Doença do beijo (mononucleose): sintomas, transmissão, quanto tempo dura e tratamento

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O que é a doença do beijo

A doença do beijo voltou a ser muito falada quando a cantora Anitta contou que tinha sido diagnosticada com o vírus Epstein-Barr, o causador da doença. O assunto continua atual, principalmente no Carnaval, quando beijo e copos compartilhados aumentam as chances de transmissão.

O nome técnico da doença do beijo é mononucleose infecciosa. Ela é causada pelo vírus Epstein-Barr, identificado em 1964 pelo pesquisador Anthony Epstein e sua equipe. É um vírus da família do herpes, mas não é o mesmo vírus do herpes labial.

Cantora com figurino de Carnaval roxo e dourado, close de lábios com uma lesão avermelhada e a Dra. Larissa Vilela de jaleco branco

Esse vírus está presente no mundo inteiro. Estima-se que 90% a 95% das pessoas já tiveram contato com ele em algum momento da vida. Na maioria delas, o contato passa sem sintomas. Em algumas pessoas, principalmente no primeiro contato com o vírus, ele desencadeia a doença. A mononucleose é mais comum entre adolescentes e adultos jovens, na faixa dos 15 aos 24 anos.

Como a doença do beijo é transmitida

A transmissão acontece principalmente pela saliva, e é daí que vem o nome popular. Mas não é só pelo beijo que se pega a mononucleose. O vírus também passa por:

  • copos, talheres e escovas de dentes compartilhados;
  • transfusão de sangue;
  • transplante de órgãos;
  • relação sexual.

Muitas vezes quem transmite não tem sintoma nenhum. Depois da infecção, o vírus fica no organismo pela vida toda e pode aparecer na saliva de tempos em tempos, sem que a pessoa perceba. Por isso uma pessoa com aparência saudável pode passar o vírus adiante.

Os sintomas também não aparecem logo depois do contato. O período de incubação da mononucleose é longo, em geral de 30 a 50 dias, bem mais do que o de uma gripe. É comum que a pessoa nem se lembre de onde pegou o vírus.

Sintomas da doença do beijo

O quadro típico reúne três sintomas principais.

  • febre alta, por volta de 39 °C, 40 °C ou mais;
  • dor de garganta, muitas vezes com placas nas amígdalas;
  • aumento dos linfonodos do pescoço e das axilas, as conhecidas ínguas.

As ínguas são aqueles carocinhos que aparecem no pescoço e em outras partes do corpo durante uma infecção. Na mononucleose, esse aumento dos linfonodos é bem característico.

Além dos três sintomas principais, a mononucleose pode causar cansaço forte, fadiga e prostração, dor de cabeça e sintomas no nariz, como obstrução e secreção, parecidos com os de um resfriado. Em algumas pessoas, aparecem manchas vermelhas na pele.

Mononucleose ou amigdalite bacteriana?

As placas na garganta confundem muito a mononucleose com a amigdalite bacteriana. Febre alta, dor de garganta e placas nas amígdalas são justamente o que se espera de uma infecção por bactéria, mas na mononucleose tudo isso é causado por um vírus. Nas crianças pequenas, as plaquinhas da doença mão-pé-boca também vêm de um vírus. Quando a amigdalite bacteriana vem com manchas ásperas na pele e língua em framboesa, o quadro é a escarlatina.

A diferença importa porque o antibiótico não age sobre vírus. Os sinais que ajudam a separar um quadro do outro estão na orientação garganta inflamada: vírus ou bactéria. Na consulta da OtoCare, em Brasília, o teste de estreptococo na garganta ajuda a identificar em poucos minutos a bactéria mais comum da amigdalite.

Existe ainda uma reação conhecida há décadas. Nos anos 1960, os médicos observaram que quase todo paciente com mononucleose que tomava ampicilina desenvolvia manchas na pele. Um estudo de 2013, com crianças internadas, encontrou números bem menores: cerca de 3 em cada 10 das que tomaram amoxicilina tiveram manchas. Entre as que não tomaram nenhum antibiótico, 2 em cada 10 também tiveram. Mesmo com números menores, as manchas aparecem em parte dos pacientes, e o antibiótico só é usado quando tem indicação.

