma série de consequências para a laringe e para as pregas vocais.
Rouquidão que dura mais de duas semanas precisa de avaliação com otorrino, mesmo quando é leve. A perda completa da voz torna essa avaliação ainda mais importante. Entre as causas de rouquidão persistente estão os nódulos, os pólipos, os cistos, a inflamação crônica da laringe pelo refluxo e o câncer de laringe, que muitas vezes tem a rouquidão como um dos primeiros sintomas e, quando tratado cedo, tem altas chances de cura.
Na OtoCare, as pregas vocais são examinadas na própria consulta, com a nasofibrolaringoscopia, uma câmera fina que mostra a laringe em funcionamento. Com o diagnóstico, o tratamento pode incluir remédio, quando indicado, e fonoterapia.
Vídeo: 10 dicas para cuidar da voz
O vídeo abaixo resume os dez cuidados, cinco do que fazer e cinco do que não fazer, para manter a saúde vocal.
Perguntas frequentes
O que é higiene vocal?
É o conjunto de hábitos do dia a dia que protegem as pregas vocais, como beber água, fazer pausas, não fumar e não gritar. As orientações de higiene vocal fazem parte da fonoterapia e são ajustadas à rotina e à demanda de voz de cada pessoa.
O que fazer para recuperar a voz depois de falar ou gritar muito?
Dar descanso às pregas vocais com períodos de silêncio, beber água ao longo do dia e não sussurrar, que também força a laringe. Se a voz não voltar ao normal em até duas semanas, a rouquidão precisa de avaliação.
Criança com voz rouca: o que fazer?
Os mesmos cuidados valem para as crianças, como beber água e evitar gritar. A rouquidão que dura mais de duas semanas também merece avaliação com otorrino, que examina a laringe e orienta o tratamento.
Existe exercício para melhorar a voz?
Existe. O aquecimento vocal antes de cantar ou de falar por muito tempo prepara as pregas vocais, e os exercícios da fonoterapia ajudam a usar a voz com menos esforço. Os exercícios certos dependem da voz e da queixa de cada pessoa e são definidos pela fonoaudióloga.
Qual médico cuida da voz?
O otorrinolaringologista, que examina as pregas vocais, faz o diagnóstico da rouquidão e define o tratamento. A fonoaudióloga especialista em voz trabalha junto, com a fonoterapia.
Referências
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Avaliação da voz na OtoCare, em Brasília
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