Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Por que hoje as amígdalas só são retiradas com indicação clara
Antigamente, a cirurgia das amígdalas era muito comum. Havia uma tendência grande de retirar as amígdalas das crianças, com a ideia de que elas mais atrapalhavam do que ajudavam. Com o passar dos anos, percebeu-se que muitas dessas cirurgias eram desnecessárias e que muitas crianças estavam sendo operadas sem precisar.
Vários estudos foram feitos desde então, e hoje as indicações da cirurgia de amígdalas são bem claras. As amígdalas não são retiradas sem uma indicação bem estudada com o médico. A cirurgia de retirada das amígdalas se chama amigdalectomia.

Quando é necessário tirar as amígdalas
As duas grandes indicações são as infecções de garganta de repetição e a obstrução da respiração por amígdalas muito grandes. Dentro das infecções entra também quem já teve um abscesso ao redor da amígdala. E há uma terceira situação, o caseum recorrente, quando ele atrapalha a vida do paciente.
- amígdalas muito grandes que obstruem a passagem do ar, com ronco, apneia e dificuldade para respirar;
- amigdalites bacterianas de repetição, acima de um número definido de episódios por ano;
- histórico de abscesso ao redor da amígdala;
- caseum recorrente que atrapalha o dia a dia.
Outras situações mais raras também podem levar à cirurgia, como a febre periódica da infância e a amígdala que cresce muito mais de um lado do que do outro. Elas são explicadas mais abaixo.
Amígdalas muito grandes que atrapalham a respiração
A primeira grande indicação é a amígdala muito grande, chamada de hipertrofia das amígdalas. Quando a criança, ou mesmo o adulto, deita para dormir, essas amígdalas fecham parte da passagem do ar e dificultam a respiração. O resultado é ronco, apneia do sono e respiração pela boca, quando a pessoa abre a boca para tentar respirar um pouco melhor.
Não existe remédio que diminua o tamanho da amígdala. Quando ela é grande a ponto de obstruir a respiração, a solução é a retirada cirúrgica.
Na criança, a obstrução durante o sono também aparece de dia. A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia orienta perguntar sobre crescimento, rendimento na escola, xixi na cama e comportamento, porque esses problemas podem melhorar depois da cirurgia. A respiração pela boca de longa data tem outras consequências, explicadas na orientação sobre respirador bucal.
Nos casos mais leves, os estudos mostram que parte das crianças melhora com o tempo. Num estudo americano com crianças de 5 a 9 anos com apneia, a polissonografia ficou normal em quase metade das que não operaram, depois de sete meses, e em cerca de quatro de cada cinco das operadas. As operadas também tiveram melhora do comportamento, dos sintomas e da qualidade de vida. Esperar ou operar nos casos leves é uma decisão avaliada caso a caso, na consulta.
A diretriz americana recomenda a polissonografia antes da cirurgia em alguns grupos de crianças: as menores de 2 anos e as que têm obesidade, síndrome de Down, alterações do crânio e da face, doenças neuromusculares, anemia falciforme ou mucopolissacaridoses. A OtoCare não faz a polissonografia: a consulta avalia quando o exame é necessário e interpreta o resultado. Como ele funciona está na página sobre polissonografia, e a relação com o sono, na orientação sobre apneia do sono.
Toda amígdala grande precisa ser retirada?
Não. O tamanho, sozinho, não decide a cirurgia. O que pesa é a repercussão, ou seja, se a amígdala grande está causando ronco com pausas na respiração, sono ruim, respiração pela boca ou dificuldade para engolir. Amígdalas grandes que não atrapalham nada são acompanhadas, sem cirurgia.
O ronco simples, sem sinais de apneia, também costuma não justificar a cirurgia. Segundo a sociedade britânica de otorrinolaringologia, ele provavelmente não melhora com a retirada das amígdalas. E o ronco pode vir de outros lugares, como o nariz, a adenoide, o palato e a língua, que a consulta examina junto.