Quanto tempo dura a doença do beijo

Um ponto delicado da mononucleose é que ela demora a passar. Quando a doença aparece, o paciente costuma levar de 4 a 6 semanas para ficar bem. A febre alta do começo pode durar semanas, e o cansaço às vezes persiste por meses.

Essa febre que não cede muitas vezes preocupa até os médicos, enquanto o diagnóstico ainda não foi fechado, porque faz pensar numa infecção bacteriana mais grave ou em outro problema sério. Na mononucleose, porém, tudo isso é causado pelo vírus.

Mesmo com essa duração, a maioria dos casos é leve. Nas crianças, apenas cerca de 10% das que se infectam têm sintomas, e 90% passam pela infecção sem perceber. Nos adultos, mais de 70% têm sintomas, na maior parte das vezes leves.

Complicações da mononucleose

A mononucleose costuma ser leve ou até passar sem sintomas, mas em alguns casos ela tem formas mais graves. As complicações possíveis incluem:

  • aumento do baço e do fígado, que pode chegar a uma hepatite;
  • anemia;
  • queda das plaquetas, com risco de sangramentos;
  • problemas neurológicos, como meningite e encefalite, nos casos mais graves;
  • aumento muito grande das amígdalas e da adenoide.

Nos quadros mais graves, as amígdalas ficam enormes, muito maiores do que o habitual do paciente, e podem causar uma obstrução importante da via respiratória. Esse quadro também leva semanas, às vezes meses, para se resolver por completo.

O baço aumentado pode se romper, o que é raro, mas grave. A orientação habitual é evitar esportes de contato e levantamento de peso por pelo menos um mês, até a consulta confirmar que o baço voltou ao tamanho normal.

Uma revisão de casos publicados encontrou a ruptura em média duas semanas depois do início dos sintomas, mas alguns casos aconteceram até oito semanas depois, e poucos foram precedidos de pancada. Os autores sugerem afastar esporte e esforço intenso por oito semanas. O tempo de afastamento de cada paciente é definido caso a caso, na consulta.

Como é feito o diagnóstico da mononucleose

O diagnóstico se baseia na história clínica e em exames de sangue. O hemograma mostra alterações sugestivas de um quadro viral, com aumento dos linfócitos, e a presença de linfócitos atípicos, um sinal que aponta bastante para a mononucleose.

Para confirmar a presença do vírus Epstein-Barr no corpo, dois métodos são usados hoje. O primeiro é a sorologia, que procura no sangue os anticorpos contra o vírus. O segundo, mais moderno, é o PCR, um exame molecular que detecta o material genético do vírus.

O teste rápido para mononucleose, feito no sangue, pode dar negativo no começo da doença. Quando a suspeita continua, ele pode ser repetido cerca de uma semana depois, ou o diagnóstico é confirmado pela sorologia específica. Em crianças pequenas, esse teste rápido é pouco confiável.

Tratamento da doença do beijo

Não existe um antiviral específico contra o vírus Epstein-Barr. Quem combate o vírus é o próprio organismo, e a recuperação depende da imunidade de cada paciente. Por isso não é preciso tomar um remédio específico contra o vírus.

O tratamento da mononucleose se baseia em:

  • repouso;
  • hidratação;
  • boa alimentação;
  • remédios para aliviar os sintomas, como analgésico para a dor e antitérmico para a febre.

Como em toda virose, os medicamentos servem apenas para os sintomas. Nos casos mais graves, pode ser usado corticoide. O antibiótico entra quando o quadro se complica com uma infecção por bactéria, o que também pode acontecer durante a mononucleose.

Uma revisão da Cochrane, de 2015, considerou insuficientes as evidências sobre o benefício do corticoide no alívio dos sintomas da mononucleose. É um recurso que continua sendo avaliado caso a caso, na consulta, conforme a gravidade de cada quadro.

