Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
O uso prolongado pode atrapalhar a recuperação do equilíbrio
Parece uma contradição, mas o remédio para tontura pode piorar a própria tontura. Isso acontece quando ele é usado de forma errada, por tempo demais ou a cada pequeno sintoma, e essa tontura provocada pelo próprio tratamento aparece com frequência no consultório de otorrino.
Na crise, o remédio tem lugar e ajuda bastante. O risco começa quando o uso se estende por semanas, meses ou anos, ou quando o comprimido vira resposta automática para qualquer mal-estar, sem que ninguém tenha descoberto a causa da tontura.

Remédio para tontura serve para a crise e por poucos dias. Se ele virou rotina, não aumente, não troque e não suspenda por conta própria. A consulta revê cada remédio em uso junto com a causa da tontura.
Quais remédios para tontura são supressores vestibulares?
Os nomes mais conhecidos são o dimenidrinato, vendido como Dramin®, a meclizina, presente no Meclin®, a cinarizina, do Stugeron®, e a flunarizina, do Vertix®. Eles fazem parte de um grupo chamado de supressores vestibulares, porque reduzem a função do labirinto. As diferenças entre os dois últimos estão na orientação sobre para que servem a cinarizina e a flunarizina.
Os calmantes da família dos benzodiazepínicos também entram nessa lista. O IV Fórum Brasileiro de Otoneurologia, publicado pela ABORL-CCF, entidade que reúne os otorrinolaringologistas do país, cita esses remédios ao lado do dimenidrinato e dos bloqueadores dos canais de cálcio entre os que agem contra a vertigem suprimindo o labirinto. Cada um tem os seus efeitos, mas o cuidado com o tempo de uso vale para todos.
A betaistina fica de fora desse grupo. Ela age de outro modo, não serve para cortar uma crise e tem indicações bem selecionadas, como a doença de Ménière.
Por que esses remédios ajudam na crise?
Cada pessoa tem dois labirintos, um de cada lado, bem no fundo do ouvido, na orelha interna. Quando os dois passam a funcionar de forma diferente e mandam ao cérebro informações que não combinam, vem a crise. Essa assimetria entre os lados está por trás das tonturas mais fortes, aquelas em que tudo roda ou em que a pessoa sente que está girando, como numa roda-gigante.
Ao reduzir a função do labirinto, o supressor diminui a diferença entre os lados e acalma a tontura, que é muito desconfortável. Por isso esses remédios são tão importantes nos quadros agudos e são muito usados pelos otorrinos, mas apenas no momento da crise. A sonolência que alguns deles dão chega a ser bem-vinda nos primeiros dias, porque favorece o repouso de que o corpo precisa para se recuperar.
O alívio, porém, atua no sintoma. O remédio não mostra de onde vem a tontura e não ocupa o lugar do tratamento próprio de cada doença.
Por quanto tempo tomar remédio para tontura?
Por pouco tempo. Na crise, o uso costuma durar de três a cinco dias e chegar, no máximo, a sete, sempre conforme a receita. Passar de uma semana já foge do objetivo do tratamento.
Quando a supressão do labirinto se prolonga por semanas, meses ou até anos, o organismo sente essa queda de função e começa a ter uma tontura nova, induzida pelo uso crônico do remédio. As referências da área seguem a mesma linha. O fórum da ABORL-CCF reserva os supressores para o tratamento de curto prazo e não recomenda o uso prolongado. A diretriz americana sobre reabilitação vestibular, publicada em 2022, registra que o uso longo desses remédios pode prejudicar a recuperação.
Como o remédio usado por muito tempo atrapalha o equilíbrio?
Depois de uma lesão no labirinto, o cérebro trabalha para se adaptar à nova situação. Esse ajuste se chama compensação vestibular. Para acontecer, ele precisa que o labirinto continue mandando sinais e que a pessoa se mexa, porque os movimentos mostram ao sistema nervoso onde está o erro e como corrigir a resposta.
O supressor abafa esses sinais. Segundo o fórum da ABORL-CCF, a ação dele atinge a informação errada que vem do labirinto doente e também a informação de que o equilíbrio depende, inclusive os reflexos que mantêm a visão firme quando a cabeça se move. Uma revisão sobre o tratamento da vertigem acrescenta que os remédios que dão sono podem alterar o ritmo dessa compensação. Com o labirinto funcionando menos por tempo demais, o ajuste atrasa e a tontura que deveria ir embora se arrasta.
