Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino
Rosto paralisado de repente: é AVC ou problema no nervo?
Quando um lado do rosto para de se mexer, a primeira dúvida de muitos pacientes é se aquilo é um AVC, o popular derrame, ou um problema no nervo da face. Essa dúvida costuma acompanhar a pessoa até a consulta.
Existe uma diferença básica, que já aparece no exame do rosto. A paralisia pode pegar a metade inteira do rosto ou só a parte de baixo, e olhar para a testa e para os olhos ajuda muito a separar as duas situações. Mesmo assim, só a avaliação médica confirma o diagnóstico, e o tratamento deve começar o mais rápido possível.

O que é paralisia facial
A paralisia facial é a perda de função dos músculos do rosto. Esses músculos ficam fracos, e a pessoa passa a ter dificuldade com as expressões faciais, o sorriso, o piscar dos olhos e, muitas vezes, até com a alimentação.
Quem comanda esses músculos é o nervo facial. Ele sai do tronco cerebral, atravessa o osso do ouvido, sai do crânio logo abaixo da orelha e se espalha pelo rosto. Por isso, a paralisia pode começar no cérebro ou em algum ponto do caminho do nervo.
O nervo facial também leva comandos para a lágrima, a saliva e parte do paladar, e ajuda a proteger o ouvido de sons altos. Quando o problema está no nervo, a paralisia pode vir junto com alteração do gosto, menos lágrima ou incômodo com barulho de um lado.
Paralisia facial central e periférica: os dois grandes grupos
As causas de paralisia facial se dividem em dois grandes grupos. As centrais vêm do cérebro, principalmente do AVC e de outros problemas neurológicos. As periféricas vêm de uma lesão ou inflamação no próprio nervo facial.
A diferença entre as duas está na parte do rosto que perde o movimento. Na paralisia periférica, toda a metade do rosto fica paralisada, incluindo testa, olho, boca e sorriso. Na paralisia central, só a metade de baixo do rosto é atingida, e a testa fica preservada.
Por que a testa se mexe no AVC
A parte de cima do rosto, com a testa e as pálpebras, recebe ordens dos dois lados do cérebro. A parte de baixo recebe ordens de um lado só. No AVC, um lado do cérebro deixa de mandar o comando, mas a testa continua recebendo o sinal do outro lado e se movimenta.
Quando a lesão está no nervo facial, que é o último trecho do caminho até os músculos, nenhum sinal chega àquele lado do rosto, e a testa também paralisa.
Pelo mesmo motivo, na paralisia central a fraqueza aparece no lado do rosto oposto ao lado do cérebro que foi atingido. Na paralisia periférica, ela fica do mesmo lado do nervo lesionado.
Como diferenciar: o teste da testa e dos olhos
No exame, o que mais ajuda é pedir alguns movimentos simples e comparar os dois lados do rosto.
- Levantar as sobrancelhas, como quem se espanta.
- Franzir a testa, fazendo cara de bravo.
- Fechar os olhos com força.
- Sorrir mostrando os dentes.
Na paralisia periférica, o lado afetado perde força em todos esses movimentos. A testa não enruga, a sobrancelha não sobe, o olho não fecha por completo e o sorriso fica torto.
Na paralisia central, a pessoa consegue levantar as sobrancelhas, franzir a testa e fechar os olhos. A perda de movimento aparece na boca e no sorriso. Se a pessoa consegue elevar a testa e fechar os olhos, a paralisia provavelmente é central, e deve haver alguma questão neurológica, como um AVC, acontecendo.
