Respirador bucal: sinais, causas e tratamento da síndrome do respirador oral

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O que é a síndrome do respirador oral

Dentes tortos, mordida que não encaixa e a perspectiva de usar aparelho ortodôntico costumam levar os pais ao dentista. Nesses casos, é muito importante avaliar também a respiração da criança, um ponto que muitas vezes passa despercebido.

Uma criança que não respira bem pelo nariz abre a boca para conseguir respirar. Quando isso acontece por longos períodos, durante o dia e também à noite, o crescimento do rosto muda, a arcada dentária não se desenvolve bem e os dentes saem do lugar. Esse conjunto de alterações recebe o nome de síndrome do respirador oral, também chamada de síndrome do respirador bucal. Quem tem o quadro é chamado de respirador bucal ou respirador oral.

É um problema muito comum. Estudos feitos em cidades brasileiras encontraram respiração pela boca em 53% a 57% das crianças de 3 a 10 anos. Algumas publicações citam para a síndrome uma frequência bem menor, de 0,1% a 13%. Essa faixa se refere aos distúrbios respiratórios do sono, como a apneia, que atinge de 1% a 4% das crianças, e não à respiração pela boca em geral, que é bem mais comum.

Menino de boca entreaberta, com os dentes da frente à mostra, ao lado da Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

Por que respirar pela boca muda o rosto e os dentes

A maxila, o osso da parte de cima da boca, onde ficam os dentes superiores, precisa do estímulo da passagem de ar pelo nariz para descer e crescer de forma adequada. Quando o ar não passa pelo nariz, esse estímulo falta, e a região do meio do rosto fica pouco desenvolvida.

Ao mesmo tempo, a boca aberta muda a posição da língua, dos lábios e da mandíbula, o osso de baixo. A mandíbula fica numa posição mais baixa e tende a crescer menos. Com o passar dos meses e dos anos, essas forças fora do lugar alteram o crescimento da face, o desenvolvimento da arcada dentária e o posicionamento dos dentes.

Uma revisão de 10 estudos confirmou esse padrão. Nas crianças que respiram pela boca, a maxila e a mandíbula giram para trás e para baixo, o rosto cresce mais no sentido vertical, os dentes de cima ficam mais inclinados para frente e a passagem de ar na garganta é mais estreita.

Sinais nos dentes e no rosto da criança

As alterações da respiração pela boca têm características próprias, e muitas delas aparecem nos dentes e na mordida.

Céu da boca fundo e arcada estreita

Em vez de ficar mais reto e na posição certa, o céu da boca fica curvado e mais fundo, mais alto do que o normal. É o que se chama de palato ogival. Com isso, a arcada de cima fica mais estreita, os dentes não têm espaço e começam a ficar desalinhados.

Numa revisão de 2026, com 13 estudos, as crianças que respiram pela boca tinham a arcada superior mais estreita, o palato mais fundo na parte de trás e mais mordida cruzada do que as que respiram pelo nariz.

Dentes de cima para frente e mandíbula para trás

Outro sinal característico são os dentes de cima, os da frente da boca, inclinados para frente. A mandíbula, por ficar mais baixa durante a respiração pela boca, tende a se desenvolver menos e a ficar mais para trás no rosto.

Mordida aberta e mordida cruzada

Quando a criança fecha a boca, os dentes não se encaixam. Na mordida aberta, fica um espaço entre os dentes de cima e os de baixo. Muitas vezes a mordida também fica cruzada, com dentes de cima encaixando por dentro dos de baixo. A mordida aberta e a cruzada são sinais característicos da criança que não respira bem pelo nariz.

Num estudo com escolares de Recife, a mordida aberta na frente apareceu em 60% das crianças que respiravam pela boca, contra 30% das que respiravam pelo nariz. O palato alto apareceu em 38,8% delas, contra 2,9%.

Lábios e rosto alongado

Até os lábios mudam. O lábio de cima se desenvolve menos e fica mais fino. O de baixo tende a ficar caído e entreaberto. O rosto fica mais alongado.

Rosto alongado, boca aberta, lábio de baixo caído, lábio de cima pouco desenvolvido e mordida que não se ajusta formam o quadro clássico da criança que não respira bem pelo nariz. Esse aspecto também é conhecido como face adenoideana, porque a adenoide aumentada é uma das causas mais comuns.

