Paralisia de Bell: causas, sintomas, tratamento e cuidados com o olho

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Paralisia de Bell é a causa mais comum de paralisia facial periférica

A paralisia de Bell é uma paralisia súbita de um lado do rosto, causada pela inflamação do nervo facial. A maioria dos pacientes se recupera bem, muitos até sem medicação, e o tratamento ajuda a encurtar a paralisia e a reduzir sequelas. Enquanto o olho não fecha, protegê-lo é parte essencial do cuidado.

O nome homenageia Charles Bell, anatomista e cirurgião escocês que fez as primeiras descrições do nervo facial. Ela também é chamada de paralisia facial idiopática, porque por muito tempo não se sabia a causa. É a causa mais comum de paralisia facial periférica, com cerca de 20 a 30 casos por 100 mil habitantes por ano.

Paciente com o sorriso assimétrico, um lado da boca menos elevado, ao lado de uma médica de jaleco branco

Por que o nervo facial paralisa

Hoje se acredita que a paralisia de Bell seja causada por um vírus, geralmente o herpes simples tipo 1, que se reativa em uma região específica do nervo facial, o gânglio geniculado. Estudos conseguiram isolar o vírus em pacientes com o quadro, e por isso o nome idiopática vem sendo deixado de lado.

Boa parte do trajeto do nervo facial passa por dentro de um canal ósseo estreito, no osso temporal. Quando o nervo inflama e incha, o canal não consegue aumentar de tamanho: o nervo fica comprimido, sofre uma lesão e deixa de levar ao rosto os sinais para o movimento. As regiões mais atingidas são o segmento labiríntico e o gânglio geniculado.

Não há como evitar essa reativação. Ela pode estar ligada a uma queda de imunidade, mas ainda não se sabe com certeza o que a desencadeia.

Sintomas e evolução

A paralisia começa de forma súbita, de uma hora para outra, e atinge toda a metade do rosto: testa, olho e lábios. Ela costuma piorar nos primeiros dias, nas primeiras 72 horas e ao longo da primeira semana. A melhora geralmente começa por volta da terceira semana e pode continuar por até seis meses.

Além da paralisia, podem aparecer dor no ouvido ou atrás dele e sintomas gripais antes do quadro. Como o nervo facial também comanda as glândulas lacrimais, as salivares e parte do paladar, é comum notar menos lágrima, menos saliva ou alteração no gosto dos alimentos.

Na paralisia de Bell, a testa também fica paralisada: a pessoa não consegue enrugá-la nem levantar a sobrancelha daquele lado. Quando a fraqueza atinge apenas a parte de baixo do rosto e a testa se movimenta normalmente, a origem pode ser central, como no AVC, em que também é comum a fraqueza de braço e perna do mesmo lado. Por isso, toda paralisia facial súbita precisa de avaliação médica para confirmar o diagnóstico.

Tratamento

A boa notícia é que a maioria dos pacientes se recupera bem, muitos sozinhos, mesmo sem medicação. Ainda assim, algumas medidas ajudam:

  • corticoide oral: é a medicação com evidência mais forte. Encurta o tempo de paralisia e reduz o risco de sequelas, como a perda definitiva do movimento do rosto;
  • antiviral associado ao corticoide: pode ajudar na evolução, principalmente nos quadros mais graves;
  • fisioterapia: exercícios específicos para o rosto, massagens de reposicionamento e biofeedback.

Eletroestimulação não é recomendada na paralisia facial. Algumas abordagens de reabilitação a utilizam, mas ela aumenta o risco de complicações do quadro. A fisioterapia indicada é feita com exercícios, massagens e biofeedback, sem estímulo elétrico. Já a acupuntura, muito procurada, não tem evidência de benefício na paralisia facial.

Se o rosto paralisou de repente, agende uma avaliação com otorrino na OtoCare e informe a paralisia facial ao marcar pelo WhatsApp, para que o horário seja priorizado.

