Mastoidite: o que é, sintomas, diagnóstico e tratamento

Dra. Larissa Vilela, médica otorrinolaringologista da Clínica OtoCare

Por Dra. Larissa Vilela, médica otorrino

O que é a mastoide e como surge a mastoidite aguda

A mastoidite aguda é uma infecção bacteriana grave que atinge a mastoide, porção do osso temporal localizada imediatamente atrás da orelha. Esse osso possui uma estrutura muito peculiar: ele é altamente aerado e pneumatizado, formado por dezenas de pequenas cavidades ou células ósseas preenchidas por ar, muito semelhantes a uma esponja ou a um favo de mel. Todas essas células se comunicam diretamente com a cavidade da orelha média por meio de uma abertura anatômica chamada aditus ad antrum.

Por causa dessa ligação direta, a mastoidite aguda surge quase sempre como uma complicação de uma otite média bacteriana. Quando uma infecção do ouvido médio não é tratada a tempo, é tratada com antibiótico inadequado ou evolui com bactérias mais agressivas, as bactérias proliferam e invadem o osso mastóideo, preenchendo as células de pus e inflamando o revestimento mucoso e periósteo.

Sinais de mastoidite aguda com inchaço e vermelhidão atrás da orelha e protrusão do pavilhão auricular

Aviso de urgência médica: Se você ou seu filho apresenta dor de ouvido acompanhada de inchaço, vermelhidão ou calor atrás da orelha, orelha empurrada para a frente (“em abano”) e febre alta, procure atendimento hospitalar de emergência imediatamente. A mastoidite aguda é uma infecção bacteriana séria que exige avaliação presencial urgente com médico otorrinolaringologista e início rápido de antibiótico na veia.

Na era anterior aos antibióticos, a mastoidite era uma complicação relativamente comum, acometendo cerca de 20% das pessoas com otite média. Hoje, com o diagnóstico precoce e o uso criterioso de antimicrobianos, tornou-se um quadro bem mais raro, ocorrendo em cerca de 0,2% das otites médias agudas. Ainda assim, por seu potencial de destruição óssea e disseminação para estruturas nobres, continua sendo uma das emergências mais importantes da Otorrinolaringologia.

Por que a mastoidite é mais frequente em crianças pequenas

Embora a mastoidite possa acontecer em qualquer idade, incluindo adultos e idosos, ela afeta principalmente crianças menores de dois anos. Conforme explica a Dra. Larissa Vilela, três fatores médicos fundamentais explicam essa maior vulnerabilidade na primeira infância:

  • Anatomia em desenvolvimento: nos bebês e crianças pequenas, o canal de comunicação entre a orelha média e a mastoide é muito estreito. Qualquer processo inflamatório ou edema de mucosa obstrui facilmente essa passagem, aprisionando a secreção e o pus dentro das células ósseas sob pressão;
  • Imaturidade do sistema imunológico: crianças com menos de dois anos ainda estão desenvolvendo suas defesas contra bactérias capsuladas causadoras de infecções de ouvido, como o pneumococo (Streptococcus pneumoniae) e o estreptococo do grupo A (Streptococcus pyogenes);
  • Alta frequência de infecções respiratórias: o início da convivência em creches e escolas expõe as crianças a resfriados, gripes e crises de rinite constantes, que inflamam a tuba auditiva e servem de gatilho para episódios repetidos de otite média aguda.

Em adultos, quando a mastoidite ocorre, costuma estar associada a otites médias crônicas colesteatomatosas, episódios graves de otite não tratados ou condições de baixa imunidade, como diabetes descompensado e imunodeficiências.