Por isso, mesmo na crise, ficar imóvel não ajuda. Movimentos lentos e controlados, sem travar o pescoço de medo, colaboram com o reajuste do equilíbrio, como mostram os cuidados para uma crise de tontura.
Como é a tontura causada pelo remédio?
Ela tem uma característica bem marcante. Em geral não se parece com a vertigem clássica, em que tudo gira. A pessoa sente instabilidade, uma sensação de estar meio aérea, e a tontura aparece mais ao caminhar, com desequilíbrio e insegurança para andar. Tudo isso decorre da baixa função do labirinto mantida pelo remédio.
Essa descrição, sozinha, não prova que o remédio seja o culpado. Instabilidade ao andar também aparece em outras doenças do labirinto, na queda de pressão e em alterações do metabolismo. Quando a tontura vem ao ficar em pé, conheça as causas de tontura ao levantar. As alterações do corpo como um todo estão na orientação sobre tontura metabólica ou hormonal. A relação com o começo do remédio, com o aumento da dose e com o tempo de uso é analisada na consulta.
Por que tomar o remédio a cada tontura vira um ciclo?
Como o remédio alivia a crise, muita gente conclui que ele resolve o problema. A partir daí, passa a tomá-lo todos os dias ou a cada mínimo sintoma. Cada dose reduz um pouco mais a ação do labirinto, e um labirinto funcionando menos produz justamente a tontura do tipo instabilidade. A pessoa sente essa instabilidade, interpreta como uma crise nova e toma mais um comprimido.
A boa notícia vem do mesmo raciocínio. Não são raros os pacientes que chegam à consulta com tontura e melhoram apenas com a retirada desses remédios, feita com orientação, porque o labirinto volta a trabalhar e o cérebro retoma a compensação.
O remédio pode esconder a causa da tontura?
Pode. Tontura é um sintoma, e cada causa pede um tratamento diferente. O supressor abafa o mal-estar, enquanto a doença que provoca a tontura continua lá, sem diagnóstico. A bula do Dramin® traz um aviso parecido, de que o remédio pode mascarar os sintomas de lesão do ouvido causada por remédios tóxicos para a audição e o equilíbrio.
A tontura causada pelos cristais soltos no labirinto mostra bem esse problema. Na vertigem posicional paroxística benigna (VPPB), a solução vem de uma manobra feita no consultório, sem remédio e sem cirurgia. A diretriz americana de otorrinolaringologia para a VPPB orienta a não usar supressores vestibulares como tratamento de rotina, e uma revisão de cinco estudos, com 296 pacientes, concluiu que esses remédios podem não mudar a melhora no fim do acompanhamento, enquanto a manobra levou vantagem. O que são esses cristais e por que eles saem do lugar está na orientação sobre os cristais do labirinto fora do lugar.
Outras causas seguem caminhos próprios. A enxaqueca vestibular melhora com o controle dos gatilhos e, quando indicado, com remédios preventivos. A ansiedade pode acompanhar uma doença do labirinto e mudar a forma como a tontura é sentida, assunto da orientação sobre tontura por ansiedade.
Uma revisão sobre a tontura crônica propõe começar pela pergunta de como tudo começou, se foi uma VPPB, uma neurite, uma enxaqueca, uma doença de Ménière ou outra causa, e tratar o que ainda estiver ativo. Nessa mesma revisão, a recomendação para supressores e calmantes é reduzir e, se possível, suspender.
Outros remédios também podem dar tontura?
Podem, e não só os remédios para o labirinto. O fórum da ABORL-CCF descreve quatro mecanismos. Alguns antibióticos, diuréticos e anti-inflamatórios podem lesar a orelha interna. Calmantes e alguns anticonvulsivantes dão sedação e deixam a reação mais lenta. Remédios para pressão, sobretudo os diuréticos e os betabloqueadores, podem baixar a pressão ao levantar. E há a supressão do labirinto, descrita acima.
Quando a tontura começa junto com um remédio novo ou logo depois de um aumento de dose, a ligação costuma aparecer na conversa com o médico, porque a história clínica cuidadosa é a base desse diagnóstico. Remédio de uso contínuo, como o da pressão, segue sendo tomado até que o médico decida a mudança, mesmo com a suspeita de que ele cause a tontura.
