Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Uma doença neurológica que deixa a voz tensa e estrangulada
A voz muito tensa, que sai com esforço e falha no meio das frases, é o principal sinal da disfonia espasmódica. É uma doença neurológica rara, que atinge a laringe e faz os músculos da voz se contraírem sem controle durante a fala. Tem tratamento, e a aplicação de toxina botulínica nas pregas vocais costuma deixar a voz quase normal.
Estima-se que a disfonia espasmódica afete cerca de 4 em cada 100 mil pessoas. Por ser pouco conhecida, muitos pacientes passam anos sem diagnóstico, e alguns fazem fonoterapia sem melhora.

O que é disfonia espasmódica
A disfonia espasmódica faz parte do grupo das distonias, doenças que causam movimentos involuntários desencadeados por uma atividade específica. Como as contrações acontecem na laringe, ela também é chamada de distonia laríngea. No caso dela, a atividade que dispara as contrações erradas dos músculos da laringe é justamente falar.
Em vez de abrir e fechar de forma harmoniosa, acompanhando a fala, a laringe se contrai sem controle e de forma irregular. É isso que deixa a voz tensa, com falhas e quebras no meio das palavras.
Em geral, a doença começa na vida adulta, em alguém que sempre teve a voz normal, e os primeiros sinais costumam aparecer entre os 30 e os 50 anos. É mais frequente em mulheres.
Os cinco tipos de disfonia espasmódica
- Em adução, cerca de 85% dos casos. As contrações fecham as pregas vocais com força, e a voz fica tensa, estrangulada e com quebras.
- Em abdução, cerca de 14% dos casos. As contrações abrem as pregas vocais durante a fala. Elas não conseguem ficar bem fechadas, sobra uma fenda vocal, e a voz fica muito soprosa, com escape de ar.
- Mista, cerca de 1% dos casos. Mistura os dois tipos, e a voz fica ao mesmo tempo estrangulada e soprosa.
- Do canto, muito rara. Aparece apenas ao cantar, principalmente em cantores.
- Em adução respiratória, antes chamada de asma laríngea. Durante a respiração, as pregas vocais fecham em vez de abrir para o ar passar. A pessoa sente falta de ar e pode ter um chiado parecido com o da asma, mas o problema está na laringe.
Sintomas: o que melhora e o que piora a voz
No tipo mais comum, a voz é estrangulada, muito tensa e com quebras irregulares. Falar exige muita força, e a pessoa se cansa com facilidade.
Curiosamente, a voz melhora em algumas situações: nos sons agudos, ao cochichar, rir, chorar e cantar. No consultório, um teste simples é pedir ao paciente que faça um “i” agudo e prolongado. Nesse som, o estrangulamento costuma diminuir.
Já o nervosismo e a ansiedade pioram a voz. Falar ao telefone é uma das situações mais difíceis para muitos pacientes, porque a tensão aumenta e a voz quase não sai.
Com o tempo, a doença pesa muito na vida da pessoa. Muitos pacientes evitam conversar, se isolam e ficam exaustos pelo esforço que precisam fazer para falar.
O que causa a disfonia espasmódica
A disfonia espasmódica é uma doença neurológica. Acredita-se que ela esteja ligada aos gânglios da base, regiões do cérebro que controlam os movimentos, mas o mecanismo exato ainda não é conhecido. Suspeita-se que haja uma combinação de fatores genéticos com algum fator do ambiente.
Não é causada por lesão nas pregas vocais.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é clínico. Ele se baseia na história do paciente, no padrão típico da voz e no exame da laringe, a videolaringoscopia.
No exame, as pregas vocais parecem normais, sem nenhuma lesão. Não existe um exame que confirme a doença sozinho, e o que fecha o diagnóstico é a combinação da história com o jeito característico da voz. Por isso a avaliação deve ser feita por um otorrino experiente, que conheça a doença, como os da OtoCare.
Os sintomas se parecem com os de outros problemas de voz, e o diagnóstico costuma demorar. Nos Estados Unidos, estima-se que o diagnóstico chegue a levar cinco anos e meio desde o início dos sintomas. Um estudo com 107 pacientes encontrou atraso médio de cerca de quatro anos e meio, com passagem por quatro médicos, em média, antes do diagnóstico. Nesse tempo, muitos ficam sem conseguir conversar e se afastam do convívio social.
Disfonia espasmódica e fonoterapia
A disfonia espasmódica não melhora com fonoterapia. Os exercícios de voz, que resolvem muitos casos de rouquidão, não trazem o resultado esperado nessa doença.
Por isso, quem tem a voz tensa e estrangulada e não melhora com a fonoterapia deve ser avaliado por um otorrino na OtoCare, pensando em disfonia espasmódica.
O NIDCD, instituto de saúde dos Estados Unidos, descreve que a fonoterapia pode aliviar os sintomas nos casos leves e ajudar a diminuir o esforço para falar quando feita junto com a toxina botulínica. É uma possibilidade que pode ser avaliada caso a caso, na consulta.
Tratamento com toxina botulínica
A disfonia espasmódica não tem cura, mas tem tratamento, e ele controla bem a maioria dos casos. A primeira escolha é a injeção de toxina botulínica, o botox, nas pregas vocais. Ela diminui as contrações involuntárias do músculo que fecha a laringe de forma errada, e a voz melhora muito.
A aplicação é feita no consultório, com anestesia local. Um médico acompanha a laringe pela câmera enquanto outro aplica a medicação com uma agulha fina pela frente do pescoço, exatamente na prega vocal. A OtoCare faz a aplicação de toxina botulínica na laringe.