Sinais e sintomas de alerta: quando suspeitar de mastoidite

O quadro típico de mastoidite aguda começa dias após uma dor de ouvido comum ou no meio de um tratamento para otite que não parece estar melhorando. O paciente volta a apresentar febre alta e passa a queixar-se de sintomas locais marcantes atrás do pavilhão auricular:

  • Dor intensa e latejante atrás da orelha: a região do osso mastóideo fica extremamente sensível tanto ao toque leve quanto à palpação profunda;
  • Vermelhidão (eritema) e calor local: a pele retroauricular adquire coloração avermelhada e quente;
  • Inchaço (edema) com apagamento do sulco: o inchaço ósseo e inflamatório preenche a dobra natural que existe entre a orelha e o couro cabeludo;
  • Protrusão do pavilhão auricular (“orelha em abano”): o acúmulo de líquido e pus empurra a orelha da criança para a frente e para baixo, criando uma assimetria nítida e visível em relação ao lado saudável;
  • Febre alta, apatia e irritabilidade: a criança chora sem parar, rejeita alimentação ou fica prostrada;
  • Saída de secreção purulenta pelo canal do ouvido: pode ocorrer quando o tímpano perfura devido à pressão, conforme detalhado no guia sobre secreção saindo do ouvido da criança.
Aspecto clínicoOtite média aguda simplesMastoidite aguda clínica
Local da dorPredominantemente dentro do ouvido (dor profunda).Intensa atrás da orelha, com dor viva ao tocar o osso mastóide.
Região atrás da orelhaPele normal, sem inchaço, sem vermelhidão e sem calor.Edemaciada, avermelhada, quente e com sulco apagado.
Posição da orelhaPavilhão auricular perfeitamente simétrico e anatômico.Orelha empurrada para a frente e para baixo (“orelha em abano”).
Conduta indicadaTratamento ambulatorial com acompanhamento do otorrino.Internação hospitalar de emergência e antibiótico endovenoso.

A grande confusão: o laudo de tomografia com otomastoidite

Uma das queixas mais frequentes nos consultórios e serviços de emergência de Otorrinolaringologia decorre do pânico gerado por laudos radiológicos. O paciente realiza uma tomografia de crânio, de seios da face ou dos ossos temporais por motivos diversos — como investigação de sinusite, dor de cabeça ou acompanhamento de otite — e o relatório emitido pelo radiologista traz a seguinte descrição: “velamento das células da mastoide”, “sinais de otomastoidite” ou “otomastoidopatia inflamatória”.

Ao ler a palavra “mastoidite”, muitos pacientes e até médicos generalistas presumem que se trata de uma emergência cirúrgica com risco iminente, encaminhando a pessoa de forma alarmada para internação. No entanto, é fundamental esclarecer: o diagnóstico de mastoidite aguda é 100% clínico, e não puramente tomográfico.

Por que essa divergência acontece com tanta frequência? Como a orelha média e a mastoide formam um contínuo anatômico aberto, qualquer resfriado ou otite média com acúmulo de muco seroso faz com que o líquido reflua e preencha temporariamente as células aeradas da mastoide. Na tomografia computadorizada, o líquido inflamatório bloqueia os raios-X exatamente como o pus ou o tecido sólido fariam, produzindo a imagem de “velamento”. O radiologista apenas descreve o que vê na tela e utiliza o termo técnico “otomastoidite” para indicar que há líquido naquele espaço.

Se o paciente não tem dor atrás da orelha, a pele retroauricular não está inchada, não há vermelhidão e o pavilhão auricular está na posição normal, ele não tem mastoidite aguda verdadeira. Trata-se apenas de efusão líquida reacional associada à otite média simples, quadro que não exige internação hospitalar nem antibiótico venoso.

Quando a tomografia e a ressonância são realmente necessárias

Se o diagnóstico inicial da mastoidite aguda é feito pelo exame físico do otorrinolaringologista, qual é o papel dos exames de imagem modernos? A tomografia computadorizada com contraste e a ressonância magnética não servem para dar o diagnóstico primário, mas são ferramentas de alta precisão reservadas para cenários específicos:

  • Avaliar complicações anatômicas: identificar se o pus rompeu a cortical óssea e formou uma coleção sob a pele (abscesso subperiosteal);
  • Verificar coalescência óssea: a tomografia de alta resolução dos ossos temporais permite observar se as paredes dos septos ósseos internos da mastoide foram corroídas ou destruídas pela infecção (mastoidite coalescente);
  • Pacientes que não melhoram após 48 horas de antibiótico na veia: se a febre persistir ou o inchaço aumentar apesar do tratamento hospitalar adequado;
  • Suspeita de complicações intracranianas ou neurológicas: quando há queixa de dor de cabeça insuportável, rigidez de nuca, vômitos em jato, sonolência excessiva ou paralisia muscular no rosto, a ressonância magnética com contraste é o melhor exame para descartar trombose de seios venosos ou abscessos intracranianos.