Quais outros riscos merecem atenção?
O efeito mais comum dos supressores é o sono. Na bula do Dramin®, a sedação e a sonolência aparecem como reações muito comuns, em mais de uma pessoa a cada dez. A mesma bula pede atenção na direção de veículos e no uso de máquinas e orienta não tomar o remédio junto com bebida alcoólica, calmantes ou sedativos, porque o dimenidrinato pode potencializar os efeitos deles sobre o sistema nervoso.
Nos idosos, a sedação pesa mais. A pessoa já anda com insegurança, e a sonolência e a reação mais lenta somam risco de queda. O fórum da ABORL-CCF aponta a sedação excessiva como um fator de risco importante para quedas nessa idade. A cinarizina e a flunarizina, no uso prolongado, ainda podem causar tremores parecidos com os da doença de Parkinson, como explica a orientação sobre efeitos da cinarizina e da flunarizina. Os cuidados específicos dessa fase da vida estão na orientação sobre tontura em idosos.
O que fazer no lugar do remédio contínuo?
A dica mais importante é evitar a automedicação. Um remédio que parece fazer bem pode fazer mal, mesmo sendo um remédio para o labirinto. O primeiro passo é descobrir a causa da tontura com um otorrino que trate do equilíbrio, e o segundo é fazer o tratamento adequado para essa causa.
Com o diagnóstico, cada caso segue o seu caminho, como nos exemplos da VPPB e da enxaqueca vestibular. Quando o labirinto perdeu parte da função e o cérebro não compensou sozinho, a diretriz americana recomenda a reabilitação vestibular, com exercícios para firmar o olhar e treinar o equilíbrio, e registra que as evidências não apoiam o uso de remédio nesse quadro crônico. Segundo a mesma diretriz, o anti-histamínico por pouco tempo pode controlar os sintomas e permitir que a pessoa faça os exercícios para o labirinto. Na OtoCare, a consulta avalia e indica a reabilitação quando ela faz parte do tratamento.
Enquanto a crise dura, alguns cuidados ajudam mais do que repetir o comprimido, como cortar a cafeína, reduzir o açúcar e o sal, beber água, descansar e levantar devagar. Eles estão detalhados na orientação sobre o que fazer numa crise de tontura. Quem acha que toda tontura é labirintite pode entender a diferença na orientação toda tontura é labirintite?.
Alguns sinais junto da tontura sugerem um problema fora do labirinto, e nenhum remédio para tontura deve ser usado para abafá-los. O Manual MSD inclui nessa lista a dor de cabeça forte ou que começou há pouco, a dor no pescoço, o desmaio, a dificuldade para andar que aparece de repente ou piora rápido, diferente da instabilidade de sempre, a dificuldade para ouvir, ver, falar ou engolir e a fraqueza ou a falta de movimento num braço ou numa perna. Com qualquer um deles, a situação pede avaliação médica sem demora.
O que fazer se o uso já se tornou contínuo?
Anote o nome de cada remédio, a dose, quantas vezes por dia ele é tomado, há quanto tempo e quem receitou. Registre também como era a tontura antes do tratamento, o que melhorou, o que continuou igual e se a instabilidade aparece mais ao caminhar.
Leve essas anotações à consulta e não interrompa nada de uma vez por conta própria. A forma de retirar depende do remédio, do tempo de uso, do diagnóstico e das outras doenças de cada pessoa. A revisão separa o que ainda tem indicação do que pode estar atrasando a recuperação e define o tratamento da causa.
Na OtoCare, a avaliação inclui o exame dos ouvidos e do equilíbrio, o teste na maca para a VPPB, com a manobra no mesmo dia quando ela é confirmada, e, conforme a suspeita, exames como o vHIT em Brasília. Veja também os exames otorrinolaringológicos e audiológicos realizados na OtoCare.
Vídeo: quando o remédio para tontura pode atrapalhar
O vídeo abaixo apresenta a função dos supressores vestibulares na crise aguda, explica por que eles devem ser usados por poucos dias e mostra por que o uso indiscriminado pode manter uma sensação de instabilidade.
Perguntas frequentes
Tomar Dramin® todo dia faz mal?
