Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Por que o recém-nascido sofre tanto com o nariz entupido
Lavar o nariz de um recém-nascido é um dos cuidados que mais geram insegurança nos pais e cuidadores de primeira viagem. O receio de machucar as estruturas delicadas da face ou de provocar engasgos faz com que muitas famílias hesitem em realizar o procedimento, mesmo quando o bebê apresenta ruídos ao respirar ou dificuldade evidente para se alimentar.
Do ponto de vista anatômico e fisiológico, os recém-nascidos e os bebês nos primeiros meses de vida possuem uma particularidade médica fundamental: são respiradores nasais preferenciais e praticamente obrigatórios. Suas vias aéreas superiores são muito estreitas, e a cavidade nasal tem dimensões milimétricas. Qualquer pequeno acúmulo de secreção ressecada, muco fisiológico ou edema de mucosa obstrui a passagem do ar com facilidade.
Como o bebê ainda não consegue respirar confortavelmente pela boca enquanto mama no peito ou na mamadeira, o nariz entupido afeta diretamente a alimentação: a criança tenta sugar, cansa com rapidez, solta o seio chorando, engole ar e passa a ter noites agitadas e sono entrecortado. Por essa razão, manter as narinas desobstruídas com soro fisiológico é uma das medidas mais importantes para o bem-estar e o ganho de peso do lactente.

Alerta de segurança pediátrica: Em recém-nascidos e bebês com menos de 6 meses, a lavagem nasal deve ser sempre realizada com baixo volume e baixa pressão (utilizando conta-gotas ou seringa de 1 mL sem agulha). Nunca utilize garrafinhas de alto volume, seringas grandes de 10 a 20 mL ou dispositivos com jatos sob alta pressão em recém-nascidos, pois há risco real de laringoespasmo, aspiração pulmonar e trauma na mucosa nasal.
Precisa lavar o nariz do recém-nascido todos os dias?
Essa é uma das dúvidas mais frequentes no consultório de Otorrinolaringologia. Como esclarece a Dra. Larissa Vilela, não se recomenda fazer lavagem nasal de rotina em recém-nascidos assintomáticos. Ou seja, se o seu bebê está respirando tranquilamente pelo nariz, mamando sem interrupções e dormindo de forma confortável, você não precisa lavar o nariz por mera obrigação de horário.
A lavagem nasal no recém-nascido é uma intervenção com indicação pontual, recomendada nas seguintes situações:
- Sons de ronquinho e congestão: quando o bebê apresenta aquele ruído característico de nariz trancado ao respirar ou parece estar “roncando acordado”;
- Dificuldade para mamar: quando o bebê precisa interromper a sucção repetidamente para tomar ar pela boca;
- Presença de muco ou secreção visível: seja coriza líquida, secreção esbranquiçada ou crostas secas na entrada das narinas;
- Ambientes com ar muito seco ou poluído: em períodos de estiagem ou ar-condicionado constante, para hidratar a mucosa e restaurar o batimento ciliar.
Quando necessária, a lavagem pode ser realizada de 2 a 3 vezes ao dia, preferencialmente cerca de 15 a 20 minutos antes das mamadas ou antes do bebê dormir, garantindo que as vias aéreas fiquem limpas no momento de maior exigência respiratória.
Método 1: Lavagem com conta-gotas (o ponto de partida ideal)
Para os pais que estão começando a cuidar do bebê e sentem muito receio de aplicar jatos, o frasco de soro fisiológico em conta-gotas é a opção mais suave, segura e bem tolerada. Trata-se de uma solução fisiológica isotônica (cloreto de sódio a 0,9%) estéril, comercializada em embalagem própria para aplicação oftálmica ou nasal infantil.
Passo a passo com o conta-gotas:
- Prepare o bebê: deite o recém-nascido de barriga para cima (posição supina), em uma superfície plana e firme (como o trocador ou a cama), sem travesseiro debaixo da cabeça;
- Encha o dosador: aperte a borrachinha do conta-gotas para aspirar o soro fisiológico;
- Posicione o bico: apoie a mão suavemente próxima ao rostinho do bebê e posicione a ponta plástica do conta-gotas bem na entrada da narina, em sentido reto/perpendicular ao rosto, sem introduzir profundamente e sem empurrar a ponta contra o meio do nariz (septo nasal);
- Aplique suavemente: aperte o conta-gotas de forma controlada, liberando a solução;
- Volume recomendado: utilize de 1 a 2 conta-gotas cheios em cada narina.
Ao receber o soro, o recém-nascido vai deglutir naturalmente o líquido. Não se assuste: essa deglutição é fisiológica, reflexa e completamente esperada. O soro passa pela via respiratória superior, umidifica a mucosa, amolece as crostas e desce suavemente para o estômago sem qualquer perigo.
Método 2: Lavagem com seringa de 1 mL (seringa de insulina)
Uma segunda forma altamente eficiente, muito acessível e recomendada pela Dra. Larissa Vilela é o uso da seringa de 1 mL (popularmente conhecida como seringa de insulina), utilizada sempre sem a agulha. Trata-se do dispositivo mais fino disponível no mercado, permitindo dosar exatamente frações de mililitro e aplicar a solução de forma extremamente suave.
