Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Libras desde cedo ajuda a criança surda a se comunicar
A Libras, sigla de língua brasileira de sinais, é a língua da comunidade surda no Brasil. Para a criança pequena com perda auditiva total, ela tem um papel que vai além da conversa do dia a dia. É a forma de essa criança começar a desenvolver linguagem enquanto o tratamento da audição ainda está em andamento.
Por muito tempo, a Libras foi deixada de lado por medo de que atrapalhasse a fala. Hoje a recomendação para a criança pequena com surdez total é aprender Libras.

O que é Libras
A Libras não é um conjunto de gestos soltos nem uma mímica do português. Assim como a língua portuguesa, a Libras tem estrutura própria, com vocabulário e regras de gramática. A lei que reconheceu a Libras no Brasil, de 2002, a define como um sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria.
Os sinais são feitos com as mãos, e o rosto e o corpo também fazem parte da língua. Segundo o NIDCD, instituto de saúde dos Estados Unidos dedicado à surdez e aos distúrbios da comunicação, as línguas de sinais são línguas completas e naturais, com as mesmas propriedades das línguas faladas, expressas pelos movimentos das mãos e da face.
No cérebro, a língua de sinais tem as mesmas ativações e ocupa o mesmo lugar de linguagem que a língua oral. Por isso, hoje se sabe que a Libras é uma língua tão estruturada e tão importante quanto o português falado.
Na sociedade, a comunicação é feita principalmente pela língua oral. Uma pessoa emite os sons das palavras, e a outra os percebe pela audição. A língua oral é a mais comum, mas não é a única forma completa de linguagem, e quem não escuta pode ter na língua de sinais uma língua inteira.
Por que a Libras foi deixada de lado por tanto tempo
A desconfiança em relação à língua de sinais é antiga. Em 1880, educadores de surdos reunidos no Congresso de Milão decidiram que a língua de sinais deveria ser banida do ensino. Segundo o Arquivo Nacional, a escola de surdos do Brasil seguiu essa decisão e adotou o método oral puro, com o uso de sinais proibido nas aulas.
Na otorrinolaringologia e na fonoaudiologia, essa visão durou até pouco tempo atrás. Nas décadas de 1980 e 1990, crianças com perda completa da audição muitas vezes não eram autorizadas a aprender Libras. Acreditava-se que a língua de sinais atrapalharia o desenvolvimento posterior da fala.
O que se observou nesses pacientes foi o oposto do que se esperava. As crianças que nasceram com perda auditiva total e não desenvolveram nenhuma forma de linguagem tiveram sérias dificuldades cognitivas e de comunicação, e até dificuldades emocionais e para expressar os próprios pensamentos. Ficou claro que ter uma linguagem, seja ela oral ou de sinais, é extremamente importante para o desenvolvimento do ser humano.
Pesquisadores chamam esse quadro de privação de linguagem. Um artigo publicado em 2012 descreve que a criança que não adquire uma primeira língua nos primeiros anos pode nunca chegar à fluência completa em nenhuma língua, com prejuízo de habilidades que dependem dessa base, como a leitura, a organização da memória e o raciocínio com números.
Libras atrapalha a fala? O que se sabe hoje
Não. A Libras não atrapalha nem interfere no desenvolvimento da linguagem oral. Antigamente se acreditava que quem aprendesse Libras não conseguiria depois aprender a falar, e hoje isso é considerado um mito.
Acontece justamente o contrário. A criança que aprende Libras e começa a se comunicar com sinais desde pequena ativa mais o cérebro, e isso ajuda depois no desenvolvimento da fala, porque ela chega a essa fase com a comunicação já pronta.
A comunicação parece simples porque é natural do ser humano, mas é um processo complexo. Várias vias do cérebro precisam ser estimuladas e treinadas para que uma pessoa consiga se comunicar e desenvolver linguagem. A língua de sinais estimula essas vias enquanto a audição ainda não está disponível.
Um estudo da Universidade Yale, de 2014, acompanhou cinco crianças com implante coclear, filhas de pais surdos, que conviviam com a língua de sinais americana desde o nascimento. O inglês falado dessas crianças ficou no mesmo nível do de crianças ouvintes bilíngues, também filhas de pais surdos, e acima do que costuma ser relatado para crianças implantadas na mesma idade. Os autores concluíram que a língua de sinais não causa prejuízo e pode reduzir os efeitos da falta de audição nos primeiros anos.
Um estudo americano maior, de 2017, publicado na revista da Academia Americana de Pediatria, acompanhou crianças que receberam o implante até os três anos e encontrou resultados de fala e de leitura melhores naquelas que não tiveram contato com a língua de sinais em casa. A ciência sobre o tema continua evoluindo, e a forma de conduzir a comunicação de cada criança pode ser avaliada caso a caso, na consulta, conforme a audição, a resposta ao tratamento e a rotina da família.