Amígdala grande de um lado só
É comum uma amígdala parecer um pouco maior que a outra, e quase sempre isso não é nada grave. Uma revisão de 29 estudos publicada em 2026 mostrou que, sem nenhum outro sinal de alerta, a chance de câncer numa amígdala maior que a outra é menor que 1%. O cuidado é maior quando a diferença vem junto com gânglio no pescoço ou com outras alterações suspeitas no exame da garganta. Nesses casos a amígdala precisa ser avaliada, e às vezes a retirada é indicada para o exame do tecido.
Amigdalite de repetição: quantas por ano para operar
A segunda grande indicação são as infecções. Algumas pessoas têm uma disfunção na amígdala, que entra num modo desregulado e infecciona com o menor estímulo que chega à garganta. Em vez de proteger, passa a atrapalhar, com amigdalites de repetição e uma série de transtornos para a vida do paciente.
Quando as amigdalites bacterianas ficam muito frequentes, manter as amígdalas acaba trazendo mais prejuízo à saúde do que retirá-las. Os estudos mostraram que, nesses casos, ficar com as amígdalas traz risco de complicações. A regra para contar as infecções é esta, considerando só as infecções bacterianas que precisaram de antibiótico:
- sete ou mais infecções em um ano;
- cinco ou mais infecções por ano, durante dois anos seguidos;
- três ou mais infecções por ano, durante três anos seguidos.
Esses números vêm de um estudo publicado em 1984 com crianças muito afetadas pelas amigdalites, e são usados até hoje nas diretrizes americana e britânica. Quando esses números são atingidos, a cirurgia já está indicada.
Algumas referências descrevem também a possibilidade de esperar e acompanhar quando os números estão no limite, porque parte das crianças melhora com o tempo. No estudo de 1984, muitas das que não foram operadas tiveram menos episódios nos anos seguintes, e mais leves. Uma revisão de 2014 encontrou um benefício modesto da cirurgia no primeiro ano, maior nos casos mais graves. É uma possibilidade que pode ser avaliada caso a caso, na consulta.
Por que cada amigdalite precisa ser registrada
Nem toda dor de garganta é amigdalite bacteriana. A maioria é causada por vírus, em gripes e resfriados, e não conta para a indicação da cirurgia. Por isso, a diretriz americana pede que cada episódio fique registrado no prontuário com pelo menos um destes sinais:
- febre acima de 38,3 °C;
- gânglio inchado no pescoço;
- pus ou placas nas amígdalas;
- teste positivo para estreptococo, a bactéria mais comum na amigdalite.
Na prática, ajuda muito anotar a data de cada crise, o que foi visto na garganta e o antibiótico usado. Como diferenciar a garganta inflamada por vírus da inflamada por bactéria está na orientação sobre garganta inflamada por vírus ou bactéria. Na consulta, a OtoCare faz o teste rápido de estreptococo quando há suspeita de infecção bacteriana. Quando o resultado é positivo, o episódio fica confirmado na hora.
Algumas situações fazem a cirurgia ser considerada mesmo abaixo dos números, segundo a diretriz americana: alergia ou intolerância a vários antibióticos, a febre periódica da infância e mais de um abscesso ao redor da amígdala. A diretriz britânica lembra ainda que um número fixo pode não servir para quem tem crises muito fortes ou complicações.
Amigdalite de repetição em adultos
A retirada das amígdalas não é só para crianças. Adultos com amigdalites bacterianas de repetição seguem os mesmos critérios. Um estudo britânico publicado em 2023, com adultos de 16 anos ou mais, mostrou que quem foi operado teve menos dias de dor de garganta em dois anos do que quem seguiu sem cirurgia, e a cirurgia compensou também do ponto de vista dos custos. O que muda na garganta depois da retirada está na orientação sobre o que acontece se tirar as amígdalas.
No adulto, o pós-operatório costuma ser mais dolorido do que na criança. A dor, a alimentação e os cuidados com o sangramento estão na página da amigdalectomia em Brasília.