Como saber se a criança respira pela boca

Os pais podem observar alguns sinais em casa. Durante o dia, a criança fica com a boca fechada ou passa a maior parte do tempo de boca aberta? À noite, ela ronca, tem dificuldade para respirar, dorme de boca aberta ou baba muito no travesseiro? Todos esses são sinais de que a respiração pelo nariz não está boa e de que a criança passa muito tempo respirando pela boca.

Num estudo com crianças respiradoras bucais de Abaeté, em Minas Gerais, os sinais mais frequentes foram estes.

  • Dormir de boca aberta, em 86% das crianças.
  • Roncar, em 79%.
  • Coceira no nariz, em 77%.
  • Babar no travesseiro, em 62%.
  • Sono agitado, em 62%.
  • Nariz entupido, em 49%.
  • Irritação durante o dia, em 43%.

Outros sinais descritos são boca seca, dificuldade para acordar, sonolência durante o dia, dor de cabeça ao acordar, suor à noite, ranger de dentes, fazer xixi na cama, pouco apetite e infecções de nariz e garganta frequentes. A respiração ruidosa e o ronco em criança merecem atenção especial, porque podem indicar que o sono não está sendo reparador e, às vezes, apneia do sono.

Se a criança tem alteração na mordida e os dentes não estão bem alinhados, talvez ela esteja respirando muito pela boca, e a respiração também precisa ser avaliada.

Causas da respiração pela boca na criança

Existem várias causas, e as mais comuns na criança são três: o aumento da adenoide, o aumento das amígdalas e uma rinite muito acentuada, com o nariz muito entupido. Muitas crianças têm mais de uma delas ao mesmo tempo.

No estudo de Minas Gerais, a rinite alérgica estava presente em 81,4% das crianças que respiravam pela boca, a adenoide aumentada em 79,2%, as amígdalas aumentadas em 12,6% e o desvio de septo que obstrui o nariz em 1%.

  • Adenoide aumentada. A adenoide fica no fundo do nariz e, quando cresce demais, fecha a passagem do ar. Como ela é tratada está na orientação sobre como tratar a adenoide.
  • Amígdalas aumentadas. Amígdalas grandes estreitam a garganta e atrapalham a respiração, principalmente durante o sono.
  • Rinite. A rinite muito acentuada incha a parte de dentro do nariz e deixa a criança com o nariz entupido por longos períodos.
  • Outras causas. Desvio de septo, cornetos aumentados, sinusite e, mais raramente, pólipos ou um objeto preso no nariz.

Hábitos como chupeta, chupar o dedo e mamadeira por muito tempo também se associam à boca aberta e à mordida aberta. A obesidade também estreita a passagem de ar e aumenta o risco de o ronco e as pausas na respiração voltarem na adolescência, mesmo depois do tratamento.

Respirador bucal por hábito ou por obstrução

Na maioria das crianças, a boca fica aberta porque o ar não passa pelo nariz. É a respiração pela boca por obstrução, causada pela adenoide, pelas amígdalas ou pela rinite.

Em algumas, o nariz já está livre, mas a criança continua de boca aberta. Isso acontece quando ela se acostumou a respirar assim durante anos, e o hábito pode continuar mesmo depois que o problema que entupia o nariz foi tratado. É a respiração pela boca por hábito.

A diferença importa porque o tratamento muda. Na obstrução, o primeiro passo é liberar o nariz e a garganta. No hábito, depois de confirmado que a passagem de ar está boa, os exercícios com fonoaudiólogo ajudam a criança a manter a boca fechada e a voltar a respirar pelo nariz.

Respirador bucal, escola e atenção

A criança que respira pela boca costuma dormir mal. O sono agitado, com ronco e despertares, deixa a criança cansada, irritada e com dificuldade para prestar atenção na escola. Por isso, a respiração pela boca às vezes é confundida com TDAH, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

Um estudo brasileiro comparou crianças que respiravam pela boca com crianças que respiravam pelo nariz. As que respiravam pela boca tiveram pior desempenho em compreensão de leitura, em aritmética e num teste de memória de trabalho. Em Recife, com quase 2.000 escolares, a qualidade de vida também foi pior nas crianças que respiravam pela boca.

Num grande ensaio clínico com crianças com apneia do sono, a retirada das amígdalas e da adenoide melhorou o comportamento, a qualidade de vida e os sintomas, mas não mudou os testes de atenção em sete meses. Respirar bem melhora o sono e o comportamento, mas nem toda dificuldade de atenção vem da respiração, e isso também é conversado na consulta.

