Como ler o resultado da VENG e da VNG: o que significa cada parte do laudo

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O laudo da VENG, parte por parte

Muitos pacientes recebem o resultado da VENG e ficam em dúvida sobre o que significam os termos do laudo. Nistagmo, rastreio pendular, sacadas, predominância labiríntica e prova calórica parecem outra língua. Esta orientação percorre o laudo na ordem em que ele costuma ser escrito e mostra quais pontos levam, ou não, ao diagnóstico de uma alteração do labirinto.

A leitura do laudo ajuda a entender o exame, mas não substitui a consulta. O resultado sempre é interpretado junto com a história do paciente e o exame físico.

Paciente com os óculos da videonistagmografia, folha de resultados de um exame do labirinto e a Dra. Larissa Vilela

VENG e VNG: o resultado é praticamente o mesmo

A VENG é a vectoeletronistagmografia. A VNG é a videonistagmografia, a versão moderna do exame, que registra os olhos com uma câmera em vez de eletrodos. O resultado dos dois exames é praticamente semelhante, e o laudo segue a mesma ordem. Como o exame é feito, as etapas e o preparo estão na página do exame VENG e VNG.

Nistagmo espontâneo

O primeiro ponto do laudo é a presença ou não do nistagmo espontâneo. Nistagmo é um movimento rápido e involuntário dos olhos. Ele pode ter origem numa alteração do labirinto ou numa alteração central, no cérebro.

O laudo informa se o nistagmo está ausente ou presente. Quando está presente, vem a descrição das características dele, que ajudam a separar a origem no labirinto da origem central.

Nistagmo semiespontâneo

Em seguida vem o nistagmo semiespontâneo. Nessa etapa o paciente olha para os lados e para cima, e o exame observa se aparece algum movimento anormal dos olhos. Também aqui o laudo diz se ele está ausente ou presente e, se presente, descreve se tem características de uma alteração do labirinto ou de uma alteração central.

Provas oculomotoras: rastreio pendular, sacadas e nistagmo optocinético

As provas oculomotoras são três: o rastreio pendular, as sacadas e o nistagmo optocinético. Elas avaliam principalmente o tronco cerebral e o cerebelo. Quando as três mostram grandes alterações, o resultado sugere uma alteração central.

No laudo, cada prova tem os seus parâmetros:

  • no rastreio pendular, se o ganho está normal ou alterado;
  • nas sacadas, se a latência, a velocidade e a acurácia estão normais;
  • no nistagmo optocinético, se ele está simétrico e com ganho normal.

Uma alteração isolada numa dessas provas não quer dizer, necessariamente, que existe um problema central. A idade e alguns remédios podem alterar essas provas. O exame junta todos os dados para chegar a uma conclusão.

Provas posicionais

As provas posicionais procuram nistagmo com o paciente deitado em posições definidas. As siglas do laudo correspondem a estas posições:

  • supino: deitado de barriga para cima;
  • DLE: decúbito lateral esquerdo, deitado de lado para a esquerda;
  • TCE: torção cervical esquerda, de barriga para cima com a cabeça virada para a esquerda;
  • DLD: decúbito lateral direito, deitado de lado para a direita;
  • TCD: torção cervical direita, de barriga para cima com a cabeça virada para a direita;
  • Rose: deitado com a cabeça pendente para fora da maca;
  • sentado.

Em cada posição, o laudo diz se houve ou não nistagmo. Quando houve, vem a descrição. Uma descrição como “nistagmo de 3°/s para a esquerda, sem sintomas neurovegetativos e com efeito inibidor da fixação ocular” reúne as características que ajudam o médico a decidir se o nistagmo sugere uma doença do labirinto ou uma alteração fora dele, como uma alteração central.

Prova calórica: a parte mais importante para avaliar o labirinto

A última parte do laudo é a prova calórica, que se pode considerar a mais importante para avaliar o labirinto. Ela é feita com quatro estímulos: quente no ouvido esquerdo, quente no ouvido direito, frio no ouvido esquerdo e frio no ouvido direito.

O estímulo de temperatura dentro do canal do ouvido chega à orelha média e estimula o canal lateral do labirinto. Por isso é normal sentir tudo girar depois da prova calórica. O labirinto recebeu um estímulo direto. O aparelho registra o nistagmo que se forma e calcula a velocidade angular da componente lenta desse nistagmo. É esse número, em graus por segundo, que aparece em cada uma das quatro provas e indica como o labirinto está funcionando.