Passo a passo com a seringa de 1 mL:
- Separe a seringa correta: utilize uma seringa descartável de 1 mL com ponta tipo slip ou luer, assegurando-se de que a agulha foi totalmente descartada;
- Aspire a quantidade exata: aspire 1 mL de soro fisiológico previamente amornado em temperatura corporal;
- Posicione o bebê: mantenha o bebê deitadinho de barriga para cima, com a cabeça alinhada em posição neutra;
- Alinhamento perpendicular: encoste a pontinha plástica na borda da narina de forma quase perpendicular à face do bebê. Evite inclinar a seringa contra a cartilagem central;
- Injeção lenta e contínua: empurre o êmbolo de forma suave, sem dar solavancos ou empurrões rápidos, permitindo que a solução percorra a fossa nasal suavemente;
- Volume seguro: aplique 1 mL por narina (em casos de congestão mais espessa, pode-se aplicar até 2 seringas de 1 mL em cada lado).
A seringa de 1 mL oferece a grande vantagem de evitar pressões excessivas no ouvido médio, minimizando qualquer risco de desconforto ou dor de ouvido durante o procedimento. Substitua a seringa com frequência para evitar proliferação bacteriana nos plásticos.
Como amornar e conservar o soro fisiológico corretamente
A temperatura e os cuidados higiênicos com o soro fisiológico são determinantes para o conforto do recém-nascido e para a prevenção de contaminações:
- Conservação do frasco grande: frascos comerciais de soro fisiológico de 100 mL, 250 mL ou 500 mL não contêm conservantes. Após abertos, devem ser mantidos na geladeira e utilizados em poucos dias. Uma alternativa prática e muito segura para recém-nascidos é comprar ampolas estéreis individuais de 5 mL ou 10 mL de uso único;
- Nunca use soro gelado no bebê: aplicar soro fisiológico gelado diretamente no nariz do recém-nascido causa vasoconstrição abrupta, paralisação transitória dos cílios da mucosa, grande incômodo, choro intenso e sensação dolorosa de pontada na face;
- Como amornar em banho-maria: retire apenas a quantidade que você vai usar no momento e coloque em um copinho ou vasilha de vidro limpa. Coloque esse recipiente dentro de uma vasilha com água morna por 1 a 2 minutos até que a solução perca o frio da geladeira;
- O teste do antebraço: antes de aspirar para a seringa ou pingar no nariz, pingue uma gota na parte interna do antebraço (o mesmo teste tradicional da mamadeira). A solução deve parecer neutra ou suavemente morninha (em torno de 36 °C a 37 °C). Se você sentir qualquer sensação de calor, está quente demais e precisa esperar esfriar.
Para mais orientações sobre o controle térmico e os riscos da água em temperaturas inadequadas, consulte nosso guia sobre a temperatura da água para a lavagem nasal.
Por que NÃO virar o recém-nascido de lado nem inclinar a cabeça para a frente?
Em crianças maiores e adultos, é muito comum recomendar que a cabeça seja levemente inclinada para a frente para que o soro entre por uma narina e escorra pela outra. No entanto, em recém-nascidos, a Dra. Larissa Vilela contraindica expressamente tentar virar o bebê de lado ou forçar o soro a sair pela outra narina.
Essa contraindicação se baseia em razões anatômicas rigorosas:
- Risco de traumatizar o septo nasal: a ponta da seringa ou do dosador, quando inserida em ângulo ou com a cabeça torcida, encosta repetidamente no septo nasal (a cartilagem do meio do nariz). Como a mucosa do recém-nascido é finíssima e muito vascularizada, esse atrito mecânico provoca microlesões, dor e sangramento nasal (epistaxe);
- O objetivo em recém-nascidos não é o alto fluxo: o objetivo nos primeiros meses não é gerar pressão hidráulica para atravessar as cavidades, mas sim umidificar, fluidificar o muco ressecado e estimular a depuração mucociliar natural;
- Prevenção de engasgos e pânico: com o bebê deitadinho de costas, a aplicação de 1 mL de soro morno desce de forma suave e controlada pela orofaringe, sendo engolida sem provocar crises de tosse, refluxo ou sensação de afogamento.
Portanto, mantenha o procedimento simples: bebê deitado de barriga para cima, alinhado, aplicando de forma perpendicular e tranquila.
Aspirador nasal no recém-nascido: quando usar e quais os perigos
Os aspiradores nasais (sejam os modelos manuais de sucção com tubinho e filtro, sejam os modelos em pera de borracha) podem ser úteis, mas devem ser usados com parcimônia e apenas quando houver necessidade real.
Atenção com a aspiração: Nunca aspire o nariz do recém-nascido “a seco”. A aspiração só deve ser realizada após a aplicação do soro fisiológico, quando a secreção já estiver amolecida e visível na entrada da narina. Aspirar repetidas vezes ao dia com força gera pressão negativa que lesiona a mucosa, causa edema inflamatório de rebote e aumenta ainda mais a sensação de nariz entupido.