Exames de sangue laboratoriais, como o hemograma completo e a dosagem de proteína C reativa (PCR), também são solicitados na admissão hospitalar para mensurar a intensidade da resposta inflamatória do organismo.

Possíveis complicações da mastoidite aguda não tratada

A gravidade da mastoidite reside na vizinhança anatômica do osso temporal com vasos sanguíneos nobres, nervos cranianos e o cérebro. Se a infecção coalescente não for diagnosticada e tratada prontamente, o pus pode romper barreiras ósseas e disseminar-se para outras regiões:

  • Abscesso subperiosteal: o pus perfura a cortical óssea externa da mastoide e se acumula sob o periósteo logo atrás da orelha, exigindo drenagem cirúrgica;
  • Abscesso de Bezold: a infecção rompe a ponta inferior da mastoide e desce ao longo da musculatura do pescoço (músculo esternocleidomastóideo), causando massa cervical dolorosa;
  • Paralisia facial periférica: o nervo facial atravessa o osso temporal em um canal muito próximo às células mastóideas; a inflamação ao redor do nervo pode provocar paralisia dos movimentos de um lado do rosto;
  • Labirintite infecciosa ou supurativa: invasão bacteriana das estruturas do ouvido interno, provocando vertigem incapacitante e perda auditiva neurossensorial grave e potencialmente definitiva;
  • Tromboflebite do seio sigmoide: formação de coágulos sépticos no grande seio venoso venoso que drena o sangue do cérebro, com risco de embolia e sepse;
  • Meningite e abscesso cerebral: extensão direta ou vascular da bactéria para as meninges e para o tecido cerebral (lobo temporal ou cerebelo), constituindo risco iminente de morte.

Como é feito o tratamento: internação, antibiótico venoso e cirurgia

O tratamento da mastoidite aguda clínica confirmada é obrigatoriamente hospitalar. Nenhum paciente com sinais clássicos de mastoidite deve ser tratado em casa com xaropes ou antibióticos por via oral. A conduta médica envolve três pilares integrados:

1. Internação e antibioticoterapia endovenosa: o paciente é admitido no hospital para receber antibióticos de amplo espectro diretamente na corrente sanguínea, capazes de penetrar na densa matriz óssea do osso temporal e combater os germes mais prevalentes. A duração inicial da terapia venosa costuma ser mantida até que a febre e o inchaço desapareçam por completo, sendo complementada posteriormente por tratamento oral ambulatorial.

2. Miringotomia e drenagem do ouvido: o médico otorrinolaringologista realiza uma pequena incisão cirúrgica na membrana timpânica (miringotomia) sob visualização microscópica para drenar a pressão e o pus retidos na orelha média. Com frequência, insere-se um minúsculo carretel de ventilação (tubo de ventilação ou “carretel”) para manter o canal aberto e arejado, além de colher amostra da secreção para cultura e antibiograma, permitindo ajustar o antibiótico à bactéria exata.

3. Mastoidectomia cirúrgica: quando o paciente já apresenta abscesso subperiosteal palpável, quando a tomografia comprova destruição e fusão dos septos ósseos (coalescência) ou quando não ocorre melhora clínica após 48 horas de antibiótico venoso contínuo, é indicada a mastoidectomia cortical. Nessa cirurgia, realizada no centro cirúrgico sob anestesia geral, o cirurgião otorrino abre e remove as células mastóideas infectadas e limpa o osso necrosado para permitir a cura definitiva.