Com os quatro números, a leitura compara o labirinto esquerdo com o direito, para ver se algum funciona mais do que o outro, e depois olha cada labirinto separadamente.

Predominância labiríntica (PL)

A predominância labiríntica mostra se um labirinto respondeu mais do que o outro. No laudo apresentado no vídeo, o normal é até 19%. A PL vem com o lado que respondeu melhor. Uma PL alta para a direita, por exemplo, indica que o labirinto esquerdo respondeu menos.

Predominância direcional (PD)

A predominância direcional mostra se o nistagmo bate mais para um lado do que para o outro, por uma diferença de tônus no sistema do equilíbrio. No laudo do vídeo, o normal é até 17%.

A soma de cada labirinto: hipofunção, normal ou hiperreflexia

Para saber se cada labirinto está funcionando bem, somam-se as respostas daquele lado, a quente e a fria. Pela referência do laudo do vídeo, essa soma precisa ser maior que 5 e no máximo 62. Abaixo de 5, o labirinto tem hipofunção. Acima de 62, há hiperreflexia, uma resposta exagerada ao estímulo.

A hiperreflexia pode ter causas neurológicas ou ligadas a remédios, e até a ansiedade pode fazer os labirintos reagirem de forma excessiva. O medo do exame parece ser uma das causas mais comuns. Já uma resposta baixa nos dois lados pode acontecer com remédios que deprimem a função do labirinto, como a cinarizina e a flunarizina.

Os valores de referência mudam de um serviço para outro

Os números de normalidade não são iguais em todos os serviços. Uma revisão brasileira sobre a prova calórica descreve limites de 20% a 33% para a diferença entre os labirintos e de 22% a 33% para a predominância direcional, conforme o serviço. Os limites de 19% e 17% do laudo do vídeo são a referência daquele serviço. Por isso, o valor de referência que vale é o que vem no próprio laudo, e a leitura final é feita caso a caso, na consulta.

Efeito inibidor da fixação ocular (EIFO)

No fim da prova calórica, o laudo costuma informar o efeito inibidor da fixação ocular, o EIFO. Quando o paciente abre os olhos e fixa o olhar, o nistagmo provocado pelo estímulo deve diminuir. EIFO presente é um bom sinal, porque mostra que a fixação do olhar suprimiu o estímulo do labirinto de forma adequada. Quando o EIFO está ausente, o achado pode indicar uma alteração central. Remédios em uso e detalhes da própria realização do exame também interferem nesse resultado, por isso ele é lido junto com as provas oculomotoras e o restante do exame.

Um exemplo de laudo lido do começo ao fim

No laudo analisado no vídeo, o nistagmo espontâneo e o semiespontâneo estavam ausentes. Nas provas oculomotoras havia algumas alterações no rastreio, nas sacadas e no optocinético. Esses achados não indicam sozinhos um problema central. A idade e os remédios em uso também alteram essas provas, e o significado delas é definido pelo médico junto com a história e o exame físico.

Nas posicionais, não houve nistagmo em supino, DLE, TCE e TCD. Houve nistagmo no DLD e na posição de Rose. Na Rose, o nistagmo era de 3°/s para a esquerda, sem sintomas neurovegetativos e com efeito inibidor da fixação ocular.

Na prova calórica, as respostas foram 35 na quente esquerda, 26 na quente direita, 9 na fria esquerda e 9 na fria direita. A leitura desses números fica assim:

  • predominância labiríntica de 11% para a esquerda, abaixo do limite de 19%, portanto normal;
  • predominância direcional de 11%, abaixo do limite de 17%, também normal;
  • soma do labirinto esquerdo: 35 + 9 = 44, entre 5 e 62, normal;
  • soma do labirinto direito: 26 + 9 = 35, também dentro da faixa normal;
  • EIFO presente nas quatro estimulações.

Os dois labirintos funcionavam de forma simétrica, sem hipofunção e sem predominância direcional. A conclusão do laudo foi de alterações de oculomotricidade e nistagmos posicionais com características periféricas. A prova calórica estava dentro da normalidade.

O laudo não é o diagnóstico

O laudo da VENG é uma peça importante, mas não fecha o diagnóstico sozinho. O médico junta todas as informações do exame com a história e o exame físico para chegar ao diagnóstico correto da alteração do labirinto.