Como é feito o diagnóstico

Se a criança passa a maior parte do tempo respirando pela boca, ou se ronca e tem uma respiração mais barulhenta e difícil à noite, a orientação é procurar o otorrino. O provável é que ela não esteja respirando bem pelo nariz, e é preciso descobrir por quê.

Na consulta, o otorrino conversa sobre o sono, o ronco, as infecções e os hábitos da criança, examina o nariz, a boca, as amígdalas e os ouvidos e observa o rosto, os lábios e a mordida.

Para ver a adenoide, o exame mais preciso é a nasofibrolaringoscopia, feita no consultório com uma câmera fina passada pelo nariz. Ela mostra o tamanho da adenoide, o estado dos cornetos e do septo e o quanto da passagem de ar está fechada. Na OtoCare, o exame é feito na própria clínica. Uma revisão de estudos considera a endoscopia do nariz o padrão de referência para avaliar a adenoide, e a Sociedade Brasileira de Pediatria a descreve como mais confiável do que o raio X.

Quando há suspeita de alergia, testes alérgicos podem ajudar. Quando o ronco é forte, com pausas na respiração, a polissonografia, o exame do sono, pode ser indicada para medir a gravidade.

Tratamento do respirador bucal

O tratamento depende da causa. O objetivo é sempre o mesmo, favorecer uma boa respiração pelo nariz, e pode ser clínico ou cirúrgico. Dependendo do caso, o remédio ou a cirurgia resolve a questão da criança.

Rinite: tratamento clínico

Quando a causa é a rinite, o tratamento é feito com remédios, como o corticoide em spray nasal, com a lavagem do nariz e com o controle do que desencadeia a alergia. As opções estão na orientação sobre o tratamento da rinite alérgica, e a lavagem nasal em crianças ajuda a manter o nariz livre.

Adenoide e amígdalas: remédio ou cirurgia

A adenoide aumentada muitas vezes melhora com o tratamento clínico. Quando a obstrução continua, a retirada da adenoide é a solução. As situações em que a cirurgia é indicada estão na orientação sobre quando operar a adenoide, e como ela é feita está na página da cirurgia de adenoide.

Amígdalas grandes, que obstruem a garganta, são retiradas na cirurgia das amígdalas, muitas vezes junto com a adenoide. Na apneia do sono da criança com amígdalas e adenoide aumentadas, a diretriz da Academia Americana de Pediatria indica essa cirurgia como o primeiro tratamento.

Ortodontia e fonoaudiologia como complemento

O tratamento ortodôntico corrige a posição dos dentes e, quando a maxila ficou estreita, pode alargá-la com aparelhos expansores. Numa revisão com 314 crianças com apneia do sono e o céu da boca alto ou estreito, a expansão da maxila também reduziu as pausas respiratórias durante o sono. Uma revisão mais recente não encontrou evidência suficiente de benefício duradouro no sono, e por isso a expansão é vista como complemento, indicada caso a caso, e não como o tratamento da apneia.

Os exercícios com fonoaudiólogo, a chamada terapia miofuncional, fortalecem os lábios e a língua e ajudam a criança a manter a boca fechada. Eles fazem mais sentido depois que o nariz e a garganta estão livres. Aparelho e exercícios sem tratar a causa da obstrução não resolvem a respiração.

Por que tratar cedo faz diferença

Se a criança for tratada logo no começo, com 3 ou 4 anos, resolvendo a adenoide ou retirando a amígdala que está grande e obstruindo, a respiração melhora e as alterações se revertem. Mesmo que ela já tenha começado a ter algumas alterações nos dentes ou no rosto, as coisas se ajustam com o crescimento da face.

Se a criança fica sem tratamento e a respiração só é resolvida depois dos 10 ou 12 anos, muitas vezes as alterações já não são mais reversíveis. Por isso, é importante tratar, e quanto antes, melhor para a criança.

Os estudos apoiam essa janela. Em crianças operadas por volta dos 5 anos e acompanhadas por 5 anos, o formato do rosto e dos dentes ficou praticamente igual ao de crianças sem o problema. Uma revisão de 16 estudos observou, depois da cirurgia, a volta da inclinação normal dos dentes da frente, um crescimento mais equilibrado da mandíbula, arcada superior mais larga e menos mordida cruzada.