Se após pingar o soro fisiológico a secreção continuar acumulada na entrada do nariz impedindo a mamada, faça uma sucção delicada com bico de silicone macio, posicionando-o apenas na borda da narina sem forçar a entrada na cavidade nasal.
Tabela comparativa: métodos de lavagem nasal no recém-nascido
| Característica | Conta-gotas | Seringa de 1 mL (Insulina) | Garrafinha / Alto Volume |
|---|---|---|---|
| Idade recomendada | A partir do nascimento | A partir do nascimento | Contraindicada em recém-nascidos (apenas após 6 a 24 meses) |
| Volume por narina | 1 a 2 dosadores cheios | 1 mL a 2 mL | 120 mL a 240 mL (inadequado para bebês) |
| Nível de pressão | Mínima / gravidade | Muito baixa e controlada | Média / alta (risco em recém-nascidos) |
| Principal indicação | Início do hábito e higiene suave | Higiene suave e secreções espessas | Rinite e sinusite em crianças maiores e adultos |
| Posição do bebê | Deitado de barriga para cima | Deitado de barriga para cima | Inclinado para a frente (crianças maiores) |
Sinais de alerta respiratório que exigem avaliação médica urgente
Embora o nariz entupido seja habitualmente benigno, o recém-nascido pode apresentar quadros de infecção respiratória viral (como o vírus sincicial respiratório – VSR, causador da bronquiolite) que demandam avaliação pediátrica presencial imediata. Procure um pronto-atendimento se o bebê apresentar:
- Dificuldade para respirar (esforço respiratório): afundamento da pele entre as costelas (tiragem intercostal) ou na base do pescoço (tiragem de fúrcula);
- Batimento de asa de nariz: quando as aberturas do nariz abrem e fecham com força a cada respiração;
- Respiração acelerada (taquipneia) ou gemência: ruídos contínuos a cada expiração;
- Febre em recém-nascidos: qualquer temperatura axilar igual ou superior a 37,8 °C em bebês com menos de 3 meses exige atendimento de emergência;
- Recusa alimentar persistente: incapacidade de mamar ou prostração acentuada;
- Lábios ou extremidades arroxeadas (cianose).
Para dúvidas sobre dispositivos em crianças maiores, consulte também nossas orientações sobre a lavagem nasal em crianças e sobre dor de ouvido na lavagem nasal.
Vídeo explicativo: como lavar o nariz de recém-nascidos
Assista ao vídeo gravado pela Dra. Larissa Vilela, no qual ela demonstra detalhadamente a técnica em um modelo anatômico e esclarece todas as dúvidas sobre seringa, conta-gotas e cuidados com o bebê:
Perguntas frequentes sobre como lavar o nariz do recém-nascido
O recém-nascido pode engasgar com a lavagem nasal?
O risco de engasgo é mínimo quando a técnica correta é respeitada: utilizando apenas baixo volume (conta-gotas ou seringa de 1 mL), com aplicação suave e o bebê deitado de barriga para cima. O bebê vai deglutir o soro naturalmente. O engasgo ocorre principalmente quando são usados volumes exagerados, dispositivos com bicos rígidos ou pressão rápida.
Pode usar spray de soro fisiológico em jato contínuo em recém-nascidos?
Para os primeiros dias e semanas de vida, o conta-gotas e a seringa de 1 mL são mais recomendados por permitirem controle exato da pressão. Alguns sprays infantis possuem válvula dosadora suave para bebês, mas jatos contínuos sob forte pressão só devem ser introduzidos em lactentes maiores e com orientação médica prévia.
Posso fazer soro caseiro com água e sal para o recém-nascido?
Não. No recém-nascido, utilize exclusivamente soro fisiológico a 0,9% estéril de farmácia. Pequenas variações de sal ou contaminações na água caseira podem causar irritação química severa, queimação e infecções bacterianas na mucosa nasal delicada do bebê.
Avaliação com médico otorrino em Brasília
Se você tem dúvidas sobre a forma correta de realizar a higiene nasal, se o seu bebê apresenta ruídos respiratórios contínuos, roncos ao mamar ou dificuldade de ganho de peso decorrente de congestão, agende uma avaliação presencial com a equipe de otorrinolaringologistas da Clínica OtoCare em Brasília.
Telefone e WhatsApp: (61) 99957-8479
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Fontes e referências científicas
- VILELA, Larissa. Como lavar o nariz de recém-nascidos? YouTube, 2023. Disponível em: https://youtu.be/UaHdRHU8TWQ.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). Higiene e lavagem nasal em crianças e lactentes: Guia Prático de Atualização. Departamento Científico de Otorrinolaringologia, 2024. Disponível em: https://www.sbp.com.br/.
- DELAUNOIS, C. et al. Consensus on Nasal Irrigation in Infants: A Delphi Study. Annals of Otology, Rhinology & Laryngology, v. 132, n. 6, p. 642-651, 2023. PMID: 35833594. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35833594/.
- URGELLÈS, E. et al. Nasal irrigation with saline solution significantly improves oxygen saturation in infants with bronchiolitis. Acta Paediatrica, v. 105, n. 6, p. e272-e276, 2016. PMID: 26607495. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26607495/.