Aspirina não deve ser dada a crianças com mononucleose, pelo risco da síndrome de Reye, uma complicação rara e grave. A escolha do remédio para febre e dor, e do antibiótico quando ele tem indicação, é feita na consulta, levando em conta a mononucleose.

A doença do beijo tem cura?

Sim, a doença passa. Os sintomas desaparecem, e o corpo controla a infecção sozinho, mesmo que isso leve semanas. O vírus, porém, não vai embora. Como acontece com os outros vírus da família do herpes, ele fica guardado no organismo pela vida toda, em geral sem causar nada.

Mononucleose, esclerose múltipla e câncer

Quando o caso da cantora veio a público, surgiu a discussão se o vírus Epstein-Barr poderia estar ligado à esclerose múltipla, ao câncer e ao linfoma. Os estudos mostram que o vírus pode ser um fator de risco para essas doenças. Não existe, porém, nenhuma comprovação de que quem teve mononucleose vá desenvolver alguma delas. Isso acontece numa minoria, e é raro.

O estudo mais citado sobre o tema, publicado na revista Science em 2022, acompanhou mais de 10 milhões de jovens militares americanos. O risco de esclerose múltipla aumentou bastante depois da infecção pelo vírus, mas só 955 deles tiveram a doença. Quase todo adulto já teve contato com o Epstein-Barr, e a grande maioria nunca terá esclerose múltipla.

Como prevenir a doença do beijo

Não existe vacina contra o vírus Epstein-Barr. A prevenção começa pelo que vale para qualquer virose ou doença contagiosa: cuidar do sistema imunológico, beber água e se alimentar bem.

No Carnaval, quando a transmissão tende a ser maior, alguns cuidados são ainda mais importantes.

  • evitar o consumo excessivo de álcool;
  • lavar as mãos, principalmente antes de comer;
  • não compartilhar copos, talheres, escovas de dentes ou qualquer objeto que tenha contato com saliva;
  • usar preservativo nas relações sexuais.

Esses cuidados valem mesmo quando a outra pessoa parece saudável, porque ela pode estar com o vírus sem ter nenhum sintoma.

Vídeo: doença do beijo, sintomas e tratamento

O vídeo abaixo explica o que é a mononucleose, como ela é transmitida, os sintomas, o diagnóstico, o tratamento e a prevenção.

Perguntas frequentes

Doença do beijo é grave?

Na maioria das vezes, não. Muitas pessoas nem têm sintomas, e a maior parte dos casos com sintomas é leve, embora demore semanas para passar. As formas graves, com hepatite, queda de plaquetas, meningite ou obstrução da respiração, existem, mas são a minoria.

Doença do beijo é herpes?

O vírus Epstein-Barr pertence à família do herpes e também é chamado de herpesvírus humano 4. Não é, porém, o vírus que causa o herpes labial nem o herpes genital, e a doença é outra.

Doença do beijo é IST?

Não é considerada uma infecção sexualmente transmissível típica. A principal forma de transmissão é a saliva, mas o vírus também pode passar pela relação sexual, e por isso o preservativo ajuda a proteger.

Quanto tempo depois do contato aparecem os sintomas?

Em geral de 30 a 50 dias, entre um mês e um mês e meio depois do contato. Nesse intervalo a pessoa se sente bem e não sabe que está infectada.

Quanto tempo a mononucleose é transmissível?

Não há um prazo exato. Depois da infecção, o vírus pode voltar a aparecer na saliva de tempos em tempos, mesmo sem sintomas. Por isso não compartilhar copos, talheres e escovas de dentes é uma medida que vale sempre.

Quantos dias de febre dá a mononucleose?

A febre costuma ser alta, de 39 °C a 40 °C ou mais, e pode durar semanas. Uma febre que não cede por tanto tempo precisa de avaliação, justamente para confirmar a causa.

Quem tem mononucleose pode tomar amoxicilina?