Quando a Libras é indicada
A indicação principal é a criança pequena com perda auditiva total, a surdez profunda nos dois ouvidos. A recomendação é que ela aprenda Libras, a língua de sinais, para desenvolver o simbolismo e a linguagem e conseguir se comunicar enquanto a audição é tratada.
Esse tratamento pode incluir aparelhos auditivos, implante coclear e a reabilitação auditiva, que muitas vezes é necessária. Até que todo esse processo esteja pronto, a criança ainda não escuta o suficiente para aprender a falar. A Libras ocupa esse intervalo. Depois, com a audição tratada, a criança começa a escutar e desenvolve a língua oral.
Por isso, na otorrinolaringologia, a tendência hoje é indicar a Libras logo cedo. Os pais aprendem a língua de sinais e conversam com a criança em Libras até que a parte auditiva seja tratada e a fala possa se desenvolver.
Os graus de perda auditiva, da leve à profunda, estão explicados na orientação sobre graus de surdez. Para quem convive com adultos ou crianças com perda auditiva parcial, as dicas práticas para conversar melhor estão na orientação sobre como se comunicar com pessoas com perda auditiva.
Período sensível e período crítico da linguagem
O desenvolvimento da linguagem tem fases muito importantes. O período sensível vai até cerca de um ano e meio de idade. É a fase em que o cérebro está mais pronto e a criança tem mais oportunidades de aprender. Depois de um ano e meio, a sensibilidade da criança para esse tipo de aprendizado vai diminuindo.
O período crítico do desenvolvimento da linguagem vai até os três anos de idade. Se a criança não teve nenhum desenvolvimento de linguagem nem nenhuma forma de comunicação até essa idade, em teoria, aprender depois uma comunicação e uma linguagem fica extremamente difícil.
Até passar pelo implante e pela reabilitação auditiva, uma criança que nasce com surdez leva, em geral, no mínimo um ano, mesmo nos melhores centros. Ficar todo esse tempo sem se comunicar, justamente na fase em que o cérebro está pronto para aprender linguagem, faz muita diferença. Com a Libras, esse tempo não é perdido.
A pesquisa com implante coclear aponta na mesma direção. Um estudo de 2002 com 104 crianças nascidas surdas mostrou que as vias auditivas do cérebro amadureceram no ritmo esperado quando a audição foi restabelecida até cerca de três anos e meio de idade, e que a capacidade de adaptação do cérebro diminui com o passar dos anos. A janela para a fala, quando a audição é tratada, é um pouco mais longa. O que acontece quando a surdez não é tratada a tempo está na orientação sobre surdez e fala. Os marcos esperados em cada idade estão na orientação sobre atraso na fala.
Filhos surdos de pais ouvintes: como ajudar
A maioria das crianças com surdez total é filha de pais que escutam normalmente, os chamados pais normo-ouvintes. Segundo o NIDCD, mais de 90% das crianças surdas nascem de pais ouvintes.
Muitas vezes, esses pais ficam num dilema sobre como ajudar mais o filho. A dúvida é entre aprender a língua de sinais ou focar só no tratamento e na reabilitação auditiva, para a criança desenvolver a linguagem depois. Para a otorrinolaringologia, a resposta hoje é aprender a Libras, porque ela ajuda muito o desenvolvimento posterior da criança.
Os pais não precisam dominar a Libras antes de começar. O NIDCD orienta expor a criança surda à linguagem, falada ou sinalizada, o mais cedo possível, e conta que os pais ouvintes que escolhem a língua de sinais muitas vezes aprendem junto com o filho. A convivência com colegas surdos também ajuda a criança a ganhar fluência na língua de sinais.
Uma cena mostra bem o que a língua de sinais representa para um bebê. Num vídeo que circula na internet, um pai surdo acalma o filho surdo, um bebê que chora, conversando com ele em Libras. Com uma das mãos segurando o celular, o pai faz os sinais com a outra, e o bebê vai se acalmando, olhando para as mãos do pai e começando a mexer as próprias mãozinhas. É uma comunicação de verdade, e o bebê responde a ela.
Libras e tratamento da surdez caminham juntos
A Libras não substitui o diagnóstico nem o tratamento da audição. No Brasil, a perda auditiva do bebê costuma ser identificada cedo, no teste da orelhinha, feito em geral com as emissões otoacústicas, e confirmada por exames como o BERA, que mede a resposta do nervo auditivo e do tronco cerebral aos sons.
Com o grau da perda definido, o tratamento pode incluir o aparelho auditivo e, nas perdas profundas em que o aparelho ajuda pouco, o implante coclear, seguido da reabilitação auditiva. Enquanto esse caminho é percorrido, a Libras dá à criança uma língua para se comunicar com a família.