Na neurite vestibular, por exemplo, a prova calórica costuma mostrar um labirinto com resposta menor que o outro, e é a história de uma vertigem súbita e intensa que liga esse achado à doença. A VENG também não é o único exame do labirinto. O vHIT, feito na própria OtoCare, no Noroeste de Brasília, avalia o reflexo do labirinto de outra forma e muitas vezes complementa a VENG.

Vídeo: como ler o resultado da VENG e da VNG

O vídeo abaixo analisa um laudo real de VENG na tela, parte por parte, do nistagmo espontâneo à prova calórica, e mostra como os números levam à conclusão.

Perguntas frequentes

O que é predominância labiríntica no exame VENG?

É a comparação entre a resposta dos dois labirintos na prova calórica. O laudo informa a porcentagem e o lado que respondeu melhor. Dentro do limite do serviço, os dois labirintos funcionam de forma simétrica. Simetria, porém, não garante função normal, porque os dois lados podem responder pouco por igual. Por isso o laudo também avalia a soma de cada lado.

O que significa PL de 25% para a direita?

Significa que o labirinto direito respondeu mais do que o esquerdo. Se o limite do laudo for 19%, como no exemplo do vídeo, 25% indica que o labirinto esquerdo está respondendo menos. Como os limites variam entre serviços, vale a referência do próprio laudo. Se isso é uma hipofunção do lado esquerdo depende também da soma de cada lado e da avaliação na consulta.

O que significa hiperreflexia labiríntica?

É uma resposta do labirinto acima do normal na prova calórica. Pode ter causa neurológica ou ligada a remédios, e a ansiedade durante o exame é uma causa comum.

O que significa hiporreflexia labiríntica bilateral?

É uma resposta baixa dos dois labirintos. Pode acontecer com remédios que deprimem a função do labirinto, como a cinarizina e a flunarizina, e com outras causas que o médico investiga junto com a história.

Prova calórica normal quer dizer que o labirinto está bom?

Quer dizer que os dois labirintos responderam ao estímulo de forma simétrica e dentro da faixa normal. O diagnóstico, porém, depende do conjunto do exame, da história e do exame físico.

O que é EIFO presente no laudo?

É o efeito inibidor da fixação ocular. Presente significa que, ao abrir os olhos e fixar o olhar, o nistagmo diminuiu como esperado, o que é um bom sinal.

O que é nistagmo posicional?

É o nistagmo que aparece quando o paciente é colocado em determinadas posições, como deitado de lado ou com a cabeça pendente. A descrição no laudo ajuda a saber se ele sugere uma doença do labirinto ou uma alteração central.

Alteração no rastreio ou nas sacadas é problema no cérebro?

Não necessariamente. Grandes alterações nas três provas oculomotoras sugerem alteração central, mas uma alteração isolada pode vir da idade ou de remédios. O resultado é lido no conjunto.

A ansiedade pode alterar o resultado da VENG?

Pode. O nervosismo com o exame parece ser uma das causas mais comuns de resposta exagerada na prova calórica. Saber antes que a tontura na prova é esperada ajuda a fazer o exame com mais tranquilidade.

Remédio para tontura altera o resultado?

Sim. Remédios para tontura como a cinarizina e a flunarizina diminuem a resposta do labirinto na prova calórica, e outros remédios de uso contínuo, como alguns antidepressivos e anticonvulsivantes, podem alterar as provas oculomotoras. Por isso o preparo do exame inclui orientações sobre os remédios em uso, que o otorrino ajusta caso a caso.

VENG e VNG dão o mesmo resultado?

Praticamente o mesmo. A VNG é a versão moderna, com câmera, e o laudo segue as mesmas etapas.

Referências

  1. VILELA, Larissa. Como ler o resultado do exame VENG e VNG? YouTube, 15 mar. 2025. 1 vídeo (12 min 34 s). Disponível em: https://youtu.be/Jtx-9uF2jDU. Acesso em: 26 set. 2026.
  2. GONÇALVES, D. U.; FELIPE, L.; LIMA, T. M. A. Interpretação e utilidade da prova calórica. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, v. 74, n. 3, p. 440–446, 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rboto/a/7XTv6BtqJbGtzMGMjkyVd3b/?lang=pt. Acesso em: 26 set. 2026.

Avaliação do laudo da VENG em Brasília

Se você fez a VENG ou a VNG e quer entender o resultado, uma consulta com otorrino na OtoCare junta o laudo com a sua história e o exame físico para chegar ao diagnóstico e definir o tratamento da tontura.

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