Uma revisão de 2026, com estudos de qualidade variável, encontrou sinais mais discretos: alguma melhora na inclinação dos dentes de baixo e, nos dentes de leite, nenhuma mudança clara na largura da arcada. É uma ciência em evolução, e o quanto cada criança vai recuperar é avaliado caso a caso, na consulta.

Respirador bucal em adultos

Adultos também podem respirar pela boca, principalmente por desvio de septo, cornetos aumentados, rinite e pólipos. A carne esponjosa no nariz é uma das causas mais comuns de nariz entupido no adulto.

No adulto, o rosto e a arcada dentária já terminaram de crescer, e por isso tratar o nariz melhora a respiração, o ronco e a qualidade do sono, mas não desfaz as alterações dos dentes que se formaram na infância. Uma revisão de 2026 associou a respiração pela boca no adulto a mais problemas na articulação da mandíbula e à postura da cabeça mais para frente, com evidência ainda muito fraca.

Vídeo: síndrome do respirador oral

O vídeo abaixo mostra as alterações nos dentes e no rosto da criança que respira pela boca, as causas mais comuns e por que o tratamento precoce faz diferença.

Perguntas frequentes

Respirador bucal tem cura?

Na criança, na maioria das vezes, sim. O tratamento da causa, com remédio ou cirurgia, devolve a respiração pelo nariz e, quando é feito cedo, as alterações dos dentes e do rosto se ajustam com o crescimento.

Respirar pela boca entorta os dentes?

Pode entortar. A boca aberta por longos períodos faz a arcada de cima crescer estreita, e os dentes ficam sem espaço, desalinhados e inclinados para frente.

É verdade que respirar pela boca muda o rosto?

É. Na criança, a respiração pela boca deixa o rosto mais alongado, o meio do rosto menos desenvolvido e a mandíbula mais para trás. Quando o tratamento é feito cedo, boa parte dessas alterações se ajusta com o crescimento.

Criança que dorme de boca aberta é respiradora bucal?

Dormir de boca aberta de vez em quando, numa gripe, é comum. Quando acontece quase todas as noites, junto com ronco ou baba no travesseiro, é sinal de que o ar não está passando bem pelo nariz, e a criança precisa ser avaliada.

Qual médico trata o respirador bucal?

O otorrinolaringologista. É ele quem descobre a causa da respiração pela boca e trata a adenoide, as amígdalas e a rinite. O dentista e o fonoaudiólogo podem complementar o tratamento.

O que é feito na consulta para respirador bucal?

O otorrino conversa sobre o sono e os sintomas, examina o nariz, a garganta e a mordida e, quando necessário, faz a nasofibrolaringoscopia para ver a adenoide e o nariz por dentro.

Com quantos anos dá para tratar?

Em qualquer idade, mas quanto antes, melhor. Tratada por volta dos 3 ou 4 anos, a criança tem tempo de crescimento para que os dentes e o rosto se ajustem. Depois dos 10 ou 12 anos, muitas alterações já não se revertem.

Respirador bucal tem olheiras?

É comum. Num estudo em Recife, quase todas as crianças que respiravam pela boca tinham olheiras, mas elas também apareceram em boa parte das que respiravam pelo nariz. Sozinhas, as olheiras não fazem o diagnóstico.

Respirador bucal tem relação com bruxismo?

Pode ter. Ranger os dentes à noite é um dos sinais descritos em crianças que respiram pela boca e dormem mal.

Exercícios resolvem a respiração pela boca?

Sozinhos, não. Os exercícios com fonoaudiólogo ajudam a manter a boca fechada depois que o nariz e a garganta estão livres. Se a adenoide, as amígdalas ou a rinite continuam fechando a passagem do ar, a criança continua respirando pela boca.

Aparelho ortodôntico resolve o respirador bucal?

O aparelho corrige os dentes e pode alargar a arcada, mas não trata a causa. Enquanto o nariz continuar entupido, a criança segue respirando pela boca.

Respirar pela boca dormindo faz mal?

Quando é frequente, faz. A respiração pela boca durante o sono costuma vir com ronco e sono agitado, e o sono deixa de ser reparador, com cansaço e irritação no dia seguinte.

Qual é o CID do respirador bucal?

Na CID-10, a respiração pela boca está no código R06.5. A causa, como a adenoide aumentada ou a rinite, tem o seu próprio código.

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