Abscesso periamigdaliano: quando já houve um
O abscesso periamigdaliano é uma infecção mais grave, uma complicação da amigdalite em que se forma uma coleção de pus ao redor da amígdala. Quem já teve um abscesso tem uma indicação relativa de cirurgia. Ela é sugerida porque, numa nova amigdalite bacteriana, o risco de o abscesso voltar ou de surgir outra complicação é relativamente grande.
Os estudos ajudam a medir esse risco. Uma revisão de 42 artigos encontrou retorno do abscesso em 10% a 15% dos pacientes. Num estudo japonês com mais de 12 mil adultos, o risco foi maior em quem também tinha amigdalites de repetição. Por isso, o histórico de amigdalites pesa na decisão, e mais de um abscesso é um dos motivos que a diretriz americana cita para operar.
O abscesso costuma dar dor forte na garganta, pior de um lado, dificuldade para engolir e para abrir a boca, febre e voz abafada. Esses sinais precisam de avaliação médica sem demora.
Caseum que volta o tempo todo
A terceira indicação é a amigdalite caseosa. O caseum são restinhos de alimento que ficam presos nas criptas das amígdalas, os buraquinhos que elas têm. Ali eles entram em degradação e causam mau hálito e gosto ruim na garganta. Alguns pacientes têm tanto caseum, e de forma tão recorrente, que a cirurgia é indicada para resolver o problema.
Antes de operar, é preciso confirmar que o mau hálito vem mesmo das amígdalas. Uma revisão sobre o mau hálito ligado às amígdalas lembra que a cirurgia não está indicada quando ele vem de outra origem, como a língua ou os dentes, ou quando melhora com o tratamento sem cirurgia. O primeiro passo é o gargarejo, explicado na orientação sobre caseum na garganta. A Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos também cita o caseum frequente e incômodo entre os motivos para considerar a retirada das amígdalas.
Febre periódica e outras situações
A febre periódica da infância, conhecida pela sigla PFAPA, é uma síndrome em que a criança tem crises de febre alta a intervalos regulares, com aftas na boca, garganta inflamada e gânglios no pescoço. Uma revisão de 2019 mostrou que a retirada das amígdalas fez as crises pararem em mais crianças do que o tratamento sem cirurgia. Como a síndrome também melhora sozinha com o tempo e há remédio para as crises, a família pesa as duas opções com o médico.
A amígdala que cresce de um lado só com sinais de alerta, descrita acima, é outra situação em que a retirada pode ser necessária, para o exame do tecido.
Com quantos anos a criança pode tirar as amígdalas?
Não há idade mínima. Segundo a Academia Brasileira de Otorrinolaringologia Pediátrica, na maioria das vezes a indicação aparece depois dos 2 anos. Abaixo dessa idade, a necessidade da cirurgia é avaliada caso a caso, pelo quadro da criança, e a diretriz americana recomenda a polissonografia antes de operar.
A amígdala muitas vezes é operada junto com a adenoide, que fica atrás do nariz e também pode obstruir a respiração. Os critérios da adenoide são outros, e cada uma é avaliada separadamente.
O que pesar antes de decidir
A amigdalectomia é uma cirurgia comum e tecnicamente simples, mas tem um ponto de muito cuidado, que é o sangramento nos dias de cicatrização, o principal risco. Por isso, a decisão compara o que as amígdalas estão causando com o que a cirurgia exige.
Quando bem indicada, a cirurgia vale muito a pena, mesmo com um pós-operatório mais delicado, principalmente no adulto. Ela é bem resolutiva, e no fim os pacientes costumam ficar satisfeitos com o resultado. Resumindo, as grandes indicações são a obstrução e as infecções, incluindo o abscesso, e o caseum recorrente também pode levar à cirurgia. Fora dessas situações e dos casos mais raros descritos acima, a cirurgia não costuma ser indicada. Como é feita a cirurgia e como é a recuperação está na página da cirurgia das amígdalas.
Vídeo: quando é necessário tirar as amígdalas
Perguntas frequentes
Como saber se preciso tirar as amígdalas?