Como proteger o olho que não fecha

Com dificuldade para piscar e fechar o olho, a lubrificação fica comprometida e a córnea fica vulnerável a uma úlcera, uma das complicações mais graves da paralisia facial. O cuidado com o olho é parte importantíssima do tratamento:

  • durante o dia: pingue um colírio lubrificante, de lágrima artificial, a cada duas horas;
  • à noite: passe uma pomada oftálmica no olho e feche a pálpebra com uma fita micropore colada diretamente sobre ela, mantendo o olho fechado durante o sono.

Não use tampão nem gaze: a fita vai direto na pálpebra. Dormir com o olho mal fechado permite que ele raspe no travesseiro ou na roupa de cama e se machuque. Mantenha esses cuidados até o movimento do olho voltar totalmente ao normal.

Quando a recuperação não vem

Uma pequena parte dos pacientes não melhora bem mesmo com o tratamento oral otimizado. Quando exames específicos do nervo também mostram que a recuperação não está acontecendo, existe a possibilidade de uma cirurgia de descompressão do nervo facial, para tentar recuperar o movimento do rosto.

Para quem fez todo o tratamento, inclusive a descompressão, e continua com paralisia grave, há ainda cirurgias de reanimação facial, como transposições de nervos, que buscam melhorar o tônus e o movimento do rosto. Isso vale para a minoria: a maioria melhora com a medicação habitual.

Outras causas de paralisia facial periférica

A paralisia de Bell é a causa mais comum, mas não a única. A segunda ou terceira causa mais frequente é a síndrome de Ramsay Hunt, provocada pelo vírus da catapora, o herpes-zóster, com bolhas na região do ouvido e um quadro geralmente mais grave. Ela é explicada na orientação sobre herpes-zóster no ouvido.

Existem ainda causas mais raras: traumatismos, tumores, como o neurinoma do acústico, infecções como a doença de Lyme e doenças neurodegenerativas.

Vídeo: paralisia de Bell, causas e tratamento

O vídeo abaixo mostra, em um esquema do nervo facial, onde acontece a inflamação na paralisia de Bell, e explica os sintomas, o tratamento, o cuidado com o olho e as outras causas de paralisia facial.

Perguntas frequentes

A paralisia de Bell volta ao normal?

Na maioria dos casos, sim. Muitos pacientes se recuperam sozinhos, mesmo sem medicação. A melhora costuma começar por volta da terceira semana e pode continuar por até seis meses.

Posso fazer eletroestimulação ou acupuntura?

A eletroestimulação não é recomendada, porque aumenta o risco de complicações. A acupuntura não tem evidência de benefício na paralisia facial. A fisioterapia indicada usa exercícios faciais, massagens e biofeedback.

Por que fechar o olho com micropore à noite?

Porque o olho não fecha por completo e pode raspar no travesseiro durante o sono, com risco de úlcera de córnea. Passe a pomada oftálmica e cole a fita micropore diretamente na pálpebra, sem tampão nem gaze.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Paralisia de Bell (paralisia facial periférica). YouTube, 31 ago. 2023. 1 vídeo (11 min 47 s). Disponível em: https://youtu.be/GfnkhbW_MXg. Acesso em: 24 set. 2026.
  2. BAUGH, R. F. et al. Clinical practice guideline: Bell’s palsy. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 149, n. 3, supl., p. S1–S27, 2013. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24189771/. Acesso em: 24 set. 2026.
  3. MADHOK, V. B. et al. Corticosteroids for Bell’s palsy (idiopathic facial paralysis). Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 7, CD001942, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27428352/. Acesso em: 24 set. 2026.
  4. Paralisia de Bell. Manual MSD Versão Saúde para a Família. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-cerebrais-da-medula-espinal-e-dos-nervos/doen%C3%A7as-dos-nervos-cranianos/paralisia-de-bell. Acesso em: 24 set. 2026.

Avaliação da paralisia facial em Brasília

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