Como prevenir a mastoidite cuidando bem da otite média

A melhor forma de evitar a mastoidite é tratar adequadamente as infecções de ouvido logo nos primeiros sintomas. Como a mastoidite é quase sempre secundária à otite média, medidas preventivas simples fazem toda a diferença:

  • Nunca adie a avaliação de uma dor de ouvido intensa: o diagnóstico precoce com otoscopia no consultório permite identificar a otite antes que ela se espalhe para o osso;
  • Tome o antibiótico pelo tempo prescrito: quando o médico prescreve antibiótico para otite bacteriana, jamais suspenda o remédio antes do prazo simplesmente porque a febre baixou ou a dor cedeu. Interromper o ciclo favorece a seleção de bactérias resistentes que podem migrar para a mastoide. Conforme discutido em nossa orientação sobre quando a otite precisa de antibiótico, o uso correto e guiado é essencial;
  • Não pingue remédios caseiros ou gotas sem orientação: o uso de substâncias caseiras no conduto auditivo pode macerar a pele e atrasar a ida ao médico;
  • Mantenha as vacinas infantis em dia: a vacinação contra o pneumococo (vacina pneumocócica conjugada) e contra o vírus influenza reduziu drasticamente as taxas globais de complicações da otite média na infância.

Vídeo: mastoidite explicada pela Dra. Larissa Vilela

No vídeo abaixo, a Dra. Larissa Vilela detalha a anatomia da mastoide, mostra como reconhecer os sinais de alarme no exame físico e explica exatamente por que tantos laudos de tomografia geram confusão desnecessária:

Perguntas frequentes sobre mastoidite

Toda otomastoidite descrita no laudo da tomografia é grave?

Não. Na grande maioria das vezes em que o laudo de uma tomografia acusa “otomastoidite” ou “velamento das células da mastoide”, o paciente tem apenas líquido inflamatório acumulado nas cavidades aéreas devido a uma otite média comum ou a um resfriado. Se não houver dor forte ao apertar o osso atrás da orelha, vermelhidão, inchaço local e orelha empurrada para a frente, não se trata de mastoidite aguda verdadeira e não há necessidade de pânico nem de internação hospitalar.

Mastoidite aguda sempre precisa de internação hospitalar?

Sim. Quando a mastoidite aguda é confirmada clinicamente pelo exame físico do otorrinolaringologista, a internação hospitalar é indispensável. A infecção óssea nessa região não responde de forma segura a antibióticos orais e exige medicação endovenosa de alta penetração tecidual sob monitorização contínua para evitar que o pus atinja o cérebro ou os vasos da cabeça.

Quem teve mastoidite fica com sequela na audição?

Na imensa maioria dos casos diagnosticados precocemente e tratados no hospital, a infecção regride sem qualquer dano definitivo à audição. Uma diminuição temporária da audição (sensação de ouvido abafado) é esperada durante a fase aguda pelo acúmulo de líquido e secreção na orelha média. Sequela auditiva permanente ocorre apenas em complicações raras com disseminação direta da bactéria para o labirinto (labirintite supurativa) ou lesão ossicular destrutiva em quadros muito tardios.

Avaliação com médico otorrino em Brasília

Se você ou seu filho apresenta dor de ouvido que não melhora, inchaço ou sensibilidade atrás da orelha, ou se você fez uma tomografia e está inseguro sobre o termo otomastoidite no resultado do exame, agende uma avaliação presencial com a equipe de otorrinolaringologistas da Clínica OtoCare em Brasília.

Telefone e WhatsApp: (61) 99957-8479

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Fontes e referências científicas

  1. MASTERSON, L. et al. The Prevalence of Incidental Mastoid Opacification and the Need for Intervention: A Meta-Analysis. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 165, n. 4, p. 509-516, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33881186/.
  2. WANNA, G. B. et al. Incidental mastoid effusion diagnosed on imaging: Are we doing right by our patients? The Laryngoscope, v. 129, n. 3, p. 734-738, 2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29923204/.
  3. NATIONAL HEALTH SERVICE (NHS). Mastoiditis: symptoms, causes and treatment. NHS Health A to Z, 2024. Disponível em: https://www.nhs.uk/conditions/mastoiditis/.