Só com indicação médica. A amoxicilina não age sobre o vírus e é usada apenas quando existe uma infecção bacteriana junto, o que é avaliado na consulta. Quem tomou o antibiótico durante a mononucleose e teve manchas na pele deve contar isso na consulta.

Mononucleose dá manchas na pele?

Pode dar. As manchas vermelhas aparecem em uma parte dos pacientes, mesmo sem nenhum antibiótico. O Manual MSD estima que elas ocorram em até 20% das pessoas com mononucleose.

Doença do beijo dá em criança e em bebê?

Dá, mas a criança pequena costuma passar pela infecção sem perceber. Só cerca de 10% das crianças infectadas têm sintomas, e em geral leves. Por isso a doença aparece mais em adolescentes e adultos jovens.

A mononucleose pode voltar?

O vírus não vai embora: fica no organismo pela vida toda, em geral inativo e sem sintomas. Cansaço, febre ou ínguas que reaparecem depois da doença precisam ser avaliados na consulta, porque podem ter outra causa.

Quanto tempo de repouso na mononucleose?

O repouso vale enquanto os sintomas estão fortes, em geral nas primeiras uma ou duas semanas. Depois, a pessoa pode ir retomando as atividades, mas esportes de contato e levantamento de peso ficam suspensos por pelo menos um mês, por causa do baço.

Qual médico trata a doença do beijo?

O otorrinolaringologista, especialista em garganta, avalia e acompanha a mononucleose, já que a dor de garganta com placas e as ínguas no pescoço costumam ser a queixa principal.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Doença do beijo (mononucleose infecciosa): o que é, causas, sintomas, prevenção e como tratar! YouTube, 5 mar. 2025. 1 vídeo (10 min 39 s). Disponível em: https://youtu.be/onTUHJ5rG5k. Acesso em: 28 set. 2026.
  2. KAYE, K. M. Mononucleose infecciosa. In: Manual MSD: versão saúde para a família. Rahway: Merck & Co., 2026. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/infecções/infecções-por-herpesvírus/mononucleose-infecciosa. Acesso em: 28 set. 2026.
  3. EPSTEIN, M. A.; ACHONG, B. G.; BARR, Y. M. Virus particles in cultured lymphoblasts from Burkitt’s lymphoma. The Lancet, v. 1, n. 7335, p. 702–703, 1964. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14107961/. Acesso em: 28 set. 2026.
  4. DUNMIRE, S. K.; VERGHESE, P. S.; BALFOUR, H. H. Primary Epstein-Barr virus infection. Journal of Clinical Virology, v. 102, p. 84–92, 2018. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29525635/. Acesso em: 28 set. 2026.
  5. REZK, E. et al. Steroids for symptom control in infectious mononucleosis. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 11, CD004402, 2015. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26558642/. Acesso em: 28 set. 2026.
  6. CHOVEL-SELLA, A. et al. Incidence of rash after amoxicillin treatment in children with infectious mononucleosis. Pediatrics, v. 131, n. 5, p. e1424–e1427, 2013. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23589810/. Acesso em: 28 set. 2026.
  7. BARTLETT, A.; WILLIAMS, R.; HILTON, M. Splenic rupture in infectious mononucleosis: a systematic review of published case reports. Injury, v. 47, n. 3, p. 531–538, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26563483/. Acesso em: 28 set. 2026.
  8. BJORNEVIK, K. et al. Longitudinal analysis reveals high prevalence of Epstein-Barr virus associated with multiple sclerosis. Science, v. 375, n. 6578, p. 296–301, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35025605/. Acesso em: 28 set. 2026.

Dor de garganta e febre alta: avaliação com otorrino em Brasília

Febre alta com dor de garganta, placas nas amígdalas ou ínguas no pescoço pedem avaliação. A OtoCare, no Noroeste de Brasília, faz a consulta com otorrino, examina a garganta e faz na própria consulta o teste rápido de estreptococo quando há suspeita de bactéria.

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