| O que observar | Paralisia periférica | Paralisia central |
|---|---|---|
| Onde está o problema | No nervo facial | No cérebro, principalmente por AVC |
| Parte do rosto atingida | Toda a metade do rosto | Só a metade de baixo |
| Testa e sobrancelha | Fracas ou paralisadas | Se movimentam |
| Fechar os olhos | O olho do lado afetado não fecha por completo | Fecha |
| Sorriso | Torto | Torto |
| Lado da fraqueza | O mesmo lado do nervo atingido | O lado oposto ao da lesão no cérebro |
| O que pode vir junto | Dor atrás da orelha, alteração do gosto, incômodo com sons | Fraqueza no braço ou na perna, dificuldade para falar, alteração da visão, tontura súbita |
Um exemplo conhecido: a paralisia do Justin Bieber
Em 2022, o cantor Justin Bieber publicou um vídeo mostrando o próprio rosto com paralisia facial, causada por uma inflamação viral no nervo da face que ele informou ser a síndrome de Ramsay Hunt. É um exemplo claro de paralisia periférica.
No vídeo, toda a metade direita do rosto está paralisada. Quando ele tenta fechar os olhos, o olho direito não fecha. Ao sorrir, só o lado esquerdo da boca se movimenta. O olho esquerdo pisca bem, e o direito fica parado. A testa sobe do lado esquerdo e continua sem movimento do lado direito.
Se fosse uma paralisia central, os olhos, as sobrancelhas e a testa estariam normais dos dois lados, e a alteração ficaria só na metade de baixo do rosto, visível ao sorrir.
Paralisia facial de um lado só ou dos dois lados
Habitualmente, as paralisias faciais são unilaterais, ou seja, atingem só um lado do rosto. Existem casos de paralisia dos dois lados, mas são mais raros.
Na paralisia central, é muito raro os dois lados serem atingidos. O comum é um lado só e apenas a metade de baixo do rosto. A paralisia periférica dos dois lados pode aparecer em doenças como a doença de Lyme e a sarcoidose, segundo o Manual MSD, e sempre exige a investigação da causa.
Outros sinais que aparecem junto com o AVC
No AVC, muitas vezes o rosto não é o único sinal. Os sintomas começam de repente e costumam piorar rápido. Segundo o Manual MSD, os mais comuns são estes.
- Fraqueza ou paralisia súbita de um lado do corpo, no braço, na perna ou no lado inteiro.
- Perda ou alteração súbita da sensibilidade de um lado do corpo.
- Dificuldade súbita para falar ou para encontrar as palavras.
- Confusão súbita, com dificuldade para entender o que os outros dizem.
- Visão turva, perda da visão ou visão dupla, de forma súbita.
- Tontura súbita ou perda do equilíbrio e da coordenação, com risco de queda.
Esses sinais importam mesmo quando desaparecem depois de alguns minutos. Um rosto que ficou torto de repente, principalmente com a testa se mexendo ou com qualquer um desses sinais, precisa de avaliação médica o mais rápido possível, porque o resultado do tratamento do AVC depende do tempo.
A velocidade de instalação ajuda pouco a separar os quadros. A paralisia de Bell se instala ao longo de horas, com o pior momento em até três dias, e o AVC também pode piorar aos poucos, ao longo de minutos ou horas, segundo o Manual MSD. Por isso, uma paralisia que piorou devagar não afasta o AVC.
Quando o teste da testa não basta
A regra da testa resolve a grande maioria dos casos. Em situações raras, um AVC em uma região do tronco cerebral chamada ponte atinge o ponto de onde sai o nervo facial e paralisa a metade inteira do rosto, como na paralisia periférica. Um estudo com pacientes nessa situação mostrou que ela muitas vezes vem junto com alteração no movimento dos olhos ou com outros sinais neurológicos.
Por isso, a avaliação do rosto é sempre acompanhada do restante do exame, e cada caso é analisado com a história completa do paciente.
Causas da paralisia facial periférica
A causa mais comum é a paralisia de Bell, uma inflamação do nervo facial provavelmente ligada a um vírus, na maioria das vezes o herpes simples. O nervo incha dentro de um canal estreito no osso do ouvido e deixa de levar os comandos ao rosto. A orientação sobre paralisia de Bell explica os sintomas, o tratamento e a recuperação.
Outras causas de paralisia periférica, segundo o Manual MSD, são estas.