A resposta vem da consulta com o otorrino, que junta o exame da garganta e o histórico. Dois sinais fazem pensar na cirurgia. O primeiro são as amigdalites com bactéria que se repetem muitas vezes no ano, com necessidade de antibiótico. O segundo são amígdalas tão grandes que atrapalham a respiração, com ronco, pausas no sono ou boca aberta para respirar. Quem não tem nenhuma dessas situações, em geral, não precisa operar.
Uma amigdalite muito forte já indica a cirurgia?
Não. Um episódio isolado, mesmo intenso, não basta. O que conta é a repetição das amigdalites bacterianas ao longo dos meses e dos anos. A exceção é o abscesso ao redor da amígdala, que é uma complicação e entra na avaliação mesmo quando aconteceu uma vez só.
Dor de garganta sem febre conta como amigdalite para a cirurgia?
Pode contar, desde que haja outro sinal de infecção bacteriana. Pela diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia, cada episódio considerado precisa ter pelo menos um destes sinais: febre acima de 38,3 °C, gânglio inchado no pescoço, pus nas amígdalas ou teste positivo para estreptococo. Sem febre, o episódio entra na conta quando há pus, gânglio inchado ou teste positivo. A garganta que arranha numa gripe ou num resfriado, sem nenhum desses sinais, em geral é causada por vírus e não entra.
Tomar antibiótico evita a amigdalite de repetição?
Não. O antibiótico trata a amigdalite bacteriana de cada episódio, mas não impede que a próxima aconteça. A sociedade britânica de otorrinolaringologia lembra que não há evidência de que o antibiótico usado de forma preventiva evite as amigdalites de repetição.
Dentista pode retirar as amígdalas?
Não. A retirada das amígdalas é uma cirurgia do otorrinolaringologista, feita em hospital, com o paciente dormindo e a respiração protegida. O dentista pode perceber amígdalas grandes ou caseum no exame da boca e orientar a avaliação com o otorrino.
Pode tirar as amígdalas e a adenoide na mesma cirurgia?
Pode, quando as duas têm indicação. É comum na criança que ronca e respira pela boca por causa das duas ao mesmo tempo. Mas uma não obriga a outra: a adenoide pode ser operada sozinha, e as amígdalas também. Os critérios da adenoide estão na orientação sobre quando operar a adenoide.
Como saber se a criança precisa tirar as amígdalas?
Os sinais que pedem avaliação são o ronco frequente, a respiração pela boca, o sono agitado, as pausas na respiração durante o sono e as amigdalites com bactéria que voltam muitas vezes no ano. A criança que dorme mal também pode ter cansaço, irritação e dificuldade na escola durante o dia. Na consulta, o otorrino examina a garganta e o nariz e vê se a obstrução vem das amígdalas, da adenoide ou de outro ponto. As causas do ronco infantil estão na orientação sobre ronco em criança.
Quem tem caseum precisa tirar as amígdalas?
A maioria não. O caseum é muito comum e, na maior parte das pessoas, é controlado com gargarejo. A cirurgia entra quando ele volta o tempo todo, com mau hálito e gosto ruim que atrapalham a vida, mesmo com os cuidados. Antes, o otorrino confirma se o mau hálito vem mesmo das amígdalas, e não da língua, dos dentes ou de outra origem.
Referências
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- VILELA, Larissa. Amigdalectomia: cirurgia de retirada das amígdalas – como é feita, pós-operatório e indicações. YouTube, 22 ago. 2026. 1 vídeo (10 min 25 s). Disponível em: https://youtu.be/VQMSO8aKjDE. Acesso em: 7 out. 2026.
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Avaliação da indicação de tirar as amígdalas na OtoCare, em Brasília
Amigdalites que se repetem, amígdalas grandes com ronco e respiração pela boca, um abscesso no passado ou caseum que não dá trégua pedem uma avaliação com exame da garganta. Na consulta com otorrino na OtoCare, no Noroeste de Brasília, o histórico de cada paciente é conferido com os critérios da cirurgia, e a decisão de operar ou esperar é tomada junto com o paciente ou a família. Quando a cirurgia é indicada, ela é feita pela Dra. Larissa.