Na OtoCare, a audição do bebê e da criança é avaliada com BERA, emissões otoacústicas e audiometria infantil. A consulta avalia a indicação de aparelho auditivo e de implante coclear e orienta a família sobre a comunicação da criança em cada fase do tratamento.
Libras na lei e na educação bilíngue
A Lei nº 10.436, de 2002, reconheceu a Libras como meio legal de comunicação e expressão no Brasil, sem que ela substitua o português escrito. Desde então, a língua ganhou espaço na formação de professores e de fonoaudiólogos e nos serviços públicos.
Em 2021, a Lei nº 14.191 incluiu a educação bilíngue de surdos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Nessa modalidade, a Libras é a primeira língua e o português escrito é a segunda. A oferta começa ao zero ano, na educação infantil, e segue ao longo da vida. A família pode escolher essa modalidade ou a matrícula em escola e classe regulares.
Para a família da criança surda, isso significa que a Libras aprendida em casa pode continuar na escola. Outros direitos da pessoa com deficiência auditiva estão na orientação sobre direitos do PCD auditivo.
Vídeo: Libras e o desenvolvimento da criança surda
Perguntas frequentes
Libras é universal?
Não. Cada país tem a sua língua de sinais, que nasceu da comunidade surda local. Segundo o NIDCD, não existe uma língua de sinais universal, e quem conhece a língua de sinais americana pode não entender a britânica, por exemplo. A Libras é a língua de sinais do Brasil.
Libras é língua ou linguagem?
É uma língua. A lei de 2002 descreve a Libras como um sistema linguístico com estrutura gramatical própria, assim como o português. Linguagem é a capacidade humana de se comunicar, e a Libras é uma das línguas pelas quais essa capacidade se expressa.
Libras é língua oficial do Brasil?
A lei não usa essa expressão. A Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, reconheceu a Libras como meio legal de comunicação e expressão e determinou que o poder público apoie o seu uso e a sua difusão. A mesma lei diz que a Libras não pode substituir a forma escrita da língua portuguesa.
Como surgiu a Libras no Brasil?
A Libras se formou nas comunidades de pessoas surdas do país, como descreve a lei de 2002. Um marco dessa história é o Colégio Nacional para Surdos-Mudos, que começou a funcionar em 1º de janeiro de 1856. Segundo o Arquivo Nacional, ele foi fundado pelo francês E. Huet, que era surdo.
Libras para bebês: com que idade começar?
Assim que a surdez profunda é confirmada. Não há idade mínima, e os primeiros meses de vida são justamente a fase em que o cérebro está mais preparado para aprender uma língua.
Criança com implante coclear pode aprender Libras?
Pode. A Libras não impede que a criança implantada aprenda a escutar e a falar. Ela costuma ser usada antes do implante, enquanto a criança ainda não escuta, e pode continuar depois, ao lado da reabilitação auditiva. O caminho de cada criança é definido com a família, conforme a resposta ao implante.
Libras serve para mudos?
A Libras é a língua das pessoas surdas. Quem é chamado de surdo-mudo, em geral, tem as pregas vocais normais e consegue chorar, rir e gritar. A fala só não se desenvolveu porque a audição faltou na infância. Por isso a expressão surdo-mudo não é a mais adequada, como mostra a orientação sobre surdez e fala.
Libras é obrigatória na faculdade?
Em alguns cursos, sim. O Decreto nº 5.626, de 2005, tornou a Libras disciplina obrigatória nos cursos de formação de professores, como Pedagogia e as licenciaturas, e nos cursos de Fonoaudiologia. Nos demais cursos superiores, ela é disciplina optativa.
Quem usa a Libras?
Principalmente as pessoas surdas e quem convive com elas, como família, amigos e professores. Há também os tradutores e intérpretes de Libras, profissão regulamentada pela Lei nº 12.319, de 2010, que fazem a ponte entre a Libras e o português.
Referências
- VILELA, Larissa. Libras (língua brasileira de sinais): o que é, indicações e a importância para o desenvolvimento! YouTube, 25 jan. 2025. 1 vídeo (8 min 47 s). Disponível em: https://youtu.be/LVJjgO283Rs. Acesso em: 5 out. 2026.
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Avaliação da audição da criança na OtoCare, em Brasília
Ainda existem muitas dúvidas sobre a língua de sinais, e a informação correta ajuda a família a decidir cedo, quando cada mês conta. Se o bebê não passou no teste da orelhinha, não reage aos sons ou demora a falar, a audição pode ser avaliada na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília. A consulta investiga o grau da perda, avalia o tratamento indicado e orienta a família sobre a Libras e a comunicação da criança enquanto a audição é tratada.