- Herpes-zóster no ouvido, a síndrome de Ramsay Hunt, causada pelo vírus da catapora, com dor e bolhas na orelha.
- Infecções do ouvido médio e a mastoidite, porque o nervo passa muito perto dessas regiões.
- Tumores no caminho do nervo, como o neurinoma do acústico.
- Traumatismos, como a fratura do osso do ouvido.
- Doença de Lyme, sarcoidose e diabetes.
Como boa parte do caminho do nervo facial fica dentro do ouvido, muitas dessas causas estão na área do otorrino, e a avaliação inclui o exame cuidadoso dos ouvidos.
Causas da paralisia facial central
A principal causa é o AVC, tanto o que acontece pelo entupimento de uma artéria do cérebro quanto o que acontece pelo rompimento dela, com sangramento. Outros problemas neurológicos que atingem as áreas do cérebro que comandam o rosto também podem causar paralisia central.
No ataque isquêmico transitório, o AIT, os mesmos sinais do AVC aparecem e somem em pouco tempo. O rosto pode ficar torto por alguns minutos e voltar ao normal, e isso também precisa de avaliação médica o mais rápido possível.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico começa pelo exame do rosto, com os movimentos da testa, dos olhos e da boca. Muitas vezes, só esse exame já mostra se o problema é central ou periférico.
Na paralisia de Bell típica, que se instala rápido e sem outros sinais, a diretriz americana de otorrinolaringologia não recomenda exames de imagem nem de sangue de rotina. Os exames entram quando o quadro foge do padrão.
Segundo o Manual MSD, a ressonância magnética é indicada quando a paralisia se instala de forma gradual, ao longo de semanas, ou quando há outros sinais neurológicos. A suspeita de AVC também é investigada com exame de imagem do cérebro.
Tratamento: por que não esperar
Nos dois casos, por mais que a diferença tenha ficado clara, é preciso procurar avaliação médica para confirmar o diagnóstico e começar o tratamento o mais rápido possível.
Na paralisia de Bell, o corticoide deve começar nos três primeiros dias após o início dos sintomas, segundo a diretriz americana. Enquanto o olho não fecha, ele precisa de proteção com colírio lubrificante e de cuidado para ficar fechado durante o sono. As medicações e o cuidado com o olho estão detalhados na orientação sobre paralisia de Bell.
Na paralisia central, o tratamento é o da doença que causou a paralisia.
Se um lado inteiro do rosto paralisou, incluindo a testa e o olho, e não há fraqueza no corpo, dificuldade para falar, visão dupla, alteração no movimento dos olhos nem tontura, agende uma avaliação com otorrino na OtoCare e informe a paralisia facial ao marcar pelo WhatsApp, para que o horário seja priorizado.
Vídeo: paralisia facial pode ser AVC?
No vídeo abaixo, a diferença entre a paralisia central e a periférica é mostrada no rosto, com o exemplo da paralisia do Justin Bieber.
Perguntas frequentes
Paralisia facial é AVC?
Nem sempre. A paralisia facial pode vir de um AVC, quando é central, ou de um problema no próprio nervo facial, quando é periférica. A causa periférica mais comum é a paralisia de Bell, que não é um derrame.
Como saber se o rosto torto é de AVC?
O sinal mais útil é a testa. No AVC, a pessoa costuma conseguir levantar as sobrancelhas e fechar os olhos, e a fraqueza fica na boca. Fraqueza no braço ou na perna, dificuldade para falar, alteração da visão ou tontura súbita aumentam a suspeita. Em qualquer caso, o rosto torto de repente precisa de avaliação médica o mais rápido possível.
Na paralisia de Bell a testa mexe?
Não. Na paralisia de Bell, a testa do lado afetado fica parada, e a pessoa não consegue enrugá-la nem levantar a sobrancelha daquele lado.
A paralisia facial central é do lado oposto?
Sim. Na paralisia central, a fraqueza do rosto aparece no lado oposto ao lado do cérebro atingido. Na paralisia periférica, ela fica do mesmo lado do nervo lesionado.