Por poucos dias, na crise, o uso diário faz parte do tratamento. Mantido por semanas ou meses, ele deixa o labirinto abafado o tempo todo e pode causar a mesma instabilidade que a pessoa tenta tratar, além do sono frequente descrito na bula. Quem já toma o Dramin® como rotina deve rever o uso na consulta.
Dramin® serve para tontura?
Serve para aliviar a crise. Pela bula, o dimenidrinato é indicado para náuseas, vômitos e tontura do enjoo de movimento e para os quadros de vertigem, inclusive as labirintites. Ele age suprimindo o labirinto e não corrige a doença que causou a tontura, e por isso acompanha só os dias de crise. Como tomar, quantas vezes e por quantos dias vem da receita.
Dramin® dá tontura?
Na crise, ele alivia a tontura. Usado por muito tempo, pode contribuir para uma tontura do tipo instabilidade, porque mantém o labirinto funcionando menos. A bula lista a tontura entre as reações possíveis dos anti-histamínicos, mas registra que, para o dimenidrinato, essa reação é pouco documentada.
Dramin® ou Meclin®: qual é melhor para tontura?
Os dois suprimem o labirinto e seguem o mesmo limite de poucos dias. O Meclin® dá bem menos sono que o Dramin® e costuma ser a escolha dos otorrinos para a crise de vertigem. As diferenças entre eles estão na orientação sobre para que serve o Meclin®.
Betaistina ou Dramin®: qual usar na tontura?
Eles têm papéis diferentes. O Dramin® alivia a crise por poucos dias. A betaistina não serve para cortar a crise e entra em situações selecionadas, como a doença de Ménière, quando a consulta indica. Quando cada um faz sentido está na orientação sobre para que serve a betaistina.
Qual é o melhor remédio para tontura?
Não existe um remédio melhor para todas as tonturas, porque a escolha segue a causa, e algumas, como a VPPB, se resolvem sem remédio. Quando o problema é a crise forte do labirinto, o supressor mais usado pelos otorrinos é o Meclin®, sempre por poucos dias.
Remédio para tontura dá sono?
Muitos dão. Entre os remédios mais usados para o labirinto, o Dramin® é o que mais dá sono. O Meclin®, a cinarizina e a flunarizina dão bem menos, embora também possam dar. Com sono, a pessoa não deve dirigir.
Pode tomar remédio para tontura sem receita?
Não é o indicado. Pela bula, o Dramin® é de venda sob prescrição médica. Ainda que a farmácia venda sem exigir a receita, tomar por conta própria é o caminho mais comum para o uso longo e para a tontura causada pelo próprio remédio.
Remédio para labirintite serve para qualquer tontura?
Não. O que se chama de remédio para labirintite costuma ser um supressor do labirinto, que alivia o sintoma sem tratar a causa. A inflamação do labirinto é só uma entre muitas causas de tontura, e o quadro verdadeiro aparece na orientação sobre labirintite.
O que fazer quando a tontura não passa com o remédio?
Rever o diagnóstico, e não aumentar o remédio. Continuar tonto apesar do tratamento não é normal e pede nova avaliação, com os testes do labirinto e a revisão dos remédios em uso. Às vezes a causa é uma VPPB que só melhora com a manobra, às vezes é o próprio remédio usado por tempo demais.
Existe remédio para tontura emocional ou de ansiedade?
O tratamento é outro. Na tontura postural perceptual persistente, a TPPP, que muitas vezes começa depois de um estresse forte, o tratamento se apoia em três pontos, remédio para a ansiedade, reabilitação vestibular e terapia cognitivo-comportamental, e o remédio de crise para o labirinto não é a base dele. A orientação sobre tontura por estresse explica esse quadro.
Todo remédio que dá sono é supressor vestibular?
Não. Muitos remédios dão sono por agir no sistema nervoso, e só alguns suprimem o labirinto. O fórum da ABORL-CCF trata a sedação e a supressão do labirinto como mecanismos diferentes de tontura por remédio, que podem aparecer juntos na mesma pessoa.
Referências
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Avaliação de tontura em Brasília
Se a tontura é recorrente, há instabilidade ao caminhar ou o uso de remédio para o labirinto se tornou frequente, uma consulta com otorrino em Brasília permite revisar a medicação, examinar o equilíbrio e investigar a causa do sintoma.
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