O efeito completo leva de uma a três semanas para aparecer. Nesse começo, é normal a voz ficar um pouco soprosa. Depois de duas ou três semanas, a voz se ajusta e fica muito boa, praticamente normal.
A parte chata é que o efeito passa. As aplicações precisam ser repetidas a cada quatro a seis meses, conforme o caso, ao longo da vida. Algumas referências citam intervalos um pouco menores, de três a quatro meses, e o momento de repetir a aplicação é definido pela volta dos sintomas na voz de cada paciente. Mesmo com anestesia local, a aplicação pode ser um pouco desconfortável para algumas pessoas. Uma revisão de 13 estudos, com 419 pacientes, mostrou melhora da voz e da qualidade de vida com a toxina botulínica.
Cirurgia para disfonia espasmódica
Quando a toxina botulínica não funciona bem, ou quando o paciente não quer fazer aplicações para sempre, existe a opção cirúrgica. A neurectomia do tireoaritenóideo é uma microcirurgia de laringe em que se corta o nervo do músculo tireoaritenóideo, justamente o que se contrai de forma errada, e parte do próprio músculo. Com isso, as contrações exageradas diminuem.
A cirurgia fica como segunda opção de tratamento, depois da toxina botulínica.
Vídeo: disfonia espasmódica, sintomas e tratamento
O vídeo abaixo apresenta um exemplo de voz estrangulada, os cinco tipos da doença, as situações que melhoram e pioram a voz, como é feito o diagnóstico e como funcionam a toxina botulínica e a cirurgia.
Perguntas frequentes
Disfonia espasmódica tem cura?
Não, mas o tratamento funciona bem. Com a toxina botulínica, a voz costuma voltar quase ao normal, e as aplicações são repetidas quando o efeito passa.
O que é voz estrangulada?
É uma voz que sai apertada, com esforço e com falhas no meio das palavras, como se a garganta estivesse sendo fechada. É o sinal mais comum da disfonia espasmódica.
Disfonia espasmódica é psicológica?
Não. É uma doença neurológica. O nervosismo piora a voz, mas não é a causa do problema.
Por que a voz melhora quando a pessoa ri ou canta?
Porque, nos tipos mais comuns, as contrações erradas são disparadas pela fala. Riso, choro, cochicho, sons agudos e canto usam a laringe de outro jeito, e o estrangulamento costuma diminuir. A exceção é o tipo raro que aparece justamente ao cantar.
A laringoscopia mostra a disfonia espasmódica?
O exame costuma mostrar pregas vocais normais, sem lesão. O diagnóstico vem da história e do padrão da voz, e o exame é importante para afastar outras causas.
Fonoterapia ajuda na disfonia espasmódica?
Não para tratar a doença. Os exercícios de voz não trazem a melhora esperada na disfonia espasmódica. Nos casos leves, a fono junto com a toxina botulínica pode ser avaliada caso a caso, na consulta. Se a voz tensa não melhora com a fono, uma consulta com otorrino na OtoCare ajuda a investigar a disfonia espasmódica.
De quanto em quanto tempo precisa aplicar o botox na voz?
Em geral, a cada quatro a seis meses, conforme a resposta de cada paciente.
A aplicação de toxina botulínica na laringe dói?
É feita no consultório, com anestesia local. Para algumas pessoas, a aplicação é um pouco desconfortável.
A voz fica soprosa depois do botox?
Nas primeiras semanas, é normal a voz ficar um pouco soprosa. Isso passa, e em duas ou três semanas a voz se adapta.
Existe cirurgia para disfonia espasmódica?
Existe. A neurectomia do tireoaritenóideo é indicada quando a toxina botulínica não resolve ou quando o paciente não quer fazer aplicações regulares.
Disfonia espasmódica causa falta de ar?
No tipo em adução respiratória, sim. As pregas vocais fecham durante a respiração, e a pessoa pode ter falta de ar e um chiado parecido com o da asma.
Em que idade começa a disfonia espasmódica?
Em geral na vida adulta, mais entre os 30 e os 50 anos.
Referências
- VILELA, Larissa. Disfonia espasmódica: o que é, sintomas, diagnóstico, tratamento e causas. YouTube, 23 out. 2024. 1 vídeo (13 min). Disponível em: https://youtu.be/dbtptwcdCrQ. Acesso em: 25 set. 2026.
- NATIONAL INSTITUTE ON DEAFNESS AND OTHER COMMUNICATION DISORDERS (NIDCD). Spasmodic dysphonia. Disponível em: https://www.nidcd.nih.gov/health/spasmodic-dysphonia. Acesso em: 25 set. 2026.
- CREIGHTON, F. X. et al. Diagnostic delays in spasmodic dysphonia: a call for clinician education. Journal of Voice, v. 29, n. 5, p. 592–594, 2015. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25873547/. Acesso em: 25 set. 2026.
- VAN ESCH, B. F. et al. Effect of botulinum toxin and surgery among spasmodic dysphonia patients. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 156, n. 2, p. 238–254, 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27803079/. Acesso em: 25 set. 2026.
Avaliação da voz em Brasília
No diagnóstico da disfonia espasmódica, o mais importante é lembrar da doença, para que ele não leve anos. Se a sua voz ficou tensa, estrangulada ou falhando sem motivo aparente, principalmente se melhora ao rir, cantar ou cochichar, uma consulta com otorrino na OtoCare permite examinar a laringe e iniciar o tratamento.
Telefone e WhatsApp: (61) 99957-8479
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