Paralisia facial pode ser dos dois lados?
Pode, mas é raro. Quando acontece, costuma ser periférica, ligada a doenças como a doença de Lyme ou a sarcoidose, e a causa precisa ser investigada.
Rosto torto que passa sozinho pode ser AVC?
Pode. No ataque isquêmico transitório, os sinais do AVC aparecem e somem em pouco tempo. Mesmo quando o rosto volta ao normal, é preciso avaliação médica o mais rápido possível.
Paralisia facial dói?
Pode doer. Na paralisia periférica, é comum uma dor atrás da orelha, que muitas vezes aparece antes de o rosto paralisar, segundo o Manual MSD.
Paralisia facial pode ser causada por estresse?
A causa exata da paralisia de Bell, a forma mais comum de paralisia periférica, ainda não é conhecida, segundo a diretriz americana de otorrinolaringologia. A explicação mais aceita, segundo o Manual MSD, é um inchaço do nervo facial provocado por vírus, principalmente o herpes simples. O estresse não aparece no Manual MSD como causa da paralisia.
Paralisia facial é perigosa?
Depende da causa. Quando vem de um AVC, é um quadro grave, e o tratamento depende do tempo. A paralisia periférica também merece atenção, porque o olho que não fecha pode sofrer uma úlcera na córnea e porque o tratamento funciona melhor no começo.
Paralisia facial periférica volta ao normal?
Na maioria dos casos de paralisia de Bell, sim. O tempo de recuperação e o que ajuda a acelerar a melhora estão na orientação sobre paralisia de Bell.
Paralisia facial por AVC tem cura?
Depende da área do cérebro atingida e de quanto tempo levou para o tratamento começar. A recuperação varia muito de uma pessoa para outra, e o tratamento feito cedo ajuda a preservar os movimentos.
Qual médico procurar para paralisia facial?
A paralisia periférica, que pega a metade inteira do rosto, é tratada pelo otorrinolaringologista, porque o nervo facial passa por dentro do ouvido. Na OtoCare, a consulta com otorrino confirma o diagnóstico, pesquisa a causa e inicia o tratamento. Ao agendar, informe a paralisia facial para que o horário seja priorizado.
Referências
- VILELA, Larissa. Paralisia facial: pode ser AVC? YouTube, 30 ago. 2023. 1 vídeo (5 min 30 s). Disponível em: https://youtu.be/z0F98xfP40U. Acesso em: 25 set. 2026.
- PARALISIA do nervo facial. Manual MSD: edição para profissionais. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3gicos/doen%C3%A7as-neuroftalmol%C3%B3gicas-e-de-pares-cranianos/paralisia-do-nervo-facial. Acesso em: 25 set. 2026.
- CONSIDERAÇÕES gerais sobre o acidente vascular cerebral. Manual MSD: versão saúde para a família. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-cerebrais-da-medula-espinal-e-dos-nervos/acidente-vascular-cerebral/considera%C3%A7%C3%B5es-gerais-sobre-o-acidente-vascular-cerebral. Acesso em: 25 set. 2026.
- BAUGH, R. F. et al. Clinical practice guideline: Bell’s palsy. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 149, n. 3, supl., p. S1–S27, 2013. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24189771/. Acesso em: 25 set. 2026.
- MIN, Y. G.; JUNG, K. H. Patterns of pontine strokes mimicking Bell’s palsy. BMC Neurology, v. 19, n. 1, p. 208, 2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31455262/. Acesso em: 25 set. 2026.
Avaliação da paralisia facial em Brasília
Se um lado do rosto paralisou por inteiro, com a testa e o olho, sem outros sinais de alerta, como fraqueza no corpo, dificuldade para falar ou visão dupla, uma consulta com otorrino na OtoCare confirma o diagnóstico, investiga a causa e começa o tratamento. Ao agendar, informe a paralisia facial para que o horário seja priorizado.
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